
      O BAILE DOS DEUSES

Nora Roberts


      (2 Livro da Trilogia do Crculo)


      Disponibilizao: Mariana Ferri
      Traduo: YGMR
Reviso: Vanessa Straioto
Reviso Final e Formatao: Eve Dallas
Projeto Revisoras Tradues

      Os personagens, eventos e episdios apresentados nesta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou desaparecidas  mera coincidncia.


      SINOPSE

      O Crculo dos Seis se prepara para a batalha final contra o exrcito escuro da vampira Lilith. Na Irlanda, um crculo de pedra serve como um portal e deve
lev-los para um lugar e tempo antigos.
       no Geall que todos encontraram seus destinos: O Feiticeiro, A Bruxa, O Erudito, Aquele Shifter e Aquele que Foi Perdido. E quando sua coragem  testada,
seus coraes estaro unidos como nunca antes...


      Voc  o futuro.
      O que ns aprendemos a fazer, ns aprendemos fazendo.
      Aristteles
      Ns poucos, ns felizardos poucos, ns bando de irmos.
      Shakespeare


       Prlogo

       Quando o sol descendeu quase de tudo no cu, irradiando os ltimos vestgios de seu fogo, os meninos se apinharam para escutar a seguinte parte da histria.
Para o ancio, seus rostos ansiosos e esperanosos e seus olhos to abertos iluminavam a habitao. A histria que tinha comeado a lhes contar uma tarde de chuva
continuaria agora, enquanto a escurido comeava a hospedar-se ao seu redor.
       O fogo crepitava na lareira, o nico som que se ouvia enquanto ele bebia seu vinho e procurava as palavras adequadas em sua mente.
       -Agora j conhecem a origem do Hoyt, o Feiticeiro, e da Bruxa que chegou de alm de seu tempo. Sabem como nasceu o vampiro, e como a Erudita e o Shifter1
chegaram do mundo do Geall, atravs do Baile dos Deuses,  terra da Irlanda. Sabem como se perderam um irmo e um amigo, e como a Guerreira se uniu a eles.
       -Uniram-se -disse um dos meninos com os olhos muito abertos - para lutar, para salvar todos os mundos.
       - verdade e isto  o que ocorreu. Essas seis pessoas, esse crculo de valor e esperana, atravs de sua mensageira Morrigan, recebeu o encargo dos deuses
de combater contra o exrcito de vampiros dirigido por Lilith, sua ambiciosa Rainha.
       -Eles lutaram e derrotaram aos vampiros -disse um dos menores, e o ancio soube que o menino via a si mesmo como um desses seis valentes, empunhando a espada
e a estaca para destruir o mal.
       -Isso tambm  verdade, e isto  o que aconteceu.  noite em que o Feiticeiro e a Bruxa celebravam seu compromisso, quando se prometeram mutuamente o amor
que tinham descoberto nesses tempos terrveis, o crculo de seis derrotou aos demnios. Seu valor no pode ser questionado. Mas se tratou s de uma batalha, no primeiro
ms dos trs que lhes tinham sido concedidos para salvar os mundos.
       -Quantos mundos h?
       -No podem ser contados -respondeu o ancio. - Do mesmo modo que no podem contar s estrelas que h no cu, mas todos estavam ameaados. Porque se eles fossem
derrotados, esses mundos mudariam como um homem ao que convertessem em um demnio.
       -Mas o que passou depois?
       O ancio sorriu enquanto o fogo que ardia na lareira projetava sombras sobre seu rosto curtido pelos anos.
       -Bem, contarei-lhes isso. Depois da noite da batalha chegou o amanhecer. Uma aurora aprazvel e nebulosa, a calma depois da tempestade. A chuva tinha lavado
o sangue, tanto de humanos como de demnios, mas ali onde tinham atuado as espadas flamejantes, a terra estava queimada. E mesmo assim, as pombas arrulhavam e as
guas do arroio cantavam. As folhas e as flores molhadas pela chuva brilhavam com a primeira luz da manh.
       -Era por isso -lhes disse o ancio -, para preservar essas coisas simples e cotidianas pelo que eles lutavam. E assim, juntos, comearam sua viagem.



      1

       Clare
       Primeiro dia de setembro

       Larkin coxeava atravs da casa, silenciosa como uma tumba. O ar era doce, invadido pela fragrncia que se desprendia das flores, profusamente distribudas
para a celebrao do compromisso a noite anterior.
       O sangue tinha sido eliminado; as armas limpas. Tinham brindado por Hoyt e Glenna com o champanhe e tinham comido bolo. Mas atrs dos sorrisos, espreitavam
os horrores da batalha que tinham liberado contra os vampiros. Um convidado indesejado.
       Esse dia, imaginou Larkin, estaria dedicado ao descanso e a mais preparao. Tinha que fazer um esforo para no mostrar-se impaciente com o treinamento,
com o planejamento. Ao menos, a noite anterior tinha tido a oportunidade de lutar, pensou enquanto se levava uma mo  coxa, ferido por uma flecha. Tinham conseguido
abater a um grande nmero desses demnios, o qual era fantstico.
       Quando chegou  cozinha abriu a geladeira e tirou uma garrafa da Coca-cola. Tinha desenvolvido uma especial predileo por essa bebida e tinha substitudo
com ela seu habitual ch das manhs.
       Fez girar a garrafa, maravilhado ante o engenho demonstrado na fabricao desse recipiente, to suave, to transparente e duro. E o lquido que continha em
seu interior... Isso era algo que jogaria muito de menos quando retornassem ao Geall.
       Agora reconhecia que no tinha acreditado uma s palavra de sua prima Moira quando esta lhe tinha falado de deuses e demnios, de uma guerra liberada entre
mundos. Aquele dia, durante o triste enterro da me da Moira, ele s a tinha acompanhado para cuidar dela. Moira no era somente de seu sangue, a no ser uma amiga,
e logo seria a Rainha do Geall.
       Mas cada palavra que lhe havia dito a poucos passos da sepultura de sua me, tinha sido a pura verdade. Ambos tinham ido at o Baile dos Deuses e se colocaram
no centro do crculo. E ento tudo tinha mudado.
       No s o momento e o lugar onde se encontravam, recordou enquanto abria a garrafa e bebia esse primeiro gole tonificante, a no ser tudo. Em um instante estavam
os dois sob o sol da tarde, no Geall, e de repente apareceram a luz e o vento, e um som estrondoso.
       Em seguida tinha cado a noite e estavam na Irlanda... Um lugar que ele sempre tinha pensado que s existia nos contos de fadas.
       Larkin nunca tinha acreditado em contos de fadas, nem em monstros e, apesar do dom que possua, sempre tinha olhado a magia com desconfiana.
       Entretanto esta existia, agora o reconhecia. Do mesmo modo que existia a Irlanda e os monstros. Esses demnios os tinham atacado, irrompendo das sombras do
bosque, com seus olhos vermelhos e suas presas afiadas. Com forma humana, pensou, mas no eram humanos.
        Vampiros.
       Os vampiros existiam para alimentar-se dos humanos. E agora se reuniram todos ao redor de sua Rainha para destruir o mundo.
       O estava a para fre-los a qualquer preo. Ele estava a enviado pelos deuses para salvar os mundos dos homens.
       Arranhou-se ociosamente a coxa ferida e decidiu que dificilmente podia esperar-se que salvasse  humanidade com o estmago vazio.
       Cortou uma parte de bolo para acompanhar a Coca-cola e lambeu o acar dos dedos. At o momento, e com distintos estratagemas, tinha conseguido evitar as
lies de cozinha da Glenna. Gostava de comer, disso no cabia dvida, mas preparar a comida era um assunto completamente distinto.
       Larkin era um homem alto e magro, com uma farta juba de cabelo amarelo tostado. Seus olhos, quase da mesma cor do cabelo, eram grandes como os de sua prima,
e quase to penetrantes. Tinha uma boca larga, que sorria com facilidade, mos geis e um carter aprazvel.
       Aqueles que o conheciam o tinham por um homem generoso com seu tempo e seu dinheiro, e um bom elemento para t-lo  costas no pub ou em uma briga.
       Tinha sido bento com uma aparncia bem cinzelada e atrativa, umas costas largas e uma mo forte. E com o poder de trocar sua forma humana pela de qualquer
ser vivo.
       Deu uma generosa dentada  parte de bolo, mas na casa havia muito silncio e tranqilidade para seu gosto. Ele queria, necessitava, atividade, som, movimento.
Posto que no podia dormir, decidiu que tiraria o cavalo de Cian a dar um passeio matutino.
       Sendo um vampiro, Cian dificilmente podia faz-lo.
       Saiu da grande casa de pedra pela porta traseira. O ar era frio, mas levava postos o pulver e os jeans que Glenna lhe tinha comprado no povo. E calava suas
prprias botas. Do pescoo lhe pendurava a cruz de prata que Glenna e Hoyt tinham forjado com sua magia.
       Viu as zonas onde a terra estava queimada, onde se via pisoteada. Os rastros de seus prprios cascos que tinham ficado impressos na terra empapada quando
tinha galopado atravs do campo de batalha com a forma de um cavalo.
       E nesse momento viu tambm  mulher que tinha levado em seu lombo a noite anterior, semeando a destruio com uma espada flamejante.
       Ela se movia entre a nvoa, lentamente e com graa, no que ele teria tomado por uma dana, de no ter sabido que esses movimentos, o completo controle que
exercia sobre eles, eram em realidade uma forma de treinamento de combate.
       Seus largos braos e pernas fendiam o ar com tanta suavidade que logo que perturbavam a neblina. Larkin podia ver o tremor de seus msculos quando adotava
uma postura e a mantinha durante um tempo quase infinito, j que seus braos estavam nus, embelezada como ia com uma cmoda camisa branca que nenhuma mulher do Geall
teria levado fora de seu dormitrio.
       Ela levantou uma perna no ar, para trs e dobrada pelo joelho, e com uma mo se agarrou o p descalo. A camisa se elevou sobre seu torso revelando mais pele.
       Larkin decidiu que seria um homem arrependido aquele que no desfrutasse de semelhante espetculo.
       A moa levava o cabelo curto, tinha-o negro e brilhante; e os olhos mais azuis que os lagos de Fonn. Em seu mundo no a tivessem considerado uma beleza, j 
que carecia de arredondamento, e de acentuadas e suaves curvas, mas ele encontrava muito atrativa a fora de suas formas, interessantes e nicos os marcados ngulos 
de seu rosto e o arco bem desenhado de suas sobrancelhas. 
       Ela baixou a perna, estendeu-a para um lado e logo parou com os braos paralelos ao cho. 
       -Sempre toma tanto acar pela manh? 
       Sua voz o sobressaltou. Ele tinha permanecido imvel e em silencio, e acreditava que ela no tinha reparado em sua presena. Devia ter imaginado que no era 
assim. Mordeu uma parte do bolo que tinha esquecido que tinha na mo. 
       -Est muito bom. 
       -Aposto que sim. -Blair baixou os braos e se ergueu. - Levantaste-te mais cedo do habitual, verdade? 
       -No podia dormir. 
       -Sei ao que te refere. Foi uma briga condenadamente boa.
       -Boa? -Larkin jogou outra olhada  terra queimada e pensou nos gritos, o sangue, a morte-. - No foi precisamente uma noite no pub. 
       -Entretanto, foi entretida. -Blair tambm olhou a seu redor como o tinha feito ele, mas com uma expresso dura nos olhos. - Chutamos o rabo a alguns vampiros, 
que melhor maneira pode ter que passar a noite? 
       -Me ocorrem umas quantas. 
       -Tudo foi muito rpido. -Eliminou de seus ombros qualquer vestgio de tenso enquanto olhava para a casa. - E no esteve nada mal isso de passar de uma cerimnia 
de compromisso a uma briga e volta ao ponto de partida... Como ganhadores. Especialmente se tivermos em conta a alternativa. 
       -Suponho que tem razo. 
       -Espero que Glenna e Hoyt estejam desfrutando da lua de mel porque, em geral, como reunio social foi uma merda. 
       Com esse andar comprido, quase lquido, que ele tinha chegado a admirar, Blair se afastou por volta da mesa que usavam durante o treinamento diurno para deixar 
as armas e as provises. Agarrou a garrafa de gua que tinha deixado ali e bebeu avidamente. 
       -Tem uma marca de realeza. 
       -Como diz? 
       Larkin se aproximou e lhe tocou brandamente o omoplata com a ponta do dedo. Tinha a marca de uma cruz como a que ele tinha pendurada do pescoo, mas de cor 
vermelha sangue. 
       - s uma tatuagem. 
       -No Geall s o rei pode levar uma marca no corpo. Quando se coroa ao novo rei ou Rainha, quando tiram a espada da pedra, a marca aparece. Aqui. -aplaudiu-se 
o bceps direito. - No o smbolo da cruz, a no ser o claddaugh2, colocado ali, dizem, pelo dedo dos deuses. 
       -Legal. Excelente -esclareceu Blair quando o viu franzir o cenho. 
       -Eu nunca o vi pessoalmente. 
       Ela elevou a cabea. 
       -E ver  acreditar? 
       Larkin se encolheu de ombros. 
       -Minha tia, a me da Moira, tinha uma dessas marcas. Mas a coroaram Rainha antes que eu nascesse, de modo que no vi quando lhe apareceu. 
       -Nunca tinha ouvido essa parte da lenda. -Blair passou um dedo pelo recobrimento de acar do bolo dele, e logo o chupou. - Suponho que no se podem saber 
todas as coisas. 
       -Como conseguiu a tua? 
       "Um cara divertido -pensou Blair. - Uma natureza curiosa. Olhos maravilhosos. Perigo, Will Robinson3", disse-se. Essa classe de combinao s podia supor 
problemas. E ela no estava feita para as complicaes... Era algo que tinha aprendido da maneira difcil.
       -Paguei para que me fizessem isso. Muita gente leva tatuagens. Se poderia dizer que  uma espcie de afirmao pessoal. Glenna tambm tem um. -Bebeu outro 
gole de gua, lhe observando enquanto se aplaudia a regio lombar. - Aqui. Um pentagrama. Vi-o quando Moira e eu a estvamos ajudando a vestir-se para a cerimnia 
de compromisso. 
       -Ou seja que essas marcas so para as mulheres. 
       -No somente para as mulheres. Por que, quer uma? 
       -Acredito que no. 
       Larkin se esfregou a perna com ar ausente. 
       Blair recordou o momento em que lhe tinha extrado a flecha da coxa e que Larkin no tinha emitido nem um gemido. Alm dos olhos maravilhosos e sua natureza 
curiosa, aquele cara tinha um par de bolas. No se arredava na luta e no se queixava depois da batalha. 
       -Est-te dando problemas a perna? 
       -Tenho-a um tanto rgida e me di um pouco. Glenna  uma boa curadora. E a tua? 
       Blair dobrou a perna para trs at toc-la ndega com o calcanhar e logo a lanou para frente a modo de prova. 
       -Est bem. Minhas feridas cicatrizam depressa... Faz parte da herana familiar. No tanto como um vampiro -acrescentou -, mas os caadores de vampiros se 
curam mais rpido que o humano normal. 
       Agarrou a jaqueta que tinha deixado em cima da mesa e a ps para proteger do frio da manh. 
       -Gosta de um caf. 
       -Eu no gosto do caf. Prefiro a Coca-cola. -Logo esboou um sorriso natural, encantado. - Vais preparar o caf da manh? 
       -Dentro de um momento. Primeiro tenho que fazer algumas coisas.  
       -Talvez no te importe preparar suficiente para dois. 
       -Talvez. -Um cara preparado, alm disso, pensou. Sua forma sagaz de conseguir as coisas merecia respeito. - Tem algo que fazer agora? 
       Ao Larkin levou um momento responder. Todos os dias tratava de passar algum tempo diante dessa mquina maravilhosa chamada televisor. Sentia-se orgulhoso 
ao pensar que estava aprendendo novos idiomas. 
       -Tinha previsto sair a dar um passeio no cavalo de Cian, e logo lhe dar de comer e asse-lo. 
       -Ainda h muita luz, mas no deveria entrar no bosque sem levar armas. 
       -Cavalgarei pelos campos. Glenna me pediu que no fosse a cavalo s ao bosque, e no quero que se preocupe. Quer vir comigo? 
       -Acredito que j tive suficiente com o de ontem  noite, mas obrigada. -Blair, divertida, deu - lhe um ligeiro golpe no peito. -  muito veloz, vaqueiro.
       -Bom,  que voc  uma amazona ligeira e firme. -Jogou outra olhada  terra pisoteada. - Tem razo, foi uma boa briga. 
       -Condenadamente certo. Mas a prxima no ser to fcil. 
       Larkin arqueou as sobrancelhas. 
       -E a de ontem  noite foi fcil? 
       -Comparada com a que nos espera, pode apostar o rabo. 
       -Bom, ento, que os deuses nos ajudem. E se no te importa preparar uns ovos com bacon, isso estaria muito bem. Poderamos nos fartar de comer enquanto ainda 
conservemos nossos estmagos. 
       Um pensamento alegre, pensou Blair enquanto entrava na casa. Um pensamento realmente reconfortante. Ela nunca tinha conhecido a ningum que se mostrasse to 
espontneo e natural ante a vida e a morte. No resignado -a ela sim a tinham criado para resignar-se -, a no ser uma espcie de confiana em que ele viveria como 
tinha escolhido viver at que deixasse de faz-lo. 
       Blair admirava esse ponto de vista. 
       Tinham-lhe ensinado que o monstro que se ocultava debaixo da cama era real, e que s estava esperando a que te relaxasse para te cortar o pescoo. 
       Tinham-na treinado para atrasar esse momento tanto tempo como fosse capaz de resistir e lutar, de cortar e queimar, e de fazer todo o humanamente possvel. 
Porque debaixo da fora, o engenho e o interminvel treinamento, estavam a certeza de que algum dia, algum dia, ela no seria o bastante rpida, o bastante preparada, 
o bastante afortunada. 
       E o monstro ganharia. 
       Mesmo assim, sempre tinha havido uma sorte de equilbrio nisso: demnio e caador, cada um mutuamente a presa do outro. Mas agora as apostas tinham subido 
condenadamente alto, pensou enquanto preparava caf. Agora j no se tratava s do dever e a tradio que tinham ido passando de gerao em gerao at chegar a 
seu sangue, durante quase todo um ferrado milnio. 
       Agora se tratava de uma guerra para salvar  humanidade. 
       E ela estava ali, com aquela estranha e pequena banda -dois dos membros, o vampiro e o Feiticeiro, tinham resultado ser seus antepassados - para liberar a 
me de todas as batalhas. 
       Faltavam dois meses, pensou, para a celebrao do Halloween. 
       Para o Samhain e a confrontao decisiva que tinha profetizado a deusa. Tinham que estar preparados, decidiu enquanto se servia a primeira taa de caf, porque 
a alternativa, simplesmente, no era uma opo. 
       Levou o caf a sua habitao, no piso superior. 
       Ali, em seu quarto, percebia-se o mesmo aroma de batalha que impregnava o apartamento de Chicago onde tinha fixado sua base durante o ltimo ano e meio. 
       A cama dessa outra habitao onde agora estava, tinha uma cabeceira alta, flanqueada por drages esculpidos. Uma mulher podia sentir-se como uma princesa 
encantada nesse leito... Tinha-se uma natureza fantasiosa. 
       Embora essa casa pertencia a um vampiro, na habitao havia um grande espelho emoldurado em mogno. Por sua parte, o armrio podia conter trs vezes a quantidade 
de roupa que Blair havia trazido consigo, de modo que o utilizava para guardar as armas auxiliares, enquanto a cmoda lhe servia para colocar a roupa de viagem.
       As paredes estavam pintadas de cor ameixa escuro e delas penduravam quadros com cenas campestres  hora do crepsculo ou o amanhecer, de modo que, se as cortinas 
estavam corridas, a habitao parecia estar em permanente penumbra. Mas no lhe importava. Ela tinha passado grande parte de sua vida entre sombras.
       Entretanto, agora abriu as cortinas para que entrasse a luz da manh e logo se sentou a magnfica e pequena escrivaninha para comprovar seus e-mails no notebook.
       No pde evitar uma pequena chama de esperana, nem impedir que esta se extinguisse imediatamente ao comprovar que ainda no havia nenhuma mensagem de resposta 
de seu pai.
       "Nada novo", recordou-se a si mesma, e se reclinou na cadeira. O ltimo que tinha sabido dele era que estava viajando por alguma parte da Amrica do Sul. 
E sabia por que seu irmo o tinha dito.
       J tinham transcorrido seis meses desde que tinham estado em contato por ltima vez, o que tampouco era nada novo. Na opinio de seu pai, sua obrigao para 
ela estava cumprida desde fazia muitos anos. E possivelmente tivesse razo. Tinha-lhe ensinado, tinha-a treinado, embora ela jamais tenha sido o bastante boa para 
merecer sua aprovao. 
       Blair simplesmente era a pessoa equivocada: sua filha e no seu filho. A decepo que seu pai sentiu quando viu que tinha sido ela a que tinha herdado o dom, 
era algo que ele jamais se preocupou com ocultar.
       O cuidado e a delicadeza nunca tinham formado parte do estilo de Sean Murphy. Desentendeu-se claramente dela quando Blair cumpriu os dezoito anos.
       Agora se sentia envergonhada de lhe enviar uma segunda mensagem quando seu pai nunca tinha respondido ao primeiro. Blair lhe tinha mandado aquele primeiro 
e-mail, antes de viajar a Irlanda, para lhe dizer que estava ocorrendo algo, que algo se estava cozendo em alguma parte e que queria seu conselho.
       Depois de ter chegado a Irlanda e ver que o assunto era gordo, voltava a tent-lo de novo.
       Ele tinha sua prpria vida,  obvio, e nunca o tinha oculto. Era problema dela, sua prpria carncia, que ainda procurasse sua aprovao. Fazia muito tempo 
que tinha renunciado a ganhar seu amor.
       Desligou o notebook, colocou uma malha e se calou, e logo decidiu ir ao andar de cima a tirar frustrao e abrir o apetite com uma boa sesso de levantamento 
de pesos.
       Naquela casa, conforme lhe tinham explicado, tinham nascido Cian e Hoyt. No comeo do sculo XII. Naturalmente, tinha sido modernizada, lhe tinham acrescentado 
algumas partes, mas vendo a estrutura original, podia-se ver que os MAC Cionaoiths tinham sido uma famlia de posio folgada.
       Cian, por sua parte, tinha tido quase um milnio para fazer sua prpria fortuna e voltar a comprar a casa de seus antepassados. Embora, por isso tinha podido 
deduzir, no vivia nela.
       Blair no tinha costume de conversar com os vampiros... Simplesmente os matava. Mas com Cian estava fazendo uma exceo. Por razes que para ela no estavam 
do todo claras, ele estava lutando contra os vampiros, inclusive financiando em certa medida sua pequena partida de guerreiros.
       Alm disso, tinha-o visto lutar a noite anterior com uma ferocidade desumana. Sua aliana podia ser o elemento que decantasse a balana em seu favor.
       Um momento depois, subiu a escada de pedra para o que uma vez tinha sido o grande salo e, em anos posteriores, um salo de baile. E que agora se converteram 
em seu salo de treinamento.
       Deteve-se em seco quando viu que Moira, a prima do Larkin, estava realizando extenses peitorais com pesos de dois quilogramas.
       A princesa do Geall levava seu cabelo castanho recolhido em uma grossa trana que lhe chegava  cintura. Gotas de suor caam por suas tmporas e outras empapavam 
as costas da camiseta branca que levava posta. Seus olhos, cor cinza nvoa, olhavam fixamente  frente, concentrados, sups Blair, no que fosse que o ajudasse a 
realizar a srie de exerccios.
       Moira, segundo os clculos de Blair depois de hav-la arrastado para fora de um lago, media ao redor de um metro e sessenta e pesava possivelmente cinqenta 
quilogramas. Mas era uma garota valente. Uma garota valente que tinha ganhado uns quantos pontos na escala de Blair.
       O que esta inicialmente tinha julgado como acanhamento, era, em realidade, uma atitude concentrada. Aquela mulher o absorvia tudo.
       -Pensei que ainda estaria na cama -disse Blair quando entrou no salo.
       Moira baixou a barra dos pesos e se enxugou o suor da frente com o antebrao.
       -Acabei de levantar. Quer usar o salo para treinar?
       -Sim, mas aqui h espao suficiente para as duas. -Blair escolheu uma barra com pesos de cinco quilogramas. - Esta manh no te enterrou entre os livros.
       -Eu... -Com um suspiro, Moira estendeu os braos como lhe tinham ensinado. Talvez desejasse os ter to fortes e torneados como os de Blair, mas ningum podia 
dizer j que os seus fossem brandos.
       -Comeo o dia aqui, antes de ir  biblioteca. Habitualmente, antes que outros se levantem.
       -Estupendo. -Blair estudou a Moira com curiosidade enquanto trabalhava seu tricpite. - E por que o mantm em segredo?
       -No  um segredo. No exatamente. -Moira agarrou uma garrafa de gua e lhe tirou o plugue. - Sou a mais fraca de todos ns. No necessito que voc ou Cian 
me digam isso... Embora qualquer de vocs dois se encarreguem de me recordar isso com certa regularidade.
       Algo deu um pequeno tombo no estmago de Blair.
       -O qual no  nada agradvel. E te direi que sinto muito, porque sei bem o que se sente quando, em que pese a que est dando o melhor de ti, amassam-lhe.
       -Mas o melhor de mim no quer dizer bom, verdade? No, no estou procurando compaixo -disse Moira antes que Blair pudesse lhe responder. -  duro que lhe 
digam que tem debilidades, mas isso  o que eu tenho... Por agora. De modo que venho aqui todas as manhs cedo e levanto estas malditas coisas como voc me ensinou. 
Deixarei de ser a fraca do grupo, aquela pela que o resto deve preocupar-se.
       -Ainda no desenvolveste muita musculatura, mas ganhaste velocidade. E  um fodido gnio com o arco. Se no fosse to boa com ele, ontem  noite as coisas 
tinham acontecido de outra maneira. 
       -Trabalhar em meus pontos dbeis, e em minha resistncia, a meu ritmo. Isso foi o que me disse que devia fazer... E me zanguei.
       At que fui capaz de ver a sabedoria de suas palavras. J no estou zangada.  muito boa no treinamento. King era... Ele era mais complacente comigo, possivelmente, 
porque era um homem. Um homem muito grande, alm disso -acrescentou agora Moira com a tristeza aparecendo nos olhos. - Algum que sentia afeto por mim, acredito, 
porque eu era a menor de todos.
       Blair no tinha chegado a conhecer o King, o amigo de Cian que tinha sido capturado pelos vampiros e logo assassinado pela Lilith. Continuando, converteu-o 
em vampiro e o enviou de volta como tal.
       -Eu no serei complacente contigo -prometeu Blair.
       Para quando teve acabado a sesso com os pesos e tomado uma ducha rpida, Blair j tinha apetite. Decidiu deleitar-se com um de seus bocados favoritos e comeou 
a preparar uma fatia de po empapada em leite e ovo que logo fritaria e untaria com mel.
       Atirou umas fatias de bacon em uma frigideira para acrescentar protenas a sua dieta e selecionou Grenn Doy em seu MP3. Msica para acompanhar a comida.
       Serviu-se de sua segunda taa de caf antes de quebrar vrios ovos em um pote.
       Estava batendo-os quando Larkin entrou na cozinha. Deteve-se e olhou o MP3.
       -E isso o que ?
       - uma... -Como explic-lo?. - Uma forma de assobiar enquanto trabalha.
       -No, no estou falando da mquina. H tantas que no posso me lembrar de todas. O que  esse som?
       -OH. Hummm, msica popular? Rock... Duro.
       Agora Larkin sorria com a cabea erguida enquanto escutava.
       -Rock. Eu gosto.
       -E a quem no? Esta manh passo dos ovos fritos. Estou preparando uma torrada especial.
       -Torrada? -A decepo se apropriou do rosto dele, apagando o agradvel prazer da msica. - S po cozido?
       -No s. Alm disso, quando estou ao mando dos foges, come-se o que eu fao ou prepare voc mesmo sua forragem.
       - muito amvel ao cozinhar,  obvio.
       Seu tom era to suficiente, que Blair teve que tragar a risada.
       -Te relaxe e confia em mim, vi-te comer com vontade, vaqueiro. Isto te vai gostar tanto como o rock, especialmente depois de que o unte com manteiga e mel. 
Terei-o preparado em um minuto. Por que no lhes d a volta a essas fatias de bacon?
       -Primeiro devo me lavar. Estive trabalhando no estbulo e ainda no estou preparado para tocar nada.
       Blair elevou uma sobrancelha quando Larkin se foi. J lhe tinha visto evitar toda classe de tarefas na cozinha e, tinha que reconhec-lo, era muito engenhoso.
       Com um gesto de resignao, deu volta s fatias de bacon e logo ps a esquentar uma segunda frigideira. Estava a ponto de colocar nela a primeira fatia de 
po quando ouviu vozes. Deu-se conta de que os recm casados se levantaram, e se disps a preparar torradas tambm para eles.
       Estilosa, sem esforo, assim era Glenna, pensou Blair. Aquela entrou na cozinha vestida com um pulver cor verde salvia e algum nos cubra negros, com sua 
impressionante cabeleira ruiva lisa solta. Estilo urbano com um toque campestre, sups Blair. Se a isso se acrescentava o bonito rubor de uma mulher que, obviamente, 
tinha tido sua queda matutino, o resultado era impressionante.
       Naqueles momentos, Glenna no parecia uma mulher capaz de arremeter contra um peloto de vampiros enquanto lanava gritos de guerra e brandia uma tocha de 
combate, mas isso era exatamente o que tinha feito a noite anterior.
       -Hummm, torrada empanada? Deve me haver lido o pensamento. -Enquanto se aproximava da cafeteira, Glenna tocou levemente ao Blair no brao. - Dou-te uma mo?
       -No, j est. Voc j tem feito muito at agora, e eu me dirijo melhor com o caf da manh que com o jantar. No ouvi tambm ao Hoyt?
       -Justo detrs de mim. Est falando com o Larkin sobre o cavalo. Acredito que Hoyt se sente um pouco molesto por no haver-se feito cargo do Vlad antes que 
Larkin. O caf est muito bom. Que tal dormiste?
       -Como se me tivesse ficado inconsciente durante um par de horas. -Blair empapou a fatia de po na mescla de ovo e leite, e a seguir a colocou na frigideira. 
- Logo, no sei, estava muito intranqila. Inquieta. -Olhou a Glenna. - E no tinha onde pr o excesso de energia, a diferena da noiva.
       -Devo reconhecer que esta manh me sinto bastante frouxa e relaxada. Exceto por uma coisa. -Encolhendo-se um pouco, Glenna se massageou o bceps direito. 
- Sinto os braos como se me tivesse passado toda a noite agitando um martelo gigante.
       -A tocha de combate  pesada. Fez um bom trabalho com ela.
       -Trabalho no  a palavra que me vem  mente. Mas no vou pensar nisso... Ao menos no antes de me haver satisfeito. -Glenna se voltou e abriu um armrio 
para procurar uns pratos. - Sabe quantas vezes em minha vida tomei o caf da manh assim, po frito, bacon, antes que comeasse tudo isto?
       -No.
       -Nunca. Absolutamente nunca -acrescentou com uma meio sorriso. - Vigio meu peso como se, bom, como se o destino do mundo dependesse disso.
       -Est-te treinando muito duro. -Blair deu a volta ao po na frigideira. - Necessita o combustvel, os carboidratos. Se ganhares uns quilogramas, posso te 
assegurar que sero de puro msculo.
       -Blair -Glenna olhou para a porta para assegurar-se de que Hoyt ainda no tinha entrado -, voc tem mais experincia nisto que qualquer de ns. Entre voc 
e eu, ao menos por agora, como o fizemos ontem  noite?
       -Conseguimos sobreviver -respondeu Blair categrica, e seguiu cozinhando, colocando o po j frito em um prato e encharcando mais fatiadas. - Essa  a concluso.
       -Mas...
       -Glenna, direi-lhe isso sem rodeios. -Blair se voltou, apoiando-se na bancada durante um momento, enquanto o po fritava na frigideira e perfumava o ar. - 
Nunca antes tinha estado metida em algo assim.
       -Mas estiveste fazendo isto, caando vampiros, durante anos.
       -Isso  verdade. Mas nunca tinha visto tantos deles em um lugar ao mesmo tempo; nunca os tinha visto to organizados.
       Glenna deixou escapar o ar.
       -Essa no pode ser uma boa notcia.
       -Boa ou m,  um fato. No  prprio da natureza da besta, nunca o foi segundo minha experincia, viver, trabalhar e lutar formando parte de grandes grupos. 
Pus-me em contato com minha tia e ela me confirmou isso. Os vampiros so assassinos e podem trabalhar caar e inclusive viver em bandos. Bandos pequenos, e pode 
haver um alfa, masculino ou feminino. Mas nunca algo como o que vimos ontem.
       -No como um exrcito -murmurou Glenna.
       -No. E os de ontem  noite no eram mais que um peloto... Uma pequena poro de um exrcito. A questo  que esto dispostos a morrer por ela, pela Lilith. 
E essa  uma razo muito poderosa.
       -Est bem. De acordo -comentou Glenna enquanto preparava a mesa. -  o que mereo por dizer que queria as coisas claras.
       -Huh, te anime. Conseguimos sobreviver, recorda? Isso  uma vitria em toda regra.
       -Bom dia -disse Hoyt a Blair ao entrar na cozinha.
       Logo seu olhar foi diretamente para Glenna.
       Ela e Hoyt, seu tio av de muitas geraes atrs, compartilhavam a cor de pele, pensou Blair. Ela, o Feiticeiro e seu irmo gmeo, o vampiro, compartilhavam 
a cor de pele, os antepassados, e agora essa misso, supunha.
       O destino era sem dvida um bode retorcido.
       -Vocs dois esto deslumbrantes -disse Blair quando Glenna elevou a cara para beijar ao Hoyt. - Virtualmente necessito meus culos de sol.
       -Servem para proteger os olhos do sol e so uma manifestao de moda sexy -disse Hoyt fazendo-a rir.
       -Por favor, sentem-se. -Desligou a msica e logo levou a fonte loja de comestveis de comida  mesa. - Tenho feito suficiente para alimentar a um exrcito, 
considerando que isso  o que somos.
       -Tem uma pinta muito bom. Obrigado.
       -S fao minha parte, a diferena de alguns de ns, que se mostram um tanto escorregadios -comentou meneando a cabea ante a chegada perfeitamente calculada 
do Larkin. -Bem a tempo.
       A expresso do Larkin era de uma vez inocente e afvel.
       -A comida j est pronta, pois? Demorei um pouco mais em voltar porque fui dizer a Moira que estavam preparando o caf da manh. E mido espetculo maravilhoso.
       -Olhe e come. -Blair lhe serviu quatro fatias de po frito empanado com ovo e leite em um prato. - E logo, voc e sua prima lhes encarregaro de esfregar 
os pratos.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      2
      
       Talvez fosse a inquietao posterior  batalha, mas Blair no podia sossegar-se. Depois de outra sesso com Glenna, as feridas de todos estavam melhores, 
de modo que podiam treinar. Deviam treinar, disse-se. 
       Possivelmente o suor e o esforo a ajudassem a dissipar essa sensao de desassossego.
       Mas teve outra idia.
       -Acredito que deveramos sair -disse.
       -Sair? -Glenna comprovou sua lista de tarefas domsticas e viu (que Deus lhes ajudasse) que esse dia tocava ao Hoyt encarregar-se da penetrada. - Estamos 
escassos de alguma coisa?
       -No sei. -Blair estudou as listas colocadas de forma destacada na porta da geladeira. - Ao parecer tem as listas controladas de provises e tarefas... Chefa 
de Intendncia.
       -Humm. Intendncia. -Glenna olhou ao Blair e lhe piscou os olhos um olho. - Eu gosto. Cr que posso conseguir uma insgnia?
       -Verei o que posso fazer a respeito. Mas quando digo que deveramos sair, estou pensando mais em uma expedio de explorao que em uma sada para procurar 
provises. Deveramos ir jogar uma olhada  base de operaes da Lilith.
       -Essa sim que  uma grande idia. -Larkin se voltou da pia, com as mos cobertas de sabo; no parecia nada contente. - Dar-Lhe uma pequena surpresa, para 
variar.
       -Atacar ao Lilith? -Moira se interrompeu em sua tarefa de carregar a lava-loua. - Hoje?
       -No hei dito que fssemos atacar lhes. Relaxe - aconselhou Blair ao Larkin. - Superam em nmero com grande diferencia, e no acredito que os habitantes da 
zona fossem capazes de entender um banho de sangue a plena luz do dia. Mas nisto, a chave  precisamente a luz do dia.
       -Temos que ir para o sul, ao Chiarrai -interveio Hoyt com voz tranqila -, aos escarpados e as cavernas, enquanto ainda brilha o sol.
       -Exato. Eles no podem sair de dia. No podem nos fazer nada enquanto rondamos pela zona e jogamos uma olhada. E seria uma bonita continuao a hav-los posto 
em fuga ontem  noite.
       -Guerra psicolgica. -Glenna assentiu. - Sim, entendo-o.
       -Isso -conveio Blair - e, alm disso, possivelmente possamos reunir alguns dados interessantes. Vamos ver o que vemos, exploramos algumas rotas de entrada 
e sada. E nos encarregamos de lhe fazer saber  Lilith que estamos ali. Ou que estivemos ali.
       -Se pudssemos atrair a alguns fora. Ou entrar o suficiente para lhes causar alguns problemas. Fogo -continuou Larkin. - Tem que haver alguma maneira de que 
possamos iniciar um fogo nas cavernas.
       -No  uma m idia. -Blair o pensou durante um momento. - A essa vadia no iria nada mal uma boa surra. Vamos preparados e armados. Mas faremos o que seja 
em silncio e com muita cautela. No queremos que algum turista ou algum da zona chame  polcia. Logo teramos que explicar por que viajamos em uma caminhonete 
cheia de armas.
       Hoyt se levantou.
       -Glenna e eu nos encarregaremos do fogo.
       -Por qu? -perguntou Blair.
       Por toda resposta, Glenna estendeu a mo. Uma bola incandescente comeou a arder em sua palma.
       -Bonito -decidiu Blair.
       -E o que passa com Cian? -perguntou Moira enquanto continuava colocando os pratos na lava-loua. - Ele no poder abandonar a casa.
       -Ento ficar aqui -concluiu Blair categoricamente. - Larkin, se j terminaste aqui, v carregar algumas armas.
       -Na torre temos algumas coisas que nos poderiam ser teis. -Glenna acariciou o brao do Hoyt com as pontas dos dedos. - Hoyt?
       -No podemos deixar a Cian aqui sem lhe dizer o que planejamos.
       -Quer despertar a um vampiro a esta hora do dia? -Blair se encolheu de ombros. - Muito bem. Voc primeiro. 
       A Cian no lhe importou ser incomodado durante seu perodo de descanso. Imaginava que uma porta fechada com chave seria, para qualquer, um claro sinal de 
que desejava privacidade. Mas esse tipo de detalhes no parecia ser nunca um impedimento para seu irmo.
       De modo que agora estava acordado, sob a tnue luz, escutando os planos para esse dia.
       -Assim, se no te entendi mal, despertaste-me para me dizer que pensam viajar ao Kerry para bisbilhotar nas cavernas da Lilith.
       -No queramos que despertasse e te encontrasse com que nos tnhamos ido.
       -Esse  meu sonho mais desejado. -Cian fez um gesto para desprezar o comentrio - Ao parecer, a boa e sangrenta briga de ontem  noite no  suficiente para 
a guerreira.
       -Acredito que ir ali  uma boa estratgia.
       -A ltima vez que fomos, as coisas no saram muito bem,verdade? - Hoyt permaneceu um momento em silncio, pensando no King e em sua perda.
       -E tampouco para ti e para mim a vez anterior a essa -acrescentou Cian. - Voc acabou quase incapaz de dar um passo e eu me ca de cabea pelo ferrado escarpado. 
No  uma de minhas lembranas mais felizes.
       -Esses tempos eram completamente diferentes, e voc sabe muito bem. Agora  de dia e, esta vez, Lilith no poder saber que vamos. Mas, como  de dia, voc 
tem que ficar em casa.
       -Se cr que me zangarei por isso, est muito equivocado. Tenho muitas coisas que fazer para me manter ocupado. Chamadas e e-mails que desatendi estas ltimas 
semanas. Ainda tenho negcios que requerem minha ateno, e aos que poderia me dedicar agora, posto que me tiraste da cama em metade do maldito dia. Permita-me acrescentar 
que ser um grande prazer para eu ter a cinco ruidosos humanos fora da casa durante algumas horas, isso lhe posso assegurar.
       Cian se levantou, foi at seu escritrio e escreveu algo em uma caderneta.
       -Posto que vo acima e abaixo, necessitaria que fosse a esta direo.  um aougueiro do Ennis que te vender sangue. Sangue de porco -acrescentou Cian com 
um leve sorriso enquanto lhe entregava o papel a seu irmo. - Chamarei para que saiba que algum passar a recolher o pedido. Pelo pagamento no h problema, tenho 
conta no aougue.
       Hoyt advertiu que, nesse tempo, a letra de seu irmo tinha trocado. Muitas coisas tinham trocado.
       -E esse aougueiro no se pergunta por que...?
       -Se o fizer,  o bastante inteligente como para no diz-lo. E no cabe dvida de que est encantado de receber uns euros extras. Essa  agora a moeda aqui.
       -Aye4, Glenna me explicou isso. Estaremos de volta antes do pr-do-sol.
       -Mais vos vale -murmurou Cian quando Hoyt se foi.
      
       Fora da casa, Blair colocou uma dzia de estacas em um saco plstico. Na caminhonete j tinham carregado espadas, tochas e foices. Toda a variedade. Resultaria 
muito interessante ter que explic-lo se algum os parava pelo caminho, mas ela no pensava explorar o ninho de um vampiro sem ir armada at os dentes.
       -Quem quer conduzir? -perguntou a Glenna.
       -Eu conheo o caminho.
       Blair decidiu tomar o controle; subiu  caminhonete e se sentou no assento de detrs da Glenna enquanto outros se uniam a ela.
       -Bem, Hoyt, estiveste alguma vez nessas cavernas? Imagino que essa classe de coisas no trocam muito em uns quantos centenas de anos.
       -Muitas vezes. Mas agora so diferentes.
       -Os dois estivemos nelas -explicou Glenna. - Mediante a magia. Hoyt e eu fizemos um encantamento antes de abandonar Nova York. Foi muito intenso.
       -Me d os detalhes.
       Blair escutou o que lhe contava Glenna enquanto uma parte de seu crebro ia marcando a rota, pontos sobressalentes, pautas de movimento...
       Em nenhuma parte tinha visto o que Glenna descrevia. Um labirinto de tneis, cmaras fechadas com grosas portas, cadveres empilhados como se fossem lixo. 
Pessoas encerradas em jaulas como gado em um curral. E os sons -Blair podia ouvi-los no fundo de sua cabea -: os soluos, os gritos, as preces.
       -Uma urbanizao de luxo para vampiros -murmurou. -Quantas entradas h?
       -No poderia diz-lo -respondeu Hoyt. - Em meus tempos, os escarpados estavam cheios de cavernas. Algumas eram pequenas, outras o bastantes grandes como para 
que um homem coubesse de p. Mas agora h mais tneis, mais largos e altos que os que eu recordo.
       -Ou seja, Lilith escavou. Teve muito tempo para converter o lugar em um lugar caseiro.
       -Se pudssemos deix-los encerrados -comeou a dizer Larkin, e Moira se voltou para ele com uma expresso de horror.
       -H gente ali dentro. Pessoas prisioneiras em jaulas, como se fossem animais. Cadveres empilhados sem nem sequer um enterro decente.
       Larkin cobriu a mo da Moira com a sua e no disse nada. Blair interveio.
       -No podemos tir-los dali. Isso  o que Larkin se cale. -"Mas terei que dizer-se", pensou Blair. - Embora alguns de ns tentssemos uma ao suicida, isso 
 exatamente o que seria. Ns morreramos e eles morreriam. O resgate  impossvel. Sinto muito.
       -Um encantamento -insistiu Moira. - Algo para cegar ou atar, s at que possamos liberar as pessoas s que capturaram.
       -J tentamos deixar cega ao Lilith uma vez. -Glenna procurou os olhos da Moira atravs do espelho retrovisor. - E fracassamos. Possivelmente pudssemos tent-lo 
com um encantamento de transporte. -Agora seu olhar se dirigiu ao Hoyt. - Cr que seria possvel transportar a seres humanos?
       -Nunca o tenho feito. Os riscos...
       -Essas pessoas morrero ali. Muitas j morreram. -Moira se incorporou em seu assento para agarrar ao Hoyt do ombro. - Que risco  maior que a morte?
       -Poderamos lhes fazer dano. Usar conjuros que poderiam machuc-los...
       -Ou salv-los. O que voc cr que escolheriam eles? O que escolheria voc?
       -Ela tem razo -conveio Blair. "Se  que podiam consegui-lo", pensou. Mas se podiam salvar embora s fosse a um dos prisioneiros, teria merecido a pena. E 
seria uma boa chute no rabo da Lilith. - H alguma possibilidade?
       -Para faz-lo,  preciso ver o que vais transladar -explicou Hoyt. - E h mais possibilidades de xito quanto mais perto est do objeto que quer transportar. 
Neste caso, seria atravs de uma parede de rocha, e portanto no veramos nada.
       -No necessariamente -o contradisse Glenna. - Pensemos nisso, discutamo-lo.
       Enquanto eles falavam -argumentavam, discutiam - Blair deixou que tudo fosse cozendo-se em um rinco de sua mente. "Bonito dia", pensou com expresso ausente. 
O sol brilhando sobre todo aquele verde. O extenso e encantador terreno ondulado onde pastavam ociosamente as vacas. Os turistas deviam estar fora,dando voltas por 
a e desfrutando do dia luminoso depois da tormenta do dia anterior. De compras no povo ou visitando boquiabertos os Penhascos do Mohr, tomando fotos e gravando 
vdeos dos dlmenes5 no The Burren.
       Ela tinha feito isso mesmo uma vez.
       -Geall se parece em algo a esta paisagem?
       -Bastante, em realidade -respondeu Larkin. -Isto  muito parecido a nosso lar exceto, bom, as estradas, os carros, a maior parte dos edifcios... Mas, aye, 
a terra  muito similar  nossa.
       -O que faz ali?
       -Fazer? A que te refere exatamente?
       -Bom, um cara tem que ganhar a vida, verdade?
       -OH. Trabalhamos a terra,  obvio. E temos cavalos, para cri-los e vend-los. Excelentes cavalos. Deixei a meu pai escasso de ajudantes. Neste momento no 
deve estar muito contente comigo.
       -Se finalmente acaba salvando o mundo, seu pai o entender.
       Deveria ter sabido que Larkin trabalhava com as mos, pensou Blair. Tinha-as fortes e duras, e seu prprio aspecto era o de um homem que passava a maior parte 
do tempo ao ar livre. Todas essas mechas desbotadas pelo sol, a cor dourada de sua pele.
       Uau, tranqilas, hormnios. Larkin era s outro membro da equipe do que ela formava parte. Era algo positivo saber todo o possvel sobre quem lutava a seu 
lado. E uma estupidez te permitir sentir desejo por algum deles.
       -De modo que  um granjeiro -continuou Blair.
       -Sim, no fundo o sou.
       -E como  que um granjeiro sabe usar a espada como voc?
       -Ah. -Larkin se voltou para olh-la mais diretamente. Por um momento, s por um instante, esqueceu o que ia dizer. Seus olhos eram to azuis e profundos.... 
-  que tambm organizamos torneios. Jogos? Eu gosto de participar deles. Eu gosto de ganhar.
       Blair tambm podia entender isso. Embora provavelmente imaginasse mais tipo Hollywood que Geall.
       -Sim, tambm eu gosto de ganhar.
       -De modo que voc gosta dos jogos?
       Nessa pergunta havia uma segunda inteno zombadora, festivamente sexy. Teria que ter estado clinicamente morta para no hav-la percebido. Clinicamente morta 
desde fazia um ms, pensou, para no sentir esse pequeno zumbido.
       -No muito, mas sempre ganho quando participo.
       Larkin passou um brao pelo respaldo do assento de Blair com um movimento natural.
       -Em alguns jogos, ambos os bandos ganham.
       -Talvez. Mas em geral, quando eu luto, no se trata de um jogo.
       -O jogo equilibra a luta, no cr? E nossos torneios, bom, ao parecer nos serviram como uma espcie de preparao para aquilo ao que teremos que nos enfrentar. 
No Geall h muitos homens, e tambm algumas mulheres, que tm muita habilidade no uso da espada e da lana. Se a guerra se livrar ali, como nos ho dito, teremos 
um bom exrcito para fazer frente a essas coisas.
       -Necessitaremo-lo.
       -E voc o que faz? -perguntou Larkin. - Glenna diz que aqui as mulheres devem trabalhar para ganhar a vida. Ou que a maioria delas o fazem. Pagam-lhe para 
caar vampiros?
       -No. -Larkin no a estava tocando, e no podia dizer que estivesse tratando de ligar com ela, mas Blair sentia como se o estivesse fazendo. - As coisas no 
funcionam desse modo. Minha famlia tem um pouco de dinheiro. Quero dizer, no  que nademos na abundncia nem nada pelo estilo, mas no passamos apuros econmicos. 
Temos pubs. Chicago, Nova York, Boston. Coisas assim.
       -Pubs? Eu gosto de um bom pub.
       -E a quem no? De todos os modos, tambm estou acostumado a trabalhar como garonete. E s vezes como treinadora pessoal.
       Larkin arqueou as sobrancelhas.
       -Treinamento? Para lutar?
       -No exatamente.  mais uma questo de sade e vaidade. Ajudar s pessoas a ficar em forma, perder peso, tonificar-se. No necessito muito dinheiro para viver, 
de modo que a coisa me funciona. E me deixa tambm certa liberdade para me largar quando o necessito.
       Blair desviou a vista dele. Moira estava olhando por seu guich como uma mulher apanhada em um sonho. No assento dianteiro, Hoyt e Glenna continuavam falando 
de magia. Blair se aproximou um pouco mais ao Larkin e disse quase em sussurros:
       -Olhe, talvez nosso casal de apaixonados possam conseguir este assunto do transporte e talvez no. Se Glenna e Hoyt no o obtm, ter que te encarregar de 
dirigir a sua prima.
       -Eu no posso fazer isso.
       -Com certeza que sim. Se existir alguma possibilidade de entrar nessas cavernas, ou de provocar um incndio, temos que aproveit-la. 
       Agora seus rostos estavam muito juntos e suas vozes eram pouco mais que sussurros.
       -E o que passa com a gente que h dentro? Queimaremo-los vivos ou os sepultaremos com outros? Moira no o aceitar. E eu tampouco.
       -Tem idia acaso das torturas que esto sofrendo agora mesmo?
       -Isso no  nossa culpa.
       -Enjaulados e torturados. -Blair manteve o olhar fixo nele, e sua voz era grave e monocrdia. - Obrigados a olhar quando um deles  puxado para fora da jaula 
para ser comido por esses monstros. Aterrados enquanto se perguntam qual deles ser o seguinte. Talvez desejando s-lo para acabar de uma vez com essa tortura.
       Agora no havia nada de diverso no rosto do Larkin; nem em seu tom de voz, quando disse:
       -Sei o que fazem.
       -Cr que sabe. Possivelmente no bebem tudo seu sangue, no a primeira vez. Pode que tampouco a segunda. Esses monstros voltam a coloc-los nas jaulas depois 
de mord-los. E a mordida queima terrivelmente. Se conseguir sobreviver a ela, queima. A carne, o sangue, o osso; um aviso da dor insuportvel sentida quando essas 
presas se cravaram em seu pescoo.
       -Como sabe?
       Blair girou o pulso para que ele pudesse ver a plida cicatriz.
       -Eu tinha dezoito anos, estava chateada por alguma coisa e me descuidei. Estava em um cemitrio em Boston, esperando a que um desses monstros se levantasse. 
Tinha ido ao colgio com esse cara. Tinha estado em seu funeral e ouvido o suficiente para saber que lhe tinham mordido. Tinha que averiguar se tambm o tinham transformado, 
de modo que fui ao cemitrio e esperei.
       -Ele fez isto?
       Larkin percorreu a cicatriz com um dedo.
       -Teve ajuda.  impossvel que um vampiro recente possa faz-lo. Mas o vampiro que o tinha convertido retornou. Mais velho, mais ardiloso, mais forte. Eu cometi 
alguns enganos, e ele no.
       -Por que estava sozinha?
       -Porque sempre saio sozinha de caa -lhe recordou ela. - Mas neste caso tinha sado para lhe demonstrar algo a algum. No tem importncia, mas isso foi o 
que fez que me descuidasse. O vampiro velho no me mordeu, mas sim me imobilizou no cho enquanto o outro se arrastava para mim.
       -Espera. Essa  a forma em que se comporta um vampiro que o converteu? Proporciona-te...
       -Comida?
       -Aye, essa seria a palavra adequada, no?
       Blair pensou que era uma boa pergunta; estava bem que Larkin queria compreender a psicologia e a patologia do inimigo.
       -s vezes. No sempre. Isso depende, diria eu, de por que o vampiro decide te transformar em um deles em lugar de limitar-se a te deixar sem uma gota de sangue. 
Pode que queiram estabelecer um vnculo, ou desejem um companheiro de caada. Ou simplesmente contar com um vampiro mais jovem que se encarregue do trabalho sujo. 
J sabe, que trabalhem para eles.
       -Entendo. De modo que o vampiro maior te reteve no cho para que o jovem pudesse alimentar-se primeiro. -"Que aterrador deve ter sido isso", pensou Larkin. 
Estar ali imobilizada, provavelmente ferida. Ter dezoito anos e estar sozinha enquanto algo que tinha o rosto de algum a quem uma vez conheceu, vinha por ti.
       -Podia cheirar a tumba em meu antigo companheiro de colgio, to afresco estava. Sentia-se muito faminto para ir morder-me no pescoo, de modo que o fez aqui. 
Isso foi um engano por parte deles, porque a dor despertou.  algo que no se pode expressar com palavras.
       Blair ficou calada durante um momento. A forma em que Larkin lhe passou os dedos pela cicatriz como se queria atenuar a dor de uma antiga ferida, fez-lhe 
perder o fio. No podia recordar a ltima vez que algum a havia tentado consol-la.
       -De algum modo, consegui agarrar a cruz que levava a pescoo e a cravei no olho desse bode, que me tinha sujeitado no cho. Deus, como gritou. O outro estava 
to ocupado tratando de comer que no lhe preocupava nada mais. Era uma presa fcil. Ambos o eram depois disso.
       -Mas voc era s uma garota.
       -No. Eu era uma caadora de vampiros, e tambm uma estpida. -Olhou ao Larkin aos olhos para que visse que o consolo e a compaixo no se agentavam ante 
o julgamento e a estratgia. - Se ele tivesse ido por meu pescoo, eu estaria morta. Sim, provavelmente estaria morta e agora no estaramos mantendo esta conversa. 
Sei o que senti quando vi essa coisa aproximar-se para mim, vestido com o traje negro que sua me tinha escolhido para que o enterrassem. Sei o que sentem as pessoas 
que esto dentro dessas cavernas, ao menos uma parte do que sentem. Se no puderem ser salvas, a morte  melhor que o que os espera.
       Larkin fechou sua mo sobre o pulso de Blair, cobrindo completamente a cicatriz, e surpreendendo-a com a suavidade de seu tato.
       -Voc amava a esse menino?
       -Sim. Bom, ao menos da maneira em que amas quando tem essa idade. -Ela quase o tinha esquecido, quase tinha esquecido quo triste se havia sentido, inclusive 
a pesar da dor. - O nico que pude fazer por ele foi elimin-lo, e o mesmo com o vampiro que o tinha matado.
       -Custou-te algo mais que isto. -Larkin lhe levantou a mo e roou a cicatriz com os lbios. - Mais que a queimadura e a dor.
       Blair se deu conta tambm de que quase tinha esquecido o que significava que algum o compreendesse.
       -Talvez sim, mas me ensinou algo muito importante. No pode salv-los a todos.
       -Essa  uma lio triste. No cr que, inclusive embora saiba que no pode faz-lo, deve tent-lo de todos os modos?
       -Isso  o que diria um aficionado. Isto no  um jogo ou uma competio. Se lhe derrotarem, est morto.
       -Bom, Cian no est aqui para nos dar sua opinio, mas voc gostaria de viver para sempre?
       Blair deixou escapar uma breve risada.
       -Demnios, no.
       Havia gente naquela solitria extenso de escarpado e mar, mas no tanta como Blair tinha esperado. As vistas eram impressionantes, embora supunha que havia 
outras, igualmente espetaculares e mais facilmente acessveis.
       Estacionaram e agarraram aquelas ferramentas e armas que podiam esconder com maior facilidade. Algum poderia descobrir sua espada na capa que levava s costas, 
debaixo do comprido casaco de couro, pensou Blair. Mas para isso teria que estar olhando.
       Embora, se isso acontecia, o que foram fazer a respeito?
       Estudou a configurao do terreno, a estrada, os outros carros que tinham estacionado no lugar. Um casal de meia idade tinha subido at algumas das rochas 
plainas da base do escarpado, onde agora se encontrava a estrada. Olhavam o mar... Absolutamente ignorantes do pesadelo que vivia debaixo.
       -Muito bem, assim,  do quebra-mar para baixo. Ter que molhar-se -concluiu Blair olhando a estreita franja de xisto e logo os dentes das rochas, onde a gua 
se formava redemoinhos e formava charcos de espuma. Olhou a seus companheiros. - Podero faz-lo?
       Larkin, por toda resposta, deslizou-se pela parede. Ela comeou a lhe gritar que esperasse, que aguardasse um maldito minuto, mas ele j estava descendo pela 
rochosa dentada que dava ao mar.
       No se converteu em um lagarto, observou Blair, mas no cabia dvida de que podia deslizar-se como um deles. Merecia-se um sobressalente em ovos e agilidade.
       -Muito bem, Moira. Tome o com calma. Se escorregar, seu primo deveria impedir sua queda.
       Quando Moira comeou o descida, Blair olhou a Glenna.
       -Nunca tenho feito isto -murmurou . - Nunca lhe tinha encontrado o fodido ponto at hoje. Bom, suponho que sempre h uma primeira vez.
       -Tudo ir bem -a tranqilizou Blair. Continuando, Blair observou o progresso da Moira e se sentiu aliviada ao comprovar que era quase to gil como seu primo. 
- A queda daqui no  m. No te matar.
       Blair no acrescentou que sim lhe romperia em troca uns quantos ossos. No fazia falta. Hoyt e Glenna iniciaram juntos a descida, e Blair os seguiu.
       Descobriu que havia alguns cabos razoavelmente bons... Sempre que no se preocupasse a manicura. Concentrou-se na tarefa que tinha por diante e ignorou as 
salpicaduras salgadas e frite enquanto continuava deslizando-se pela parede do escarpado.
       Umas mos a agarraram da cintura e a ajudaram a salvar os ltimos metros.
       -Obrigado -disse ao Larkin -, mas posso faz-lo sozinha.
       - um pouco complicado com a espada. -Larkin elevou a vista para a estrada. - Embora divertido.
       -Devemos estar alerta. Provavelmente tenham guardas para proteger as cavernas. Possivelmente alguns servos humanos... Embora deve ser difcil dispor de seres 
vivos se ali dentro houver tantos vampiros como voc diz.
       -Eu no vi nenhum humano vivo fora das jaulas -disse Glenna -, no ao menos ento, quando jogamos uma olhada.
       -Esta vez a coisa  em direto, de modo que se realmente contam com alguns humanos, ser a eles a quem enviar primeiro. Hoyt, ser melhor que voc v diante, 
j que conhece a zona.
       - diferente, tudo  to distinto de antes. -Algo do que sentia nesse momento, a emoo e a tristeza, filtrava-se em sua voz. - A natureza e o homem se encarregaram 
disso. Essa estrada que h ali acima, e o muro, e a torre com a luz.
       Elevou a vista e pde ver os escarpados, a cornija que lhe tinha salvado a vida quando lutou contra aquilo no que Cian se converteu. Uma vez, pensou, ele 
tinha estado ali acima e tinha chamado ao raio com a mesma naturalidade com que um homem chama a seu co.
       Tudo tinha trocado, no podia neg-lo. Mas, mesmo assim, no corao de todo aquilo, estava seu lugar. Abriu-se passo entre as rochas e por cima delas, atravs 
dos respingos das ondas.
       -Aqui teria que haver uma cova. E s h... -Apoiou as mos na terra e a pedra. - Isto no  real.  falso.
       -Talvez est algo confuso -disse Blair.
       -Espera. -Glenna se aproximou do Hoyt e apoiou as mos junto s dele. - Uma barreira.
       - um encantamento -conveio Hoyt - para que tenha o aspecto e o tato da terra, mas no o . Isto no  terra nem rocha.  uma iluso.
       -Pode romper o encantamento? -perguntou Larkin ao tempo que golpeava a pedra com o punho.
       -Esperem. -Com o cenho franzido, Blair se passou a mo pelo cabelo. - Ou Lilith tem suficiente magia para conseguir isto, ou ali dentro h algum que pode 
faz-lo; em realidade no sabemos do que dispe. Isto  muito engenhoso. -Blair provou a parede. - Realmente engenhoso. Ningum pode entrar a menos que ela queira. 
E ningum pode sair a menos que ela o permita.
       -Ou seja que vamos? -perguntou Larkin.
       -Eu no hei dito isso.
       -H mais aberturas, outras cavidades na rocha. Havia -se corrigiu Hoyt. - Trata-se de um encantamento muito poderoso.
       -E ningum sente curiosidade, a gente que vem aqui, os que vivem aqui, a respeito deles. -Blair assentiu. - Isso tambm  muito poderoso. Ela quer sua intimidade. 
Temo-me que teremos que decepcion-la.
       Voltou-se, com as mos apoiadas nos quadris, procurando.
       -Huh, Hoyt, podem Glenna e voc gravar uma mensagem nessa grande rocha que h ali?
       -Pode fazer-se.
       -Que mensagem? -perguntou Glenna.
       -Tenho que pens-lo; parece-me "que te dem um chute na bunda, vadia""  um pouco ordinrio.
       -Trema -murmurou Moira, e Blair assentiu a modo de aprovao.
       -Excelente. Breve, direto, e s um pouco arrogante. Encarregue-lhes disso, de acordo? Logo seguiremos com o resto.
       -O que  o resto? -quis saber Larkin, que deu uma chute de frustrao contra a parede de pedra. - Uma mensagem mais poderosa seria romper este encantamento.
       -Sim, isso  verdade, mas o que estou pensando  que Lilith no sabe que estamos aqui. E isso poderia ser uma vantagem. Nesse momento, ouviu-se algo parecido 
a uma pequena exploso de plvora e ao voltar-se viram a palavra Trema profundamente gravada na rocha. Debaixo havia um desenho, deste modo esculpido na pedra, pelo 
que supuseram que era Lilith, com uma estaca cravada no corao.
       -Huh, bom trabalho. Realmente eu gosto da ilustrao que acompanha o texto.
       -Um pouco jactancioso -Glenna se sacudiu as mos - mas pinto, e no pude resistir.
       -O que necessita para realizar o encantamento de transporte?
       Glenna soprou.
       -Tempo, espao, concentrao e um monto de ferrada sorte.
       -Aqui no. -Hoyt meneou a cabea. - Os escarpados so meus. As cavernas so dela. No importa quanto tempo tenha passado, os escarpados seguem sendo meus. 
Faremos o encantamento de acima. -voltou-se para Glenna - Primeiro temos que ver. No podemos transportar s cegas.  provvel que Lilith nos sinta e faa todo o 
possvel por nos deter.
       -Talvez no imediatamente. Desta vez no estaremos procurando-a, a no ser s pessoas a que tem prisioneiras. Possivelmente no compreenda o que estamos fazendo 
e nos d o tempo que necessitamos. Hoyt tem razo,  melhor faz-lo no topo -disse Glenna ao Blair. - Em qualquer caso, se conseguimos tirar algum deles, no quereremos 
transport-los aqui.
       -Uma boa observao. -Talvez no conseguissem muito dessa expedio, refletiu Blair, mas possivelmente no se fossem com as mos totalmente vazias. - Bem, 
o que faremos com eles se o conseguirmos?
       -P-los a salvo. -Glenna elevou as mos. - Um passo cada vez.
       -Eu posso tratar de ajud-los. No tenho muita magia -acrescentou Moira -, mas poderia tentar ajudar.
       -Qualquer ajuda  boa -respondeu Glenna.
       -Muito bem, vocs trs vo ao topo do escarpado. Larkin e eu ficaremos aqui, se por acaso... Bom, no caso de. Algo que aparea por este lado para nos causar 
problemas tem que ser humano. Encarregaremo-nos disso.
       -Isso poderia levar um pouco de tempo -lhe advertiu Glenna.
       Blair estudou o cu.
       -Ainda fica muita luz.
       Esperou a que os trs comeassem a ascenso antes de falar com o Larkin.
       -No podemos entrar. Se este encantamento mgico abrir as cavernas, no podemos entrar. Falo a srio. -Deu-lhe um leve golpe no brao. - Posso ver o que est 
pensando.
       -OH, a srio pode v-lo?
       -Entrar na carreira, tirar uma ou dois jovens em perigo, e sair apitando como um heri.
       -Equivoca-te quanto  parte do heri. Isso no  o que estou procurando. Entretanto, uma jovem em perigo  algo muito difcil de resistir para um homem.
       -Pois resiste. No conhece estas cavernas, no sabe onde oculta Lilith aos prisioneiros, e tampouco sabe quantos vampiros h ou como esto equipados. Escuta, 
no te nego que uma parte de mim gostaria de entrar a a saco se esta parede se abrir, provocar algum dano e possivelmente salvar a algum. Mas jamais conseguiramos 
sair com vida, e, por conseguinte, tampouco o conseguiria ningum mais.
       -Temos as espadas que encantaram Hoyt e Glenna. As espadas de fogo.
       Blair lutou contra sua frustrao. Era to irritante ter que explicar estratgia bsica...
       -E com elas carregaramos a uns quantos vampiros, disso no cabe dvida. Logo, eles nos agarraro e as espadas.
       -Entendo o sentido de suas palavras, mas resulta difcil ficar quieto e no fazer nada.
       -Se a equipe de magos consegue seu propsito, no ser no ter feito nada.  muito bom brigando como para que lhe percamos por tentar fazer algo que no funcionar.
       -OH, um elogio. No saem muitos elogios de seus lbios. -Larkin lhe sorriu enquanto as gotas de gua de mar brilhavam em seu cabelo. - No entrarei nas cavernas. 
Tem minha palavra. -Tendeu a mo e quando Blair a agarrou, ele a apertou levemente. - Mas nada nos impede de provocar um bom fogo no buraco se esta fodida rocha 
se abrir.  o que voc chamaria fazer uma declarao, verdade?
       -Suponho que sim. No fique arrogante, Larkin.
       -Temo-me que nasci assim. O que posso fazer, depois de tudo?
       Larkin se voltou para a parede e se apoiou em uma das rochas molhadas enquanto recebia as gotas de espuma. Parecia to depravado, pensou Blair, que poderia 
ter estado sentado no salo, junto ao fogo.
       -Bom,  provvel que disponhamos de um pouco de tempo, assim, me diga, como soube pela primeira vez que foste ser caadora de vampiros?
       -Quer que te conte a histria de minha vida? Agora?
       Larkin se encolheu de ombros.
       -Seria uma maneira de passar o tempo. E reconheo que sinto certa curiosidade. Antes de ir do Geall, no me acreditava nada de tudo isto, no fundo no. E 
agora, bom... -Olhou pensativo a parede de pedra e terra. - O que posso fazer? -repetiu.
       Blair decidiu que o que Larkin dizia tinha sentido. Moveu-se para aproximar-se dele, dobrando o corpo de modo que pudesse controlar uma curva da parede do 
escarpado enquanto ele se encarregava de vigiar a outra.
       -Tinha quatro anos.
       -Foi muito pequena -disse ele. - Muito pequena para poder compreender questes to escuras e reais. Quero dizer assuntos que no so sombras que uma menina 
imagina que so monstros.
       -As coisas so um tanto diferentes em minha famlia. Eu pensava que seria meu irmo. Estava ciumenta. Suponho que isso  bastante natural, a rivalidade entre 
irmos. -Deslizou as mos dentro dos bolsos de seu casaco de couro negro, jogando com a garrafa de plstico com gua benta que tinha guardado ali antes de abandonar 
a casa. - Ele devia ter seis anos ou seis e meio. Meu pai tinha estado trabalhando com ele. Acrobacias simples, artes marciais e armamento bsico. Naquela poca, 
em minha casa havia muita tenso. O matrimnio de meus pais estava desmoronando.
       -Como?
       -So coisas que passam. -Talvez em seu mundo o cu fora rosa e o amor durasse para sempre. - A gente se sente insatisfeita, os sentimentos trocam. Alm disso, 
minha me estava farta daquela vida, pelo que fazia que meu pai se ausentasse de casa. Ela queria uma existncia normal, e cometeu o engano de casar-se com algum 
que nunca poderia lhe dar essa classe de vida. De modo que se dedicava a lhe montar broncas a meu pai enquanto ele a ignorava e trabalhava com meu irmo.
       "O que significava -pensou Larkin -, que ningum emprestava ateno a ela. Pobre corderito."
       -Assim que eu sempre estava perseguindo a meu pai, para que me treinasse tambm, ou tratando de fazer algumas das coisas que fazia meu irmo.
       -Meu irmo pequeno tambm me seguia como uma sombra quando fomos meninos. Suponho que acontece o mesmo em todos os mundos -disse Larkin.
       -Chateava-te? Incomodava-te?
       -OH, s vezes me voltava louco. Outras vezes no me importava muito; se estava perto, resultava mais fcil lhe jogar a bronca. Em outros momentos, em troca, 
era uma boa companhia.
       - muito parecido ao que ocorria entre meu irmo e eu. Ento, um dia, estvamos na zona de treinamento; um espao da casa onde a maioria das famlias teria 
uma sala de estar. Ali tnhamos uma equipe bastante completa: pesos, um cavalo, barras assimtricas, argolas. Um espelho cobria toda uma parede.
       Ela ainda podia ver perfeitamente o reflexo de seu pai e de seu irmo, no espelho, to juntos, enquanto ela permanecia a um flanco. Sozinha.
       -Eu lhes observava no espelho; eles no sabiam que estava ali. Meu pai lhe estava jogando ao Mick, meu irmo, uma boa bronca, porque Mick no podia realizar 
um dos movimentos. Saltar para trs -murmurou -, tornar-se ao cho, rodar sobre o ombro e lanar a estaca ao branco. Mick no o conseguia e meu pai estava empenhado 
em que devia faz-lo. Finalmente, meu irmo se cansou e atirou a estaca.
       Deteve-se quase roando seus dedos, recordou. Como se tivesse estado feita para suas mos.
       -A estaca chegou rodando at mim. Eu sabia que podia faz-lo, e queria demonstrar-lhe a meu pai. S queria que ele me olhasse, de modo que o tentei. "Olhe-me, 
papai", disse-lhe, e fiz o que lhe tinha visto fazer a ele uma e outra vez tratando de que Mick entendesse a seqncia do movimento.
       Fechou os olhos um momento porque ainda podia ver-se a si mesmo; ainda era capaz de sentir aquele momento em seu interior. Como se o mundo se deteve e, durante 
aqueles breves segundos, s ela tivesse estado em movimento.
       -Fiz branco no corao. Foi sobre tudo sorte, mas a estaca se cravou no corao do boneco. Eu me sentia to feliz... Tinha-o conseguido! Ao Mick os olhos 
lhe saam das rbitas,logo... Logo esboou um leve sorriso... S um leve sorriso. Ento no soube o que significava, s pensei que estava contente de ver o que eu 
tinha feito, porque ambos nos levvamos bastante bem. Meu pai no disse nada durante uns segundos, me pareceu uma hora, e pensei que ia gritar-me.
       -Por ter feito algo bem?
       -Por me entremeter. Embora em realidade no se tratasse de que gritasse. Meu pai jamais elevava a voz; era uma questo de controle. Pensei que ia dizer-me 
que retornasse com minha me. J sabe, que fosse dali. Mas no o fez. Disse ao Mick que se fosse acima,e ficamos sozinhos ele e eu. S meu pai e eu, e finalmente 
me olhou. 
       -Devia sentir-se muito orgulhoso, muito satisfeito.
       -No, nada disso. -Blair soltou uma risada breve e carente de todo humor. - Estava decepcionado. Isso foi o que vi em seus olhos quando finalmente me olhou. 
Estava decepcionado de que fosse eu e no Mick. J no poderia desfazer-se de mim.
       -Certamente ele... -Larkin se interrompeu quando ela se voltou e o olhou fixamente. - O sinto. Lamento que sua falta de viso te fizesse mal.
       -No pode trocar o que . -Essa era outra lio que tinha aprendido da maneira difcil. - De modo que se dedicou a me treinar e Mick se dedicou ao beisebol. 
Esse tinha sido o significado de seu sorriso. Alvio, alegria. Mick jamais tinha querido o que meu pai queria para ele. Ele se parece mais a minha me. Quando ela 
partiu, quando pediu o divrcio, quero dizer, levou-se ao Mick e eu fiquei com meu pai. Consegui o que queria, mais ou menos. - Ficou tensa quando Larkin lhe passou 
um brao pelos ombros, mas quando quis afastar-se, ele a estreitou ainda mais em um abrao de consolo.
       -No conheo seu pai e tampouco a seu irmo, mas, certamente, prefiro estar aqui contigo que com algum deles. Lutas como um anjo vingador. E cheira muito 
bem.
       Larkin lhe arrancou uma gargalhada, uma gargalhada autntica, e ela se relaxou contra a rocha mida, com seu brao ainda ao redor dos ombros.
      
      
      
      3
      
      Formaram o crculo sobre os escarpados. de vez em quando se ouvia o som de um carro que passava pela estrada. Mas ningum caminhava por ali, ou fazia fotos, 
ou ficava naquele promontrio ermo.
       Talvez, pensou Hoyt, os deuses tentavam ajudar como podiam.
       -Hoje  um dia to claro. -Moira elevou a vista ao cu. -Mal h nuvens. To claro que pode ver at o Gaillimh atravs da gua.
       -Galway. -Glenna estava a seu lado, tratando de fazer proviso de foras e coragem. - Sempre quis visitar esse lugar, ver a baa. Passear pelo Shop Street.
       -E isso faremos. -Agora Hoyt lhe agarrou ambas as mos. -depois de que passe Samhain. Agora olharemos e procuraremos. Est segura do lugar aonde vamos enviar 
os se podemos transport-los?
       Glenna assentiu.
       -Mais me valer est-lo. -Agarrou a Moira da mo. - Concentre-se -lhe disse. - E pronuncia as palavras.
       Sentiu que do Hoyt surgia esse primeiro rugido de poder abrindo-se passo para o exterior. Glenna se uniu a ele na invocao, e Moira com ela.
       -Neste dia e esta hora, invocamos o sagrado poder de Morrigan, a deusa, e lhe rogamos que nos conceda sua graa e valentia. Em seu nome, Me, procuramos a 
viso, pedimos que nos guie para a luz.
       -Senhora -disse agora Hoyt. - Mostre-nos aqueles que esto retidos debaixo desta terra contra sua vontade. Ajude-nos a encontrar o que se perdeu.
       -Cega s bestas que procuram matar. -Moira se esforou por concentrar-se enquanto o ar comeava a formar redemoinhos ao redor deles. - Que nenhum inocente 
pague o preo.
       -Deusa e Me -disseram os trs ao unssono - nosso poder se une para trazer por volta do dia aquilo que est apanhado na noite. Procuraremos e veremos. Que 
assim o faamos, que assim seja.
       Escurido, sombras e ar mido, junto com a fetidez da morte e a decomposio. De repente um resplendor luminoso e vislumbres de formas entre a penumbra. Ouviu-se 
o som de um pranto, spero, humano, e os gemidos e palavras incoerentes daqueles que j no tm lgrimas que derramar.
       Os trs flutuaram atravs do labirinto de tneis e sentiram o frio, como se seus corpos caminhassem realmente por ali. E suas mentes se estremeceram ante 
o que viam seus olhos.
       Jaulas, de um metro de fundo e metro e meio de alto, empilhadas, apinhadas em uma cova banhada por uma nauseabunda luz verde. Mas suas mentes eram capazes 
de ver atravs dela o sangue que formava atoleiros no cho, os rostos dos aterrados e os dementes. Enquanto olhavam, um vampiro abriu uma das jaulas e arrastou  
mulher que havia em seu interior. O som que ela proferiu foi apenas um lamento, e seus olhos pareciam estar j mortos.
       -Lora est aborrecida -disse o monstro enquanto arrastava pelo cabelo  mulher atravs do cho imundo. - Quer algo com que jogar.
       Em uma das jaulas, um homem comeou a gritar ao tempo que esmurrava os barrotes.
       -Bastardos! Bastardos!
       A lgrima que se deslizou pela bochecha da Glenna estava fria.
       -Hoyt.
       -Tentaremo-lo. Ele, o homem que est gritando,  forte e pode nos ajudar. Olha-o. No olhe nada mais. Posto que necessitavam as palavras tanto como a viso.
       Glenna comeou a cantar. A voz da Moira se uniu a dela. E a terra tremeu.
      
       Larkin estava cantando. Algo a respeito de uma moa merena de Dar. Ao Blair no importava lhe escutar; Larkin tinha uma voz clara e agradvel. A classe de 
voz, pensou, de um homem acostumado a cantar em um pub ou enquanto caminhava pelos campos. E resultava muito relaxante ouvir essa melodia junto com o rugido constante 
do mar e a carcia clida dos raios do sol.
       Alm disso, a simples companhia era toda uma mudana para ela. Habitualmente quando esperava, o fazia sozinha.
       -Por acaso no levar contigo essa coisa pequena? Isso que tem msica dentro?
       -No. Sinto muito. Assim que possa me comprarei um par dessas Oakley Thumps, uns culos de sol, que levam o MP3 incorporado. -Imitou o gesto de ficar um par 
de culos... E lhe ocorreu que Larkin teria um aspecto estupendo com elas. - Com a coisa pequena de msica incorporada nelas.
       -Poder transportar a msica. -O rosto do Larkin se iluminou. - Que mundo milagroso  este.
       -Eu no sei nada a respeito de milagres, mas est cheio de tecnologia. Quem me dera houvesse o trazido comigo. -A msica seria mais fcil que toda aquela 
conversa. Ela estava acostumada a esperar sozinha, droga. E no a andar por a com um companheiro, trocando fofocas e contando-a vida.
       Todo isso contribua a que se sentisse ansiosa e impaciente.
       -Bom, no importa. Tambm seria agradvel ter minha pipa.
       -Pipa? - Blair voltou a cabea. No associava a idia de uma pipa com aquele rosto dourado de deus irlands. - Fuma em cachimbo?
       -Fumar? No, nada disso. -Larkin se ps-se a rir, trocando o peso do corpo enquanto ficava as mos diante da boca ao tempo que movia os dedos. - Pipa. Tocar. 
De vez em quando.
       -Ah, t. - As ris dele eram da cor do mel puro. Poderia estar muito atrativo com um par do Oakley, refletiu, mas seria uma lstima esconder aqueles olhos 
atrs de uns culos sol.
       -Voc toca algo? Musicalmente?
       -Eu? No. Nunca tive tempo de aprender. A menos que conte redobrar sobre a pele dos vampiros. -E fez a sua vez gestos como de golpear o ar com os punhos. 
Ao parecer, ambos se entendiam muito bem.
       -Bom, no cabe dvida de que sua espada canta. -Deu-lhe um golpe amistoso no ombro. - Acredito que nunca antes ouvi coisa parecida, e estou pensando que este 
seria um bom lugar para liberar uma batalha. -Fez tamborilar os dedos ritmicamente no punho da espada. - O mar, as rochas, o sol brilhante. Aye, um bom lugar.
       -Seguro, se no te importar no ter uma rota de fuga, ou perder p nas rochas escorregadias. Afogar-te.
       Larkin lhe lanou um olhar compassivo e suspirou.
       -No tem em conta o ambiente, o ar dramtico de todo o cenrio. Os vampiros podem afogar-se? -perguntou.
       -No acredito. Eles... Notaste isso?
       Blair se separou da rocha ao tempo que a terra vibrava abaixo de seus ps.
       -Sim. Possivelmente o encantamento esteja funcionando -disse Larkin, e tirou a espada ao tempo que examinava a parede do escarpado. - Talvez agora apaream 
as cavernas que h debaixo.
       -Se isso acontecer, voc no entrar. Deste sua palavra.
       -E a mantenho. -A irritao bateu as asas em seu rosto. A estava o soldado, advertiu ela, no o campons que tocava a flauta. - Mas se algum desses monstros 
aparece a cabea, embora s seja um pouco... V algo? Para mim no h nada distinto a antes.
       -No, nada. Talvez se trate do mgico trio dos acantilados.Parece que tiveram tempo suficiente para fazer algo. -Manteve a mo apoiada na estaca que levava 
sujeita ao cinturo enquanto se aproximava o mximo possvel ao lugar onde rompiam as ondas. - Daqui no posso ver nada. Pode faz-lo voc, em forma de pssaro? 
Como um falco ou algo parecido? Pode jogar uma olhada l encima?
       -Posso faz-lo,  obvio. Mas eu no gosto de te deixar sozinha aqui embaixo.
       A irritao subiu por sua coluna vertebral. E a estava ela, explicando-o de novo. 
       -Estou a plena luz, os vampiros no podem sair. Alm disso, trabalhei sozinha durante muitos anos. Consigamos um relatrio de como vai a magia. Eu no gosto 
de no saber onde estou.
       Larkin pensou que podia faz-lo rapidamente. Podia subir at o topo e retornar em questo de minutos. E do cu tambm poderia v-la, e a algo que lhe aproximasse, 
alm de ao grupo que estava no topo dos escarpados.
       Assim, deixou- sua espada ao Blair e pensou no falco. Em sua forma, em sua vista e em seu corao. A luz brilhou em seu interior e ainda por cima dele. Durante 
a transformao, enquanto os braos lhe convertiam em asas, quando os lbios adotavam forma de bico e seus calcanhares se projetavam para fora, curvando-se, sentiu 
uma dor sbita e extrema.
       Logo liberdade.
       Elevou-se para o cu, um falco dourado que dominava o ar e descrevia um crculo sobre Blair com um grasnido de triunfo.
       -Uau -exclamou ela contemplando seu vo; o poder e a majestade puros dele. Ela j o tinha visto transformar-se antes; tinha cavalgado sobre seu lombo quando 
Larkin adotou a forma de um cavalo durante a batalha. E mesmo assim, ficou-se sem fala.
       - to excitante...
       Enquanto a terra continuava tremendo, agarrou a espada do Larkin e tirou tambm a sua. E, com o mar rugindo a suas costas, encarou-se  parede lisa do escarpado.
       No cu, o falco sulcava o ar por cima dos escarpados. Podia ver com a suficiente acuidade para distinguir as folhas de erva, as ptalas das austeras flores 
silvestres que se abriam passo atravs das gretas das rochas para procurar o sol.
       Viu a larga cinta da estrada, a extensa lmina do mar e, mais  frente, onde a terra voltava a unir-se  gua.
       O falco ansiava voar, caar. O homem que havia em seu interior imps sua vontade a esse desejo enquanto planejava pelo cu.
       Podia ver sua prima,  Bruxa e ao Feiticeiro abaixo, com as mos unidas, imveis sobre o terreno estremecido. Havia luz neles e ao redor deles; uma luz selvagem 
e branca, um crculo giratrio que se elevava em forma de torre para sacudir o ar ao mesmo tempo em que a terra.
       Esse vento o alcanou, e atirou de suas asas como dedos vorazes. Nele pde ouvir suas vozes, fundindo-se em uma nica, e pde sentir tambm seu poder, uma 
corrente quente que atravessava o ar formado redemoinhos.
       Ento a fora do ar o golpeou lanando-o para baixo em uma queda vertiginosa.
       Blair ouviu o grito do falco, viu como caa descrevendo uma trajetria em espiral. O corao lhe subiu  garganta, e ali ficou enquanto Larkin dava voltas 
pelo ar. E ali permaneceu, como uma bola dura e palpitante, enquanto o falco conseguia remontar com as asas estendidas e logo se lanava em picado at aterrissar 
brandamente a seus ps.
       Por um momento, Blair pde ver a combinao de ambos, homem e falco. Continuando, teve ao Larkin de p diante dela, com a respirao agitada e o rosto plido.
       -Que demnios foi isso? Que demnios passou? Acreditava que foi a estelar lhe contra o cho. Sangra-te o nariz.
       A voz de Blair soou metlica a seus prprios ouvidos e agitou a cabea para esclarec-la.
       -No  de se estranhar -respondeu ele, e se limpou o sangue com o dorso da mo. - L encima est acontecendo algo, ao parecer um pouco muito poderoso. A maldita 
luz quase me deixa cego e o vento  muito forte. No pude ver, no com segurana, se tiverem problemas. Mas acredito que o melhor ser que subamos para nos assegurar.
       -De acordo.
       Blair foi devolver lhe a espada e ento a terra se levantou. A sbita elevao do terreno a fez perder o equilbrio e cair para frente. Larkin conseguiu agarr-la, 
mas o impulso de Blair o lanou contra a rocha e a ponto esteve de lhes enviar a ambos ao mar.
       -Sinto muito, sinto-o -se desculpou ela, mas era sujeitar-se dele ou cair  gua. - Est ferido?
       -Deixaste-me sem flego, isso  tudo.
       A seguinte onda ao romper os empapou de cima abaixo.
       -Merda. Ser melhor que saiamos daqui.
       -Estou de acordo. Agora, com cuidado.
       Agarraram-se o um ao outro pela cintura, lutando por permanecer erguidos. Pedras e terra comearam a cair da parede do escarpado, convertendo a idia de subir 
por ela em muito pouco atrativa, por no dizer impossvel.
       -Posso conseguir que subamos at onde se encontram Glenna, Hoyt e Moira -props Larkin. - S ter que te agarrar e eu...
       Interrompeu-se quando a parede comeou a oscilar, a mudar. A abrir-se.
       -V, v -murmurou -, o que temos aqui?
       -O encantamento se quebrou ou o quebraram. Pode que haja problemas.
       -Isso espero.
       -Estou contigo -disse Blair.
       No tinha terminado de pronunciar essas palavras quando uns indivduos irromperam atravs da parede. Grandes, corpulentos e armados com espadas.
       -Como podem...?
       -No so vampiros. -Blair se separou do Larkin e firmou os ps no cho. Sups que o tremor da terra era tanto um problema para o inimigo como para o Larkin 
e ela. - Agora lutemos, as explicaes mais tarde.
       Blair elevou a espada e bloqueou o primeiro golpe. A fora percorreu seu brao ao tempo que o cho se estremecia sob seus ps, aproveitou o movimento, agachando-se 
e bloqueando outro golpe enquanto tirava uma das estacas de seu cinturo.
       Cravou-a na perna de seu atacante. O monstro tropeou, lanou um uivo e ela o rematou com a espada.
       "Um menos", pensou, e se negou a sentir comiserao por sua vtima. Girou sobre si mesma, esteve a ponto de cair quando a terra se levantou, e entrechocou 
o ao com a espada do inimigo que acabava de saltar a suas costas.
       Com a extremidade do olho, viu que Larkin eliminava a dois ao mesmo tempo.
       -Garra de urso! -gritou-lhe.
       -Essa  uma boa idia.
       O brao dele se fez mais largo e mais grosso, com negras garras curvadas. Fez girar esse brao enquanto brandia a espada com a outra mo.
       Estavam mantendo suas posies, pensou Blair, mas nada mais. No havia espao para manobrar, no quando um passo em falso podia lhes enviar a ambos de cabea 
ao mar. Se espatifariam contra as rochas, seriam arrastados mar dentro. Pior que uma espada. Mesmo assim, no podiam escalar o escarpado, no de momento. No havia 
mais alternativa que ficar e lutar.
       Blair caiu ao cho, rodou e uma espada se cravou entre as pedras, a escassos milmetros de sua cara. Lanou uma chute com fora e jogou em seu oponente ao 
mar.
       Eram muitos, muitos, pensou, enquanto se levantava cambaleando-se. Mas podia ser pior. Podia...
       De repente a luz trocou, debilitou-se. Com a falsa penumbra, chegaram as primeiras gotas de chuva.
       -Meu deus. Lilith est provocando a escurido.
       E com esta, os vampiros comearam a sair da cova. O mar e uma morte horrvel, afogados entre as ondas, pareceu de repente a melhor alternativa.
       Blair fez um clculo rpido e enviou uma lngua de fogo atravs da folha de sua espada. Podiam lhes bloquear com fogo, conter a alguns deles, destruir a outros. 
Mas mesmo assim, muitos conseguiriam passar.
       -No podemos ganhar esta briga, Larkin. Converta-te novamente em falco, voa para outros e tira os daqui. Eu reterei a estes todo o tempo que possa.
       -No seja estpida. Suba. -Lanou-lhe sua espada. - Segure firme.
       Larkin trocou de forma, mas no era um falco o que agora havia junto a ela. As asas douradas do drago se estenderam e, quando retrocedeu, sua cauda abateu 
ao primeiro inimigo que saa da cova.
       Blair no o pensou um segundo, simplesmente saltou sobre seu lombo, afirmando as pernas ao redor de seu corpo sinuoso. Lanou um cutilada para sua esquerda, 
derrubando a um dos monstros que carregava contra eles. Continuando, deu-se conta de que estavam ascendendo, atravessando a penumbra e a nvoa.
       Sem que ela pudesse fazer nada, pudesse det-lo. Deixou escapar um grito de absoluto deleite, jogando a cabea para trs enquanto lanava estocadas ao cu 
com ambas as espadas e fazia que ambas se cobrissem de chamas.
       O vento soprava a seu redor e o cho se afastava rapidamente de debaixo de seus ps. Embainhou uma das espadas para poder passar a mo pelo drago. As escamas, 
brilhando como se fossem de ouro, pareciam jias lustradas, suaves e esquentadas pelo sol. Ao olhar para baixo, viu a terra e o mar; e densos bancos de nvoa que 
cobriam as fauces das rochas.
       Ento, no alto do escarpado, viu trs figuras tendidas sobre a erva mida e spera.
       -Baixa. Desce para ali, depressa!
       Ela sabia que Larkin podia ouvi-la e entender o que lhe dizia, fosse qual fora a forma que tivesse adotado, mas nessa ocasio podia haver-se economizado o 
flego.
       O impulso da velocidade a lanou para trs quando Larkin enfiou para onde estavam os outros. Blair saltou a terra enquanto o aterrissava e comeava a recuperar 
sua forma humana.
       O medo era uma adaga de prata parecido em seu estmago, mas viu que Hoyt fazia um esforo para sentar-se e estendia um brao para a Glenna. Sangrava-lhe o 
nariz, e a Glenna tambm. Quando Larkin se aproximou da Moira e lhe deu a volta, Blair viu que tinha sangue nos lbios.
       -Temos que nos mover, temos que nos largar daqui. Poderiam nos seguir e, se quiserem, podem mover-se muito depressa. -Ajudou a Glenna a ficar de p. - Temos 
que nos mover mais rpido que eles.
       -Estou aturdida. Sinto muito, eu...
       -Te apie em mim. Larkin...
       Mas ele j tinha tomado suas decises. Blair se apartou o cabelo mido enquanto empurrava a Glenna para o cavalo em que Larkin se converteu.
       -Suba. Moira e voc. Hoyt e eu iremos justo detrs de vocs. Pode caminhar? -perguntou ao Hoyt.
       -Posso. -Embora suas pernas tremiam, ainda se moviam; e velozmente, enquanto Larkin galopava. - Aconteceu muito rpido.J anoiteceu.
       -No, foi ela. Lilith o tem feito. Tem mais poder do que eu imaginava.
       -No. No, no foi ela. -Hoyt se viu obrigado a passar o brao sobre o ombro de Blair para sustentar-se. - Lilith tem a algum ou algo poderoso para fazer 
isto.
       -J o averiguaremos. -Blair o levou quase a rastros at a caminhonete onde Larkin j estava ajudando a subir a Glenna e Moira. - Glenna, as chaves. Eu conduzirei.
       Esta as tirou do bolso com certa dificuldade.
       -Necessito s um minuto, uns poucos minutos para me recuperar. Isso foi... Foi selvagem. Moira?
       -Estou bem. S um pouco enjoada, isso  tudo. Eu nunca... nunca tinha participado de algo assim.
       Blair conduziu velozmente para por uma distancia suficiente, ao tempo que olhava pelo espelho retrovisor para comprovar se algum os seguia.
       -Terremoto, um falso crepsculo, relmpagos. V viagem!
       -Reduziu a velocidade quando o sol comeou a aparecer novamente entre as nuvens. - Bom, parece que Lilith decidiu nos deixar em paz. Por agora. Ningum est 
ferido? S abalado?
       -No, feridos no. -Hoyt atraiu a Glenna para ele e secou nos seus lbios as lgrimas que corriam por suas bochechas. - No. A ghr6, no chore.
       -Havia tantos. Tantos deles. Gritando.
       Blair respirou profundamente um par de vezes antes de falar.
       -No lhes martirizem assim. Tentastes, destes o melhor de vocs. Sempre foi uma possibilidade remota que conseguiram tirar algum dessas cavernas.
       -Mas o conseguimos. -Glenna girou o rosto para o ombro do Hoyt. - Cinco. Conseguimos tirar cinco, logo no pudemos resistir mais.
       Blair, assombrada, deteve-se no borda e se voltou para o assento traseiro.
       -O que tirastes cinco? E onde esto?
       -No hospital. Pensei que...
       -Glenna pensou -disse Moira olhando-as mos vazias - que se conseguamos tir-los dali, bem poderamos transport-los a um lugar onde estivessem a salvo e 
os cuidassem.
       -Engenhoso. Realmente engenhoso -comentou Blair. - Dessa maneira, obtm-se para eles ateno mdica imediata e se evita ter que responder a perguntas embaraosas. 
Felicidades.
       Glenna levantou a cabea; em seus olhos se via a desolao.
       -Havia tantos. Tantos mais.
       -E cinco deles esto vivos e a salvo.
       -Sei, tem razo, sei. -ergueu-se no assento e se secou as bochechas com as mos. - S estou emocionada.
       -Fizemos o que tnhamos vindo a fazer -disse Blair.
       -O que eram essas coisas? -perguntou-lhe Larkin. - O que eram essas coisas contra as que lutamos voc e eu? H dito que no eram vampiros.
       -Meio vampiros. Seguem sendo humanos. Foram mordidos, provavelmente em muitas vezes, mas no os deixaram totalmente sem sangue. E no lhes permitiu mescl-la; 
no os transformaram.
       -Ento, por que nos atacaram?
       -Esto controlados. O termo mais correto, suponho, seria servo. Esto subjugados e fazem o que lhes ordenam. Contei sete, todos eles tipos muito fornidos. 
Acabamos com quatro deles. Provavelmente Lilith no tenha mais; ou no muitos mais. Deve ser muito difcil mant-los sob controle.
       -Houve uma briga? -perguntou Glenna. 
       Blair voltou para a estrada.
       -As cavernas se abriram. Lilith enviou uma primeira onda de meio vampiros. Logo levou a cabo seu pequeno truque com a luz.
       -Acreditava que te deixaria ali -interrompeu Larkin. - Acreditastes que te deixaria a merc deles?
       -A prioridade  permanecer com vida.
       -Talvez seja assim, mas eu no abandono a um amigo ou a um companheiro de armas. Que classe de homem cr que sou?
       - uma boa pergunta.
       -A resposta  que no sou um covarde -prosseguiu Larkin com voz tensa.
       -No o  e est muito longe de s-lo. -O teria abandonado ela? No, reconheceu. No poderia hav-lo feito, e lhe teria parecido um insulto que algum lhe 
sugerisse que partisse. -  o que me ocorreu para manter com vida ao resto de ns, para impedir que ela ganhasse. Como podia saber que tinha um drago em seu repertrio?
       Glenna se engasgou no assento traseiro.
       -Um drago?
       -Lamento que lhe tenha perdido isso. Foi algo realmente selvagem. Mas Deus, Larkin, um drago? Algum deve te haver visto. Naturalmente, se o contar, todos 
pensaro que est louco, mas mesmo assim.
       -Por qu?
      
       -Por que? Porque se trata de um drago, e todo mundo sabe que no existem.
       Larkin, fascinado, deu-se a volta no assento.
       -No tm drages aqui?
       Blair desviou o olhar para ele.
       -No -lhe respondeu lentamente.
       -Pois  uma lstima. Moira, ouviste isso? Na Irlanda no tm drages.
       Sua prima abriu seus olhos cansados.
       -Acredito que, o que quer dizer,  que no h drages em nenhum lugar deste mundo.
       -Vamos, isso no pode ser. Ou sim?
       -No h drages -lhe confirmou Blair. - Nem unicrnios, nem cavalos alados, nem centauros.
       -Ah, bom. -Larkin estirou a mo e lhe aplaudiu o ombro. -Mas tm carros e som muito interessantes. Morro de fome -disse um momento depois. - No tm fome? 
Todas essas mudanas me deixaram vazio. Cr que poderamos parar em alguma parte e comprar essas batatas fritas que vo em umas bolsas?
       Comer batatas fritas com sal e vinagre e beber refrescos diretamente da garrafa no foi exatamente um festim da vitria, mas lhes bastou at chegar a casa.
       Uma vez ali, Blair se guardou as chaves do carro no bolso.
       -Vocs trs entrem na casa. Larkin e eu podemos nos encarregar das armas. Ainda esto muito plidos.
       Hoyt agarrou a bolsa com o sangue que lhe tinha comprado ao aougueiro.
       -Levarei-lhe isto a Cian.
       Blair ficou esperando a que os trs tivessem entrado na casa.
       -Teremos que falar com eles -disse ao Larkin. - Estabelecer alguns parmetros, alguns limites.
       -Aye, assim . -E se apoiou na caminhonete olhando para a casa. Era bom, e em certo modo curioso, a maneira como se entendiam s vezes, sem necessidade de 
palavras. - Estamos de acordo. No devem empregar essa classe de magia; ao menos no freqentemente, e s quando no houver outra alternativa.
       -Hemorragias nasais, enjos, enxaquecas. -Blair tirou as armas pela porta traseira da caminhonete. "Se tiver uma equipe -pensou -, tem que te ocupar de seus 
membros. No h escolha". - Com apenas olhar a Moira se v o mal que se encontra. Essa classe de esforo fsico no pode ser bom para eles.
       -Ao princpio, quando os vi ali tendidos, bom, pensei...
       -Sim. -Blair deixou escapar um suspiro comprido e entrecortado. -Sim, eu tambm.
       -Nesses momentos hei sentido muitas coisas pelo Hoyt e Glenna, e por Cian tambm, embora no estivesse. Um pouco mais forte, mais profundo inclusive que a 
amizade. Talvez mais que o parentesco. Quanto a Moira... Ela sempre foi minha, j sabe. No sei como poderia viver se algo lhe ocorresse. Se eu no o impedisse.
       Blair apartou as armas e se impulsionou para cima at sentar-se na parte traseira da caminhonete.
       -O que diz no pode ser. Que a ela, ou a qualquer de ns, ocorresse-lhe o pior porque voc no pudesse impedi-lo. Depende de cada qual que faamos o que devemos 
para poder sobreviver, e todo o possvel por nos cobrir mutuamente as costas. Mas...
       -Voc no o entende -a cortou Larkin, e seus olhos brilhavam com intensidade quando os fixou nos de Blair. - Moira forma parte de mim.
       -No, no o compreendo porque nunca tive a ningum assim em minha vida. Mas acredito que a entendo o bastante bem para saber que se sentiria ferida, talvez 
inclusive de saco cheio, se pensasse que se sente responsvel por ela.
       -Responsvel no. Isso seria uma obrigao, e no o .  amor. Sabe o que  isso, verdade?
       -Sim, sei o que  isso. -Blair, molesta, comeou a baixar-se da parte posterior da caminhonete, mas Larkin se moveu, girando o corpo at bloque-la.
       -Cr, acaso, que no sentia nada por ti quando estvamos de costas ao mar e com todos aqueles monstros saindo da escurido? Acreditava que no sentia nada, 
e que portanto iria e me poria a salvo s porque me h dito que o fizesse?
       -Eu no sabia que foste tirar um drago da cartola, de modo que...
       Blair se interrompeu; continuando, quando ele estendeu a mo e lhe agarrou o queixo entre os dedos, ficou rgida.
       -Cr que no sentia nada? -voltou a perguntar e seus olhos eram profundos e dourados, e pensativos. - Que no sinto nada agora?
       "Mas que droga", pensou Blair. Colocou-se ela sozinha na armadilha.
       -No te estou perguntando por seus sentimentos -comeou a dizer.
       -Pois eu lhe digo isso embora no me tenha perguntado isso. -Larkin se aproximou um pouco mais, as pernas separadas e colocadas uma a cada lado das de Blair, 
os olhos fixos em seu rosto, com curiosidade. - No posso dizer que sei o que sinto, pois no acredito hav-lo sentido antes, mas h algo quando lhe olho, como agora. 
Quando te vejo combater. Ou quando te observo, como o tenho feito esta manh, te movendo como algo mgico entre a nvoa.
       Como ela havia sentido tambm algo, reconheceu, quando entrou em batalha montada sobre ele. Quando viu como se iluminava seu rosto com a msica.
       -Isto  realmente uma m idia.
       -Ainda no hei dito que tivesse uma idia. Mas tenho sentimentos; tantos que no sou capaz de separar um de outros para examin-lo atentamente. Assim...
       Jogou a cabea para trs quando Larkin inclinou a sua para ela. Com a mo aferrou o pulso do homem.
       -OH, te esteja quieta um momento -disse ele com um sorriso -e deixa que o tente. No pode ter medo de um coisa to simples como um beijo.
       No tinha medo, mas sim cautela. E certamente curiosidade. Blair permaneceu sentada, tal como estava, os dedos de uma mo dobrados fracamente sobre o bordo 
traseiro da caminhonete, os da outra rodeando o pulso do Larkin.
       Seus lbios eram muito suaves, apenas uma ameaa de contato. Um roar, uma carcia, uma dentada leve e brincalhona. Blair teve tempo de pensar que ele era 
muito bom nesse jogo antes que a nvoa alagasse sua mente.
       "Forte", pensou ele. Sabia que haveria fora, e foi uma encantadora sacudida para seu sistema. Mas tambm havia doura; e disso no tinha estado seguro. De 
modo que beij-la foi como se lhe circulasse vinho pelas veias.
       E havia tambm uma necessidade; o que parecia uma profunda e contida necessidade. Confiava nela. O beijo se voltou mais intenso, de modo que alcanou para 
ouvir o som do prazer vibrando na garganta de Blair, e sentiu como aquele maravilhoso corpo se apertava e se entregava ao dele.
      Quando tentou tend-la junto s espadas e as tochas, ela apoiou uma mo sobre seu peito e o apartou.
       -No. 
       -Ouvi-o, mas no  isso o que sinto. 
       -Talvez no, mas  o que hei dito.
       Larkin deslizou um dedo desde seu ombro at seu pulso, enquanto seus olhos percorriam seu rosto.
       -Por qu?
       -No estou segura de por que. No estou segura, de modo que no.
       Blair se voltou e comeou a juntar as armas.
       -Eu gostaria de te fazer uma pergunta. -Larkin sorriu quando ela o olhou inquisitiva por cima do ombro. - Leva o cabelo to curto para que fique prendado 
de sua nuca? A forma em que te desce por essa zona faz que deseje... Lamber-lhe isso.
       -No. -"Escuta a forma em que usa essa voz. As mulheres do Geall devem correr atrs dele como cachorrinhos", disse-se Blair. -Levo o cabelo curto porque, 
desse modo, o inimigo no tem muito onde agarrar e atirar se quer lutar como uma mulher. -Voltou-se. - E alm fica bem.
       -Sim, disso no cabe nenhuma dvida.  como se fosse uma Rainha das fadas. Sempre pensei que, se realmente existirem, devem ter a fora e o valor refletidos 
no rosto.
       Voltou a inclinar-se para ela e Blair apoiou a folha de uma espada contra seu peito.
       Larkin olhou a espada e logo elevou a vista para ela. Esta vez, seu sorriso era francamente divertido.
       -Isso  bastante mais que um no. S tinha inteno de te beijar outra vez. No pensava te pedir nada mais. Somente um beijo.
       - condenadamente atrativo -disse Blair um minuto depois. - E te mentiria se dissesse que no me sinto tentada. Mas precisamente porque  condenadamente atrativo 
e tentador, vamos deixar o agora mesmo.
       -Muito bem ento, se assim for como tem que ser. -Passou junto a ela, agarrou uma tocha e o cubo com as estacas. - Mas no deixarei de pensar em outro beijo. 
E voc tambm.
       -Possivelmente. -Blair ps-se a andar para a casa com os braos carregados de armas. - Um pouco de frustrao me dar um humor muito agradvel.
       Larkin meneou a cabea enquanto a seguia com o olhar. E pensou que era a mulher mais fascinante que tinha conhecido.
      
      
      
      4
             
       Blair foi diretamente a deixar as armas na zona de treinamento e logo baixou  cozinha pela escada traseira. Decidiu que Larkin podia encarregar-se de limpar 
as espadas, para liberar um pouco de energia sexual.
       Encontrou a Glenna na cozinha com o bule ao fogo.
       -Estou preparando uma infuso, uma mescla que deveria eliminar as tenses do dia.
       -Ouvi que o lcool consegue isso.
       E, ao pens-lo, Blair abriu a geladeira em busca de uma cerveja.
       -Para mim, isso fica para um pouco mais tarde... Meu sistema se encontra ainda um pouco alterado. Hoyt subiu a ver Cian e p-lo a par do acontecido.
       -Bem. Temos que falar, Glenna.
       -Poderamos deixar para mais tarde te mostrar os passos e etapas do encantamento se por acaso os necessita? Neste momento, me faz um pouco difcil.
       -No, no os necessito. Esse  seu territrio. -Blair se sentou sobre a mesa e observou a Glenna, que mantinha as mos ocupadas. - A srio, nesta rea, sou 
uma negada. Em minha famlia h alguns membros com facilidade para a magia e pessoas com notveis habilidades, mas nada parecido ao que fazem Hoyt e voc.
       -Agora tenho mais capacidade que antes. Possivelmente  que estou mais aberta a isso. -Glenna se tirou umas presilhas do bolso e se recolheu o cabelo em um 
coque. - Talvez seja a conexo com o Hoyt, ou a que todos temos mutuamente. Mas seja o que for, estou encontrando dentro de mim um poder que nunca imaginei que pudesse 
existir.
       -E te sinta muito bem alm disso. Tem que saber, aceitar, entender que o que os trs tm feito hoje foi realmente assombroso; e tambm poderoso, posto que 
salvou vidas. Mas alm disso deve saber, aceitar e entender que no se trata de algo que possam repetir. Ao menos, no a curto prazo.
       -Acredito que poderamos tirar dali mais prisioneiros -disse Glenna sem voltar-se. - Possivelmente a um ou dois cada vez. Fomos muito ambiciosos, queramos 
tirar tantos como pudssemos, e mantivemos o fogo muito tempo.
       -Glenna, esse  seu territrio, como j te hei dito, mas fui eu quem foi para lhes buscar depois do sismo. A questo  que, tanto Larkin como eu, pensvamos 
que os trs estavam mortos. Que o que ficava de vocs estava completamente vazio.
       -Sim, isso  exatamente.  o trmino exato para descrever o que nos passou.
       - possvel que a prxima vez no sejam capazes de retornar.
       -E no  essa a razo pela que estamos aqui? -Agora as mos da Glenna se dedicavam a jogar as folhas de erva. - Para arrisc-lo tudo? No  verdade acaso 
que qualquer de ns pode no retornar cada vez que samos por essa porta, cada vez que agarramos uma arma? Quanta vez agarrou voc uma e o dom que possui e arriscaste 
tudo?
       -No poderia contar as vezes em que isso ocorreu, mas isto  completamente distinto. Voc sabe que o . Larkin e eu... Necessitamos-lhes. Necessitamos que 
o resto de vocs estejam fortes e saudveis.
       -Hoje estiveste a ponto de morrer, no  verdade?
       -Sim, mas graas ao menino-drago...
       -Blair -a interrompeu Glenna. Continuando, aproximou-se dela e lhe apertou a mo com fora.
       Conexes, isso havia dito Glenna, e  o que Blair sentiu ento. No se podia mentir a algum com quem havia uma conexo to estreita, decidiu.
       -Sim, de acordo, a coisa se h posto feia... To feia que no estava segura de que pudssemos sair bem sacados. Mas poderia ter sido pior. Ao final, todos 
temos feito nossa parte, e agora eu estou bebendo uma cerveja e voc est preparando uma infuso. Bem por ns.
       -Voc  melhor que eu nisto -murmurou Glenna.
       -No, no o sou.  s que estou mais acostumada. E ao est-lo, posso desfrutar de uma cerveja porque sei que hoje no s demos uma surra ao Lilith, Glenna. 
Insultamo-la, e essa  uma sensao que me enche de alegria. E sabe o que eu gostaria?
       -Acredito que sim. Voltar ali e repeti-lo todo outra vez.
       -Pode apostar o rabo a que eu adoraria faz-lo. Nada seria melhor que isso, essa  a pura verdade. Mas seria algo estpido e soberbo, e provavelmente faria 
que matassem a todos. Aceita a vitria, Glenna, porque pode estar completamente segura de que lhe merece isso. E aceita tambm que possivelmente no seja capaz de 
voltar a fazer o da mesma maneira.
       -Sei. -Glenna se aproximou novamente ao fogo quando a gua comeou a ferver. - Sei que tem razo.  difcil aceitar que a tem. Durante as ltimas semanas, 
experimentei umas foras mgicas to intensas que no poderia nem ter imaginado que existissem.  excitante... E tem um preo. Sei muito bem que necessitaremos mais 
tempo e mais preparao se voltarmos a tentar o que temos feito hoje.
       Verteu a gua na bule.
       -Acreditava que tnhamos perdido a Moira -prosseguiu com voz acalmada. - Hei sentido como se deslizava, afastando-se de ns. Ela no  to forte magicamente 
como eu e, certamente, no  to forte como Hoyt. -Enquanto a infuso repousava, voltou-se para olhar ao Blair. - A deixamos ir. Soltamo-la um instante antes que 
tudo explodisse. No sei o que teria podido lhe acontecer se a tivssemos retido conosco.
       -Teriam podido tirar das cavernas a tantos sem a ajuda da Moira?
       -No, necessitvamo-la.
       -Pois aceita a vitria. Foi um bom dia. Fica uma pergunta, entretanto. Como sabia aonde tinha que lhes enviar? No me refiro  parte mgica, s  logstica 
do assunto.
       -OH, tinha um mapa. -Glenna sorriu levemente. - Tinha calculado quais seriam as rotas mais rpidas para chegar aos hospitais em caso de que algum de ns necessitasse 
um. De modo que s foi questo de, bom, de seguir o mapa.
       -Um mapa. -depois de lanar uma gargalhada, Blair bebeu um comprido gole de cerveja. -  muito, Glenna.  incrvel. Se essa vadia vampiro te tivesse em sua 
equipe, acredito que estaramos perdidos. Foi um dia inesquecvel. -E acrescentou com um suspiro -: viajei sobre um monstruoso drago.
       -Que enternecedor, verdade, surpreso-o que se ficou Larkin ao saber que aqui no tnhamos drages? -Com um sorriso, e o nimo mais tranqilo, Glenna disps 
as taas e os pratos sobre a mesa. - Que aspecto tinha? Eu s vezes os pinto.
       -Como esperaramos que fosse um drago, suponho. Era dourado, com uma cauda larga e perigosa... Carregou-se a um par de inimigos com ela. E um corpo sinuoso. 
Sim, todo ele comprido e sinuoso, o corpo, a cauda, a cabea. Olhos dourados. Deus, era formoso. E as asas, grandes, bicudas, e translcidas. Com escamas do tamanho 
de minhas mos, e de uma cor que ia do dourado mate ao brilhante, junto com todos os matizes intermdios. E veloz. Mais que isso, velocssimo. Foi como montar o 
sol. Eu estava...
       Blair se interrompeu ao ver que Glenna se apoiava na bancada com um amplo sorriso nos lbios.
       -O que?
       -Estava-me perguntando se esse olhar a produzia o drago ou o homem.
       -Estamos falando de drages, mas o homem tampouco est mau.
       - magnfico, totalmente adorvel, e com o corao de um campeo.
       Blair arqueou as sobrancelhas.
       -Huh, voc no te casaste recentemente?
       -Mas isso no me deixou cega. E Larkin tem essa mesma expresso nos olhos, cada vez que te olha.
       -Talvez seja como voc diz, e possivelmente me exponha levar isso  horta um dia destes, mas de momento... -desceu-se da mesa -, vou a minha habitao, a 
me dar uma ducha realmente larga e quente.
       -Blair? s vezes o corao de um campeo  muito tenro.
       -No pretendo machucar o corao de ningum.
       -Estava pensando tambm no teu -murmurou Glenna quando ficou sozinha.
       Blair ouviu vozes ao passar junto  biblioteca e se aproximou o suficiente para as identificar. Satisfeita ao ver que Larkin estava falando com a Moira, voltou 
sobre seus passos e se dirigiu  escada que levava a planta superior. S desejava lavar o sal marinho, o sangue e a morte.
       Ao chegar acima, deteve-se o ver Cian entre as sombras do corredor. Ela sabia que seus dedos tinham baixado at roar a estaca que levava sujeita na cintura, 
e no se preocupou em fingir que no o tinha feito. Tinha sido algo instintivo. Caador, vampiro. Ambos deviam aceit-lo e assumi-lo.
       - um pouco cedo para que esteja levantado e dando voltas pela casa, no cr?
       -Meu irmo no sente nenhum respeito por meu ciclo de sono.
       Blair pensou que havia algo claramente sexual em um vampiro que olhava da penumbra. Ou o havia naquele vampiro.
       -Hoje Hoyt o aconteceu verdadeiramente mal.
       -Sim, pude v-lo com meus prprios olhos. Parecia doente. Mas j se sabe... -seu sorriso foi lenta e deliberado -,  humano.
       -Costuma trabalhar esses aspectos de sua personalidade?A voz sedutora, o sorriso perigoso?
       -Nasci com isso. E morri com isso tambm. Vamos chegar a um acordo, voc e eu?
       -Acredito que j o temos feito. -Blair viu que o olhar de Cian se deslizava para sua mo e a estaca que havia debaixo dela. - No posso evit-lo. -Mas apartou 
a mo e enganchou o polegar no cinturo. -  algo nato.
       -Voc gosta de seu trabalho?
       -Acredito que sim, em certa medida. Sou boa no que fao, e est acostumado a te gostar de fazer aquilo no que  boa.  o que fao.  o que sou.
       -Sim, somos o que somos. -Cian se aproximou dela. - Tem o aspecto que deveu ter ela a sua idade. Mais jovem, suponho, nossa Nola devia ser mais jovem quando 
era como voc agora. Naquela poca, as mulheres envelheciam mais rpido.
       -Muitas vezes, os vampiros procuram suas primeiras presas entre sua famlia.
       -O lar  esse lugar onde sempre lhe aceitam quando chega. Cr acaso que qualquer dos membros desta casa estaria com vida de no hav-lo querido eu assim?
       -No. -Era o momento de justificar-se. - Acredito que teria jogado com eles durante alguns dias, possivelmente uma semana. Tivesse-te divertido. Teria esperado 
a que confiassem em ti, ento os teria surpreso com o guarda baixo e os teria matado.
       -Pensa como um vampiro -reconheceu ele. -  parte de seu talento. Bem, por que ento no os matei?
       Blair manteve os olhos fixos nos de Cian, subitamente impressionada pelo fato de que era quase como olhar os seus. A mesma cor, a mesma forma.
       -Somos o que somos, e suponho que voc no  assim; ou j no o .
       -Em meus tempos tive minha rao de mortes. Mas salvo pelo fato excepcional de que uma vez tentei matar a meu irmo, jamais toquei a minha famlia. No posso 
explicar por que, salvo que no queria suas vidas. Voc  da famlia, embora nem voc nem eu nos sintamos cmodos com o fato. Descende de minha irm. Tem seus mesmos 
olhos. E uma vez a quis, quis muito.
      Blair sentiu algo... No era piedade, no era isso o que Cian pedia. Mas sim experimentou uma espcie de compreenso. Sob o impulso desta sensao, tirou a 
estaca que levava sujeita ao cinturo, e, mantendo a ponta para ela, a entregou a Cian. Ele a estudou com expresso de perplexidade.
       -No terei que comear a te chamar tio Cian, verdade?
       Este conseguiu esboar um sorriso e, ao mesmo tempo, pareceu causar pena.
       -No, por favor, no o faa.
       Logo, ambos seguiram seus respectivos caminhos. Cian desceu para a cozinha, onde encontrou a Glenna atarefada preparando umas bandejas com taas de infuso. 
A via gasta, pensou ele, e com sombras escuras sob os olhos.
       -Consideraste alguma vez a possibilidade de que outro assuma o papel de me?
       Glenna se sobressaltou para ouvir sua voz, e a taa golpeou contra a bandeja que estava preparando nesse momento.
       -Acredito que estou um pouco nervosa. -Voltou a colocar a taa com cuidado sobre o pires. - O que h dito?
       -Pergunto-me por que um dos outros no pode fazer-se carrego da comida de vez em quando.
       -Fazem-no. Bom, Larkin  um tanto vago nesse sentido, mas outros o fazem. Em qualquer caso,  algo que me mantm ocupada.
       -Conforme me contaram, tambm estiveste ocupada com questes no domsticas.
       -Hoyt falou contigo.
       -Meu irmo parece desfrutar despertando em metade do dia. Que  a razo pela que quero caf -acrescentou, enquanto se aproximava do fogo para prepar-lo. 
Quando reparou em que Glenna franzia o senho ao ver a estaca que deixava junto  taa, encolheu-se de ombros. - Poderia dizer-se que  uma espcie de oferenda de 
paz por parte de Blair.
       -OH, j vejo; isso  bom, verdade?
       Cian se voltou e agarrou o queixo da Glenna com a mo.
       -V deitar-te, ruiva, antes que te desabe.
       -Para isso serve a infuso.  um reconstituinte. Necessitamo-lo. As baterias esto muito baixas por aqui. -Conseguiu esboar um sorriso, mas esta se esfumou 
em seguida. - Ela provocou uma tormenta, Cian. Lilith tem a algum com ela o bastante poderosa para invocar uma tormenta e obscurecer o sol, de modo que precisamos 
recarregar essas baterias. Hoyt e eu devemos trabalhar, e temos que faz-lo com a Moira. Precisamos tirar de seu interior o que ela tem, ajud-la a que o aperfeioe. 
-Glenna se voltou e comeou a colocar biscoitinhos em uns pratos pequenos e bonitos, algo com tal de no ter as mos quietas.
       -Hoje nos separamos. Ns trs no alto do escarpado, e Blair e Larkin na base. Poderiam lhes haver matado e no teramos podido lhes ajudar; no poderamos 
hav-lo impedido. No o vimos vir porque estvamos totalmente concentrados no encantamento de transporte, e, quando chegou, quando esse poder nos voltou e nos lanou 
ao cho, j estvamos fora de combate.
       E agora sofria por isso, pensou Cian. Os humanos sempre sofriam, por isso tinham feito e pelo que tinham deixado de fazer.
       -Bom, agora tem uma idia mais precisa de quais so seus limites.
       -No nos permite ter limites.
       -OH, no me venha com essas, Glenna. -Agarrou um biscoitinho. -  obvio que tm limites. Expandiste-os, e provavelmente conseguiro ampli-los ainda um pouco 
mais. Mas ela tambm os tem, e isso  o que vocs esquecem. Lilith tem pontos dbeis e no  invulnervel nem onipotente. Algo que pudestes comprovar hoje, ao lhe 
arrebatar a cinco de seus trofus em seu prprio nariz.
       Mordeu o biscoitinho e bebeu um sorvo de caf.
       -Sei que teria que pensar nas cinco pessoas que conseguimos salvar. Blair me h dito que aceite a vitria.
       -E tem razo.
       -Sei. Sei. Mas, OH Deus, eu gostaria no ter visto os que tivemos que deixar atrs. Eu gostaria no ter seus rostos, seus gritos, na cabea. No podemos salv-los 
a todos, isso foi o que disse ao Hoyt em Nova York. Ento foi fcil diz-lo. -Glenna meneou a cabea. - E tem razo, preciso descansar. Mas agora tenho que levar 
esta bandeja acima e me assegurar de que outros tambm tomam a infuso. Poderia me fazer um favor?
       -Provavelmente poderia.
       -Levar esta bandeja  biblioteca. Moira est ali.
       -Ela provavelmente achar que a infuso est envenenada se for eu quem a leva.
       -OH, basta.
       -Est bem, est bem. Mas logo no me culpe se arroja suas ervas pelo ralo. -Levantou a bandeja, murmurando para si ao abandonar a cozinha. - Sou um vampiro, 
pelo amor de Deus. Uma criatura ferrada da noite, um bebedor de sangue. E aqui estou, fazendo de mordomo de uma Rainha do Geall de outro tempo.  algo realmente 
mortificante.
       Era ele quem queria passar algum tempo na biblioteca, frente ao fogo com um livro nas mos.
       Entrou na estadia irritado e com um comentrio crtico na ponta da lngua.
       Que teria sido totalmente desperdiado, decidiu, j que Moira estava dormindo; acomodada em um dos sofs.
       E agora que demnios supunha que devia fazer? Deixar que seguisse dormindo, despert-la e faz-la beber a maldita infuso?
       Sem acabar de decidir-se, ficou onde estava, estudando-a.
       Bastante bonita, pensou; com um grande potencial de grande beleza se esforava. Ao menos, quando dormia, seus olhos no pareciam que fossem tragar se seu 
rosto, e a qualquer a quem ela apontasse com esses grandes e amendoados faris cinza.
       Houve um tempo em que Cian teria encontrado divertido corromper e desonrar essa classe de inocncia. Esfol-la lentamente, capa detrs capa, at que j no 
ficasse nada dela. Mas agora preferia a simplicidade das mais experimentadas; mulheres que o faziam pela mesma razo que ele. Umas horas de calor na escurido.
       Criaturas como Moira exigiam um grande esforo. No podia recordar quando tinha sido a ltima vez que tinha estado o bastante excitado para jogar com uma 
delas.
       Finalmente, decidiu deixar a bandeja sobre a mesa. Se ela despertava, beberia a infuso. Se no o fazia, bom, o sono tambm lhe serviria para recuperar foras.
       Em qualquer caso, ele teria completo com sua tarefa.
       Aproximou-se da mesa e apoiou a bandeja com apenas um tinido da porcelana contra a madeira. Contudo, ela se agitou. Um leve gemido, um pequeno tremor. Cian 
retrocedeu sem apartar os olhos de seu rosto... E foi o bastante imprudente para colocar-se sob um fino raio de sol.
       A dor instantnea e lacerante no ombro fez que amaldioasse em voz baixa enquanto se afastava rapidamente da luz. Zangado com a Glenna, consigo mesmo e com 
a Rainha adormecida, voltou-se para partir.
       Moira comeou ento a agitar-se em sonhos, pequenos sons aterrorizados ferviam em sua garganta. Seu corpo se converteu em um tenso novelo enquanto tremia. 
E, em sonhos, comeou a dizer entre ofegos.
       -No, no, no.
       Uma e outra vez, at que passou a um galico ininteligvel.
       Moira se revolveu no sof colocando-se de barriga para cima e ficando logo quieta, ao tempo que deixava por completo exposta sua garganta.
       Cian se moveu veloz para o espao entre o sof e a mesa.Logo, inclinando-se sobre a Moira, sacudiu-a com fora.
       -Acordada -lhe ordenou. - J basta. No tenho pacincia para isto.
       Ela se moveu depressa, mas Cian ainda mais lhe fazendo soltar a estaca que sustentava na mo. A pea de madeira foi cair a trs metros de distncia.
       -No faa isso. -Agarrou-lhe a mo e sentiu que seu pulso golpeava como uma bigorna contra seus dedos. - A prxima vez que o faa, romperei-te o pulso como 
se fosse um ramo, prometo-lhe isso.
       -Eu... Eu... Eu...
       -Responde. Entende o que te digo?
       Os olhos da Moira, enormes e frgeis pelo medo, percorreram a habitao.
       -Ela estava aqui, estava aqui. No, no, aqui no. -Moira se ajoelhou no sof, apertando o brao de Cian com sua mo livre. - Onde est? Onde? Ainda posso 
cheir-la. Muito doce, muito denso.
       -Basta. -Cian lhe soltou o pulso para agarrar a dos ombros. Uma nova sacudida fez que seus dente tocassem castanholas. - Estava dormida, estava sonhando.
       -No. Eu estava... Estava? No sei. No est escuro. Ainda no obscureceu, mas era... -Apoiou as mos sobre o peito de Cian, mas em lugar de lhe empurrar 
para apart-lo, como ele esperava, Moira simplesmente recostou a cabea nele. - O sinto. Sinto muito. D-me um momento.
       Cian reprimiu o impulso de lhe acariciar o cabelo... Aquela larga e grosa trana da cor do carvalho escuro. Deixou cair a mo a um lado do corpo.
       -Ficaste-te dormida no sof -disse com voz apagada, quase indiferente. - Tiveste um sonho. Agora est acordada.
       -Acreditava que Lilith... -Retrocedeu. - Estive a ponto de te cravar a estaca.
       -No. Nem por indcio.
       -No queria... Nunca o tivesse feito. -Fechou os olhos em um evidente esforo de procurar um pouco de serenidade. Quando voltou a abri-los, seu olhar era 
mais claro e mais direto. - O sinto muito, mas por que est aqui?
       Cian se fez a um lado e assinalou a mesa. Agora a expresso da Moira era de surpresa.
       -Voc...Voc me preparou ch e biscoitinhos?
       -Glenna -a corrigiu ele, surpreendentemente incmodo ante essa idia. - Eu s sou o menino dos recados.
       -Hum. De todos os modos foi muito amvel de sua parte. No tinha inteno de dormir. Depois de que Larkin se foi a sua habitao, pensava ler. Mas...
       -Ento bebe sua infuso.  provvel que depois fique melhor. -Quando Moira se limitou a assentir e no fez nenhum movimento, Cian elevou a vista ao teto. 
- Limo ou nata, ao seu ch?
       Ela levantou a cabea para olh-lo.
       -Est zangado comigo e quem poderia te culpar por isso? Trouxeste-me uma taa de ch e eu estive a ponto de te matar.
       -Ento no desperdice meu tempo nem a maldita infuso.
       Aqui tem. -Ps a taa entre suas mos. - Bebe-a. Ordens da Glenna.
       Moira bebeu um gole sem deixar de olh-lo.
       -Est muito boa.
       Logo seus lbios tremeram e os olhos lhe encheram de lgrimas.
       Cian sentiu que lhe esticava o estmago.
       -Deixarei-te com a bebida ento, e com suas lgrimas.
       -No fui o bastante forte. -As lgrimas no caram, simplesmente brilhavam em seus olhos como gotas de chuva entre a nvoa. - No pude lhes ajudar a manter 
o encantamento. No pude faz-lo, de modo que se tem quebrado, feito pedaos, e foi como fragmentos de vidro que nos atravessassem. No pudemos tirar nenhum dos 
outros; a nenhum mais dos que estavam encerrados nas jaulas.
       Cian se perguntou se devia lhe dizer que Lilith se limitaria a substituir aos que se levaram. Provavelmente o dobro desse nmero, por causa de sua fria.
       -Est esbanjando o tempo te culpando e te compadecendo de ti mesma por isso. Se tivessem podido fazer mais, teriam-no feito.
       -No sonho, ela h dito que no se incomodaria em beber meu sangue. Que ao ser a menor e dbil, no mereceria a pena tomar-se essa molstia.
       Cian se sentou  mesa, frente a ela, e agarrou um de seus biscoitinhos.
       -Ela mente.
       -Como sabe?
       -Sou uma criatura da noite, recorda? A menor  freqentemente a mais doce. Uma espcie de aperitivo, se o preferir. Se eu ainda tivesse o hbito, morderia-te 
em um abrir e fechar de olhos. -Moira deixou a taa no prato e o olhou com o senho franzido.
       - isso, acaso, uma espcie de estranho cumprimento?
       -Toma-o como mais voc goste.
       -Bom. Obrigado... Suponho.
       -Termina sua bebida. -levantou-se. - E lhe pea a Glenna algo para bloquear os sonhos. Certamente possa te ajudar.
       -Cian -disse ela quando ele se afastava para a porta. - Obrigado. Por tudo.
       Ele se limitou a assentir e abandonou a biblioteca. Mil anos, pensou, e ainda era incapaz de entender aos humanos... Em particular s mulheres.
      
       Blair bebeu a infuso que Glenna tinha preparado e decidiu que se deitaria uma hora com os fones postos. Em circunstncias normais, a msica lhe tranqilizava 
a mente, dava-lhe o tempo que necessitava para limpar-se e recuperar foras. Mas agora tudo seguia girando ao redor da espiritual voz de fundo do Patty Griffin.
       O mar, os escarpados, a batalha. O momento, quando o cu se obscureceu, de absoluta certeza de que tinha chegado ao final do caminho. E aquela diminuta e 
fria semente de alvio em seu interior ante o fato de que tudo, finalmente, tivesse terminado.
       Blair no desejava absolutamente a morte -pensou. - No a queria. Mas havia esse lugar pequeno e secreto em seu interior que estava cansado, to horrivelmente 
cansado da solido; de ser o que era, e que o que tinha que fazer lhe ordenasse permanecer sozinha.
       S com sangue e morte e com uma violncia interminvel.
       Isso j lhe havia flanco o amor de um homem ao que tinha querido com todo seu corao e o futuro que ela tinha acreditado que teriam juntos. Foi ento quando 
comeou tudo?, Perguntou-se. Foi ento quando essa pequena semente ficou plantada em seu interior? A noite em que Jeremy se afastou dela?
       Penoso, pensou, tirando-os fones. Pattico. Acaso ia permitir que sua psique fosse alterada desse modo por um homem... E por um que no tinha sido o bastante 
homem para enfrentar a situao? Aceitaria acaso a morte s porque ele no a tinha aceito a ela como era?
       Todo isso no eram mais que tolices. Voltou-se de lado, abraando o travesseiro enquanto contemplava a luz minguante atravs da janela.
       S havia tornado a pensar no Jeremy porque Larkin a tinha excitado. No queria voltar a interessar-se por um homem, sentir-se arrastada por toda essa emoo.
       O sexo estava bem, era agradvel sempre que no significasse mais que alvio e liberao. Blair no podia voltar a passar por toda a dor, pela horrvel sensao 
de abandono que lhe tinha deixado o corao como uma massa tremente e sangrenta dentro do peito.
       Ningum permanecia, pensou enquanto fechava os olhos. Nada era para sempre.
       Deixou-se levar pela msica, leve e distante, que seguia fluindo dos fones.
       Enchia-lhe a cabea; a msica era o excitado pulsar de seu prprio sangue. Estava quase amanhecendo e acabava de terminar o trabalho da noite, mas se sentia 
to cheia de energia, to avivada, que poderia continuar durante horas.
       Olhou-se enquanto percorria o ltimo quarteiro que a separava de sua casa. Tinha estragado outra saia. Esse trabalho, pensou, estava causando estragos em 
seu guarda-roupa. Tinha-a rasgada e manchada de sangue, e seu ombro esquerdo era uma mescla de contuses e uma dor pulsante.
       Mas se sentia to animada!
       A rua, naquela zona residencial, estava tranqila e silenciosa; todo mundo estava dormindo e a salvo. E quando o sol se elevou no cu, as cerejeiras silvestres 
e as magnlias se mostraram em todo seu esplendor. Podia cheirar o aroma dos jacintos, e aspirou profundamente o ar doce e suave da primavera.
       Era a manh de seus dcimo oitavo aniversrio, de modo que ia lavar se, descansar, e logo dedicaria um monto de tempo a ficar irresistvel para uma entrevista 
muito ardente.
       Quando abriu com a chave a porta principal da casa onde vivia com seu pai, deslizou a bolsa que tinha pendurada do ombro so e a deixou cair ao cho. Tinha 
que limpar suas armas, mas antes precisava beber vrios litros de gua.
       Ento viu as malas junto  porta, e a excitao que sentia se desvaneceu.
       Seu pai baixou a escada com o casaco j posto. Era to bonito..., pensou nesse momento. Alto e moreno, com aquele rosto bem cinzelado e uns olhos penetrantes. 
Apenas umas fibras de prata no cabelo. Um mundo de amor e desdita se abriu em seu interior.
       -Assim retornaste -disse ele lhe olhando a saia. - Se for permitir que lhe manchem de sangue, te leve roupa para te trocar. Chamar a ateno se for por a 
deste jeito.
       -Ningum me viu. Aonde vai?
       -A Romnia. Investigao, principalmente.
       -Romnia? Poderia ir contigo? Eu gostaria de muito ver...
       -No. Deixei-te um talonrio de cheques. Deveria ser suficiente para levar a casa durante vrios meses.
       -Meses? Mas... Quando pensa voltar?
       -No voltarei. -Agarrou uma pequena mala e a pendurou do ombro. - J tenho feito por ti tudo o que podia. Tem dezoito anos, j  maior.
       -Mas... No pode... Por favor, no te parta. O que  o que tenho feito?
       -Nada. Pus a casa em seu nome. Pode ficar aqui ou vend-la. V aonde goste.  sua vida.
       -Mas por qu? Como pode me abandonar deste modo?  meu pai.
       -Treinei-te na medida de minhas possibilidades, e das tuas. No h nada mais que possa fazer por ti.
       -Poderia ficar comigo. Poderia me amar, embora s fosse um pouco.
       Seu pai abriu a porta e agarrou as malas. No era pesar o que ela viu em seu rosto, a no ser ausncia. Compreendeu ento que j se partiu.
       -Meu vo sai cedo. Se necessitar algo mais, enviarei para busc-lo.
       -Significo algo para ti?
       Ele a olhou fixamente  cara.
       - meu legado -disse e saiu pela porta.
       Ela chorou,  obvio, e ficou ali sozinha, com a primavera flutuando na fragrante brisa.
       Cancelou a entrevista e passou o dia de seu aniversrio s em sua casa. Uns poucos dias mais tarde, estava sentada no cemitrio, tambm sozinha, preparando-se 
para destruir aquilo no que se converteu o menino que gostava.
       Durante o resto de sua vida no deixaria de perguntar-se se ele teria vivido se no tivesse anulado aquela entrevista.
       Agora estava de p no dormitrio de seu apartamento de Boston, frente ao homem em quem tinha derrubado todo seu amor e suas esperanas.
       -Jeremy, por favor, nos sentemos. Temos que falar disto.
       -Falar? -Em seus olhos persistia aquela expresso emocionada enquanto colocava a roupa dentro de uma bolsa de pele. - No posso falar disto. No quero saber 
nada de tudo isto. Ningum deveria.
       -Equivoquei-me. -Alargou a mo para toc-lo, mas ele se apartou com um gesto to cortante e dissuasivo que ela sentiu que lhe cortava at o osso. - No deveria 
te haver levado comigo, no deveria te haver mostrado nada. Mas no quis me acreditar quando lhe tentei explicar isso.
       -Que te dedica a matar vampiros? No que estaria pensando, olhe que no te acreditar?
       -Tinha que lhe mostrar isso No podamos nos casar sem que voc soubesse tudo a respeito de mim. No era justo para ti.
       -Justo? -voltou-se, e ela pde ver aquilo claramente refletido em seu rosto. No s medo, no s ira. Tambm repugnncia. -Isto  justo? Voc me mentindo 
e me enganando todo este tempo?
       -Eu nunca te menti. Omiti, e o sinto. Deus, sinto-o tanto, mas no era algo que pudesse te haver explicado a primeira vez... E depois no sabia como te dizer 
o que era, o que fazia.
       -O que voc ,  um monstro.
       Ela jogou a cabea para trs como se a tivesse esbofeteado.
       -No sou nenhum monstro. Sei que est zangado, mas...
       -Zangado? No sei quem , o que . Cristo, com o que estive dormindo todos estes meses. Mas h algo que sim sei. Quero que te mantenha longe de mim, longe 
de minha famlia e de meus amigos.
       -Necessita tempo, entendo-o, mas...
       -Dei-te todo o tempo que vais obter de mim. Pe-me doente te olhar.
       -J  suficiente.
       - mais que suficiente. Cr que poderia me deitar contigo, que poderia voltar a te tocar depois disto?
       -Mas o que te passa? -contra-atacou ela. - O que tenho feito serviu para salvar vidas. Isso teria matado a gente, Jeremy. Tivesse caado e assassinado a pessoas 
inocentes. Eu o impedi.
       -Isso no existe. -Arrastou a bolsa fora da cama que tinham compartilhado durante quase seis meses. - Quando me partir daqui, isso no existir; e voc tampouco.
       -Acreditava que me amava.
       -Ao parecer, ambos estvamos equivocados.
       -De modo que te partir -disse ela sem levantar a voz -e eu deixarei de existir.
       -Assim .
       No era a primeira vez, pensou; no, no o era. O outro nico homem a quem tinha amado tinha feito o mesmo. Tirou-se lentamente o anel de prometida do dedo.
       -Ser melhor que fique com isto.
       -No o quero. No quero nada que haja tocado -respondeu ele, e se afastou para a porta; olhou atrs s uma vez. - Como pode viver contigo mesma?
       -Eu sou tudo o que tenho -replicou ela a uma habitao vazia. Logo guardou o anel em uma gaveta da cmoda, ajoelhou-se no cho e chorou.
       
      Os homens so criaturas realmente detestveis. Usam s mulheres e logo as abandonam. As deixam sozinhas e mudadas,  melhor deix-los primeiro, no cr? Melhor 
ainda, lhes pagar com a mesma moeda e deix-los feridos.
       Est doente, e cansada de ser a que abandonam, verdade? E toda essa luta, toda a morte. Eu posso te ajudar. Eu gostaria de muito poder te ajudar.
       Por que no falamos disso, voc e eu? S ns, as garotas. Tomemos umas taas e amassemos aos homens, o que me diz?
       No vais pedir-me que entre?
      
       Blair estava de p junto a janela, e o rosto que havia atrs do cristal escuro lhe sorria. Suas mos sujeitaram a janela, e comearam a subi-la.
       Date pressa. Abre-a. deixe-me entrar, Blair.  o nico que tem que fazer.
       Ela abriu a boca, as palavras j em sua mente.
       Ento, algo voou para ela desde atrs e a lanou ao outro extremo da habitao.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
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       O que flutuava fora da janela lanou um grito de fria. O cristal pareceu vibrar com o som, quase curvar-se por causa da presso.
       Logo desapareceu, uma mancha em movimento. Blair sentiu que a habitao girava a seu redor.
       -OH, no, no o far. Nada disso. -Larkin a colheu com fora dos ombros e a ajudou a incorporar-se. - Que demnios estava fazendo?
       O rosto dele se enfocava e desfocava.
       -Vou sair. Sinto muito.
       O seguinte que se inteirou foi de que voltava em si em sua prpria cama, com o Larkin lhe golpeando brandamente as bochechas.
       -Ah, bem. Esta vez fica conosco, quer, muirniri? Vou procurar a Glenna.
       -No, espera. Me d um minuto. S estou um pouco enjoada. -Blair fez um esforo para tragar e se apertou com fora a mo sobre o estmago. -  como se tivesse 
bebido muitas margueritas. Devo ter estado sonhando. Acreditava que... Estava sonhando?
       -Estava junto  janela, a ponto de abri-la. Ela estava fora; de algum jeito tinha chegado at aqui. A francesa.
       -Lora. Ia pedir lhe que entrasse na casa. -voltou-se para o Larkin com um olhar horrorizada. - OH, Meu deus, ia pedir lhe que entrasse. Como pode ser?
       -Parecia estar... Mau. Estava dormida, mas tinha os olhos abertos.
       -Sonambulismo. Um estado de transe. Colocaram-se dentro de minha cabea e me tm feito algo. Os outros!
       Larkin a obrigou a permanecer deitada quando ela tentou sair da cama.
       -Esto todos abaixo, na cozinha, onde Glenna est preparando a comida, Deus a benza. H-me dito que subisse para te buscar. Bati na porta mas no respondeste. 
-Olhou para a janela e sua expresso se escureceu. - Estava a ponto de partir, pensando que estava dormida e que poderia me comer sua rao, mas ento me pareceu 
ouvir algo... Ouvi que ela falava contigo.
       -Se a tivesse deixado entrar... At agora, no podiam controlar sua mente se no tinha sido mordido. Algo novo. Ser melhor que baixemos e o contemos a outros.
       Larkin lhe acariciou brandamente o cabelo.
       -Ainda est abalada. Poderia te levar em braos.
       -Arrumado a que sim. -Fez com que sorrisse. - Possivelmente a prxima vez. -sentou-se na cama, inclinou-se para frente e lhe roou os lbios com os seus. 
- Obrigado por me salvar.
       -Foi um prazer.
       Agarrou-a da mo para ajud-la a descer da cama e logo a sujeitou entre seus braos quando Blair se cambaleou.
       -Uau. Estou enjoada. Tm-me feito algo, Larkin. Utilizaram lembranas e emoes. Material privado. Isso me enche o saco.
       -Estaria-o muito mais se ela tivesse conseguido que a convidasse a entrar.
       -Bom argumento. Muito bem, agora baixemos e...
       Blair voltou a cambalear-se e amaldioou.
       -Depois de tudo, teremos que faz-lo a minha maneira -disse Larkin levantando-a em braos.
       -S necessito um minuto para encontrar meu equilbrio.
       -Pois me parece bastante equilibrada. -Olhou-a e sorriu lentamente. - Tem umas formas encantadoras. E eu gosto que a roupa que leva no as oculte. Neste momento, 
tem alm disso uma agradvel fragrncia para acompanh-las. Um pouco como a mas verdes.
       -Est tratando de me distrair do fato de que estive a ponto de convidar para jantar a um vampiro?
       -Funciona?
       -Um pouco.
       -Ento tentemo-lo um pouco mais.
       Larkin se deteve, inclinou a cabea e cobriu a boca de Blair com a sua.
       Um rpido sobressalto. O beijo no era to brincalho como o anterior, e Blair se deu conta de que Larkin sentia uma grande quantidade de ira e temor. No 
recordava quando tinha sido a ltima vez que algum tinha sentido temor por ela. Respondeu ao beijo antes de poder conter-se, fundindo-se com sua boca, enredando 
os dedos em seu cabelo, enchendo com ele aquela dolorosa solido que a tinha seguido fora do sonho.
       -Absolutamente eficaz -murmurou quando Larkin elevou novamente a cabea.
       -Bom, ao menos h devolvido a cor a suas bochechas, de modo que por agora est bem.
       -Ser melhor que me baixe. Se me levar at ali em braos, os outros se assustaro. E j estaro bastante assustados quando lhes contarmos o que aconteceu.
       A baixou at que seus ps tocaram o cho, mas lhe manteve os braos ao redor da cintura.
       -Suficientemente firme?
       -Sim, melhor, de verdade.
       Larkin, Contudo, agarrou-a do brao enquanto percorriam o resto do caminho at a cozinha.
      
       -Se podem fazer isto, por que no o tm feito antes?
       Hoyt estava sentado no comilo,  cabeceira da mesa, com o fogo crepitando a suas costas. Olhou a Cian, que estava sentado no outro extremo.
       -Nunca tive notcia de algo assim antes de agora -respondeu seu irmo encolhendo-se de ombros; provou o pescado que tinha preparado Glenna. - Se houver uma 
conexo pessoal entre o vampiro e o humano, sim; um convite pode ser induzido ou conseguido mediante adulaes, mas isso se deve em geral  negao instintiva dos 
humanos daquilo que vem. Esta  uma questo diferente, e segundo o que voc e Larkin dizem, estava dormindo.
       -Sempre h uma primeira vez para tudo. -Blair no tinha fome, mas comia porque necessitava combustvel. - Em nossa equipe temos membros com capacidades para 
a magia. De modo que, obviamente, ela tambm os tem. Uma espcie de encantamento.
       -Eu fiquei dormida na biblioteca e... -Moira bebeu um pouco de gua para umedec-la garganta. - Passou uma coisa. No o mesmo que a ti, Blair, no exatamente, 
mas era como se Lilith estivesse ali comigo. Melhor dizendo, eu com ela, e no na biblioteca. No estvamos aqui a no ser em meu quarto, em minha casa. No Geall.
       -O que passou? -perguntou Blair. - Pode record-lo?
       -Eu... -Moira fixou o olhar no prato enquanto suas bochechas se tingiam de vermelho. - Eu estava dormindo e parecia como se ela estivesse ali; to real como 
voc agora. Metia-se na cama comigo e ela... Tocava-me. Podia sentir suas mos sobre meu corpo.
       -Isso no  incomum. -Blair jogou com seu pescado. - O sonho, a claridade do mesmo, possivelmente, mas o contedo. Os vampiros so criaturas sexuais e, com 
muita freqncia, bissexuais. Parece como se Lilith tivesse estado provando coisas contigo, jogando.
       -Eu tive uma experincia pouco depois de que chegssemos aqui -interveio Glenna. - Depois tomei precaues, protegi-me no sonho. Foi estpido, estpido de 
minha parte no ter pensado em proteger tambm a outros.
       -Bom, isso constar em seu expediente. -Blair agitou o garfo em direo a ela. - Glenna no pensa em tudo.
       -Agradeo que me perdoe o descuido, mas teria que ter pensado nisso.
       -Bom, sem dvida o pensaremos agora, porque no vamos a permitir que esses monstros lhe faam algo a um de ns e devam danar a valsa nesta casa -a tranqilizou 
Blair.
       -Tm a algum com muitssimo poder. E no  um vampiro. -Moira olhou a Cian em busca de confirmao e ele assentiu ligeiramente. - Tenho lido que h alguns 
vampiros que podem provocar um transe, mas para consegui-lo tm que estar fisicamente com a vtima. Ou lhes haver mordido previamente. A mordida provoca uma conexo, 
um vnculo entre eles de tal modo que a pessoa, o humano, pode ficar sob controle do vampiro.
       -Em nosso caso no morderam a ningum -assinalou Blair.
       -Aye. E voc estava dormindo, igual a eu..., como Glenna quando chegamos  casa. No podia te hipnotizar com o olhar enquanto dormia.
       -Um vampiro precisa fazer um grande esforo para enfeitiar a um humano. Investir um monto de energia -explicou Blair. - E ter muita prtica.
       -Assim  -confirmou Cian.
       -De modo que converteram a um Feiticeiro ou uma Bruxa em um deles -concluiu Hoyt.
       -No. -Moira se mordeu o lbio. - No acredito, se o que tiver lido nesses livros  verdade. O vampiro pode obter poder bebendo sangue de poder, mas este 
ao final se debilita. E se a pessoa que possui poder  convertida, perder a maior parte, se no toda, sua magia.  o preo que ter que pagar pela imortalidade. 
O demnio em que se transforma perde o dom; ou retm s alguns vestgios do mesmo.
       -Ou seja que  mais provvel que tenha bruxas ou o que seja entre os seus, por diz-lo de algum jeito. -Blair refletiu sobre isso enquanto comia. - Algum 
que j est no lado escuro. Ou algum a quem Lilith tenha subjugado. Um meio vampiro. Um muito poderoso.
       -No tem que ser assim. -A diferena de outros, Larkin j tinha acabado toda a comida que tinha em seu prato e se estava servindo mais. - Estive escutando 
tudo o que ho dito.
       -Como  que seus ouvidos seguem funcionando tendo a boca to ocupada? -perguntou Blair.
       Larkin sorriu enquanto se servia mais pescado e mais arroz.
       - uma comida muito boa -disse a Glenna. - Se no a como, como saberia a avaliao?
       -Eu gostaria de te dizer onde poderia colocar toda essa avaliao, mas estava dizendo algo -acrescentou Blair, assinalando-o.
       -Estas coisas que ho dito ocorreram sempre durante o sono, de modo que parece que o encantamento no atua sobre a mente consciente. No se necessitaria mais 
poder para... -Larkin recorreu s palavras empregadas pelo Blair. -.. Para lhe fazer algo a algum quando est acordado e consciente?
       -Sim -assentiu Hoyt. -  obvio que sim.
       -E no s dormindo, ao menos no hoje. Moira estava quase enferma de esgotamento por causa de sua interveno no que tm feito no escarpado. Blair tambm 
estava exausta. No sei como estava voc quando te aconteceu, Glenna, mas...
       -Estava derrotada... Esgotada, perturbada. No pensei em tomar precaues antes de me colocar na cama.
       -A o tm ento.  no s quando se est dormido, mas tambm quando se est dormindo, o corpo est debilitado e a mente se acha em seu momento mais vulnervel. 
De modo que acredito que, seja o que for o que ela esteja utilizando, ou a quem est utilizando, no  to forte como o que temos aqui, nesta mesa.
       -Estiveste escutando com ateno. -Blair o olhou. -Aqui o menino drago h dito algo importante. Ela o tentou quando nossas defesas estavam mais baixas, e 
a ponto esteve que consegui-lo. O que fazemos a respeito?
       -Hoyt e eu trabalharemos no amparo. At agora estive usando o escudo mais bsico. -Glenna olhou ao Hoyt. - Melhoraremos.
       -No estaria mal se pudssemos fazer algo para a casa -assinalou Blair. - Alguma espcie de encantamento geral para que no possam entrar, nem sequer com 
um convite.
       -No pode bloquear um convite. -Cian se reclinou em sua cadeira, com sua taa de vinho. - Pode apart-la com o encantamento adequado, mas no pode bloquear-se.
       -De acordo, possivelmente no. Ento, talvez algo que sirva para ampliar o permetro, que cr uma rea segura ao redor da casa.
       -Tentamo-lo. -Hoyt apoiou a mo sobre a da Glenna. - E no fomos capazes de encontrar a maneira de faz-lo.
       -Algo que funcionasse poderia ser outra capa. Quantas mais capa tenham que atravessar, melhor. Pensem em uma zona livre de vampiros -prosseguiu Blair.
       -Talvez eu deveria me mudar a uma bonita estalagem -sugeriu Cian, fazendo que Blair o olhasse com o senho franzido, at que entendeu o significado de suas 
palavras.
       -OH. OH,  verdade. Sinto muito. Esqueci-me. No podemos ter uma zona livre de vampiros com um vampiro dentro da casa.
       -No encontramos uma maneira de lhe excluir do encantamento de amparo -explicou Glenna. - Temos algumas idias. Em realidade so esboos mais que idias -reconheceu. 
- E Hoyt esteve trabalhando durante algum tempo para criar uma espcie de escudo para ti, Cian; para que possa sair fora da casa durante o dia. Ao sol.
       -Outros o tentaram antes e fracassaram. No pode fazer-se.
       -Antes a gente estava acostumada acreditar que o mundo era plano -assinalou Blair.
       - verdade. -Cian se encolheu de ombros. - Mas eu diria que, se pudesse fazer-se, nos milhares de anos que levamos de existncia j se teria feito. E experimentar 
com isso neste momento no  a melhor maneira de empregar o tempo.
       - meu tempo -disse Hoyt.
       -Hoje poderamos te haver utilizado. -Glenna falou depois de um momento de silncio. - No Kerry, nos escarpados. Merece a pena lhe dedicar tempo. Acreditam 
que teramos mais xito se pudssemos ter um pouco de seu sangue.
       -OH! -espetou Cian secamente. - Isso  tudo?
       -Pensa nisso. Contudo, nossa primeira prioridade ser o amparo. Hoyt e eu nos encarregaremos disso. -E Glenna apertou a mo do Hoyt. - Por que no nos pomos 
em marcha?
       -Enquanto isso, que ningum durma at que tenhamos amparo. Tenho algumas cruzes extras e um pouco de gua benta em minha equipe. -Blair se levantou. - Cian, 
a menos que esteja planejando sair, eu gostaria de colocar algumas precaues bsicas em portas e janelas.
       -Adiante. Mas essa classe de quinquilharias no anular um convite.
       -Capas -disse Blair outra vez.
       -Eu te ajudarei. -Larkin apartou seu prato. - H muitas portas e janelas.
       -De acordo, dividiremo-nos em grupos. Hoyt e Glenna, magia. Larkin e eu faremos o que possamos para bloquear todas as entradas. Isso deixa a Cian e Moira 
a cargo da cozinha.
       No era que no confiasse no Hoyt e Glenna... Confiava tanto como nunca antes o tinha feito com ningum. Tampouco se tratava de que no estivesse aberta  
magia. Tinha que est-lo.
       Mas inclusive com o amuleto debaixo do travesseiro, a vela acesa e o segundo amuleto pendurando junto com a cruz na janela, aquela noite Blair teve um sono 
agitado.
       E a noite seguinte.
       O treinamento ajudava; o esforo fsico como tal, e o propsito do mesmo. Blair se esforava, e muito. Ningum, nem sequer ela, acabava o dia sem machucados 
e os msculos doloridos. E ningum, nem sequer ela, acabava a jornada sem ser cada dia um pouco mais forte, um pouco mais rpido.
       Via florescer a Moira... Ou assim o parecia. O que faltava em fora, compensava-o com velocidade e flexibilidade. E com uma absoluta determinao.
       E, com um arco nas mos, ningum era capaz de competir com ela.
       Glenna aperfeioava as habilidades que j possua: a astcia, os slidos instintos. E estava progredindo com a espada e a tocha.
       Hoyt punha uma grande intensidade em tudo o que fazia. J lutasse com uma espada, com um arco ou com as mos, tinha uma concentrao quase inaltervel. Blair 
o considerava como o mais confivel dos soldados.
       E a Cian como o mais elegante e malvado. Ele tinha a fora superior dos de sua espcie, assim como a destreza animal, mas a todas essas qualidades acrescentava 
estilo. Cian podia matar, pensava Blair, com violenta elegncia.
       Larkin era em troca lutadora por antonomsia. No combate corpo a corpo era um aspirador e simplesmente se negava a render-se. No tinha a intensidade do Hoyt 
nem a elegncia de Cian com uma espada, mas brigava sem descanso at que derrotava a seus oponentes, ou estes se derrubavam exaustos. Tinha boa pontaria com o arco. 
No tanta como Moira, mas quem a tinha?
       E nunca sabia quando se tiraria da manga um de seus pequenos truques; de modo que a gente acabava lutando com um homem com cabea de lobo, garras de urso 
ou cauda de drago.
       Era hbil e eficaz.
       E endiabradamente sexy.
       Havia momentos que a impacientava. Era muito impulsivo e, freqentemente, ostentoso.  maneira do Errol Flynn, pensou. E os exibicionistas freqentemente 
acabavam mordendo o p.
       Mas quando pensava nisso, de poder escolher s pessoas que queria que lutassem junto a ela na batalha para salvar ao mundo, no teria eleito a outros.
       Entretanto, inclusive os soldados que participavam da guerra para acabar com as guerras precisavam comer, fazer a penetrada e tirar o lixo.
       Blair foi ao povo em busca de provises porque queria desesperadamente sair da casa. Dois dias de chuva tinham limitado as atividades ao ar livre e estava 
inquieta e nervosa. Se uma pessoa, s uma, dizia que a chuva era o que fazia que a Irlanda fosse to verde, partiria-lhe a cabea em duas com uma tocha.
       Por outra parte, da noite de seu encontro com a Lora no tinha havido nenhum sinal do inimigo. E essa calma temporria acentuava sua inquietao e aumentava 
sua crispao.
       Algo se estava cozendo. Seguro.
       Blair teria preferido ir sozinha, dispor de um par de horas para si mesma, com seus prprios pensamentos, com sua nica companhia. Mas teve que aceitar que 
se tratava de um risco desnecessrio. Contudo, tinha fixado um limite ao negar-se a lhe dar ao Larkin uma lio de conduo durante a viagem ao Ennis.
       -No sei por que no posso faz-lo. - queixou ele. - Observei a Glenna quando conduz esta coisa. E ensinou ao Hoyt.
       -Hoyt conduz como um velho cego da Florida.
       -No sei o que significa isso, exceto se trata de um insulto de alguma classe. Mas eu poderia fazer o melhor que ele com este traste, ou com essa outra beleza 
que Cian guarda no estbulo.
       -Garagem. Os carros se guardam na garagem e Cian deixou muito claro que morder e sangrar a qualquer que toque seu Jaguar.
       -Poderia me ensinar a conduzir com este. -Estirou a mo e deslizou um dedo pelo flanco de seu pescoo. - Seria um aluno muito bom.
       -O encanto no te vai funcionar. -Acendeu a rdio. - Escuta a msica e desfruta de do passeio.
       Larkin levantou a cabea
       - parecida com a msica do Geall.
       -Emissora irlandesa, msica tradicional.
       - maravilhoso, no cr? Poder ter msica com apenas estalar os dedos. Ou te transladar to depressa de um lugar a outro em uma mquina.
       -No no meio do trfego de Chicago. Ali, passa-te um monto de tempo sentado no carro, amaldioando em lugar de te mover.
       -Me fale de sua Chicago.
       -No  minha Chicago.  s o lugar onde estive vivendo nos ltimos anos.
       -Antes disso esteve no Boston.
       -Sim. -Mas Boston era Jeremy, e Blair tinha tido que afastar-se dali. - Chicago. , ah,  uma cidade. A cidade mais importante do Meio Oeste dos Estados Unidos. 
 beira de um lago... Um lago enorme.
       -Pesca nesse lago?
       -Pescar? Eu? No. Suponho que a gente o faz... Eles navegam nesse lago. Esportes aquticos e coisas assim. No inverno faz um frio de mil demnios e no poderia 
acreditar o vento que sopra.  o efeito do lago; um monto de neve e um frio que te impregna at os ossos. Mas no sei,  uma cidade com muito movimento. Restaurantes, 
lojas de departamentos, museus, clubes noturnos. Vampiros.
       -Uma cidade grande? Maior que Ennis?
       -Muito maior.
       -Como  possvel que se for uma cidade to grande e com tanta gente no se uniram para lutar contra os vampiros?
       -Eles no acreditam nos vampiros ou, se algumas pessoas o fizerem, fingem que no  assim. Se algum  atacado ou o matam, as autoridades o atribuem a bandas 
de delinqentes ou a psicopatas. Em geral, os vampiros procuram no chamar a ateno ou, ao menos, era assim at recentemente tempo. Suas vtimas preferidas so 
as pessoas sem lar, as que fugiram de suas casas, gente a que ningum sentir falta.
       -No Geall corriam lendas que falavam de criaturas que espreitavam de noite e caavam aos seres humanos em tempos remotos. Eu nunca acreditei nelas, at que 
a Rainha, minha tia, foi assassinada por elas. E inclusive ento...
       - difcil aceitar que o que lhe ensinaram  fantasia, ou impossvel. De modo que levantas um escudo.  algo natural.
       -Mas voc no -disse Larkin estudando o perfil dela. Era de rasgos marcados, sim, mas se suavizava nas bochechas, e seu cabelo escuro contrastava de forma 
encantadora com o branco da pele. -Voc sempre o soubeste. Desejou alguma vez que fora diferente? Ser uma dessas pessoas que tm um escudo? Que alguma vez souberam?
       -No tem sentido desejar o que no pode ter.
       -E que sentido tem desejar o que pode fazer e faz?
       Ele tinha razo, decidiu Blair. Em geral, tinha-a, se escutava com suficiente ateno.
       Encontrou lugar em um estacionamento e tirou o dinheiro para o tiquete. Larkin permaneceu a seu lado, com as mos nos bolsos das calas que Glenna lhe tinha 
comprado em uma viagem anterior, olhando a todas as partes.
       Era um alvio que no lhe fizesse uma dzia de perguntas. Ele j tinha estado antes no povo, mas Blair imaginava que cada visita era um pouco como um passeio 
pela Disney World.
       -No te separe de mim, de acordo? No quero ter que ir de caada para te buscar.
       -De acordo. -Agarrou-lhe a mo e a apertou ligeiramente quando ela tentou soltar-se. - No deveria faz-lo -disse com absoluta inocncia nos olhos. - Poderia 
me perder.
       -Isso  mentira.
       -Absolutamente. -Entrelaou seus dedos com os dela e ps-se a andar. - Com toda esta gente, e a rua, e os sons e as vistas, poderia perder o rumo em qualquer 
momento. No Geall, o povo no  to grande, e ali no vive tanta gente. Os dias que h mercado est mais cheio e tudo  muito colorido, mas ali sei onde estou.
       -Voc sabe onde est em todas as partes -respondeu ela com um sussurro.
       Ele tinha bom ouvido, e seus lbios esboaram um sorriso ante o comentrio.
       -Os dias que h mercado, a gente chega ao povo desde todas as partes. A comida  deliciosa...
       -O que deve ser sua primeira prioridade.
       -Um homem tem que comer. Mas tambm h tecidos e artesanato e msica. Encantadoras pedras das montanhas e conchas marinhas. E se regateia, isso  o divertido. 
Quando estivermos novamente em casa, o dia que haja mercado te comprarei um presente.
       Larkin fez um alto no caminho para estudar os objetos de lembrana e as jias que havia na cristaleira de uma loja.
       -No tenho nada com o que possa regatear, e Hoyt me h dito que no podemos usar as moedas que trago comigo. Mas voc gosta das quinquilharias. -Assinalou 
com o dedo um de seus pendentes. - De modo que o dia que haja mercado, comprarei-te algumas.
       -Estamos muito ocupados para ir s compras. Vamos. -Blair atirou de sua mo. - Estamos aqui para comprar provises, no quinquilharias.
       -No h necessidade de apressar-se. Podemos nos divertir um pouco enquanto estamos aqui. Por isso parece, no te diverte o suficiente.
       -Se em novembro ainda estamos com vida, darei cambalhotas em meio da rua. E as darei completamente nua.
       Ele a obsequiou com um de seus fulgurantes sorrisos.
       -Essa  uma razo nova e importante para que eu lute. No havia pensado nas cambalhotas, mas sim pensei em ti nua uma ou duas vezes. OH, olhe ali. Bolos!
       Sexo e comida, pensou ela. Se tivesse includo um par de cervejas e um jogo de futebol, o quadro estaria completo.
       -No. -Revirou os olhos, resignada e sem interesse algum, enquanto ele a arrastava ao outro lado da rua. - Tampouco viemos a comprar bolos. Confeccionei uma 
lista. Uma lista realmente larga.
       -Logo poderemos nos ocupar dela. V, olhe esse da. Esse grande, que tem chocolate.
       -Eclair.
       -Eclair -repetiu ele, fazendo que a palavra soasse quase como um orgasmo. - Deveria provar um, e eu tambm. -Voltou para ela aqueles olhos grandes e castanhos. 
- Sei amvel, quer, Blair? Devolverei-lhe isso.
       -Teria que estar gordo como um porco -murmurou ela, mas entrou na confeitaria para comprar dois clairs.
       E saiu levando tambm uma dzia de pasteis assados.
       No tinha a menor idia de como tinha conseguido convenc-la para que os comprasse, ou para que se desviassem de seu caminho a bisbilhotar em uma dzia de 
lojas. Ela habitualmente -demnios, sempre - podia com tudo isso.
       Ento se precaveu da forma em que olhavam ao Larkin as empregadas das lojas, outras contas, as mulheres na rua. Era muito difcil poder tambm com tudo isso, 
decidiu.
       Larkin as engenhou para conseguir que acontecessem uma hora sem fazer nada produtivo antes que ela pudesse arrast-lo a completar a lista de provises.
       -Muito bem, terminamos. No mais concesses. Agora levaremos tudo isto  caminhonete e voltaremos para casa. Acabou-se olhar cristaleiras e flertar com as 
empregadas.
       -Realmente foi vergonhoso como esbanjaste seu encanto com essa amvel mulher.
       Blair o olhou sem alterar-se. 
       - um cara verdadeiramente divertido. -Fez um gesto com o queixo. - Por ali. Sem desviar-se. 
       -Sabe?, A forma em que est construdo este povo quero dizer, a forma em que esto riscadas as ruas,  muito parecida com a do Geall. E como esto apinhadas 
as lojas. E isto tambm  muito parecido a meu povo. 
       De que pudesse lhe deter, Larkin tinha aberto a porta de um Pub. 
       -Ah, o aroma  muito familiar. E h msica. Assim que nos deteremos um momento. 
       -Larkin, devemos retornar  casa. 
       -E o faremos. Mas primeiro deveramos beber uma cerveja. Eu gosto da cerveja. 
       Posto que Blair tinha os braos carregados de bolsas e pacotes, no pde oferecer muita resistncia quando Larkin a empurrou dentro do pub. 
       - agradvel sentar-se e beber um copo de cerveja depois de toda essa caminhada -disse ele. - No  um copo -recordou. 
       -Uma pinta. Por estes lugares, habitualmente dizem pinta. 
       Blair se disse que tinha cedido pela caminhada. O homem estava exausto. E excitado. 
       Deixou cair as bolsas com as compras em cima e ao redor de uma cadeira junto a uma mesa baixa e logo se sentou. 
       -Uma cerveja. -Levantou um dedo. - E nada mais. No quero ter mais problemas contigo. 
       -Fui acaso um problema para ti? -Agarrou-lhe uma mo entre as suas e comeou a lhe beijar os dedos. - No era essa minha inteno.
       Blair entrecerrou os olhos. 
       -Espera um momento, espera um momento. Estiveste jogando comigo? Todo este assunto  a idia que voc tem de uma encontro? 
       Larkin franziu o cenho. 
       -No sei que encontro . No posso levar a conta. 
       -No, o que quis dizer ... deixa-o, no tem importncia. Uma pinta do Guinness -lhe disse  garonete que se aproximou da mesa -, e uma Harp. 
       -Que tal vai tudo? -perguntou-lhe Larkin  garonete, e o rosto da jovem se iluminou com um sorriso. 
       -Muito bem, obrigado. E a ti? 
       -Tive um formoso dia. Vive no povo? 
       -No Ennis, sim. Est de visita? 
       -Sim, estamos de visita. Minha mulher  de Chicago. 
       -OH, eu tenho primos ali. Bom, bem-vindos a Irlanda ento. Espero que estejam desfrutando da viagem. Em seguida lhes trarei as cervejas. 
       Blair tamborilou os dedos sobre a mesa enquanto lhe estudava. 
       -No precisa te pr em situao, verdade? Em ti  o natural. 
       -No sei a que te refere. 
       -No, provavelmente no. Em seu povo, as garotas tambm se comportam assim quando lhe vem? Ruborizam-se e tremem de excitao? 
       Lhe cobriu as mos com a sua. 
       -No deve ter cimes, querida. No penso em nenhuma mulher que no seja voc.
       -Te economize o flego! -No pde reprimir a risada. - No me acreditaria isso nem que fosse o fim do mundo. 
       -No h ningum aqui, ou no Geall, que me tenha atrado como voc. Pergunto-me se algum poder faz-lo agora que te vi. No  como as mulheres que conheo. 
       -No sou como as mulheres que nenhum homem conhece. 
       O sorriso se apagou dos lbios do Larkin. 
       -Voc cr que isso  teu defeito, uma falha, Ou... uma barreira -disse -, Algo que te volta menos atrativa que o resto das mulheres. E  falso. Quando digo 
que no  como as demais mulheres, quero dizer que  mais interessante, mais excitante. Mais sedutora. Basta! 
       A sbita e inesperada irritao na voz do Larkin fez que Blair reagisse. 
       -Basta o que? 
       -Outra vez puseste essa cara. A que diz tolices. Eu gosto de ser amvel com as mulheres, isso no lhe faz mal a ningum. -Larkin ficou olhando-a e, nessa 
ocasio, Blair pde comprovar que teve que fazer um esforo para lhe sorrir  garonete quando chegou com as bebidas. - Obrigado -disse a jovem. Logo levantou sua 
jarra e bebeu lentamente. 
       -Est zangado -murmurou ela, reconhecendo o brilho em seus olhos. - O que  o que tem feito que te zangasse desse modo? 
       -Eu no gosto da maneira em que te menospreza. 
       -Me menosprezar e uma... est louco?
       -Agora me escute. Hei-te dito que eu gosto de ser amvel com as mulheres e assim . Eu gosto de flertar de vez em quando e desfrutar de um queda quando posso. 
Mas nunca fao mal s mulheres, nem com minhas mos nem com minhas palavras. Eu no minto. De modo que quando te digo como te vejo,  a pura verdade. Acredito que 
 magnfica.
       Bebeu outro gole de cerveja, assentindo quando ela se limitou a olh-lo. 
       -Bom, vejo que te ficaste sem palavras. Magnfica -repetiu. - Em todos os sentidos, em seu corao e em sua mente. Magnfica pelo que faz todos os dias e 
tem feito durante anos; desde que foi pouco mais que um beb. Nunca conheci a ningum como voc e nunca o conhecerei. O que te estou dizendo  que, se um homem lhe 
olhe e no v quo maravilhosa ,  sua vista que est ruim, no voc.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      6
      
       Voltaram para a rotina, o treinamento, o planejamento da estratgia. Pelos tremores e chamas que saam da torre, Blair sabia que ali tambm se estava trabalhando 
com a magia. 
       Mas o que todos eles estavam fazendo com aquela atividade, pensava, era esperar. 
       -Temos que fazer um movimento. -Lanou uma srie de golpes rpidos contra o pesado saco de areia que tinham pendurado em um extremo do que tinha sido o salo 
de baile. - Estamos apanhados em um cacho de cabelo de tempo e j  hora de que faamos algo. Sacudir um pouco as coisas. 
       -Estou de acordo. -Larkin a olhou, perguntando-se quantos nveis de frustrao estava atravessando ao golpear esse grande saco que pendurava do teto. - Eu 
pensava em um ataque diurno s cavernas. 
       -J estivemos ali. -Blair golpeou com ambos os punhos, esquerda, esquerda, direita. - Isso j o temos feito. 
       -No, fomos ali, mas no os atacamos, verdade? 
       Molesta porque ele tinha razo... Pior ainda, porque Larkin no tinha mencionado que ela tinha estado ao bordo da morte depois da expedio ao Kerry, fulminou-o 
com o olhar. 
       -Se entrarmos ali estamos mortos. Ou ao menos a maioria de ns. 
       - possvel que seja assim, mas em qualquer caso  provvel que todos acabemos mortos antes de que isto tenha terminado. 
       Uma dura verdade, pensou ela. Inegvel. 
       -Sim, as probabilidades so essas. 
       -De modo que poderia haver uma maneira de lhes dar algo em que ocupar-se sem ter que entrar realmente nas cavernas e precipitar essa eventualidade. Embora 
eu gostaria de ter a possibilidade de faz-lo, acoss-los em seu prprio terreno, para variar.
       Agarrou uma das estacas e a lanou contra o boneco de palha que empregavam para praticar. 
       Ela entendia o sentimento e o compartilhava. Mas sabia que no deveria que sucumbir a ele. 
       -Sempre que for possvel, no se deve lutar em seu terreno ou segundo seus termos. As cavernas so um suicdio. 
       -Poderia s-lo para eles se as iluminarmos. 
       Blair lanou outro golpe e logo se voltou para ele. 
       -As iluminar? 
       -Fogo. Mas teramos que faz-lo ns dois. Os outros, Moira em particular, nunca estariam de acordo com esse plano. 
       Intrigada, Blair comeou a tirar a bandagem protetora das mos. 
       -Queria te perguntar isso, quando te transforma em drago, lana fogo pela boca? 
       Ele a olhou com expresso surpreendida. 
       -Lanar fogo? 
       -Sim. Os drages lanam fogo pela boca, verdade? 
       -No. Por que foram fazer tal coisa? Como poderiam faz-lo? 
       -Isso expe tambm a questo de como pode um homem transformar-se em drago, mas deixe estar; outra fantasia feita pedacinhos. Como pensa incendiar as cavernas? 
       Larkin levantou uma espada.
       -S seria necessrio que um de ns entrasse o suficiente, s uns metros, no interior das cavernas. Isso eu gostaria. Mas... -voltou a baixar a espada - uma 
maneira mais prtica de faz-lo seria com flechas incendirias. 
       -Disparar flechas incendirias ao interior das cavernas a plena luz do dia. Bem, isso no deveria chamar muito a ateno. No, no te estou desanimando -acrescentou 
antes que ele pudesse falar. - Um terremoto e o vo de um drago quase no fizeram pestanejar a ningum. A gente usa culos. Entretanto, h outro fator: ali dentro 
ainda h gente. 
       -Sei. Podemos salv-los? 
       -Altamente improvvel. 
       -Se eu estivesse encerrado em uma jaula, com a nica perspectiva de servir de comida a um desses monstros, ou ser convertido em um deles, preferiria me queimar 
vivo. Voc disse o mesmo. 
       -Estou de acordo contigo, mas necessitaramos um ataque a grande escala para causar algum impacto. E tampouco est equivocado quando diz que nunca conseguiramos 
convencer a outros. -Aproximou-se do Larkin e estudou seu rosto. - E voc o diz, mas no poderia faz-lo. No quando chegasse o momento. 
       Larkin foi at o boneco de palha e recuperou a estaca. Ele queria ser capaz de faz-lo; e o era, em sua cabea. Mas em seu corao... isso era outra histria. 
       -Voc poderia? 
       -Sim, eu poderia. Logo teria que viver com isso, mas o faria. Estive liberando esta guerra toda minha vida, Larkin, e no se pode evitar que baixas. Vtimas 
inocentes... danos colaterais. Se pensasse que dessa maneira poderamos acabar com este assunto, ou lhe causar um grave dano ao Lilith, j o teria feito. 
       -E cr que eu no posso faz-lo. 
       -Sei que no pode. 
       -Porque sou dbil. 
       -No. Porque no  duro. 
       Larkin girou, lanou novamente a estaca e a cravou no corao do boneco de prticas. 
       -E voc o ? 
       -Tenho que s-lo. Voc no viu o que eu vi, e ainda no sabe o que eu sei. Tenho que ser dura. O que fao me volta dura. 
       -O que voc , uma guerreira, uma caadora,  um dom e um dever. Mas endurecer-se  algo que escolhe. Eu posso fazer o que tiver que fazer; e se esse fosse 
o caminho, esse sacrifcio de homens e mulheres, viveria com isso. Doeria-me e me pesaria, mas faria o que fosse necessrio. 
       "Com o peso suficiente -pensou ela quando Larkin se apartou - te endurece ou te afunda." 
       E por isso trabalhava sozinha, recordou-se. Por isso estava sozinha. Desse modo no tinha que explicar-se, ou justificar-se. Por isso, depois da ruptura com 
o Jeremy, tinha aceito que a nica maneira de fazer aquilo para o que tinha nascido era permanecendo sozinha. 
       Nesse momento ouviu uma exploso amortecida que procedia da torre e elevou a vista. Sem dvida algumas pessoas encontravam essa intimidade, essa unidade, 
e conseguiam que funcionasse. Mas primeiro tinham que conhecer-se mutuamente, e aceitar todas as zonas escuras. No s as tolerar mas tambm as assimilar. 
       Mas como, por isso se referia a ela e a sua vida, no formava parte do jogo. Voltou a enfaixar as mos e reatou o treinamento golpeando o pesado saco de areia. 
       -Algum que conhece? -perguntou Cian da porta. 
       Blair apenas se lhe dedicou um olhar. Agora estava usando os ps alm das mos. Chutes laterais, chutes para trs, altos dobre. O exerccio era to violento 
que estava banhada em suor e sua respirao era um ofego entrecortado. 
       -A professora de lgebra de dcimo. 
       -Estou seguro de que essa mulher se merece uma boa surra. Alguma vez encontraste alguma aplicao para isso? Para a lgebra, quero dizer. 
       -Nunca. 
       Cian a olhou enquanto ela se lanava  carreira e golpeava o saco com um chute no ar que a ponto esteve de arrancar o da cadeia. 
       -Excelente estado fsico. Mas  curioso, o que vejo nesse saco  o rosto do Larkin. -Sorriu ligeiramente quando ela fez um alto para recuperar o flego e 
beber um gole de gua. - Acabo de v-lo quando baixava. Parecia zangado, o qual  muito estranho nele, j que  um moo muito afvel, no cr? 
       -Estou acostumado a provocar essas reaes na gente. 
       -Sem dvida. Larkin  um moo simptico e agradvel. 
       -Tambm eu gosto. 
       Cian atravessou a habitao para recolher vrias facas e logo comeou a lan-los ao branco que havia no outro extremo. 
       -Quando estiveste rodeado de humanos tanto tempo como eu, pode reconhecer facilmente rasgos e sinais. E, em meu lugar, sentiria curiosidade por suas escolhas. 
Por exemplo, eu me pergunto por que vocs dois no esto juntos. Tempos perigosos, possvel fim do mundo e essas coisas. 
       As costas de Blair ficaram rgidas; podia sentir literalmente o estremecimento em sua coluna vertebral. 
       -No estou acostumado a ir  cama com o primeiro cara que pe a tiro... Em caso de que fosse teu assunto. 
       - sua escolha,  obvio. -Cian se aproximou do branco e extraiu as facas. Quando retornou junto a ela, os entregou com um gesto natural, quase afvel. - Mas 
acredito que no se trata somente de que Larkin se encontre por aqui perto e esteja disponvel. 
       Blair sopesou a faca agitando-o no ar e logo o lanou para o branco. A faca se cravou no centro.  
       -A que vem este sbito interesse por minha vida sexual? 
       - s um estudo das reaes humanas. Meu irmo partiu de seu mundo para vir a este. A deusa lhe assinalou o caminho e ele simplesmente o seguiu. 
       -Hoyt no se limitou a seguir  deusa. 
       -No -conveio Cian ao cabo de um momento. - Veio encontrar a mim. Depois de tudo somos gmeos, e o vnculo  muito profundo. Alm disso, Hoyt , por natureza, 
um homem leal e responsvel. 
       Esta vez foi ela quem recuperou as facas do branco. 
       - tambm um cara poderoso e valente. 
       -Sim, -o. -Cian agarrou as facas e voltou a lan-las. -As probabilidades indicam que lhe verei morrer. Isso no  algo que eu escolheria, mas embora consiga 
sobreviver a isto, ficar mais velho, seu corpo envelhecer e morrer.
       -Um pensamento muito alegre, no cr? Pode que morra em paz, enquanto dorme, depois de uma vida larga e plena. Talvez depois de uma sesso de sexo realmente 
bom. 
       Cian esboou um leve sorriso, mas esta no alcanou seus olhos azuis e serenos. 
       -Bem morra violentamente ou por causas naturais, o resultado  o mesmo. Vi mais morte que voc, mais do que poder ver em sua vida. Mas mesmo assim, voc 
viu mais da que os humanos viram ou vero. E isso nos diferencia, a ti e a mim, do resto. 
       -Nesse aspecto no temos escolha -disse Blair. 
       - obvio que a temos. Sei um pouco a respeito da solido, e do que pode afugent-la; embora seja por pouco tempo. 
       -Ou seja, deveria me equilibrar sobre o Larkin porque estou sozinha? 
       -Essa seria uma resposta. -Voltou a recuperar as facas e, esta vez, deixou-os em seu lugar. - A outra poderia ser que o olhasse mais atentamente; a ele e 
o que ele v quando te olha. Enquanto isso, a tenso e a represso lhe outorgam uma boa vantagem. Quer que disputemos um par de assaltos? 
       -No diria que no.
      Ela se sentia melhor. Machucada, mas melhor. Nada como uma luta corpo a corpo com um vampiro -incluso com um que no queria te matar - para limpar a cabea. 
Agora baixaria  cozinha e comeria algo antes da sesso de treinamento da tarde. 
       Mas antes passaria por sua habitao e ficaria um pouco da nata mgica da Glenna nas zonas machucadas. 
       Entrou na habitao e se encontrou sobre a colina que dominava o Vale do Silncio. 
       -OH, merda. Merda, merda. No preciso voltar a ver isto. 
       -Sim o necessita. -Morrigan estava junto a ela, sua tnica azul plido flutuando ao vento. - Precisa conhec-lo, cada rocha, cada precipcio, cada fibra de 
erva. Este  seu campo de batalha. Este ser o lugar onde lutar a humanidade. No nas cavernas do Kerry. 
       -De modo que s devemos esperar? 
       -Ser muito mais que uma simples espera. Agora  caadora e presa. O que faz, o que escolhe, aproxima-te cada vez mais a isto. 
       -Uma batalha. -Blair, subitamente cansada, passou-se uma mo pelo cabelo. - Todo o resto so s combate que nos conduzem at aqui.  assim, no? Essa batalha 
acabar com tudo isto? 
       Morrigan olhou ao Blair com seus olhos cor esmeralda. 
       -Nunca se acaba. Voc sabe; em cada parte de seu corpo conhece esta nica verdade. Mas se ela vos derrota aqui, os mundos sero jogados no caos. Haver sofrimento, 
morte e tortura durante um tempo inimaginvel.
       -Entendi-o. Qual  a boa notcia? 
       -Tudo o que necessitam para vencer est em seu interior. Seu crculo tem o poder para ganhar esta guerra. 
       -Mas no para lhe pr fim. -Blair jogou novamente uma olhada ao campo de batalha que se estendia ante seus olhos,  desolao que transmitia. - Para mim nunca 
acabar. 
       -A escolha  tua, pequena, sempre foi tua. 
       -Eu gostaria de poder partir. Alguns dias o desejo com toda minha alma, e outros... Outros penso "V, olhe o que estou fazendo, o que sou capaz de fazer", 
e isso me faz sentir, bom, virtuosa, acredito. Justa, em qualquer caso. Mas algumas vezes, quando retorno a casa depois de uma caada e ali no h ningum me esperando, 
tudo me parece muito duro, muito vazio. 
       -Teriam que ter cuidado de ti e no o fizeram -disse Morrigan, agora com tom suave. - E mesmo assim, tudo o que aconteceu antes, tudo o que vive agora, tem-te 
feito como . Tem mais de uma batalha que ganhar, mais de uma busca que levar a cabo. E sempre, pequena, mais de uma alternativa. 
       -Ir no  uma delas para mim. De modo que viremos aqui e venceremos. Porque isso  o que temos que fazer. No tenho medo a morrer. No posso dizer que o esteja 
procurando, mas no tenho medo. 
       Voltou a olhar a paisagem, como a nvoa enchia as cavidades do terreno, a forma em que as rochas se elevavam nele. Ento, como sempre, essa viso fez que 
se estremecesse. Ento, como sempre, viu-se si mesmo ali tendida, em meio de um atoleiro de sangue. Morta. 
       Esteve a ponto de perguntar se o que via era real ou imaginrio, mas sabia que a deusa nunca lhe responderia. 
       -De modo que, se vou -decidiu Blair -, levarei-me a um monto deles comigo. 
       -Dentro de uma semana, vocs, o crculo de seis, iro ao Baile dos Deuses e, de ali, ao Geall. 
       Blair se voltou agora do bordo do precipcio para olhar ao Morrigan  cara. 
       -Uma semana. 
       -Uma semana a partir de hoje. J tm feito o que tinham que fazer aqui. Reuniste-lhes e agora, juntos, faro a viagem ao Geall. 
       -Como? 
       -Sabero em seu momento. Dentro de uma semana. Deve confiar naqueles que esto contigo e no que tem dentro. Se o crculo no chegar ao Geall, e a este lugar 
no momento indicado, este mundo, o teu e todos outros sero jogados na escurido. 
       O sol se ocultou. Na negrume, Blair ouviu gritos, uivos, pranto. O ar, subitamente, impregnou-se de aroma de sangue. 
       -No est sozinha -lhe disse Morrigan. - Nem sequer aqui. 
      Blair voltou para a realidade e se encontrou olhando ao Larkin aos olhos. Sentiu que os dedos dele se cravavam em seus ombros. 
       -Est aqui, agora est aqui. -Ela estava muito aturdida para apart-lo quando a atraiu para ele e a estreitou entre seus braos enquanto apertava os lbios 
contra seu cabelo. - Est aqui. - repetiu. - Era o vampiro? 
       -No. V! Tem que me soltar. 
       -Em um par de minutos. Est tremendo. 
       -No acredito. Acredito que  voc quem treme. 
       - possvel. Acaba-me de dar um susto de morte que me tirou seis vidas. -separou-se dela embora apenas uns centmetros. - Estava a de p, imvel, olhando 
o vazio. No me ouviste quando te falei. No me viu quando me pus diante de ti. E seus olhos... -Agora apertou os lbios contra sua testa, firmemente, da forma em 
que ela imaginava que os pais comprovavam se seus filhos tinham febre. - To escuros, to profundos... 
       -Era Morrigan. Levou-me a uma pequena excurso. Estou bem. 
       -Quer te deitar e descansar um momento? Relaxer. Ficarei contigo. 
       -No, hei dito que estou bem. Acreditava que estava zangado comigo. 
       -Estava... um pouco.  uma criatura frustrante, Blair, e nunca tive que trabalhar tanto para cortejar a uma mulher. 
       -Cortejar? -Algo se fechou de repente em sua garganta. - Eu no gosto desse assunto do cortejar. 
       -Isso est bastante claro, mas a mim sim. E um homem tem que dar prazer a si mesmo tanto como  mulher que lhe atrai, verdade? Mas em qualquer caso, j estivesse 
ou no zangado ou frustrado contigo, no te deixaria sozinha. 
       "Eles sempre o fazem -sussurrou uma pequena voz em sua cabea. - Cedo ou tarde." 
       -Estou bem. S um pouco abalada depois de ter recebido uma mensagem da terra dos deuses. 
       -Qual  a mensagem? 
       -Ser melhor reunimos todos e lhes darei isso quanto antes. Na biblioteca -disse ela. -  o melhor lugar.
       Passeava-se de um lado a outro da habitao esperando ao Hoyt e Glenna. Pelo visto, a magia no podia ser interrompida nem sequer por mensagens enviadas pelos 
deuses. Jogou com as duas cruzes que tinha penduradas no pescoo enquanto lutava contra a impacincia. Uma delas tinha usado quase toda sua vida. Tinha passado atravs 
de sua famlia, atravs de Nola, e todo o caminho at chegar de volta ao Hoyt. A Cruz de Morrigan, uma das que tinha entregue a ele ao incio daquela luta, enquanto 
Hoyt ainda se encontrava em sua poca. 
       A segunda cruz tinha sido forjada pela Glenna e ele com prata, fogo e magia. Um smbolo de equipe, supunha, um escudo, que cada um deles -exceto Cian - levava 
em todo momento. 
       A primeira, recordava, tinha-lhe salvado a vida em uma ocasio. De modo que a magia, supunha, tinha prioridade sobre a impacincia. 
       Contudo, quando Moira lhe ofereceu uma infuso, ela meneou a cabea. 
       J estava repassando em sua cabea o que deviam fazer... e a maior parte disso no gostava de nada. Mas era movimento, e isso era o que queriam. O que necessitavam. 
       -Fora h dois deles -disse Moira com calma. - No vimos a nenhum durante dias, mas agora h dois deles a fora, justo onde comea o bosque. 
       Blair se aproximou da janela que tinha mais perto e olhou para fora. 
       -Sim, posso v-los. Com muita dificuldade. 
       -Vou pegar meu arco? 
       - um tiro comprido em meio da escurido. -Logo Blair se encolheu de ombros. - Mas sim, por que no? Embora no alcance a nenhum deles, isso lhes demonstrar 
que no estamos desatentos. 
       Blair olhou a seu redor enquanto Moira abandonava a biblioteca. Cian estava ajeitado em uma poltrona, com uma taa de vinho e um livro. Larkin estava sentado 
no sof, bebendo cerveja e olhando-a. 
       Ela no queria a infuso que Moira lhe tinha dado, no queria relaxar-se. Tampouco queria que o lcool lhe embotasse os sentidos. De modo que passeou uns 
minutos mais e logo se aproximou novamente  janela. Viu o vampiro no tronco da esquerda. Nem sequer tinha visto a flecha, mas sim viu como o segundo vampiro desaparecia 
entre as rvores. 
       "No, no estamos desatentos ", pensou. 
       -Sinto que tenhamos demorado tanto, mas no podamos deixar pela metade o que estvamos fazendo. Infuso. Perfeito. -Glenna foi diretamente  mesa e se serve 
uma taa para ela e outra para o Hoyt. - Ocorreu algo? 
       -Sim. Moira voltar em um momento. Foi acima, para liquidar a um dos vampiros que estava fora da casa. 
       -OH. -Glenna deixou escapar o ar ruidosamente enquanto se sentava. - De modo que retornaram. Bom, foi agradvel enquanto durou. 
       -S pude alcanar a um deles. -Moira entrou na biblioteca com seu arco. - Estava muito escuro para distinguir ao segundo vampiro e provavelmente tivesse sido 
desperdiar uma flecha. 
       Mas deixou apoiados o arco e a aljava junto  janela se por acaso tinha outra oportunidade. 
       -Muito bem, agora j estamos todos aqui. Recebi uma visita de Morrigan... Ou tem feito que eu a visitasse. Como quer que tenha sido, funcionou. 
       -Tiveste uma viso? -perguntou Hoyt. 
       -O que fosse. Estive no campo de batalha. Estava vazio. S vento, nvoa e Morrigan. E um monto de questes crticas relacionadas com os deuses at chegar 
 concluso de que devemos partir ao Geall dentro de uma semana. Isso  o que h dito ela. 
       -Retornamos ao Geall? -Moira se aproximou do Larkin e apoiou uma mo sobre seu ombro. - Retornamos ao Geall. 
       -Isso  o que h dito a senhora -confirmou Blair. - Temos uma semana para nos preparar para a viagem. Para decidir o que necessitamos, fazer a bagagem e acabar 
o que for que estejam fazendo na torre mgica. Devemos ir ao crculo de pedra, o caminho pelo que vocs chegaram aqui -acrescentou, fazendo um gesto com a cabea 
para o Larkin e Moira. - A forma em que Hoyt tambm chegou. No sei como funciona, mas... 
       -Temos chaves -lhe disse Moira. - Morrigan me deu uma chave e outra ao Hoyt. 
       -Pois eu diria que os acertos da viagem dependem de vocs ento. Levaremos todas as armas que possamos carregar. Poes, loes... tudo o que Glenna e Hoyt 
considerem que pode nos ser de utilidade. O principal problema que vejo  que, para que Cian possa ir ali, temos que esperar um dia muito nublado ou abandonar a 
casa depois que se ps o sol. Considerando que de novo h vigias no bosque, sabero imediatamente que nos pusemos em marcha e tentaro nos deter, disso no cabe 
a menor duvida. 
       -E diro ao Lilith que nos largamos -acrescentou Glenna. 
       -E ela saber aonde. De modo que, quando retornarmos ao Geall, a levaremos at ali. -A mo da Moira se esticou sobre o ombro do Larkin. - Levarei essa praga 
a meu povo. 
       - algo inevitvel... -comeou a dizer Blair. 
       -Falas assim porque te acostumaste a viver com isso. Eu quero ir a casa -disse Moira. - Tenho tantas vontades de retornar que no posso nem express-lo, mas 
levar comigo uma coisa to maligna? E o que passa se a batalha alguma vez se produz? Se encontrarmos seu portal e o selamos? Poderamos trocar o destino. 
       O destino, em opinio de Blair, era algo que era melhor no tomar  ligeira. 
       -Ento a batalha se livraria aqui -disse -, onde no estava previsto. Com o que nossas possibilidades de vitria diminuiriam drasticamente. 
       -Moira -interveio Larkin ao tempo que se levantava e rodeava o sof at ficar diante de sua prima. - No amo ao Geall menos que voc, mas este  o caminho. 
Foi o que pediram a ti e o que voc me pediu . 
       -Larkin. 
       -A praga da que falas j infestou Geall. Levou a sua me. Pediria-me agora que abandonasse aos meus, que trasse sua confiana? Que fizesse perigar a misso? 
       -No. Sinto muito. No tenho medo por mim. J no. Mas vejo os rostos de toda essa gente nas jaulas e se convertem nos rostos daqueles que conheo, da gente 
do Geall. E sinto medo. -Tranqilizou-se. - Se trata de algo mais que Geall, sei. Partiremos dentro de uma semana. 
       -Uma vez que estejamos ali formaremos um exrcito. -Hoyt olhou a Moira. - Pedir a sua gente que lute, que se unam a este crculo. 
       -Eles lutaro. 
       -Isso supor muito treinamento -assinalou Blair. - E ser mais complicado ainda que o que estivemos fazendo at agora. Ns s somos seis, e teremos que ser 
capazes de reunir a centenas de homens. Por outra parte, no se trata s de pr uma estaca em suas mos, ter que lhes ensinar a matar vampiros. 
       -Com uma exceo -assinalou Cian, e elevou sua taa a modo de saudao. 
       -Ningum te por as mos em cima -lhe assegurou Moira.
       Respondeu-lhe com um sorriso indolente. 
       -Pequena Rainha, se acreditasse que no ia ser assim, lanaria confete ao ar e lhes desejaria uma boa viagem. 
       -Muito bem, h outra coisa. -Blair se aproximou de novo a uma das janelas, s para ver se algum vampiro se arriscou a aproximar-se da casa. - Pelo que sabemos, 
Lilith tambm poderia haver ficado em marcha. Inclusive  possvel que chegue ali antes que ns. Podemos fazer algo com o crculo de pedras, algum encantamento, 
para saber se tiver sido utilizado para... abrir a porta? 
       -Deveria haver algum. -Glenna olhou ao Hoyt. - Sim, acredito que podemos faz-lo. 
       -No h necessidade de que o faam. Ela no pode usar o Baile dos Deuses. - Larkin agarrou novamente sua garrafa de cerveja. - Moira, no disse quando atravessamos 
o portal que um demnio no podia entrar no crculo? 
       - um lugar puro -conveio ela. - Essas criaturas no podem entrar no anel, e muito menos utiliz-lo para passar de um mundo a outro. 
       -De acordo, temos outro problema maior. 
       Cian confirmou o comentrio de Blair elevando novamente sua taa. 
       -Parece que, depois de tudo, terei que lanar o confete. 
       -Isso  realmente grave, verdade? Tinha-o esquecido. -Larkin franziu os lbios antes de beber outro gole de cerveja. - De modo que teremos que encontrar como 
solucionar isso. Tal como eu o entendo, devemos ir os seis, assim deve haver um modo de faz-lo. S precisamos encontr-lo. 
       -Iremos todos juntos -disse Hoyt apartando sua taa - ou no iremos. 
       -Aye -assentiu Larkin. - No deixamos a ningum para atrs. E esta vez levaremos o cavalo -se recordou a si mesmo, e sorriu olhando a Cian. - Se no te importa. 
       -Resolveremos o problema. A algum lhe ocorre alguma soluo mgica? -perguntou Blair ao Hoyt.
       -A deusa deve interceder. Tem que faz-lo. Se Glenna e eu tentamos abrir o portal para que Cian possa passar, poderamos mudar tudo, perturbar o poder; fechar 
o passo por completo de modo que ningum possa entrar... ou voltar a sair. 
       -Cada vez que troca a natureza de algo -explicou Glenna - te arrisca a que haja conseqncias. Em realidade, a magia tem muito em comum com a fsica. O crculo 
 um lugar sagrado, terreno santo, isso no podemos alter-lo. Mas ao mesmo tempo, Cian deve ir conosco, e a instncias da deusa. Assim, trabalharemos nesse portal. 
       -Se existir outro caminho, outro portal que Lilith precise utilizar, possivelmente Cian tambm pudesse utiliz-lo. -Blair olhou a este com o cenho franzido. 
- Essa seria minha segunda opo. Eu no gosto que nos separemos, especialmente no dia de traslado. 
       -Somado ao feito -lhe recordou Cian - de que no sei onde demnios poderia estar esse portal ou janela. 
       -Sim, isso tambm. Mas possivelmente possamos descobri-lo. 
       -Outro encantamento de busca? -Glenna agarrou a mo do Hoyt. - Podemos tent-lo. 
       -No. No estava pensando em feitios. No exatamente. -Blair inclinou a cabea e estudou ao Larkin. - Qualquer ser vivo, verdade? 
       Ele deixou a garrafa de cerveja e sorriu lentamente. 
       -Assim . No que est pensando?
      
       -Est seguro de que quer fazer isto? -Blair se encontrava na torre, com o Larkin. - Sei que foi minha idia, mas... 
       -E uma boa idia sem dvida. Ah, agora est preocupada comigo, a stor? 
       -Enviar desarmado a um ninho de vampiros fortificado, um ninho protegido por escudos mgicos. No. Por que teria que estar preocupada? 
       -No necessitarei armas, e no seria fcil levar uma com a forma em que vou. 
       -Algo estranho que veja, larga-te imediatamente dali. No queira te fazer o heri. 
       -Nasci para ser um heri. 
       -Estou falando srio, Larkin, nada de atos para impressionar ao pblico. -J comeava a notar o estmago revolto. - Esta misso  s para solicitar informao. 
Qualquer sinal de que Lilith est a ponto de ficar em marcha, quanta gente tem, se pode te fazer uma idia aproximada, uma olhada a seu arsenal... 
       -J me h isso dito um par de vezes. Acaso te parece que sou idiota? 
       -Deveramos esperar a que amanhecesse, depois lhe levaramos de carro at o escarpado. Ali estaremos se por acaso tem problemas. 
       -Como voc mesma disse,  mais que provvel que mantenham as cavernas bloqueadas durante as horas de luz. E  menos provvel que esperem nada de noite, como 
eu disse. Se for ser um soldado nesta guerra, Blair, devo fazer tudo o que possa. 
       -S digo que no faa nada estpido.
       Apressada pela necessidade e a preocupao, Blair agarrou o cabelo do Larkin com ambas as mos e aproximou seu rosto ao dele.  
       Manteve o medo fora do beijo. No era medo precisamente o que queria lhe transmitir. Entregou-lhe em troca calor e esperana, e se manteve pega a ele enquanto 
o impacto do beijo percorria de cima abaixo.  
       -No to depressa -disse ele quando ela comeou a apartar-se. E a fez girar de modo que suas costas ficaram contra a parede da torre. - No acabamos ainda.
       Isso era o que Larkin tinha estado procurando, esse fogo. Chamas ardentes surgiam dela para percorrer o sangue dele. Deixou que o queimassem enquanto a agarrava 
pelos quadris e acariciava seu corpo com as mos. Para poder levar-se sua forma. 
       -Cian os atraiu diante de... 
       Moira se interrompeu, com os olhos abertos como pratos ao ver o Blair e a seu primo beijando-se apaixonadamente. 
       -Sinto muito. 
       -No h problema -a tranqilizou Larkin. - S era um beijo de despedida. -Agarrou o rosto de Blair entre as mos. - Estarei de retorno pela manh. 
       Logo se voltou e abriu os braos para a Moira. 
       Ela correu a refugiar-se entre eles. 
       -Tome cuidado. No suportaria te perder, Larkin. Lembre-se, lembre que todos lhe estaremos esperando, e retorna so e salvo. 
       -Ao amanhecer. -Beijou a Moira em ambas as bochechas. - Mantenham uma vela acesa por mim. 
       -Estaremos vigiando. -Blair se voltou e abriu a janela. -Com o cristal da Glenna, todo o tempo que nos seja possvel. 
       -No me incomodaria nada comer uma dessas torradas empanadas em ovo e leite quando voltar. 
      Olhou-a fixamente. 
      O primeiro que trocou no Larkin foram os olhos. Blair se deu conta ento. Em primeiro lugar, a pupila e a ris, logo brilharam incandescentes. 
       O falco a olhou do mesmo modo em que o tinha feito o homem e, continuando, elevou o vo para a noite, silencioso como o ar. 
       -Estar bem -disse Blair com um sussurro. - Estar bem. 
       Moira procurou sua mo e, juntas, ficaram olhando o cu at que o falco se perdeu de vista.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      7
      
       Remontou no ar. Com a altura alcanada e seus olhos de falco, Larkin pde ver os que se moviam furtivamente ao redor da casa. Contou oito, uma pequena partida 
pois, e provavelmente vigias, como havia dito Blair. Contudo, voltou a voar em crculos sobre a casa para assegurar-se de que se tratava de um grupo de explorao 
e no de uma fora de ataque. 
       Ao ampliar o crculo, divisou a caminhonete ao final do atalho, justo depois do desvio.  obvio, pensou, necessitavam algum meio para sair das cavernas e 
retornar a elas, verdade? Mas resultava ousado e um tanto insultante que deixassem sua mquina to perto da casa. 
       Voltou a descrever um crculo no cu, estudando a situao, e logo se lanou em picado para baixo. 
       Recordou o que Glenna havia dito sobre o funcionamento da caminhonete, que se necessitava uma chave para... como era?, ignio. Era uma pena que no a tivessem 
deixado ali pendurada, na mquina. 
       Mas recordou deste modo que Glenna lhe tinha explicado que as rodas sobre as que se apoiava a mquina estavam cheias de ar. Se a roda se perfurava e o ar 
escapava de seu interior, a roda se desinflava, o qual era uma verdadeira dor de cabea, havia dito ela. 
       Pensou que seria produtivo, e divertido ao mesmo tempo, lhes dar aos vampiros uma dor de cabea. 
       Trocou de forma e se converteu em um unicrnio, com uma ptina dourado plido sobre sua pele branca. E, baixando a cabea, cravou seu corno bicudo no pneu. 
Produziu-se um agradvel estalo, e logo se ouviu o assobio do ar ao escapar atravs do orifcio. Para assegurar-se, perfurou o pneu pela segunda vez. 
       Satisfeito, Larkin trotou ao redor da caminhonete e perfurou os trs pneumticos restantes at que viu que o veculo ficava apoiado sobre quatro rodas desinfladas. 
"A ver como fazem agora para que esta mquina volte a funcionar, bastardos", pensou. 
       Logo voltou a elevar-se, com suas asas desdobradas, e voou para o sul. 
       A luz da lua era suficiente para gui-lo, e soprava um vento fresco que o ajudava a manter a velocidade. Ali abaixo podia ver a terra, como se estendia ondulando 
na distncia. As colinas elevadas, o variado mosaico dos campos. 
       As luzes brilhavam fracamente nos casarios e nos povoados maiores. 
       Pensou nos animados pubs, com a msica enchendo o ambiente e o aroma da cerveja e as belas mulheres. As vozes da gente e o som das risadas. Uma noite, quando 
toda essa histria tivesse acabado, ele queria sentar-se em um pub em companhia de seus amigos, essas cinco pessoas que eram vitais para ele, e elevar uma jarra 
de cerveja com todas essas vozes, com toda essa msica a seu redor. 
       Era uma boa imagem para que o acompanhasse durante seu comprido vo at o ninho dos monstros. 
       Abaixo, pde ver o comprido e belo curso do rio que chamavam Shannon. 
       Era uma terra formosa, pensou, to verde como a de seu lar, e com o mar muito prximo. Podia ouvir o som das ondas para o sudoeste. 
       Sabia que o drago era mais veloz, mas se tinha decidido pelo falco. Desejou poder voar de novo por ali, em forma de drago, com a Blair montada em seu lombo. 
Ela poderia lhe dizer os nomes do que se via de cima, os povoados e as runas, os rios e os lagos. Conheceria ela o nome daquela cascata que agora estava sobrevoando, 
a que era to alta e poderosa como a Faene Falls, no Geall? 
       Recordou o tato de suas pernas obstinadas em torno de seu corpo enquanto se elevavam no ar. A forma em que riu. Nunca conheceria ningum como ela, caadora 
e mulher, to forte e vulnervel de uma vez. O punho disposto e um corao to tenro. 
       Gostava de sua forma de falar, rpida e segura. E o modo em que seus lbios se curvavam para cima, primeiro uma comissura e logo a outra, quando sorria.
       Sentia uma grande atrao pela Blair que lhe parecia to natural como o fato de respirar. Mas havia algo mais misturado com isso; algo intenso que no alcanava 
a reconhecer. Seria muito interessante descobrir o que significava. 
       Voou por cima da grande cascata e do frondoso bosque que a rodeava. Passou a baixa altura sobre o dbil resplendor dos lagos, onde se refletia a luz das estrelas. 
E se dirigiu para o feixe de luz do farol que coroava os escarpados.
       Comeou a descender, silencioso como uma sombra.
       Alcanou a ver duas figuras na estreita franja rochosa. Uma mulher, comprovou, acompanhada de um menino. O alarme fez que o corao se esticasse dentro de 
seu pequeno peito. Os monstros os capturariam se vagavam na escurido perto das cavernas. Prisioneiros, depois usados e logo assassinados. E ele no tinha armas 
para defend-los.
       Descendeu at posar-se depois da sombra de uma rocha, e a ponto esteve de recuperar a forma humana para lhes advertir. Mas nesse momento, a mulher se voltou 
para lhe sorrir ao menino, e a fria luz branca da lua lhe iluminou o rosto.
       Ele a tinha visto somente uma vez antes de ento de p no alto dos escarpados. Mas jamais esqueceria seu rosto.
       Lilith. A autoproclamada Rainha dos mortos vivos.
       -Por favor, mame, por favor, quero caar.
       -Davey, recorda o que te disse. Ns no caamos perto de casa. Temos muita comida dentro e, posto que foste to bom... -agachou-se para lhe dar uns golpezinhos 
no nariz, um gracioso gesto de carinho -, pode escolher o que mais voc goste.
       -Mas no  to divertido tendo-os ali.
       -Sei. -Lilith suspirou enquanto lhe revolvia o cabelo, brilhante e dourado. - No resulta muito excitante. Mas j no fica muito. Quando estivermos no Geall 
poder caar todas as noites.
       -Quando?
       -Logo, meu precioso corderinho.
       -J estou farto de estar aqui.
       Com tom petulante, o menino chutou o cho rochoso.
       Larkin pde ver que tinha o rosto de um pequeno diabinho, redondo e doce.
       -Eu gostaria de ter um gatinho. Por favor, mame, posso ter um gatinho? No comerei isso, como a ltima vez.
       -Isso mesmo disse do cachorrinho -lhe recordou ela com uma risada breve e alegre. - Mas j veremos. O que diz a isto? Soltarei a um dos prisioneiros para 
ti, para que corra atravs das cavernas. Voc pode lhe perseguir e lhe dar caa. No cr que seria divertido?
       Quando o menino sorriu, a luz da lua revelou uma expresso iludida em seu rosto coberto de sardas, e arrancou reflexos de suas presas.
       -Posso ter dois?
       - um gluto. -Ela o beijou mas segundo Larkin pde comprovar, no da maneira em que uma me beija. -Isso filho  o que eu adoro de ti, meu nico e verdadeiro 
amor. Vamos dentro e poder escolher os que mais voc goste.
      Detrs da rocha, Larkin voltou a trocar de forma. Um rato largo e escuro se deslizou dentro das cavernas, detrs das saias de Lilith.
       Podia cheirar a morte e ver os seres que se moviam na escurido. Inclinavam a cabea quande Lilith passava junto a eles.
       A luz era escassa, apenas um punhado de tochas fixadas s paredes. Mas  medida que entravam no labirinto de cavernas, a luz adquiria uma esvada tonalidade 
verde que ao Larkin pareceu artificial. Magia, sabia, do mesmo modo que sabia que essa magia no era branca e limpa.
       Lilith atravessou o labirinto de cavernas, segurando a mo do menino que trotava a seu lado. Os vampiros subiam pelas paredes como se fossem aranhas, ou penduravam 
do teto como morcegos.
       S esperava que no estivessem excessivamente interessados em um aperitivo de sangue de rato.
       Seguiu o sussurro das saias de Lilith procurando manter-se nos rinces escuros.
       Os sons de um sofrimento humano indescritvel comearam a ressonar na cova.
       -Que classe de humano quer, querido? -Lilith balanou os braos junto com os do pequeno, como se tivessem sado de passeio e estivessem frente a uma apetitosa 
cristaleira. - Um jovem e magro ou possivelmente outro com um pouco mais de carne?
       -No sei. Primeiro quero olh-lo aos olhos. Ento saberei.
       -Menino esperto. Faz que me sinta orgulhosa de ti.
       Havia mais jaulas das que tinha imaginado e o simples horror dessa cena obrigou ao Larkin a fazer um esforo para no trocar de forma. Queria transformar-se 
em um homem, agarrar a espada de um dos guardas e comear a cortar cabeas.
       Poderia acabar com uns quantos, e possivelmente merecesse a pena morrer por isso, mas nunca conseguiria resgatar a nenhuma dessas pessoas.
       Blair j o tinha advertido, mas ele no a tinha escutado de tudo.
       Agora, o menino se soltou da mo de sua me e se passeava, com as mos  costas, por diante das jaulas. Um menino olhando os bolos expostos em uma confeitaria, 
pensou Larkin.
       Davey se deteve franzindo os lbios enquanto estudava a uma moa que estava agachada na esquina de uma das jaulas. Parecia que estivesse cantando ou possivelmente 
rezando, j que as palavras resultavam ininteligveis. Mas Larkin viu que seus olhos j estavam mortos.
       -Caar a esta no seria nada divertido. -Inclusive quando Davey a tocou atravs dos barrotes, a moa permaneceu impassvel. - J no tem medo.
       -s vezes se voltam loucos. Depois de tudo, suas mentes so dbeis, igual a seus corpos. -Lilith assinalou para outra das jaulas. - O que me diz de este?
       O homem que havia na jaula balanava entre seus braos a uma mulher que estava dormida ou inconsciente, com sangue no pescoo e o rosto plido como a cera.
       -Vadia.  uma vadia, o que lhe tem feito? Matarei-te.
       -V, este parece que ainda conserva um pouco de vida! -Lilith sorriu satisfeita e se tornou para trs a cabeleira dourada. - O que opina, querido?
       Davey elevou a cabea e logo a meneou.
       -No correr. No querer abandonar a sua mulher.
       - muito observador, Davey. -Sua me se agachou e o beijou em ambas as bochechas com evidente orgulho. - Que menino to grande e to inteligente.
       -Quero esta. -Assinalou a uma mulher que apertava as costas contra o fundo da jaula. Seus olhos olhavam para todas as partes. - Tem medo e pensa que talvez, 
talvez, possa escapar, de modo que correr e correr e correr. E a esse. -Davey assinalou para cima. - Est louco, quer lutar. Olhe como sacode os barrotes.
       -Acredito que so duas escolhas excelentes -disse Lilith, e fez estalar os dedos em direo a um dos guardas, os quais levavam uma armadura ligeira e cascos 
de couro. - Liberem a esses dois e faam correr a voz. No os deve tocar, exceto para impedir que abandonem as cavernas. Pertencem ao prncipe.
       Davey comeou a dar saltos ao tempo que aplaudia entusiasmado.
       -Obrigado, mame! Quer jogar voc tambm? Compartilharei-os contigo.
       -Isso  doce de sua parte, mas agora tenho que fazer algumas coisas. E recorda que deve te lavar quando tiver terminado de comer. -voltou-se novamente por 
volta de um dos guardas. - Diga a lady Lora que quero que se rena comigo na cova do mago.
       -Essa primeiro. -Davey assinalou  mulher.
       Esta comeou a gritar e se debateu com desespero quando o guarda a tirou rastros da jaula, enquanto outro guarda fazia retroceder a golpes aos que estavam 
com ela e pretendiam impedir que a levassem.
       O corpo do Larkin lhe pedia fazer algo. Algo.
       Davey se inclinou para farejar  tremente mulher e assim fixar seu aroma.
       -Agora  minha, e jogarei contigo todo o tempo que deseje, verdade, mame?
       -Assim , querido.
       -Solta-a -ordenou Davey ao guarda. Logo, seus olhos desprenderam um resplendor avermelhado enquanto olhava  mulher. -Corre, corre, corre! Joguemos esconde-esconde! 
-gritou, quando ela se afastou a tropices.
       Davey se encarapitou  parede e ficou ali enquanto sorria ao Lilith por cima do ombro. Logo desapareceu na escurido.
       - agradvel ver como desfruta. Liberem ao outro em, digamos, quinze minutos. Enquanto isso, estarei com o mago.
       Retornaria, disse-se Larkin. Uma vez cumprida sua misso, voltaria e abriria as jaulas. Ao menos isso daria aos prisioneiros uma possibilidade de lutar para 
escapar. Para sobreviver.
       Mas nesses momentos, fazendo ouvidos surdos aos gritos e gemidos, e tambm a seus prprios instintos, seguiu ao Lilith.
       A priso estava separada por um comprido tnel do que se supunha que eram as zonas destinadas a moradia, armazenamento e trabalho. Lilith tinha construdo 
ali uma espcie de manso subterrnea. Havia toda uma srie de habitaes, algumas delas ricamente mobiliadas, outras fechadas com portas protegidas por guardas 
armados.
       Um homem e uma mulher vestidos com jeans e sweaters, levavam roupa de cama limpa atravs do tnel. Obviamente criados, decidiu Larkin, e pensou que provavelmente 
se tratasse de criados humanos. Quande Lilith se aproximou, ambos se detiveram e lhe fizeram uma profunda reverncia.
       Ela seguiu seu caminho como se no os tivesse visto.
       Larkin ouviu o som de gente combatendo e se deteve um momento para jogar uma olhada a um dos tneis. Viu uma zona de treinamento no muito diferente da que 
eles utilizavam na casa de Cian. Nas cavernas, as criaturas, homens e mulheres, praticavam com espadas ou tacos, facas ou com as mos nuas.
       Dois prisioneiros, desarmados e com grilhes, eram utilizados do mesmo modo em que ele e seu crculo usavam os bonecos de prticas.
       Viu a criatura chamada Lora cruzando seu ao com um homem maior que ela. No levavam nenhum amparo, e as espadas, conforme pde comprovar, mostravam um fio 
mortal.
       Lora saltou sobre seu companheiro de treinamento com um movimento to veloz que foi apenas uma mancha fugaz. Embora o homem se voltou, a espada o feriu no 
peito.
       Quando caiu ao cho, Lora se equilibrou sobre ele.
       -Sempre falha esse golpe. -inclinou-se e lambeu seu sangue com expresso divertida. - Se fosses humano, mon cher, estaria morto.
       -Ningum pode te superar com a espada. -Sua respirao era entrecortada, mas elevou uma mo e lhe acariciou a bochecha. - No sei por que o tento.
       -Se Lilith no me necessitasse, disputaramos outro assalto.
       Passou um dedo por sua bochecha e logo lhe deu outra lambida.
       -Talvez mais tarde... para o amanhecer.
       -Se a Rainha no me necessita, virei a te buscar -respondeu Lora.
       Ento voltou a inclinar-se, e o beijo foi comprido e apaixonado.
       Embainhou a espada ensangentada e partiu, com Larkin atrs dela.
       Lora apenas se deteve quando a mulher que tinha sido liberada para que o menino jogasse, caiu chorando diante dela. Lora se limitou a lhe passar por cima 
e olhar o par de olhos vermelhos que brilhavam na escurido.
       -Jogando pega-pega, Davey?
       -Eu queria jogar esconde-esconde, mas ela no deixa de cair. Faz que se levante, Lora! Faz que corra um pouco mais. O jogo ainda no terminou.
       Lora deixou escapar um suspiro de resignao.
       -a va. -agachou-se e levantou a cabea da mulher agarrando-a pelo cabelo. - Se no correr e mantm entretido a nosso querido Davey, prometo-te que te cortarei 
os dedos um por um. Primeiro os das mos e logo os dos ps. -incorporou-se arrastando  outra com ela. - Agora, allez!.
       Quando a mulher se afastou chorando, Lora voltou a vista para o Davey.
       -Por que no lhe concede algo mais de vantagem inicial?  mais esportivo e assim o jogo durar mais tempo.
       -Seria mais divertido se voc tambm jogasse. Sempre  mais divertido contigo.
       -E no h nada que eu gostasse mais que jogar contigo, mas sua me quer me ver agora. Talvez mais tarde possamos jogar a outra coisa.
       Lora lhe soprou um beijo e continuou seu caminho.
       Larkin, profundamente enojado, seguiu-a.
       A vampira em uma habitao. Larkin sentiu as ondas de magia ao tempo que se apressava a entrar atrs dela.
       -Ah, Lora, estvamos-lhe esperando.
       -Estava terminando um assalto com o Lucio e logo encontrei ao Davey. O estava passando de maravilha.
       -Sim, estava louco por jogar.
       Lilith estendeu uma mo e Lora se aproximou e a agarrou. Juntas, quase bochecha com bochecha, olharam ao homem que estava no centro da habitao.
       Levava uma espcie de tnica negra debruada em vermelho. Seu cabelo era uma espessa juba chapeada que emoldurava um rosto de olhos negros como o nix, nariz 
largo e aquilino e uma boca de lbios finos que no sorria.
       Atrs dele havia um fogo que ardia sem lareira, nem troncos nem turfa. Suspenso em cima do fogo havia um caldeiro de que saa uma fumaa verde plida, a 
mesma cor da luz nauseabunda que brilhava nas cavernas. Sobre duas mesas largas se viam frascos e potes. O que fosse que nadasse em seu interior parecia viscoso, 
e vivo.
       -Midir. -Lilith assinalou ao homem com um amplo gesto do brao. - Queria que Lora nos acompanhasse quando mantivramos esta discusso. Ela me tranqiliza. 
Como sabe, necessitei um pouco de tempo para recuperar a calma depois do desastre que sofremos faz uns dias.
       Lilith caminhou uns passos, agarrou um pequeno garrafo e verteu lquido vermelho em um copo. Cheirou-o.
       -Fresca? -perguntou-lhe ao mago.
       -Sim, minha senhora. Extrada e preparada para voc.
       Lilith bebeu um gole e ofereceu o copo a Lora.
       -Deveria te perguntar se j estiver completamente restabelecido de suas feridas.
       -Estou bem, minha senhora.
       -Peo-te desculpas por ter perdido os nervos, mas me decepcionou, Midir. Profundamente. Seu castigo teria sido muito mais severo se Lora no me tivesse tranqilizado. 
Eles se levaram esse ganho sob meus prprios narizes. E deixaram uma mensagem insultante na porta de minha casa. Voc foi o encarregado de proteger meu lar dessas 
situaes e falhou miseravelmente.
       -Sinto-me humilhado, minha senhora. -ajoelhou-se e inclinou a cabea. - No estava preparado para esse intento, e tampouco para a fora do poder que continha. 
No voltar a ocorrer.
       - obvio que no, do contrrio te entregarei a Lora. Sabe quanto tempo pode manter a um homem com vida?
       Desviou o olhar para sua companheira com um doce sorriso cmplice.
       -Houve esse cara, em Budapeste -recordou Lora. - O mantive vivo durante seis meses. Poderia ter feito que durasse mais, mas me aborreci dele. No acredito 
que pudesse me aborrecer do Midir embora passassem anos. Mas...
       Lora deslizou brandamente a mo pelas costas de Lilith.
       -Ele nos resulta til, chrie. Possui um grande poder e est ligado a ti, n'est-cepas?
       -Me fez promessas, muitas e grandes promessas. Silncio -disse bruscamente quando Midir voltou a elevar a cabea. - Devido a essas promessas ainda tem que 
sentir minha mordida. Mas voc  meu co, Midir, e nunca deve esquec-lo.
       Agora o homem elevou lentamente a cabea.
       -Sirvo-lhes a voc, majestade, e s a voc. Escolhi-lhes, minha senhora, para lhes dar o portal, para que pudessem caminhar entre os mundos e domin-los.
       -E assim voc pudesse te mover tambm entre eles, mago, arrancando o poder como se fossem margaridas, com meu exrcito a suas costas. E, contudo, esse poder 
se rompeu quando foi golpeado por aquilo que os mortais esgrimiam.
       -Eles nunca deveriam hav-lo conseguido, isso  verdade. -Lora interveio novamente para apaziguar os nimos. - Midir permitiu que eles lhes humilhassem, e 
isso  imperdovel. Mas mesmo assim, somos mais com ele que sem ele. Com Midir o conseguiremos para o Samhain.
       -V-o? Ela me tranqiliza. -Lilith voltou a agarrar o copo de mos da Lora enquanto ambas permaneciam enlaadas pela cintura. - Est vivo graas ao que ela 
h dito... e estou de acordo com suas palavras. E porque ao menos, teve o bom julgamento de trazer a escurido quando nos demos conta de que tnhamos sido invadidos. 
OH, vamos, te levante, te levante.
       Midir ficou de p.
       -Minha senhora, posso falar?
       -Deixei a lngua em sua boca.
       -Consagrei meu poder e minha vida a voc durante mais de duzentos anos. Constru-lhes este lugar como ordenaram, no subterrneo, e o escondi ao olhar dos 
humanos. A magia que tm eles  muito poderosa, mas em que pese a isso, ao final consegui lhes vencer.
       - verdade,  verdade. Mas s depois de que me tivessem roubado prisioneiros.
       -Eles so formidveis, minha senhora. -Cruzou as mos de modo que ficaram ocultas dentro das amplas mangas de sua tnica. - Menos que isso no tivesse sido 
digno de voc. Mas assim, seu triunfo ser maior quando os tiverem derrotado.
       -Adulador.
       -Midir esteve a ponto de conseguir me fazer entrar na casa -disse Lora. - Estive to perto que quase podia saborear a essa mulher. Foi um bom feitio, to 
poderoso que venceu a vontade da caadora. Poderamos voltar a tent-lo.
       -Sim, poderamos faz-lo -conveio Midir. - Mas s faltam duas semanas para que abramos novamente o portal. Necessitarei toda minha fora para isso, majestade. 
E outro sacrifcio.
       -Outro sacrifcio? -Lilith revirou os olhos. - Que aborrecido. E suponho que nesta ocasio se tratar tambm de uma virgem.
       -Se esse for seu desejo, minha senhora. Enquanto isso, tenho um presente que espero que lhes agrade.
       -Mais diamantes? -Lilith se levou a mo  boca para cobrir um delicado bocejo. - Me estou cansando deles.
       -No, minha senhora, no se trata de diamantes.  algo mais precioso, acredito.
       Midir agarrou um pequeno espelho de mo pela manga de osso e o ofereceu ao Lilith.
       -Est jogando comigo? Essa quinquilharias... -Lilith ficou boquiaberta quando fez girar o pequeno espelho. -  meu rosto!
       Perplexa, levou-se uma mo  bochecha com o olhar fixo no cristal.
       Era como se estivesse olhando atravs de uma fina nvoa, mas podia ver a forma de seu rosto, os olhos, a boca. A alegria desse momento quase a fez chorar.
       -OH. OH, posso ver como sou. Sou formosa. Meus olhos so azuis. De um azul muito belo.
       -Permitam-me... -Lora se aproximou do espelho e seus olhos se abriram como pratos ao ver seu rosto refletido no pequeno cristal, junto ao de Lilith. - OH! 
C'est magnifique! Je suis belle!
       -Nos olhe, Lora. OH, OH, olhe quo maravilhosas somos!
       -Muito melhor que uma fotografia ou um desenho. Olhe, movemo-nos! Olhe como se unem nossas bochechas.
       -Estou aqui -murmurou Lilith. - Faz muito tempo, antes de que me concedesse o dom, podia ver meu rosto em um cristal gentil, na gua cristalina de um lago. 
A forma de minha cara e como caa minha cabeleira emoldurando-a.
       Agora se tocou o cabelo, observando como se moviam seus dedos atravs dele.
       -A forma em que meus lbios, minhas bochechas, transformavam-se com um sorriso, como subiam e baixavam minhas sobrancelhas. A ltima vez que pude ver este 
rosto foi nos olhos de quem me transformou. Passaram dois mil anos da ltima vez que me vi. -Uma lgrima se deslizou lentamente por sua bochecha e seu reflexo adorou. 
- Estou aqui -repetiu em voz baixa, uma voz manchada de emoo. - Estou aqui.
       -Sente-se agradada, majestade? -Midir baixou suas mos cruzadas at a cintura. - Pensei que era seu desejo mais ansiado.
       -Nunca me tinham feito um presente assim. Olhem como se move minha boca quando falo! Quero um espelho grande, Midir, to grande que possa me ver inteira.
       -Acredito que pode conseguir-se, mas requerer tempo e poder. O portal...
       - obvio,  obvio. -Lilith moveu o espelho por cima de sua cabea para tratar de ver um pouco mais de si mesma. - Sou to ambiciosa como Davey, exigindo mais 
apesar de ter um tesouro em minhas mos. Midir, agradaste-me alm das palavras. Farei que lhe consigam tudo o que necessite.
       Quando o mago inclinou a cabea, ela se aproximou dele e lhe tocou a bochecha.
       -Alm das palavras -repetiu. - Nunca esquecerei que te esforou por alegrar meu corao.
       Larkin se escorreu velozmente fora da habitao. Posto que s falavam do espelho e de beleza, afastou-se para lhe jogar uma olhada ao arsenal e para fazer 
uma idia mais precisa do nmero de inimigos.
       Percorreu tneis largos e escuros e passou por debaixo das portas. Em uma das cmaras encontrou a trs vampiros dando um festim com um homem. Quando o homem 
gemeu, a impresso fez que Larkin se descuidasse. Um dos vampiros o descobriu e elevou o rosto ensangentado com um sorriso nos lbios.
       -No me importaria um pequeno rato de sobremesa.
       Quando o monstro se lanou sobre ele, Larkin saiu disparado por debaixo da porta e cruzou tambm a seguinte, escorrendo-se entre os ps do guarda.
       Estava dentro do arsenal.
       Ali havia milhares de armas. Para mais mil homens ou mais. Espadas e lanas, arcos e tochas, todas dispostas com uma preciso militar que lhe confirmou que 
se tratava de um autntico exrcito, e no s de uma manada de animais.
       E levariam estas armas com eles ao Geall para destru-lo.
       Bom, primeiro lhes causaria alguns problemas.
       Recuperou sua forma humana e, com a nica tocha que havia na parede, ps fogo s mesas, os bas, os armrios.
       Distrao e destruio, pensou, lanando a tocha a um lado antes de voltar a transformar-se em um rato.
       Retornou to velozmente como pde  zona onde se encontravam os prisioneiros enjaulados. Viu que o homem que o menino tinha escolhido para seu jogo j no 
estava em sua jaula. J era muito tarde para salvar a ele ou  mulher, mas havia outros; mais de vinte prisioneiros, e ao menos lhes daria uma oportunidade de escapar 
dali.
       Agora s havia um guarda. Apoiado contra a parede, parecia estar cochilando apesar dos gemidos e splicas dos prisioneiros.
       Para conseguir seu propsito, necessitaria velocidade e sorte, pensou Larkin. Contava tendo ambas. Voltou a assumir sua forma humana, agarrou a espada do 
vampiro e o atravessou com ela.
       Quando o guarda estalou em uma nuvem de p, os gritos que saam das jaulas eram ensurdecedores.
       -Tm que correr.
       Agarrou o molho de chaves que pendurava de um gancho na parede e comeou a abrir as jaulas. Lanou-lhe a espada a um homem que o olhava com expresso vazia.
       -Podem lhes ferir com isso -disse Larkin sem perder um segundo. - E mat-los se lhes cortam a cabea. Ataquem com fogo. H tochas iluminando os tneis. As 
usem. Tomem. -Deixou as chaves em outro par de mos. - Abram o resto das jaulas. Logo ponham-se a correr. Alguns podero escapar. Farei tudo o que esteja a meu alcance 
para manter limpo o caminho.
       Embora sabia muito bem que corria um grande risco ao consumir sua energia, voltou a transformar-se enquanto o caos se desatava a seu redor. Saiu velozmente 
atravs da porta, convertido em lobo.
       Girou para a esquerda, esperando assim ganhar tempo, e se lanou contra o primeiro vampiro que encontrou. Agarrou-o completamente por surpresa e lhe rasgou 
o pescoo. Com o focinho gotejando sangue continuou sua carreira.
       Tinha esperado que o incndio que tinha iniciado no arsenal os mantivesse ocupados, mas ainda no tinha ouvido nenhum alarme.
       Viu que dois dos monstros arrastavam corpos at uma pilha onde havia mais mortos. Arrojados, pensou, como se fossem desperdcios. Enquanto corria, voltou 
a converter-se em humano e, enquanto trocava, agarrou uma espada.
       Acabou com os dois vampiros de um s golpe.
       Agora comeavam para ouvir-se gritos; no os dos prisioneiros, a no ser sons de alarme e de fria. Voltou a converter-se em lobo para aproveitar sua velocidade. 
J no podia fazer mais do que tinha feito.
       Continuou sua carreira por um dos tneis e viu o menino.
       Estava agachado no cho, devorando ao homem ao que tinham permitido sair de sua jaula. O cabelo loiro e brilhante do pequeno estava manchado de sangue, e 
esta gotejava deste modo de seus dedos e seus lbios.
       O grunhido grave que saiu da garganta do Larkin fez que o menino elevasse a cabea e o olhasse.
       -Cachorrinho! -Davey sorriu de um modo horrvel. - No h nada para ti at que eu tenha terminado. J acabei com essa, de modo que se quiser, peguea.
       Davey fez um gesto para a mulher que jazia de barriga para baixo a poucos metros dali.
       -No resultou to divertida como este, de modo que acabei rpido.
       Larkin sentiu uma enorme fria, e se disps a saltar sobre Davey.
       -Davey, ao fim te encontro! -O vampiro que tinha estado praticando com a Lora se aproximava rapidamente pelo tnel. - Sua me quer que retorne a suas habitaes. 
Alguns dos humanos se escaparam e conseguiram provocar um incndio.
       -Mas ainda no terminei.
       -Pois ter que terminar mais tarde. Estas duas so suas presas? -agachou-se para aplaudir ao Davey nas costas a modo de felicitao. - Bem por ti. Mas se 
segue comendo ficar doente. Enviarei a algum para que se leve estes corpos  pilha, agora tem que vir comigo.
       Enquanto falava com o Davey, jogou uma olhada a seu redor e viu o Larkin.
       - um dos lobos de sua me? Pensava que os havia enviado a todos a...
       Larkin advertiu a mudana em seu rosto, a sbita tenso de seu corpo. Saltou para frente mas no conseguiu lhe alcanar no pescoo, j que o vampiro bloqueou 
o ataque. A fora do golpe lanou ao Larkin contra a parede; por sorte se reps rapidamente, atacando ao vampiro outra vez antes que o monstro pudesse tirar sua 
espada.
       Houve gritos, uns alaridos horrveis e seus prprios grunhidos e dentadas. A parte dele que era lobo ansiava o sangue tanto como o homem que tinha dentro 
desejava a vingana.
       Afundou as garras no ombro e no peito daquele ser.
       Ento sentiu uma dor, uma dor indescritvel quando o menino saltou sobre seu lombo e lhe cravou as presas.
       Larkin retrocedeu lanando um uivo, e conseguiu desembaraar-se do Davey. Mas o menino ficou de p imediatamente enquanto o vampiro que estava no cho procurava 
sua espada.
       O lobo estava vencido, e Larkin rogou ter suficiente energia para poder escapar dali.
       Sua luz cintilou, brilhando fracamente. Sentiu mais dor e, junto com este, uma crescente debilidade, mas conseguiu converter-se em um camundongo pequeno e 
veloz, e deslizar-se em meio da escurido procurando o som do mar.
       O fogo que sentia na parte posterior do pescoo lhe queimava at o osso. Nas cavernas se ouviam gritos e ps que corriam. Larkin estava ao cabo de suas foras, 
e sua velocidade se reduzia, mas continuou correndo para a tnue claridade da lua, o rugido do mar.
       Havia gente que corria e subia pela parede do escarpado. Alguns carregavam com os mais dbeis e os feridos. Larkin sabia que, se voltava a trocar de forma, 
tambm teriam que carregar com ele.
       No podia fazer nada mais. Com a escassa energia que ficava, conseguiu arrastar seu pequeno corpo at uma rocha, e se ocultou atrs dela.
       Quo ltimo alcanou a ver, foi o resplendor das estrelas que se apagavam, junto com a chegada do amanhecer.
      
      
      
      8
      
       -J teria que ter retornado. -Da janela do salo, Blair viu como a alvorada se abria passo atravs da larga noite. - Ou estar de caminho. Talvez deveriam 
tent-lo de novo. -voltou-se para o Hoyt e Glenna. - Comear de novo.
       -Blair. -Glenna se aproximou dela e lhe acariciou o brao. - Asseguro-te que, logo que o possa ver, veremo-lo.
       -Foi uma idia estpida. Imprudente e estpida. No que estaria pensando? Fui eu quem o enviou ali.
       -No. -Agora Glenna a agarrou por ambos os braos. - Larkin foi s cavernas e todos estivemos de acordo. Estamos todos juntos nisto. Nenhum de ns suporta 
toda a carga.
       -Larkin se foi sem uma arma, sem um escudo.
       Fechou a mo sobre as cruzes que levava pendurando do pescoo.
       -Dificilmente tivesse podido voar ou arrastar-se ou deslizar-se ao redor de um ninho de vampiros com uma cruz ao redor do pescoo -assinalou Cian. - Um farol 
como esse? No teria durado nem cinco minutos.
       -E o que? Podia durar dez entrando ali nu.
       -No est morto. -Moira falou pausadamente sentada no cho, com o olhar fixo no fogo. - Eu saberia. Acredito que todos saberamos. O crculo se romperia. 
-Olhou ao Hoyt por cima do ombro. - No  assim?
       -Acredito que sim. Talvez seja algo to simples quanto Larkin precisa descansar. Assumir e manter outras formas deve exigir uma energia e uma concentrao 
considerveis.
       -Assim . Por isso Larkin est acostumado a comer como um cavalo de corrida. -Voltando-se para olhar a outros, Moira conseguiu esboar um dbil sorriso. - 
E, que eu saiba, nunca manteve uma forma durante mais de duas ou trs horas.
       Outro pesadelo, pensou Blair. Imaginar ao Larkin correndo atravs das cavernas na forma de rato que tinham decidido que adotaria e logo, clique, converte-se 
em humano sem ter sequer uma barra de cereais para recuperar foras.
       -Irei preparar um pouco de comida -disse Glenna, dando tapinhas nas costas de Blair para confort-la.
       -Eu o farei -props Moira enquanto se levantava. - Devo praticar mais com a cozinha. E preciso fazer algo, alm de estar sentada e preocupada.
       -Te darei uma mo. -Glenna rodeou com um brao os ombros da Moira. - Trarei caf em uns minutos.
       -Eu sairei um momento. -Hoyt se levantou da poltrona. - Possivelmente possa captar algo, sentir alguma coisa fora das paredes da casa.
       -Irei contigo.
       Mas Hoyt olhou ao Blair e meneou a cabea.
       -Farei-o melhor se estiver sozinho.
       O que se supunha que ia fazer? Ela no estava acostumada a ficar esperando. Blair era a que saa, fazia seu trabalho e arriscava a pele. No se supunha que 
devesse ficar dentro, retorcendo-as mos, enquanto outro estava em perigo.
       -Importaria-te correr essas outras cortinas? A luz entra desde esse lado.
       Blair, surpreendida, olhou por cima do ombro. Cian estava ajeitado em uma poltrona... e o torcido de luz que entrava atravs das janelas que davam ao este 
estava a menos de um metro da ponta de suas botas.
       Imaginou que a maioria dos membros de sua espcie fugiriam velozmente dessa propagao de luz. Mas Cian no. Ela duvidava de que ele sasse fugindo de qualquer 
coisa.
      -Claro.
       Aproximou-se da janela, correu as cortinas e sumiu a habitao na penumbra. No se incomodou em acender um abajur. Nesse momento, a escurido resultava confortvel.
       -O que faro ao Larkin? No minta, no trate de suaviz-lo. Se o agarraram, o que lhe faro?
       "Voc sabe -pensou Cian. - Voc j sabe."
       -Lilith far que lhe torturem. Para divertir-se e com o propsito prtico de lhe tirar informao.
       -Ele no lhes dir...
       - obvio que o far.
       A impacincia tingiu a voz de Cian. Resultava-lhe irritante sentir-se to unido ao Larkin para preocupar-se com o moo.
       -Lilith pode lhe fazer a um homem coisas que nenhum ser humano pode suportar... E lhe manter com vida. Larkin lhe dir tudo o que ela queira saber. E o mesmo 
faria voc ou qualquer de ns. E tem alguma importncia?
       -Talvez no. -Blair se aproximou, cedeu  debilidade de suas pernas e se sentou  mesa, diante de sua poltrona. Estava-lhe dizendo a verdade, nua e sem sentimentalismo. 
Era o que ela necessitava. - Lilith o transformar, verdade? Esse  o grande golpe, submeter a um de ns.
       -Com o que j seramos dois de ns.
       -De acordo. De acordo. -Blair deixou cair a cabea entre as mos porque lhe doa, igual s vsceras, igual ao estmago. - Cian. Se... teremos que...
       -Sim, teremos que faz-lo.
       -No acredito que possa suport-lo. No acredito que pudesse seguir com tudo isto. Se ele estiver morto sim, porque de outro modo seria como se ele tivesse 
morrido por nada. Mas se Lilith o envia aqui transformado, e temos que... -Elevou a cabea e se passou as mos sobre as bochechas midas. - Como pde super-lo? 
O que aconteceu com King? Glenna me contou que King e voc estavam muito unidos, e que teve que mat-lo. Como se pode superar algo assim?
       -Comportei-me como um         imbecil durante um par de dias.
       -Isso ajudou?
       -No especialmente. Desesperei-me e bebi at me embebedar, logo deixei que a ira se apoderasse de mim. Foi pelo que fizeram ao King, mais que qualquer outra 
razo, por isso chegarei ao final disto. -Girou a cabea e estudou ao Blair. - Apaixonaste por ele.
       -O que? No  isso... Ele me preocupa,  obvio. Todos ns. Somos uma unidade.
       -Os humanos so to estranhos; suas reaes ante o que sentem. A expresso de suas emoes. Em seu caso parece tratar-se de vergonha. Por que? Ambos so jovens, 
sos, e apanhados em uma situao cheia de paixo e perigos. Por que no deveriam formar um vnculo?
       -No  to simples.
       -No para ti, evidentemente.
       Cian desviou o olhar quando Hoyt entrou na casa e Blair ficou em p de um salto.
       -H uma caminhonete no atalho. As rodas esto destroadas. E h algumas armas em seu interior.
       Blair no se entreteve em agarrar uma jaqueta. Saiu correndo da casa em direo ao atalho. Viu que a porta do condutor estava aberta, com a chave na ignio, 
como se algum tivesse tentado pr em marcha o veculo e logo o tivesse abandonado a toda pressa.
       Havia um par de espadas e uma pequena geladeira com vrias bolsas de sangue na parte traseira.
       -Bom,  deles -disse ao Hoyt. - Disso no cabe nenhuma dvida. E as possibilidades de que os quatro pneus furaram de uma vez so iguais a zero. -agachou-se 
e colocou o dedo em um dos buracos que havia na borracha. - De algum jeito, Larkin fez isto.
       -Eu diria que deveram abandonar a caminhonete para fugir ao bosque e ocultar do sol -sugeriu Hoyt.
       -Sim. -O sorriso de Blair mostrou seu avesso propsito. - Ao menos tenho algo que fazer. Vou pegar armas.
       -Irei contigo -disse Hoyt.
       Blair entrou no bosque levando uma besta7 e estacas, procurando entre as sombras, movendo-se como uma delas. Na bifurcao de um atalho, Hoyt e ela se separaram, 
cada um entrando cada vez mais na luz, que era salpicada e tnue.
       Encontrou um deles escondido e oculto em uma zona mida, cheia de espessas sombras. Viu que era um moo, que no tinha mais de dezoito anos no momento de 
morrer. Por suas roupas -nas calas furadas e uma camiseta desbotada - provavelmente tinha sido um estudante que percorria a zona com uma mochila ao ombro.
       -Sinto-o -lhe disse Blair.
       O moo respondeu com um chiado e se arrastou para esconder-se atrs do tronco de uma rvore.
       -OH, venha j, cr que no posso verte? No me obrigue a ir at a.
       No ouviu chegar ao vampiro que a atacava por detrs, mas o sentiu. Blair realizou um meio giro e baixou o ombro direito, de modo que quando a criatura saltou 
sobre suas costas, saiu lanada por cima dela.
       Esse vampiro, uma garota, tinha aproximadamente a mesma idade que o moo, e parecia muito mais decidida.
       -So casal? Que bonito, e tambm que m sorte.
       A garota atacou e Blair apontou com a besta. Mas ento se deu conta de que no queria um golpe mortal, a no ser um combate.
       Desviou a chute da moa, recebendo a maior parte do impacto no quadril, e o segundo golpe na zona lombar. Ambos os golpes levavam fora suficiente para lan-la 
para frente. Aterrissou sobre as mos, levantou-se como uma mola e bateu o salto de sua bota contra a cara do vampiro.
       -Classes de kickboxing huh?
       Blair viu algo nos olhos da moa quando voltou para ataque e comearam a trocar golpes. Compreendeu que  que no tinha comido, e recordou a pequena geladeira 
com bolsas de sangue abandonado na caminhonete, perto da casa. Estava desesperada.
       E demorar o desenlace s estava torturando-a ainda mais. Esta vez, quando a vampira a atacou, Blair tirou a estaca que levava na cintura e a cravou no corao.
       -Cadela. Cadela estpida -gritou o vampiro que se escondeu atrs da rvore, e o forte acento de Nova Jersey em sua voz quase a divertiu.
       -Qual de ns?
       Quando o vampiro ficou de p, ela girou sobre os calcanhares, mas o moo ps-se a correr.
       -OH, pelo amor de Deus. -Levantou a besta e o atravessou com uma flecha. - Covarde.
       Deu-se a volta rapidamente para ouvir um rudo a suas costas, logo se relaxou ao ver o Hoyt que se aproximava pelo atalho.
       -S a gente -disse ele.
       -Dois aqui.  possvel que haja mais, mas certamente se ho embrenhado profundamente no bosque. Deveramos retornar e ver se houve alguma notcia do Larkin.
       -No pude sentir nada; tampouco sua morte. Larkin  um homem inteligente, Blair, com muitos recursos, como ter podido comprovar depois do que fez com as 
rodas dessa caminhonete.
       -Sim. No  nenhum asno, embora possa converter-se em um.
       -Sei o que significa que algum te importe e preocupar-se por sua vida. -Enquanto caminhavam de retorno  casa, os olhos do Hoyt, alerta e vigilantes, rastreavam 
as rvores. - Podem nos defender mutuamente, mas no podemos nos proteger todo o tempo. Glenna me ensinou a diferena.
       -Eu nunca tive que me preocupar com ningum em minha vida. Acredito que no sou muito boa nesse terreno.
       -Pois posso te assegurar que  uma habilidade que adquire com grande facilidade.
       Quando finalmente deixaram atrs o bosque, Moira saa correndo da casa como se tivesse estalado em chamas. A absoluta felicidade que refletia seu rosto fez 
que a preocupao de Blair se desvanecesse imediatamente.
       -Est voltando! -gritou. - Larkin est de retorno a casa.
       -J o v. -Hoyt passou o brao por cima dos ombros de Blair enquanto os invadia uma profunda sensao de alvio. - De modo que por hoje j no precisa seguir 
cultivando essa habilidade da preocupao.
       Necessitou de todas suas foras para conservar a forma do falco, para permanecer no ar. A dor e a fadiga lutavam em seu interior, cada uma ameaando ganhar 
e acabar com a pouca energia que ainda ficava. Tinha perdido sangue, sabia, mas no podia dizer quanto. S sabia que a mordida na parte posterior do pescoo era 
um fogo lacerante que no cessava.
       No havia ningum -humano ou vampiro -  vista quando, depois de que tivesse amanhecido, recuperou sua forma humana. Havia sangue no cho de pedra, embora 
no todo era dele. Tampouco o suficiente, consolou-se, para fazer pensar que todos quo prisioneiros tinha conseguido liberar tivessem sido assassinados.
       Certamente alguns deles tinham conseguido escapar. Embora s o tivesse obtido um...
       Sentiu que falhavam as foras, notou que uma de suas asas tremia tratando de converter-se em um brao. Descendeu, invocando ao falco para que mantivesse 
a forma.
       "Ali est o rio -pensou. - Ali est o Shannon." Agora sabia que estava no caminho correto de retorno a casa.
       Convocou a sua mente o rosto de Blair, aquele sorriso em dois tempos, o intenso azul de seus olhos, a msica de sua voz. Conseguiria-o, faria que isso durasse 
quilmetros.
       Podia sentir que seu corao -o corao do falco - pulsava muito depressa. Inclusive o simples feito de respirar lhe supunha um grande esforo, e sua viso 
j no era to aguda. Em seu interior havia algo que tinha metido aquele demnio em forma de menino. Dentro dele, circulando com seu prprio sangue, envenenando-o.
       Uma debilidade, a escurido de Lilith, sussurrou-lhe que devia render-se.
       Mas ento Larkin ouviu algo mais, mais intenso.
      
       J quase est em casa, moo-pssaro. Segue voando, j quase est devolvido. Estamos-lhe esperando. Vamos preparar-te o caf da manh dos campees, tudo o 
que seja capaz de comer. Venha, Larkin, retorna a casa.
      
       Blair. Aferrou-se ao som de sua voz e continuou voando.
       Ali estava o bosque, e tambm o bonito arroio, e a casa de pedra e o estbulo. E mais  frente o cemitrio, onde estava condenadamente decidido a no acabar 
agora que j estava to perto.
       Ali! Ali estava Blair, fora da casa, com o rosto voltado para o cu buscando-o. Seus olhos. E tambm estava Moira, sua querida Moira, e outros, exceto Cian. 
Elevou uma prece de profundo agradecimento a todos os deuses.
       Logo suas foras simplesmente se dissolveram. Caiu os ltimos trs metros que lhe separavam do cho, j convertido novamente em um homem.
       -OH, Deus! OH, Deus! -Blair correu para ele antes que outros. - Esperem, tomem cuidado. Devemos ver se tem quebrado algo.
       Comeou a passar as mos sobre seu corpo ao tempo que Glenna fazia o mesmo. Ento percebeu a pele ferida na parte posterior do pescoo e lhe apartou lentamente 
o cabelo.
       Elevou a vista e olhou os olhos brilhantes de alegria da Moira.
       -Morderam-lhe.
       -OH, Deus, querido Deus. Mas no o transformaram. -Moira elevou uma das flcidas mos do Larkin at seus lbios. - No poderia estar ao sol se assim fosse.
       -No, no o transformaram. E tampouco tem nada quebrado. Embora esteja muito machucado. Seu pulso  realmente muito dbil, Glenna.
       -Lhe levemos dentro.
       -Precisa comer. -Moira correu por volta da casa enquanto Glenna e Blair elevavam ao Larkin. -  como se um de ns tivesse passado vrios dias sem comer. Necessita 
alimento e lquidos. Procurarei algo.
       -Ao sof do salo -ordenou Glenna. - Logo irei procurar o que necessito.
       Uma vez que o tiveram colocado no sof, Blair se agachou junto a sua cabea. Larkin estava plido como a morte e os machucados comeavam a acentuar-se.
       -J passou, j est em casa. Isso  o que importa. Est em casa.
               -Cian... Cian h dito que comecemos com isto. -Moira entrou levando uma grande jarra de suco de laranja. - Para que reponha lquido e acar.
                -Sim, bem. Temos que reanim-lo. Venha, moo voador.
                -Deixa que o tente com isto. -Glenna se ajoelhou junto ao sof. Colocou o polegar em uma jarra de blsamo e o lubrificou no centro da frente do Larkin. 
- Sobre os chakras -explicou enquanto trabalhava. - um pouco de equilbrio chi. Moira, lhe agarre a outra mo, aplica um pouco de sua fora. Voc sabe como faz-lo. 
Blair, fala novamente com ele do modo em que te disse que o fizesse quando estava voando. Suas palavras lhe chegaro. Hoyt?
                -Sim. -Hoyt colocou ambas as mos aos lados da cabea de Blair. - Diga-lhe que retorne -lhe disse.
      
               Venha, Larkin, tem que despertar. No pode ficar aqui deitado todo o dia. Alm disso, o caf da manh est preparado. Por favor, desperta j. Estive-te 
esperando. -Apertou a mo contra sua bochecha. - Seus dedos se moveram! - Venha, Larkin, j  suficiente drama por um dia.
      
       Suas plpebras tremularam.
       - Por que as mulheres esto sempre brigando aos homens? -murmurou Larkin.
       - Suponho que isso  precisamente o que precisam -respondeu Blair.
       -Toma, aqui tem.
       Moira rodeou o sof para lhe levantar a cabea e sustentar um copo junto a seus lbios.
       Larkin bebeu como um camelo e logo conseguiu esboar um sorriso.
       - Aqui est minha querida prima. Que quadro to formoso. Trs belos rostos ao meu redor. Entregaria-lhes todos meus bens terrestres e uma vida de devoo 
se me conseguirem algo de comer. 
        Foi Cian quem entrou na habitao levando um pequeno prato com duas torradas.
       -Precisa comear pouco a pouco.
       Larkin olhou ao Blair. Devolveu-lhe o olhar e fechou os olhos, assentindo.
       -No lhe coma isso de um bocado -lhe advertiu.
       -S po? No posso comer carne? Juro que poderia engolir um veado inteiro. Ou esse prato delicioso que voc prepara, Glenna, o do macarro e as bolas de carne.
       -Farei-o esta noite.
       -Precisa comer s o suficiente para te reanimar -comeou a dizer Blair - e recuperar um pouco de fora. Se houver uma comida completa a vomitar quando nos 
estivermos encarregando da mordida -lhe explicou.
       -Foi o menino, seu filho. Esse pequeno bastardo. Nesse momento eu era um lobo, de modo que a mordida no foi muito profunda.
       -Glenna tem blsamo. Usou-o comigo quando me morderam. -Moira acariciou o cabelo do Larkin. -  uma queimadura terrvel, sei, mas o blsamo acalma o ardor.
       -No lhe morderam -disse Cian categoricamente. - Foi um arranho, no uma espetada.
       -Qual  a diferena?
       -Muita. -Blair se levantou. - Com a mordida se produz uma infeco, e existe tambm um risco considervel de que o vampiro que te mordeu tenha certo controle 
sobre ti.
       -Aye. -Larkin franziu o cenho e fechou os olhos. - Senti algo em meu interior. Mas...
       -Encarregaremo-nos disso. Tem que ser desencardido com gua benta.
       -Est bem. Logo se pudesse contar com esse blsamo milagroso de que falou Moira, e com uma boa comida, sentiria-me como novo... Isso sem ter em conta que 
cada osso de meu corpo parece ter sido golpeado com um martelo.
       "Ter que lhe dizer a verdade -pensou Blair. - A verdade pura e dura."
       -Sabe a queimadura que sentiu quando o menino te cravou as presas? A queimadura que est sentindo agora?
       -Sim.
       -Isto ser muito pior. Sinto muito.
       Blair abandonou o salo e subiu rapidamente a escada. Moira saiu atrs dela.
       -Tem que haver alguma outra maneira de faz-lo. Como podemos voltar a lhe fazer dano? Ainda est muito dbil e dolorido. Posso ver a dor refletida em seus 
olhos.
       -E cr que eu no o vejo? -Blair entrou em sua habitao. -No h outro modo.
       -J sei que no est nos livros. Tenho-os lido. Mas com a Glenna e Hoyt...
       Blair tirou uma garrafa com gua benta de entre suas coisas e havia uma firme determinao em seu rosto quando se deu a volta.
       -No h outra maneira de fazer isto. Larkin est infectado. E isso coloca a ele e a todos ns ante um grave risco. -Estendeu o brao e girou o brao de modo 
que a cicatriz do pulso ficasse ao descoberto. - Sei muito bem o que se sente. Se existisse alguma outra maneira, no cr que o tentaria?
       Moira deixou escapar o ar ao tempo que sentia um calafrio.
       -O que posso fazer?
       -Pode ajudar a mant-lo imvel.
       Blair levou a salo toalhas e ataduras. Obrigou-se a aproximar-se do Larkin e o olhou fixamente aos olhos.
       -Isto te doer.
       -Doer-te -acrescentou Cian - como mil demnios.
       -OH, bem. -Larkin se umedeceu lbios. -Isso  muito alentador.
       -Eu poderia bloquear parte da dor -comeou a dizer Glenna.
       -No acredito que possa ou deva faz-lo. -Blair meneou a cabea. -Forma parte disso.  a maneira de faz-lo. Temos que lhe colocar no cho, de barriga para 
baixo. Ponham-lhe essas toalhas sob o corpo. Cian, voc  melhor que o agarre dos ps. No quero que te respingue nenhuma gota de gua benta.
       Larkin se estremeceu de dor quando o levantaram do sof.
       -Por que  necessrio que me agarre os ps?
       -Manteremos-lhe sujeito contra o solo -explicou Blair.
       -No necessito que...
       -Sim o necessitar.
       Ele voltou a fixar seus olhos nos de Blair e viu o que havia neles.
       -Faz-o ento. Confio em ti.
       Com Cian a seus ps, Hoyt a um lado e Glenna e Moira no outro, Blair abriu a garrafa. Apartou o cabelo do Larkin e deixou a ferida ao descoberto.
       -Nestas circunstncias, gritar no se considera imprprio de um homem. Prepare-se -lhe advertiu, e verteu um pouco de gua benta sobre a ferida.
       Larkin gritou. Seu corpo se arqueou e retorceu de dor e a ferida pareceu ferver. Blair deixou que o lquido viscoso brotasse borbulhante da ferida enquanto 
seguia orvalhando-a com gua benta.
       Recordou a noite em que tinha tido que ir ver sua tia, menos de uma semana depois de que seu pai a tivesse abandonado. E como as lgrimas tinham deslocado 
pelas bochechas da mulher enquanto vertia a gua benta sobre a ferida aberta no pulso de Blair.
       A sensao de que a carne, os ossos estavam sendo cortados com uma faca incandescente.
       Quando a ferida ficou completamente limpa, Blair utilizou as toalhas para sec-la. Larkin ofegava tratando de respirar.
       - provvel que o blsamo ajude agora.
       Glenna, branca como um lenol, aproximou-se cambaleante para agarrar o frasco com o blsamo. Suas lgrimas se derramaram sobre o Larkin.
       -Sinto muito, Larkin, sinto-o muito. Posso lhe ajudar a que durma agora? Embora s seja uma hora?
       Blair se passou o dorso da mo pela boca.
       -Claro, j terminamos. Viria-lhe bem um pouco de descanso.
       Dito isto, Blair correu escada acima, irrompeu em sua habitao e fechou a porta violentamente a suas costas. Logo se deixou cair ao cho, aos ps de sua 
cama, escondeu a cara entre as mos e ps-se a chorar.
       Sobressaltou-se ao sentir que um brao lhe rodeava os ombros e a abraava com fora.
       -Foste muito valente -cantarolou Moira, como uma me que arrulha a seu filho. - To forte e valente. Eu tento s-lo, mas  to difcil... Quero acreditar 
que tivesse sido capaz de fazer o que voc tem feito por ele, porque quero muito ao Larkin.
       -Estou doente, sinto-me doente -disse Blair.
       -Sei, eu tambm. Importa-te que fiquemos assim, abraadas, durante um momento?
       -Eu no devo seguir sentindo este tipo de coisas. No so de nenhuma ajuda.
       -Eu acredito que ocupar-se de outros, embora isso signifique lhes fazer dano, sim ajuda. Cian lhe preparou suco e po torrado. Jamais o tivesse imaginado 
dele. Mas Cian lhe tem afeto.  impossvel no ter-lhe ao Larkin. E se voc lhe ama...
       Blair elevou a cabea e se enxugou as lgrimas.
       -No quero voltar a falar disso.
       -Bom, se lhe amasse, desfrutaria de uma vida feliz e completamente incomum. Pode-me ensinar a preparar essas torradas com ovo? Ao Larkin gostar das ter quando 
despertar.
       -Sim. Sim,  obvio. Irei refrescar-me um pouco e descerei em seguida. -Ambas se levantaram. - Moira, eu no posso ser boa para ele. No sou boa para ningum.
       Moira se deteve o chegar  porta.
       -Isso dependeria dele, no cr? Tanto como de ti. 
       Larkin ainda estava plido quando despertou, mas seus olhos j no estavam turvos. Insistiu em comer sentado  mesa, com a comida ao alcance da mo, conforme 
disse.
       Acabou com vrias torradas empanadas e fritas, alm de ovos e bacon, e o fez a um ritmo lento e deliberadamente pausado. Enquanto comia, contou-lhes o que 
tinha visto, feito e ouvido nas cavernas.
       -Foram muitas mudanas, Larkin. Voc sabe que no deveria...
       -Vamos, no brigue comigo, Moira. Tudo saiu bem, verdade? Poderia beber agora um pouco mais da Coca-cola? -Acompanhou o rogo com um sorriso doce e encantador.
       Posto que era quem estava mais perto, Blair abriu a geladeira e tirou outra garrafa da Coca-cola.
       -No se tratava de uma misso de resgate -disse. - Falamos especificamente disso, Larkin.
       -Voc teria feito o mesmo. OH, no meneie a cabea me olhando desse modo. -Agarrou a garrafa. - Tinha que tent-lo, e qualquer de ns o teria feito. Vocs 
no viram nem ouviram o que eu vi. No podia abandonar aquele lugar, no sem ter tentado ajudar a essa pobre gente. E a verdade  que, h algum tempo, estive querendo 
provocar um incndio nesse lugar. -Agora olhou a Cian. - Do que aconteceu King. 
       -Ele sem dvida teria apreciado o gesto -respondeu o vampiro.
       -Esteve a ponto de perder a vida -assinalou Blair.
       -Na guerra ter que matar, verdade? Devi ter deixado ao menino atuar como o que parecia ser, um menino. Mas ao ver o que estava fazendo... acredito que perdi 
o julgamento, no o nego, e s queria acabar com ele. Isso foi um ato intil e estpido. -levou-se a mo  parte posterior do pescoo e tocou a atadura que cobria-lhe 
ferida. - E nunca esquecerei o preo que tive que pagar por isso. -Logo se encolheu de ombros e engoliu mais ovos. - Ela no parecia estar muito contente com esse 
mago, esse tal Midir.
       -Conheo esse nome -disse Hoyt. - Era um personagem com uma pssima reputao... antes de minha poca -acrescentou. - Magia negra; criava demnios para que 
cumprissem suas ordens.
       Larkin bebeu um comprido gole da garrafa da Coca-cola.
       -Agora  ele quem cumpre as ordens de Lilith.
       -Dizia-se que Midir tinha sido devorado por seu prprio poder. E, de algum jeito, acredito que assim foi.
       -Acredito que ela tinha inteno de lhe castigar, ou permitir que a outra, Lora, fizesse-o. Mas quando lhe deu o espelho mgico, Lilith ficou deslumbrada, 
e seu aborrecimento desapareceu. Ela e Lora estavam hipnotizadas por seus prprios rostos.
       -Nisso h uma considervel dose de vaidade -comentou Cian. - Deve ter ser muito emocionante poder ver seu reflexo depois de tanto tempo.
       -No foi o que eu esperava; bom, quero dizer que tiveram uma reao humana, ou algo assim. E o afeto entre ambas as mulheres parecia autntico.
       -Larkin est sendo muito delicado -disse Cian. - Lilith e Lora so amantes. Ambas tm tambm a outros,  obvio, freqentemente ao mesmo tempo, mas so um 
casal, e se querem sinceramente uma  outra. A relao teve suas desigualdades, mas durou quatrocentos anos.
       -Como sabe? --perguntou Blair.
       -Lora e eu tivemos... como o chamaria? Uma aventura? Isso deveu ocorrer, vejamos, ao incio de mil e oitocentos, em Praga se a memria no me falha. Lilith 
e ela estavam em meio de um de seus aborrecimentos, e Lora e eu passamos juntos algumas noites. Logo, ela tratou de me matar e eu a joguei pela janela.
       -Uma ruptura bastante contundente -murmurou Blair.
       -OH, bom, ela  a criatura da Lilith, no importa com quem possa jogar de vez em quando. Eu sabia antes que tentasse me cravar uma estaca no corao. Quanto 
ao menino, no sei nada a respeito dele. Eu diria que  uma recente incorporao ao quadro.
       - famlia -o corrigiu Larkin. - H algo depravado entre eles, mas, de algum jeito, Lilith o considera seu filho e ele a considera sua me.
       -Isso os converte em pontos dbeis -afirmou Hoyt. - Tanto ao menino como  mulher francesa.
       -Davey. Assim o chamava ela -acrescentou Larkin.
       Hoyt assentiu. Um nome sempre resultava til.
       -Se pudssemos capturar ou acabar com algum deles, para Lilith significaria um golpe terrvel.
       -Ela no partir para o Geall logo que ns -refletiu Blair. - Talvez pudssemos colocar algumas armadilhas para receb-los. No podemos saber por onde sairo 
no outro lado, no exatamente, mas possivelmente sejamos capazes de fazer algo. Em qualquer caso, ainda temos alguns dias para pensar nisso.
       -E o faremos, mas agora todos estamos cansados. Precisamos dormir um pouco. -Glenna apoiou as mos sobre os ombros do Larkin. - E voc precisa recuperar suas 
foras, bonito.
       -J estou me sentindo melhor, obrigado. Mas a verdade  que poderia usar uma cama. -ficou de p. - Parece que minhas pernas voltam a me sustentar. Sobe comigo, 
Blair? Eu gostaria de falar contigo.
       -Sim, de acordo. -Blair comeou a subir a escada detrs o Larkin. Queria manter as mos separadas dele, mas no o via muito seguro com os degraus, de modo 
que agarrou seu brao e o colocou em cima dos ombros. - Assim, te apie em mim.
       -No me importaria faz-lo. Queria te agradecer o que tem feito por mim.
       -No o faa. -Blair sentiu um n no estmago. - No me agradea por isso.
       -Sim, agradeo. Estiveste pendente de mim. Ouvi sua voz. Quando voava de retorno a casa e no estava seguro de que pudesse consegui-lo, ouvi sua voz, e soube 
que o obteria.
       -Acreditava que ela te tinha apanhado. Imaginei encerrado em uma jaula, e isso era pior que pensar que tinha morrido. No quero estar to assustada, no quero 
sentir essa impotncia.
       -No sei como impedir que isso acontea. -Quando chegaram a sua habitao, Larkin estava quase sem flego e agradecido pela ajuda para chegar at a cama. 
- Deitaria-te comigo?
       Blair estava tendendo-o na cama e o olhou boquiaberta.
       -O que?
       -OH, no o dizia nesse sentido. -ps-se a rir e lhe agarrou a mo. - Acredito que ainda no me recuperei de tudo, embora seja um pensamento encantador para 
outro momento. O que digo  se quereria te deitar aqui comigo, a str8, e dormir um momento a meu lado.
       Depois da dor que lhe tinha causado, Blair tivesse imaginado que seria a ltima pessoa com quem ele desejaria estar. Mas a estava, estendendo a mo para 
ela.
       -S dormir. -deitou-se junto a ele e se voltou para poder lhe ver a cara. - Nada de tolices.
       -Te rodear com o brao seria uma tolice?
       -No.
       -E um beijo?
       -Um. -Blair lhe tocou os lbios com os seus. - Fecha os olhos.
       Larkin o fez, ao tempo que suspirava.
       - bom estar em casa outra vez.
       -Sente dor?
       -Em realidade, no. Alguma molstia, isso  tudo.
       - afortunado.
       O voltou a abrir os olhos.
       -No podia dizer que fui valente e hbil?
       -Talvez isso tambm. E posso acrescentar ardiloso  lista. Corno de unicrnio contra Goodyear. Isso realmente me gostou.
       Blair apoiou a mo sobre o corao do Larkin e fechou os olhos. E dormiu.
             
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      9
      
      Foi seu prprio intumescimento o que despertou. Larkin permaneceu uns minutos deitado na cama, perguntando-se se assim seriam as coisas cada bendita manh 
quando fosse um ancio.
      Um pouco aturdido de mente e pesado de corpo. Talvez a mente fosse adaptando-se de forma gradual, de modo que a gente esquecesse o que significava sentir-se 
jovem e ativo.
       Juraria que os ossos lhe tinham rangido ao d-la volta.
        obvio, Blair se tinha partido. Provavelmente no tivesse podido fazer o amor com ela em caso de que ficasse... Se  que conseguia convencer a de que o fizessem.
      Blair era um enigma. To forte, quase de ao, e uma deusa na batalha. Mas com todas essas camadas em seu interior, algumas suaves, outras machucadas.
       Ele desejava lhe tirar couraa dura e chegar at seu corao.
       E era to agradvel olh-la. O cabelo to suave e negro, contrastando com sua pele branca. Os olhos, profundos, de um azul mgico que lhe olhavam fixamente, 
sem nenhum acanhamento. s vezes, Larkin se contentava olhando os movimentos de sua boca sem importar as palavras que sassem dela, ver todas as formas que era capaz 
de adotar.
       Logo estava seu corpo, esbelto e duro. Elegante, em realidade. No podia dizer que lhe importasse muito que ela o derrotasse quando praticavam a luta corpo 
a corpo; no quando tinha esse corpo se chocando contra o seu. Braos e pernas largos, ombros fortes que freqentemente estavam nus durante o treinamento. E aqueles 
peitos encantadores e firmes.
      Ele tinha pensado muito nesses peitos.
      E agora se estava excitando sem possibilidade de lhe dar sada para seu desejo.
      Levantou-se e deu um coice de dor. Tendo em conta tudo o que tinha passado, sups que podia considerar-se afortunado por ter sado s dolorido ou machucado. 
Tinha que dar as graas a Glenna por isso, e possivelmente fosse a procurar para ver se podia ajud-lo um pouco mais, agora que estava descansado.
       Tomou banho, entregando-se ao prazer de permanecer sob uma gua to quente como pde suportar. Sentiria falta disso, essa era a pura verdade. Perguntou-se 
se Moira, que era muito esperta deduzindo o funcionamento das coisas, poderia construir uma ducha no Geall.
       Uma vez que se vestiu, saiu da habitao e percorreu a casa. Tudo estava to silencioso que se perguntou se outros estariam ainda dormindo, e considerou a 
possibilidade de fazer uma visita  cozinha. Tinha fome outra vez, o qual no era nenhuma surpresa.
       Mas duvidava de encontrar ao Blair ali. Pensou que sabia muito bem onde estaria.
       Ouviu a msica antes de chegar  sala de treinamento. No era a mesma msica que ela tinha estado escutando na cozinha fazia um par de dias. Agora a que cantava 
era uma mulher, com uma voz dura e fascinante, pedindo um pouco de respeito quando chegasse a casa.
       Bom, isso no era muito pedir, em opinio do Larkin.
       E ali estava Blair, vestida s com a breve camiseta branca e as calas negras que se atavam  parte baixa dos quadris... Um de seus trajes favoritos, para 
ser sincero.
       Estava dando cambalhotas e utilizando para isso a maior parte da grande habitao. Saltos mortais, chutes e giros sobre si mesma. Em um dado momento, rodou 
at agarrar uma espada que havia no cho e comeou a lutar contra o que parecia ser uma multido de inimigos invisveis.
       Larkin esperou a que ela lanasse o ltimo golpe, com o corpo colocado na concentrada posio do guerreiro.
       -Bem, acabaste com quase todos eles.
       Primeiro Blair moveu s a cabea, girando-a at que seus olhos se encontraram com os do Larkin. Logo juntou os ps e baixou a espada.
       -Nada mais que p.
       Aproximou-se da mesa para deixar a espada, apagou a msica e logo agarrou uma garrafa de gua. Enquanto bebia, dedicou-lhe um largo e exaustivo olhar. O rosto 
do Larkin estava machucado, com arranhes em uma tmpora... Algo que, por alguma razo, no lhe subtraa um pice de beleza, decidiu.
       Em qualquer caso, tinha boa cor.
       -Como se sente?
       -Bastante bem, embora me haveria sentido melhor se tivesse estado ao meu lado ao despertar.
       -No sabia quanto precisava dormir. Como est a mordida?
       -Apenas me lembro dela. -aproximou-se de Blair, agarrou-lhe a mo e lhe fez girar o pulso. - Agora os dois temos nossas cicatrizes.
       -Tem o cabelo mido.
       -Estive um momento sob a ducha. Doam-me os ossos e acredito que, depois de toda uma noite, cheirava bastante mal.
       -Ter empapado a vendagem. -Blair franziu o cenho enquanto fazia que se desse a volta. - Deixa que jogue uma olhada.
       -Sinto coceira mais que nada -disse ele, desfrutando do contato de seus dedos em seu cabelo, sobre sua pele.
       -Est cicatrizando depressa.  o blsamo mgico da Glenna, menino, eu gostaria de ter tido um pouco disso depois de minha briga. Acredito que sair desta.
       -Cr-o?
       Larkin se voltou, agarrou-a pela cintura e a elevou at sent-la em cima da mesa.
       -V com cuidado, amigo, ainda no lhe tiramos da lista de incapacitados.
       -No sei do que est falando. E tampouco importa muito. Faz um momento estava pensando em como eu gosto de olhar os movimentos de sua boca. -Passou a gema 
do polegar por seu lbio inferior. - Tem tanta energia...
       -No cr que te despertaste muito brincalho? Acredito que seria melhor que...
       Foi tudo o que alcanou a dizer antes que sua boca estivesse muito ocupada.
       Esta vez, Larkin no se limitou a provar, mas sim se deleitou com os lbios de Blair. No se conformou com uma amostra mas sim os possuiu. Aquilo era mais 
fome, muita exigncia para Blair; a classe de demanda que embotava o corpo e a mente e a deixava tremendo de necessidade.
       Ela no tinha chegado a tempo de colocar suas defesas, e agora j era muito tarde para fazer nada salvo enfrentar-se ao ataque.
       Cedeu um pouco, s o suficiente, logo voltou a invadi-la a onda de calor. Larkin podia senti-lo, surgindo do corpo dela e transpassando o seu, um glorioso 
incndio. Deslizou as mos sobre seu corpo, tocando, finalmente tocando, o torso esbelto, os peitos duros e firmes, os ombros fortes, e voltou a comear.
       Sentiu o estremecimento de sua resposta, ouviu o gemido de prazer apanhado em sua garganta e soube que ela seria dele.
       Mas Blair apoiou ambas as mos sobre seu peito.
       -Espera. Espera. Separemos-nos um momento.
       Sua voz era espessa e ofegante e lhe fez desejar lamb-la como se fosse nata.
       -Por qu?
       -No sei, mas pensarei em uma razo dentro de um minuto, logo que meu QI volte a superar o nvel de um nabo.
       -No sei o que significa seu QI, mas o resto de ti  perfeito.
       Ela se ps-se a rir, mas manteve as mos firmes, de modo que a boca do Larkin no pudesse tomar a sua novamente e lhe fritar o crebro pela segunda vez.
       -No o sou. Nem de longe. E no se trata de que no pense que me inundar nisto seria algo bom. Realmente bom.  mais que provvel que, finalmente, acabemos 
fazendo-o. Mas  complicado, Larkin.
       -As coisas so to simples ou complicadas como ns as faamos.
       -No. s vezes as coisas simplesmente so. Voc nem sequer me conhece.
       -Blair Murphy, caadora de vampiros. Isso  no que pensa primeiro... Isso  o que lhe ensinaram a pensar primeiro. Mas no  toda voc, nem muito menos. To 
forte e cheia de coragem.
       Ela foi interromper lhe, mas ele apoiou um dedo sobre seus lbios.
       -Entretanto, em ti h muito mais que valor e obrigao. Tem cantos tenros em seu corao. Eu os vi quando Glenna e Hoyt se comprometeram. Encarregou-te das 
flores e as velas porque queria que eles tivessem seu momento. Voc sabia que eles se amavam, e que isso era o importante. Houve uma grande doura em sua atitude.
       -Larkin...
       -E lhe feriram. As cicatrizes esto todas em seu interior, escondidas onde ningum possa as ver. Essas feridas lhe fazem pensar que est sozinha, que precisa 
estar sozinha. Mas no o est. Sei que durante toda sua vida lutaste contra uma coisa verdadeiramente horrvel, e que nunca o evitaste. E mesmo assim pode sorrir, 
e rir, e fazer que os olhos se encham de lgrimas quando duas pessoas apaixonadas se comprometem e fazem seus votos. No sei qual  sua cor favorita nem qual foi 
o ltimo livro que leste quando teve um momento livre, mas te conheo.
       -No sei o que fazer contigo -disse Blair quando pde voltar a falar. -Realmente no sei. Supunha-se que as coisas no deviam ser assim para mim. Supunha-se 
que no ia haver surpresas.
       -Sem surpresas? Pois me sinto feliz de poder trocar isso. Bom, posto que no acredito que possa conseguir que te tire a roupa neste momento, por que no damos 
um passeio?
       -Isto... Hoyt e eu temos feito uma batida pelo bosque esta manh. Matamos a trs.
       -No me referia a caar. Um passeio. S um passeio. Ainda fica muita luz.
       -OH. Ah...
       -Necessitar uma camisa, ou uma jaqueta. Sairemos pela cozinha e agarraremos uma. Desse modo tambm podemos nos levar uma caixa de bolachas.
       Que estranho era, disse-se, sair a passear pelos campos acompanhada de um homem ao cair a tarde. Sem outro propsito que o de caminhar: nenhuma misso, nenhuma 
explorao, nenhuma caa. Armados com espada e estaca e biscoitinhos doces.
       -Sabia que Hoyt ficar aqui com a Glenna quando tudo isto tenha acabado?
       Blair mordeu uma bolacha e o olhou com o cenho franzido.
       -Aqui, na Irlanda? Como sabe?
       -Hoyt e eu estamos acostumados a falar de muitas coisas quando estamos no estbulo nos encarregando do cavalo. Sim, aqui na Irlanda. Neste lugar. Cian lhes 
deu de presente a casa e as terras.
       -Que Cian lhes deu de presente a casa? -Comeu outra bolacha. - No posso imagin-lo. Sei que alguns vampiros, ou isso ouvi dizer, deixam de beber sangue. 
Sangue humano. Existem rumores, principalmente lendas, de que alguns vivem entre ns fazendo-se passar por humanos, depois de ter abandonado a caa. Nunca acreditei 
realmente nada disso.
       -Fazer-se passar por humanos no os converte em humanos. E, entretanto, confio em Cian mais que em muitos homens. Pergunto-me se viver uma vida to larga 
tem algo que ver com isso.
       -Diga-lhe a Lilith. Ela tem o dobro de anos que ele.
       -Os demnios devem ter alternativas, verdade? Escolher este caminho ou aquele, no sei. Quando tudo isto tenha terminado, voltar para sua Chicago?
       -No o pensei. -Sentiu uma espetada entre os ombros ao pensar nisso. - Pode que em alguma outra parte. Talvez viva em Nova York durante algum tempo.
       -Onde vivia Glenna. Mostrou-me fotografias desse lugar.  maravilhoso. Possivelmente pudesse ficar um tempo no Geall. Como umas frias.
       -Frias no Geall. -Meneou a cabea. - Falando de maravilhas... Talvez uns dias.
       No se tratava precisamente de que algum estivesse esperando que ela retornasse.
       Caminharam at o cemitrio e as runas da capela. Ali ainda nasciam flores, e a brisa sussurrava entre a grama alta.
       -Esta  minha gente.  to estranho isso saber. Se algum seguiu a pista de nossos antepassados at tempos to remotos, a mim ningum me disse isso.
       -Isso te entristece?
       -No sei. Um pouco possivelmente. Hoyt me trouxe aqui para me mostrar de onde venho. Essa  a tumba da Nola. -Assinalou uma lpide onde se estava murchando 
o ramo que ela tinha depositado alguns dias antes. - Ela foi o incio do legado da famlia. O comeo. Um de seus filhos teria sido o primeiro caador. No sei qual 
deles, e suponho que nunca saberei. Mas ao menos um deles.
       -Trocaria isso se pudesse?
       -No. -Blair o olhou quando Larkin lhe rodeou os ombros com o brao. - Renunciaria voc ao que  capaz de fazer?
       -No o faria nem por todo o ouro que h nas Green Mountains. Especialmente agora. Porque agora h uma diferencia. Quando voc esteja de frias no Geall -disse 
enquanto continuavam andando - te levarei s Faene Falls. E faremos um picnic.
       -De novo a comida.
       Blair tirou uma bolacha da caixa e a colocou na boca do Larkin.
       -Nadaremos no lago. A gua  transparente como o cristal e no est fria. Depois te farei o amor sobre a grama suave enquanto a gua cai junto a ns.
       -E volta para o sexo.
       -Comida e sexo. No que outra coisa mais prazerosa se pode pensar?
       Blair teve que admitir que no lhe faltava razo. E no podia negar tampouco que a simplicidade de um passeio ao entardecer tinha sido um presente inesperado, 
mais precioso do que nunca tivesse imaginado.
       - o azul -disse ela. - Minha cor favorita  o azul.
       Sorriu-lhe, agarrou sua mo e continuaram caminhando acima e abaixo da colina.
       -Olhe ali.  uma formosa vista.
       Blair viu a Glenna e Hoyt no jardim de ervas, muito perto um do outro. O jardim se via exuberante a seu redor e o sol iluminava a cena. Glenna sustentava 
uma cesta cheia de ervas que tinha recolhido e sua mo livre se apoiava na bochecha do Hoyt.
       -Ouve o canto do sabi? -perguntou Larkin e ela escutou o pequeno gorjeio feliz do pssaro.
       O momento continha uma silenciosa intimidade, algo que no podia ser capturado e conservado, embora era permanente e universal. Encontrar isto era um verdadeiro 
milagre, pensou Blair, aquela normalidade, aquela proximidade dos coraes em meio de todo o horror.
       Deu-se conta de que, at que chegou ali, ela no tinha acreditado nos milagres.
       -Por isso ganharemos -disse Larkin.
       -O que?
       - por isso pelo que eles no podem nos derrotar. Ns somos mais fortes.
       -No  minha inteno estragar este momento, mas fisicamente so superiores ao humano mdio.
       -Fisicamente. Mas no tudo  fora bruta, verdade? Nunca o . Eles procuram destruir e ns sobreviver. A sobrevivncia sempre  mais forte. E tambm temos 
isto. -Assinalou com a cabea para o Hoyt e Glenna. - Amor e generosidade, compaixo. Esperana. Por que outra razo se fariam promessas duas pessoas em um momento 
assim, e com inteno de manterem-se fiis a elas? No renunciaremos a isto. No permitiremos que nos arrebatem isso. Lutaremos juntos por isso e nunca nos deteremos.
        Larkin ouviu que Glenna punha-se a rir e o som de sua risada se meteu dentro dele, reforando sua esperana, enquanto Hoyt e ela se afastavam para a casa.
       -Est pensando que eles tampouco o faro. Que Lilith tampouco se deter, mas isso no muda nada, Blair. Nas cavernas vi toda essa gente dentro de jaulas. 
Alguns estavam derrotados, muito cansados e assustados para fazer nada que no fosse esperar a morte. Mas havia outros que agitavam os barrotes e amaldioavam a 
esses bastardos. E quando lhes liberei, pude ver algo mais que medo, inclusive algo mais que esperana em alguns desses rostos. Vi vingana.
       Quando se voltou para olh-la, Blair pde ver tudo isso refletido no rosto do Larkin.
       -Vi os mais fortes ajudando aos mais fracos -continuou - porque isso  o que fazem os humanos. As pocas terrveis tiram o melhor ou o pior de ns mesmos.
       -E voc est contando com o melhor.
       -Ns j comeamos por esse lado, no cr? Ns seis nos unimos.
       Ela deixou que esse pensamento se instalasse em sua mente enquanto continuavam seu passeio.
       -A forma em que me treinaram -comeou Blair - consistia em uma s coisa. Voc e ningum mais. Na batalha est sozinho, do comeo at o final... e isso nunca 
acaba.
       -De modo que sempre est sozinho? Que sentido tem lutar?
       -Ganhar. Sair da batalha com vida, enquanto que seu inimigo est morto. Branco e preto. Nada de impressionar ao pblico, nada de enganos, nenhuma distrao.
       -Quem poderia viver dessa maneira?
       -Meu pai pde. Fez-o. Faz-o. Depois que ele... Depois de ficar sozinha, estive algum tempo vivendo com minha tia. Ela tinha uma filosofia diferente.  obvio 
que se trata de ganhar, porque se no o faz est morto. Mas tambm se trata de viver. Famlia, amigos. Ir ao cinema, sentar-se na praia.
       -Caminhar sob o sol.
       -Sim. Funciona para ela, para sua famlia.
       -Voc  sua famlia.
       -E ela sempre me fez sentir dessa maneira. Mas  assim como fui treinada. Talvez seja essa a razo de que a companhia nunca tenha funcionado muito bem para 
mim. Eu... houve algum uma vez e eu lhe amei. Fizemo-nos mutuamente algumas promessas, mas no pudemos as manter. Ele no pde seguir comigo. Eu no pude fazer 
que funcionasse porque, o que sou, no s o abalou e assustou, tambm lhe produziu repugnncia.
       -Ento no era o homem indicado para ti ou, em minha opinio, no era homem absolutamente.
       -Ele era simplesmente um homem normal, Larkin. Um cara normal e comum, e eu pensei que queria isso... Acreditei que eu podia ser isso. Algum normal e comum.
       Ela estava feita para algo melhor, pensou ele. Estava feita para mais.
       -Poderia dizer-se que Jeremy, assim se chamava, ensinou-me que no era possvel. No  que no tenha uma vida fora do que meu pai chama "a misso". Tenho 
alguns amigos. Eu gosto de ir s compras, comer pizza, olhar a televiso. Mas a certeza que aparece quando o sol se ps, sempre est ali. No lhe pode sacudir isso 
de cima. Ns no somos como o resto da gente. -Blair elevou a vista. - O sol se est pondo. Ser melhor que voltemos para a casa e nos preparemos para uma sesso 
de treinamento. -Olhou-o com olhos aprazveis. - O recreio terminou.
       
       No era precisamente uma m situao, pensou Larkin; estar sentado e deixar que te atenda uma formosa mulher, especialmente quando essa mulher cheirava de 
maravilha e tinha as mos de um anjo.
       -Como sente isto?
       Glenna lhe massageou brandamente os ombros, descendo pelos braos e voltando a subir.
       -Muito bem.  agradvel. Pode parar quando quiser dentro das prximas duas horas.
       Glenna sorriu, mas seguiu trabalhando as costas do Larkin at o outro ombro.
       -Recebeu alguns golpes muito duros, menino, mas te est recuperando bem. No te prejudicar faltar do treinamento desta noite.
       -Acredito que ser melhor que no fique atrs. Temos muito pouco tempo.
       -Uns poucos dias mais e nos poremos em marcha -conveio Glenna olhando por cima da cabea do Larkin atravs da janela, enquanto continuava lhe massageando 
as costas e os ombros. -  estranho como este lugar se converteu em um lar em to pouco tempo. Ainda sinto falta de Nova York, mas j no  meu lar.
       -Mas retornar de vez em quando.
       -OH, sim. Necessitarei minha dose. Pode te levar a garota fora da cidade, mas...
       Glenna caminhou ao redor do Larkin e passou os dedos pelos machucados que tinha no flanco, nas costelas, o que lhe fez dar um salto.
       -Sinto muito. Tenho um pouco de ccegas.
       -Respira profundamente e pensa no Geall. Acabarei logo.
       Era realmente uma tortura, temendo a cada minuto tornar-se a rir bobamente como uma garota.
       -Geall voc gostaria. No castelo h uns formosos jardins, e ervas... OH, Jesus, est-me matando. E o rio, quando seu leito passa por detrs do castelo,  
quase to largo como um lago. Os peixes saltam e caem dentro de suas mos, e... Graas a Deus, isso  tudo?
       -Sim. Pode te pr a camisa.
       Larkin levantou primeiro os ombros e logo moveu a cabea para ambos os lados.
       -Muito melhor. Obrigado por isso, Glenna.
       -No  nada. -Foi at o lavabo a limpar o resto de blsamo das mos. - Larkin, Hoyt e Cian hoje estiveram falando.
       -Isso est bem, considerando que so irmos. -Larkin se levantou e ps novamente a camisa. - Mas deduzo que no te est referindo a conversaes familiares 
correntes.
       -No. A logstica, estratgias. Hoyt  muito bom com a parte logstica, nunca passa por cima um detalhe, mas Cian  melhor em tudo o que se refere  estratgia, 
suponho. -voltou-se enquanto se secava as mos com uma toalha. - Pedi-lhes que no discutissem dessas questes durante o jantar, para que pudssemos desfrutar da 
comida. Uma comida normal... bom, to normal como posso s-lo com armas por toda parte.
       -Foi-o. Vi-lhes ao Hoyt e a ti antes, quando se beijavam no jardim de ervas aromticas.
       -OH.
       -E isso tambm era normal. Como o passeio que dei com a Blair, ou Moira aconchegada em alguma parte com um livro. Necessitamos tudo isso, Glenna, de modo 
que no deveria preocupar-se se por acaso estou ofendido por no ter tomado parte em uma discusso a respeito de logstica e estratgia.
       -Faz que as coisas resultem fceis, obrigado. A questo  que estamos tratando de resolver no s como levamos as armas e os fornecimentos que necessitamos 
daqui at o Baile dos Deuses, mas tambm de ali at o Geall, e logo do Baile dos Deuses no Geall at onde tenhamos que nos dirigir uma vez que estejamos ali.
       -O castelo seria o melhor lugar para isso.
       -O castelo. Ah, do castelo! -Glenna riu brevemente. - Iremos ao castelo. O transporte pode resultar um tanto complicado, e necessitaremos que Moira e voc 
nos ajudem nesse aspecto. Por outra parte, somente Moira e voc sabero para onde teremos que nos dirigir uma vez que tenhamos chegado ao Geall. Que tal  desenhando 
mapas?
      
      
       -Isto seria todo Geall. -Larkin tinha desenhado o mapa na biblioteca. -Esta  a forma que tem. Uma espcie de leque denteado one depresses so baas, baas 
e portos. E aqui estaria o Baile dos Deuses.
       -Para o oeste -murmurou Hoyt -, igual a aqui.
       -Aye, e um pouco para o interior. Embora se for um dia claro, dali se pode ver a costa e o mar. H um bosque, igual aqui, mas se estende at um pouco mais 
ao norte. O Baile dos Deuses se encontra em uma elevao de terreno e aqui est o Poo dos Deuses. E mais ou menos nesta zona, estaria o castelo.
       Larkin o marcou desenhando uma espcie de torre e uma bandeira.
       -Por este caminho, h uma boa hora de marcha a cavalo se a viagem for tranqila. H intercesses aqui e tambm aqui. Por este se vai  cidade do Geall. E 
este caminho leva ao Dragon's Lair e logo ao Knockarague. O povo de minha me veio dali e haver muitos que se uniro a ns para lutar contra os vampiros. 
       -E o campo de batalha? -perguntou Hoyt.
       -Aqui, quase no centro do Geall. As montanhas formam uma espcie de semicrculo que se estende para o norte, curvando-se para o leste e logo descendo para 
o sul. O vale est aqui.  muito amplo e o terreno  abrupto, salpicado de cavernas e com muitas rochas. Chama-se Ciunas. Silncio, j que um homem poderia vagar 
durante horas por ali, completamente perdido. E ningum poderia lhe ouvir. Em todo Geall, que eu saiba,  o nico lugar onde s h grama e rochas.
       -No tem sentido provocar um Apocalipse em uma pradaria -comentou Cian. - Sero cinco dias de marcha, isso foi o que disse Moira, verdade?
       -Uma marcha dura, assim .
       -Perigosa para mim, mesmo que conseguisse chegar to longe. -indicou Cian.
       -H alguns lugares com o passar do caminho. Refgios, cabanas, cavernas, cabanas. Encarregaremo-nos de que no te acenda como uma tocha.
       - um consolo para mim, Larkin.
       -Um homem deve fazer o que puder. H casarios nas proximidades do vale -continuou explicando ao tempo que os desenhava no mapa. - Pode-se recorrer aos homens 
que vivem ali, mas acredito que melhor seria construir algumas fortificaes. O inimigo certamente encontrar esses lugares muito apropriados para instalar seus 
prprios refgios e comear seus preparativos.
       -No cabe dvida de que o menino tem crebro -disse Cian. - Lilith atacar estes casarios. -Cian golpeou ligeiramente o mapa com o dedo. - Dizimar sua populao, 
converter em vampiros a todos aqueles que considere que podem lhe servir melhor, e utilizar ao resto deles como comida. Esse ser seu primeiro golpe.
       -Ento ser ali onde instalaremos nossa primeira linha de defesa -disse Hoyt, assentindo.
       -Estaria esbanjando tempo e esforos -replicou Cian.
       -No podemos deixar a essa gente indefesa -comeou a dizer Hoyt.
       -Devemos lhes tirar dali. Deixar ao Lilith sem fontes de comida ou recrutas frescos, ao menos nessa zona. Eu diria que devemos queimar esses casarios, mas 
desse modo tambm estaramos esbanjando tempo e esforos.
       -Mas tem razo. -Blair entrou na habitao. - Deix-la sem possibilidade de refugiar-se, sem fornecimentos, nada mais que terra arrasada e cinzas.  o mtodo 
mais limpo, mais rpido e mais eficaz.
       -Est falando dos lares dessa gente. -Larkin meneou a cabea olhando ao Blair. - Dos lares, vidas e os meios de subsistncia dessa gente.
       -Algo que, em qualquer caso, j no tero quando Lilith tenha acabado com eles. Mas est claro que no querero -lhe disse Blair a Cian. - E se ns o fizssemos, 
tentssemo-lo, a gente se rebelaria, e ento teramos que combater em duas frentes. Assim, o melhor ser evacuar  populao, transladar ao castelo ou a outras fortificaes 
aos ancies, aos mais fracos, a todos aqueles que no possam ou no queiram lutar.
       -Mas est de acordo com ele -insistiu Larkin. - No aspecto geral do plano. Queimar tudo, as casas, as granjas, as lojas.
       -Sim, assim .
       -H outras maneiras. -Hoyt elevou uma mo. - Glenna e eu no fomos capazes de criar um encantamento para manter aos vampiros afastados desta casa devido  
presena de Cian entre ns. Entretanto, poderamos tentar um para proteger essas reas, para impedir que se aproximem das casas ali.  possvel que seu mago possa 
romp-lo, mas isso lhe levaria tempo... e o obrigaria a manter sua concentrao e suas energias postas nisso.
       -Isso poderia dar resultado. -Blair intercambiou um olhar com Cian compreendendo que estavam pensando o mesmo; embora eles no queimassem os casarios, Lilith 
se encarregaria de faz-lo.
       -Assim que isto  Geall. -inclinou-se sobre o mapa. - E este  o lugar. Isolado, esquecido contra as montanhas. Muitas cavernas, muitos lugares onde esconder-se, 
e um terreno completamente desolado. At uma cabra teria problemas para bater-se em retirada nesse lugar.
       -Ns no sairemos fugindo -disse Larkin secamente.
       -Estava pensando neles. Ao carecer de qualquer outro refugio durante o dia, utilizaro as cavernas. Isso nos deixa o terreno elevado, mas lhes concede a vantagem 
para nos tender uma emboscada. Ser de noite, o que joga tambm a seu favor. Usaremos fogo, uma grande vantagem para ns. Mas antes que cheguemos ali, me ocorreram 
algumas idia para lhes dar uma surpresa durante o caminho. Neste momento, no sabemos por onde aparecer Lilith exatamente, mas cabe deduzir que as probabilidades 
indicam que ser dentro desta rea.
       Blair colocou uma mo sobre o mapa.
       -Campo de batalha, refgio, castelo. Ela no vai ficar escondida detrs de uma rocha durante o dia; no  seu estilo, de modo que devemos supor que se transladar 
de noite e se mover depressa, procurando um lugar onde refugiar-se. E, mais provavelmente, enviar uma fora avanada para esses casarios que se encarregar do 
ter tudo preparado para sua chegada. Quer dizer que precisamos saber quais so as rotas mais rpidas entre estes dois pontos.
       Todos trabalharam, debateram, discutiram. Blair se deu conta de que Larkin j no a apoiava, que se tinha afastado dela em algo bsico. Disse-se a si mesmq 
que era algo que podia dirigir. Disse-se que no se sentiria ferida.
       De todos os modos, o que havia entre eles, no era mais que uma iluso. Uma pequena fantasia, to passageiro como inocente. A paixo no era ruim, ajudava 
a encher os vazios... Temporariamente. Mas ela sabia muito bem que a paixo se apagava e acabava morrendo quando as coisas ficavam difceis. Embora era um pobre 
consolo, aferrou-se a ele. Manteve-o vivo quando se foi sozinha a sua habitao.
       Moira esperou sua oportunidade. Durante todo o treinamento, pde ver claramente que algo ocorria entre Blair e Larkin. Apenas se falavam e, se o faziam, era 
como se fossem dois desconhecidos. Quando j estava a ponto de amanhecer, Moira agarrou ao Larkin do brao antes que este abandonasse o salo de treinamento.
       -Vm comigo, quer? H algo que quero te ensinar.
       -O que ?
       -Em minha habitao. S ser um minuto. Retornaremos a casa em uns dias -prosseguiu antes que Larkin pudesse protestar. - Pergunto-me se tudo isto no nos 
parecer um sonho.
       -Um pesadelo.
       -No tudo. -Reconhecendo seu baixo estado de nimo, deu-lhe um afetuoso golpezinho com o quadril. - Voc sabe muito bem que no tudo  um pesadelo. Durante 
algum tempo nos pareceu que tnhamos estado aqui sempre. Agora o tempo voa, e  como se acabssemos de chegar.
       -Sentirei-me muito melhor quando tivermos chegado ao Geall. Quando souber onde estou e o que tenho que fazer.
       OH, sim, pensou ela, no cabia dvida de que algo no funcionava. Entraram em sua habitao e no voltou a falar at que ambos estiveram dentro e com a porta 
fechada.
       -O que  o que ocorre entre Blair e voc?
       -No sei do que est falando. O que era isso que queria me mostrar?
       -Nada.
       -Mas h dito que...
       -Bom, menti-te. Faz dias que lhes vejo muito juntos, e hoje mesmo destes um passeio agarrados da mo... e s te olhando posso ver que no estou equivocada.
       -E o que passa com isso?
       -Esta noite, o ar se congelava cada vez que um de vocs abria a boca. Brigaram?
       -No.
       Moira franziu os lbios.
       -Talvez necessitem uma briga.
       -No seja tola, Moira.
       -E o que me diz de ti? Ela te tem feito feliz. Deu-te algo que eu nunca tinha visto que tivesse e me d a impresso de que voc deste o mesmo a Blair.
       Larkin jogou um momento com as bonitas pedras que Moira tinha recolhido no arroio e colocado em cima da cmoda.
       -Acredito que te equivoca, e que eu estava equivocado.
       -Como  isso?
       -Blair me h dito que eu no a conhecia realmente. No a acreditei, mas agora... Agora me pergunto se possivelmente tinha razo.
       -Talvez sim, talvez no, mas  evidente que tem feito ou dito algo que te incomodou. Pensa deix-lo assim ou far algo a respeito? Por que no o analisa ou, 
ao menos, fala-o com ela?
       -Eu no...
       -No me venha com desculpas -lhe cortou Moira com impacincia. - Seja o que for, no pode ser mais grave que aquilo com o que nos enfrentamos. Agora, qualquer 
outra coisa  insignificante. Asseguro-te que qualquer outra coisa pode arrumar-se. De modo que v e arruma-o.
       -Por que devo ser eu quem arruma as coisas?
       -Porque, se no, at que o faa, estar de mau humor e refletindo amargamente em lugar de dormir. E antes que chegue a isso, eu me encarregarei de te chatear 
at que te estale a cabea.
       -Est bem, est bem. Moira,  realmente insuportvel.
       -Sei. -Acariciou-lhe Isso bochecha. - porque te quero. E agora vete de uma vez.
       - o que estou fazendo.
       Larkin aproveitou sua irritao com a Moira para sair da habitao e dirigir-se a de Blair. Bateu na porta, mas no esperou a que o convidassem a entrar. 
Abriu e viu que ela estava sentada frente ao escritrio, com sua pequena mquina computador.
       Fechou a porta com firmeza detrs dele.
       -Tenho que falar contigo.
            
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
       
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       Ela conhecia esse tom...quando "tenho que falar contigo" significava em realidade "tenho que discutir contigo". E isso lhe parecia bem, isso era genial. Encontrava-se 
de um humor perfeito para uma briga rpida e suja.
       Mas isso no significava que fora a pr as coisas fceis ao Larkin.
       Permaneceu sentada.
       -Obviamente, passaste por cima o fato de que neste momento estou ocupada.
       -Obviamente, passaste por cima o fato de que me importa uma merda.
       - minha habitao -espetou ela friamente - e o que decidi fazer.
       -Ento me jogue da habitao; por que no o faz?
       Ela se voltou para ele e estirou as pernas casualmente, em um gesto que sabia que era insultante.
       -Cr acaso que no poderia faz-lo?
       -Acredito que, neste momento, teria muitos problemas para consegui-lo.
       -Por sua expresso, parece-me que vieste a procurar animao. De acordo. -Cruzou os ps  altura dos tornozelos... Uma linguagem corporal s um pouco mais 
insultante, pensou. Com um gesto ocioso, agarrou uma garrafa de gua e o assinalou com ela antes de beber. - Diga o que tenha vindo a dizer e logo parte.
       -Pelo som de sua voz, cara, estava-me esperando.
       -Sei que te acontece algo comigo, deixaste-o bastante claro. De modo que cospe-o j, Larkin. No temos muito tempo e eu no tenho pacincia para ofensas insignificantes.
       -Acaso  insignificante falar de um modo to insensvel a respeito de destruir os lares da gente, o trabalho de toda sua vida, todo aquilo que construram 
e pelo que se esforaram?
       -Trata-se de uma estratgia legtima e provada em tempo de guerra.
       -Teria esperado ouvir essas palavras de Cian.  o que  e no posso fazer nada para evit-lo. Mas no de ti, Blair. E no se trata somente da estratgia, 
mas sim da maneira em que o h dito, da forma em que falaste que essas pessoas que defenderiam seus lares; como se fossem um estorvo, uns rebeldes, segui suas palavras.
       -Seriam, ao criar um problema que no podemos confrontar.
       -Mas em troca sim poderia confrontar o fato de queimar suas casas.
       Ela conhecia muito bem o aspecto e o som que tinha a averso irada de um homem. Quo nico podia fazer era fortalecer-se contra isso.
       - melhor perder madeira e tijolo que carne e osso.
       -Um lar  muito mais que madeira e tijolo.
       -No poderia diz-lo, nunca tive um, mas essa no  a questo. Em qualquer caso, s o expusemos, no o temos feito. De modo que se isso  tudo...
       -O que quer dizer com que alguma vez tiveste um lar?
       -Digamos que nunca desenvolvi um vnculo emocional com o teto que tinha em cima de minha cabea. Mas se o tivesse, preferiria v-lo desaparecer antes de que 
isso me ocorresse , ou a qualquer que me importasse. -Os msculos da parte posterior do pescoo lhe tinham esticado como cabos, lhe provocando uma enxaqueca que 
lhe chegava diretamente ao crnio. - E esta  uma discusso ridcula, porque no vamos queimar nada.
       -No, porque ns no somos os monstros.
       Blair empalideceu ante esse comentrio. Larkin pde ver como a cor desaparecia de seu rosto.
       -Isso significa que voc no o  e que Hoyt no o , mas Cian e eu somos outra histria. Muito bem. No  a primeira vez que me comparam com um vampiro.
       -No  isso o que estou fazendo.
       -Esperava-o dele, mas no de mim -lhe recordou Blair. - Bem, pode esper-lo. No, isso mancha, no espere nada. E agora te largue de minha habitao.
       -No terminei -disse ele.
       -Eu sim. -Blair se levantou e se dirigiu para a porta. Quando Larkin se colocou diante dela e a agarrou do brao, ela se liberou de um puxo. - Mova-te ou 
eu me encarregarei de que o faa.
       -Essa  sua soluo? Ameaar, empurrar, golpear?
       -No sempre.
       Entretanto, seu punho saiu arrojado para cima e chegou a seu destino antes que a idia de faz-lo chegasse a seu crebro. O golpe derrubou ao Larkin e a deixou 
assombrada, emocionada e envergonhada. Perder o controle com um ser humano, causar dano fsico a uma pessoa, isso no estava permitido.
       -No penso me desculpar, porque voc procurou isso. Contudo, passei-me. E que o tenha feito significa que transpassei a linha e que esta conversa tem que 
terminar. Vm, te levante.
       Tendeu-lhe a mo.
       Blair no o viu vir, outro engano. Larkin atirou violentamente de sua mo e, com a perna, levantou-lhe os ps do cho. Quando ela caiu, ele rodou colocando-se 
em cima antes que Blair pudesse reagir.
        Ela teve um instante para pensar que Larkin tinha estado treinando muito bem.
       - assim como terminas suas discusses? -perguntou ele. - Com um murro na cara?
       -A discusso j tinha acabado. Isso foi para afirmar minha posio. Vais desejar te afastar de mim, Larkin, e depressa.  sua ltima oportunidade.
       -Que se dane.
       -Que se dane a ti. -O tirou de cima e logo encolheu o corpo para bloquear qualquer golpe que ele pudesse lhe lanar. -No pode jogar comigo deste modo. Tudo 
 muito fcil quando se trata de passeios sob o sol e de propostas de comidas campestres, mas quando as coisas ficam difceis, quando tenho que ser dura, ento te 
repugna e sou um maldito monstro.
       -Eu nunca te chamei que essa maneira e no me repugna. O que estou  furioso contigo.
       Equilibrou-se sobre ela e ambos caram rodando novamente ao cho. Seus corpos se chocaram contra uma mesa e a derrubaram, fazendo que um bola de cristal se 
fizesse pedaos.
       -Se deixasse de tentar me amassar e me ferir durante cinco segundos, poderamos acabar com isto.
       -Se tivesse querido te ferir, neste momento te estaria sangrando por uma artria. No necessito que me julgue ou me exorte porque feri sua sensibilidade. 
No necessito esta merda de ti nem de...
       -O que precisa  fechar sua maldita boca.
       E Larkin esmagou sua boca nos lbios de Blair em um beijo furioso e frustrado, apesar de que o cotovelo dela encontrou a forma de cravar-se em seu estmago. 
O teve que apartar a cabea para recuperar o flego perdido.
       -No me diga que feche a boca.
       Blair o agarrou do cabelo com ambas as mos e voltou a lhe aproximar os lbios aos seus.
       Beijou-o com a mesma fria, com a mesma frustrao. Com a mesma necessidade. "A merda todo -pensou. - A merda o que est bem e o que est mau, a sensatez, 
a segurana. A merda o controle."
       Havia momentos nos que tomava e deixava que tomassem.
       No significava nada, disse-se enquanto lhe arrancava a camisa. Era s carne, era s desejo sexual. Queria chorar e rugir tanto como devorar.
       Sentou-se escarranchado sobre ele enquanto se tirava a camiseta por cima da cabea. Mas Larkin se ergueu, rodeando-a com seus braos ao tempo que sua boca 
encontrava seu peito. Ento Blair se aferrou a ele, jogou a cabea para trs e deixou que continuasse.
       Agora ela estava montando de novo no drago, pensou ele, voando com seu poder. Blair era como uma chama, e sua simples queimadura o voltava louco. Usou os 
dentes e a lngua, saciando-se, enquanto os dedos de Blair se afundavam em seus ombros, suas costas, nos flancos. Ento a teve outra vez debaixo dele, elevando e 
movendo os quadris enquanto suas bocas se juntavam violentamente.
       Larkin lhe deslizou as calas para baixo e viu que ela no levava nada mais salvo a mulher, quente e mida. Mais quente e mais mida quando sua mo a tocou. 
Seu gemido, rouco e profundo, o fez vibrar.
       Quando o orgasmo estalou atravs dela, Blair s pde pensar "Deus, obrigado Deus". Mas a ansiedade voltou a sacudi-la, girou em seu interior como um ciclone 
que a fez morder, arranhar e rasgar.
       No pensava dar quartel, e tampouco pedi-lo; s queria aferrar-se ao corpo do Larkin com suas poderosas pernas. Experimentar o delicioso cataclismo de sua 
penetrao.
       Ele arremeteu a um ritmo enlouquecido, investida depois investida, at que ambos se consumiram no mesmo fogo.
      
      
       O que tinha feito? Acabava de ter uma sesso de sexo frentico e explosivo sem dedicar um s pensamento ao instinto de conservao, s conseqncias. A... 
nada. Nenhum pensamento, absolutamente nenhum, s a satisfao de uma necessidade brutal e primria.
       Larkin ainda estava dentro dela e era como se seus corpos se tivessem fundido devido ao intenso calor emanado por eles. Como faria para voltar a ser ela mesma? 
Como faria para sair ilesa daquilo?
       Supunha-se que no devia sentir desse modo. Supunha-se que no devia querer nada nem a ningum de tal modo que se esquecesse de si mesma. No permitir que 
tomassem ao tempo que ela tambm tomava, em meio de uma paixo cega e selvagem.
       Blair no o tinha detido. No tinha sido capaz de faz-lo. E agora pagaria as conseqncias.
       Larkin murmurou algo que ela no entendeu. Logo esfregou o nariz contra seu pescoo, como se fosse um cachorrinho, e rodou para um lado.
       A simples doura desse gesto, depois da ferocidade do assalto que tinham mantido, desmontou-a.
       - incrvel. -Ofegante, Larkin conseguiu articular as palavras. - Bom, foi realmente assombroso, e como eu o tinha planejado. Est bem?
       "Tome cuidado -se recomendou a si mesmo. - Permanece alerta e tranqila."
       -Muito bem.
       Sentou-se e procurou as calas.
       -Espera um minuto. -Aplaudiu-lhe o brao. - A cabea ainda me d voltas. E, alm disso, logo que pude te olhar, considerando que os dois tnhamos pressa.
       -Temo-lo feito. -Blair ps as calas. - Isso  o que conta.
       Larkin tambm se levantou e agarrou a camiseta de Blair antes que ela o fizesse.
       -Me olhe, quer?
       -No sou muito boa para as anlises posteriores  partida e, alm disso, tenho coisas que fazer.
       -No recordo nenhuma partida. Uma batalha, talvez. Pensava que ambos tnhamos ficado no bando ganhador.
       -Sim, e estou bem, tal como te acabo de dizer. -Comearia a tremer em qualquer momento. - Necessito minha camiseta.
       Larkin estudou sua expresso.
       -Aonde te foste? Tem tantos esconderijos...
       -Eu no me escondo.
       Arrancou-lhe a camiseta das mos.
       -Aye,  claro que sim que o faz. Se algum consegue aproximar-se muito, voc te desliza imediatamente por volta de uma de suas curvas.
       -A ver, por que quer que agora me zangue? -ficou a camiseta com movimentos bruscos. - Tivemos sexo... sexo realmente bom. Era algo que se via vir desde fazia 
tempo, e j aconteceu. Podemos voltar a nos concentrar no que importa.
       -No acredito que aqui as coisas sejam to diferentes do Geall para dizer que o que tivemos foi simplesmente sexo.
       -Olhe, vaqueiro, se o que quer  uma aventura romntica...
       Ele se levantou lentamente. O brilho de seus olhos advertiu ao Blair que seu mau humor havia voltado. Isso era bom, de fato, isso estava muito bem. Deram-se 
uma boa queda e agora ele se iria.
       -No houve nada romntico no que temos feito. Pensava que o seria a primeira vez que estivssemos juntos, mas as coisas tomaram outro rumo, e no me queixo. 
Mas agora est tratando de me jogar, me apartar de ti, do mesmo modo que antes com o murro. Permita-me que te diga que esse golpe foi mais honesto que o que est 
fazendo agora.
       -J tiveste o que andava procurando.
       -Voc sabe muito bem que no era s isso.
       -Que sentido tem qualquer outra coisa? Qual  o maldito sentido? No h futuro.
       -Estiveste consultando a bola de cristal da Glenna?  capaz de ver hoje o que ocorrer amanh e ao dia seguinte?
       -O que sei  que estas coisas esto condenadas antes inclusive de que comecem. Cian no  o nico que  o que , Larkin.
       -Ah, agora me sai com isso.
       -S... -Levantou ambas as mos, fez um gesto no ar e se separou dele. - Esquece-o. Se a queda no for suficiente para ti, procura em outra parte.
       De modo que ele a tinha ferido, compreendeu Larkin. No era o primeiro em faz-lo, e no podia decidir se realmente lamentava o que tinha feito.
       -No sei o que  suficiente para mim quando se trata de ti. -Recolheu suas calas e os ps. - Mas sim sei que me preocupo contigo. Sei que me importa.
       -OH, por favor. -Blair agarrou a garrafa de gua que havia em cima de seu escritrio e bebeu um gole. - Se nem sequer voc gosta de mim.
       -De onde diabo tirou isso? Por que diz algo to estpido e to falso?
       -Parece ter esquecido o que foi o que comeou tudo isto; para que vieste a minha habitao.
       -No o esqueci, mas no sei o que tem isso que ver com o que sinto por ti.
       -Pelo amor de Deus, Larkin, como poderia sentir algo por algum ao que tem em frente em um assunto fundamental?
       Larkin pensou muito bem suas palavras antes de falar. Ele sabia muito bem que nesses momentos Blair o estava comparando com esse Jeremy do que lhe tinha falado 
antes. Algum que no tinha sido capaz de am-la e aceitar quem era, ou que no tinha querido faz-lo.
       -Blair,  uma mulher muito obstinada, e eu tambm tenho minha veia de teimosia. Meus prprios pensamentos e opinies e, como o chamou?, sensibilidades. E 
com isso o que?
       -Com isso, voc e eu -Blair o assinalou, logo se golpeou ligeiramente o peito e agitou o dedo entre o Larkin e ela -, barreira.
       -OH, tolices. Cr acaso que no posso dissentir de ti, e faz-lo apaixonadamente, e de uma vez me preocupar contigo? Respeitar-te, te admirar, inclusive sabendo 
dentro de meu corao que est equivocada a respeito do que estvamos discutindo? Arrumado a que, por sua parte, voc cr que sou eu quem est equivocado. No o 
estou -disse com um leve indcio de sorriso -, mas essa  outra questo. Se todo mundo deve acreditar o mesmo, se alguma vez existir nenhuma diferena apaixonada, 
como se emparelha a gente em seu mundo?
       -No o fazem -disse ela um momento depois. - No comigo.
       -Ento s  estpida. E estreita de mente -acrescentou ante o olhar boquiaberto dela. - E muito dura de moleira tambm, como acredito que te acabo de dizer.
       Blair bebeu outro cauteloso gole de gua.
       -No sou estpida.
       -Ento o resto do que hei dito. -Larkin assentiu enquanto dava um passo para ela. - Blair, no sempre aonde vai  o mais importante. O que conta  a prpria 
viagem, o que encontra, o que faz com o passar do caminho. Eu encontrei a ti, e isso  algo muito importante.
       -Aonde vamos, importa.
       - verdade. Mas tambm onde estamos agora. Tenho sentimentos para ti, sentimentos que nunca antes tive por ningum. No sempre me resulta fcil a acomodar 
dentro de mim, mas procuro trocar a disposio das coisas at que encaixam.
       -Voc talvez. Eu no sou boa nessas coisas.
       -Pois como eu sim o sou, s ter que me seguir.
       -Como lhe arrumaste isso para lhe dar a volta a minhas palavras?
       Larkin se limitou a sorrir, logo a beijou na bochecha, na testa e na outra bochecha.
       -S me arrumei isso para que desse a volta para mim. Essa  a direo correta.
      
      
       Blair tinha que manter a mente concentrada no trabalho. Se no o fazia, tendia a vagar na direo que Larkin tinha mencionado. Ento se encontrava sonhando 
acordada, sorrindo sem nenhum motivo, ou recordando como era despertar junto a um homem que a olhava de um modo que a fazia sentir to mulher.
       Ainda havia muitas coisas pendentes para abandonar-se s fantasias.
       -Tem que ser prtica, Glenna. Todos temos que ser agora. -Blair tocou com seu p o ba onde Glenna guardava suas coisas. - O que  essencial do que tem aqui 
dentro?
       -Tudo.
       -Glenna.
       -Blair -Glenna cruzou os braos -, vamos entrar em batalha ou no contra todos os demnios?
       -Sim, isso  o que faremos. O que significa que iremos ligeiros de bagagem, com facilidade para nos mover.
       -No, o que significa que iremos carregados. Estas so minhas armas. -Glenna moveu uma mo, pensou Blair, como uma dessas apresentadoras que mostram prmios 
fabulosos. - Pensa deixar suas armas aqui?
       -No, mas eu posso as levar s costas, algo que voc no pode fazer com seu ba de duas toneladas.
       -O ba no pesa duas toneladas. Como mximo, trinta e cinco quilogramas. -Os lbios da Glenna tremeram ligeiramente ante o largo e frio olhar de Blair. - 
De acordo, talvez quarenta.
       -S os livros...
       -Podem ser decisivos. Quem pode diz-lo? Eu me encarregarei de transport-los.
       -Ser melhor que seja um crculo de pedra ferradamente grande -disse Blair entre dentes. - Sabe que leva mais coisas que todo o resto de ns juntos?
       -O que posso dizer? Sou uma diva.
       Blair revirou os olhos e se aproximou da janela da torre para olhar a chuva.
       Ali ficava j muito pouco tempo, pensou. Quase era o dia da mudana. E embora ela podia ver -virtualmente ver - algumas das foras de Lilith nas rvores, 
no se percebia nenhum movimento para a casa. Nenhum ataque.
       Ela tinha esperado que acontecesse algo. depois do que Larkin tinha provocado, s pelo valor que tinha demonstrado, Blair esperava alguma classe de represlia 
por parte de Lilith. Parecia quase impossvel que encaixasse semelhante insulto, semelhante perda, sem devolver o golpe.
       -Possivelmente ela est tambm muito ocupada fazendo os preparativos para ir-se ao Geall.
       -O que?
       -Lilith. -Blair se voltou por volta da Glenna. - Faz dias que no temos notcias dela- E a incurso do Larkin teve que lhe fazer dano. Deus, quando pensa 
nisso, um s homem, desarmado, no s consegue entrar nessas cavernas, mas tambm consegue liberar os prisioneiros.  um chute em pleno rosto.
       Os olhos da Glenna brilharam.
       -Eu gostaria que isso fosse literal alm de figurado.
       -Ponha  cauda. Mas possivelmente agora est muito ocupada preparando-se para mover sua frente para nos perseguir.
       - muito provvel.
       -Vou  sala de combate.  necessrio que ultimemos os detalhes das armadilhas que queremos colocar.
       -Suporo alguma diferena?
       -O que quer dizer?
       -Estive pensando nisso, em tudo. No que temos feito, no que tm feito eles. -Glenna passou uma mo pela tampa de seu ba. - Mas o momento e o lugar j foram 
fixados. Nada do que faamos trocar esse momento e esse lugar.
       -No; Morrigan o deixou muito claro durante nossa ltima conversa. Mas o que ns faamos, a forma em que dirijamos o tempo entre agora E ento, fixar como 
sero esse momento e lugar. Morrigan tambm estava dizendo isso. No se preocupe,  normal que estejamos nervosos.
       -Bem. -Com enrgica eficcia, Glenna voltou a colocar em sua caixa os frascos que tinha recheado. - Hoje chamei a meus pais. Hei-lhes dito que provavelmente 
estaria incomunicvel durante algumas semanas. Expliquei-lhes que o estava passando muito bem. Naturalmente, no lhes hei dito nada de tudo isto. Nem sequer lhes 
falei sobre Hoyt; ainda  algo muito difcil de explicar. -Fechou a caixa e se voltou. - No se trata de que no tenha medo a morrer. Tenho-o,  obvio... Possivelmente 
mais agora que quando comeou tudo isto. Agora tenho muito mais que perder.
       -Hoyt, e o "felizes para sempre".
       -Exatamente. Mas estou preparada para morrer se for preciso. Talvez mais agora que quando isto comeou; pelas mesmas razes.
       -O amor sem dvida pode p-lo todo patas acima.
       -OH,  claro que sim -foi o sincero assentimento da Glenna. - E no trocaria um s momento desde que conheci o Hoyt. Entretanto, tudo  to difcil, Blair. 
Se no sair desta, no tenho forma de lhe explicar nada a minha famlia. Eles nunca sabero o que me passou. E isso me pesa.
       -Ento no morra.
       Glenna se ps-se a rir.
       -Uma idia estupenda.
       -Sinto muito. No pretendia tom-lo  ligeira.
       -No, de fato  uma espcie de nimo. Mas... Se me acontecesse algo, levaria isto a minha famlia? -Tendeu-lhe um sobre. - Sei que  muito pedir -acrescentou 
ao ver que Blair duvidava.
       -No, mas... Por que eu?
       -Cian e voc so os que tm mais possibilidades de sair com vida disto. No posso lhe pedir a ele que o faa. Eles no o entendero, inclusive com a carta, 
mas ao menos no se passaro o resto de suas vidas perguntando-se se estiver viva ou morta. No quero faz-los passar por isso.
       Blair estudou o envelope, o risco artstico da letra com que estavam escritos os nomes e a direo de seus pais.
       -Desde que comeou esta histria, eu tentei me comunicar com meu pai duas vezes -explicou Blair. - Atravs do e-mail, j que em realidade no sei onde est. 
No me respondeu.
       -OH, sinto muito. Certamente est fora do alcance de...
       -No, provavelmente no.  s que no me responde; isso  bastante tpico de meu pai. E preciso super-lo. No  que o assunto em si no lhe importe. Uma 
grande guerra de vampiros... Realmente lhe interessaria. E se eu morresse, sentiria-o. Porque ele me treinou para no ser derrotada. Se sucumbisse, seria como uma 
crtica para ele.
       -Isso soa muito duro.
       -Ele o . -Blair olhou fixamente a Glenna aos olhos. - E no me ama.
       -OH, Blair.
       - hora de superar isso tambm. Tempo passado. Voc tem algo mais aqui. -Deu uns golpezinhos no envelope. - E  importante.
       --o -conveio Glenna. - Mas eles no so minha nica famlia.
       -Entendo-o. Refere ao que temos ns seis.  uma das coisas boas que encontrei com o passar do caminho. -Blair assentiu e guardou o envelope em um dos bolsos 
traseiros de seus jeans. - Devolverei-te este envelope em primeiro de novembro.
       -Isso estaria bem.
       -Verei-te abaixo.
       -Em seguida. OH, e Blair?  muito bonito o do Larkin e voc. Resulta agradvel de ver.
       -Ver o que?
       Agora Glenna deixou escapar uma sonora gargalhada.
       - que estou cega acaso? Alm disso, agora tenho a superviso de raios X de uma recm casada. S estou dizendo que eu gosto da maneira em que esto juntos. 
Parece-me que ambos encaixam muito bem.
       - s... No ... Eu no estou procurando o grande final estilo Hollywood, onde a msica vai crescendo e a luz se volta rosada e formosa.
       -Por que no?
       -Simplesmente as coisas no so assim. Eu vivo dia a dia. Se as pessoas como eu olham muito longe, acabam caindo no grande buraco que algum cavou no caminho, 
justo diante deles.
       -E se no olharem o bastante longe, ou com suficiente intensidade, no podem ver o que realmente estavam procurando.
       -Neste momento, conformo-me evitando o buraco.
       Uma vez dito isto, abandonou a habitao. A uma mulher que ainda estava flutuando nas asas de um amor flamejante, era impossvel lhe explicar que havia algumas 
pessoas que, simplesmente, no estavam feitas para isso, pensou. Algumas mulheres no tinham includo em seu destino esse passeio ao por do sol, de mos dadas com 
o homem de seus sonhos.
       Quando Blair caminhava ao por do sol, o fazia sozinha, e ia armada e plantando cara  morte.
       No era exatamente um assunto de romance e futuro esperanoso.
       Ela o tinha tentado em uma ocasio e tinha sido um desastre que lhe tinha explodido em pleno rosto. Larkin no era Jeremy, disso no havia nenhuma maldita 
dvida. Larkin era mais duro, mais forte, e, certamente, mais doce.
       Mas isso no trocava um pice a questo fundamental. Ela tinha seu trabalho -a misso - e ele tinha seu mundo. No eram precisamente elementos muito adequados 
para uma relao a longo prazo.
       Seu ramo particular da velha rvore genealgica dos McKenna morreria com ela. Aferrou-se a essa idia depois do Jeremy, uma vez que se reps com muita dificuldade.
       Comeou a avanar para a escada, mas a msica fez que se detivesse. Elevou a cabea esforando-se por escutar, por reconhecer. Era Usher?
       Merda, era Larkin o que estava na sala de treinamento jogando com seu MP3? Teria que lhe matar.
       Subiu a escada  carreira. No  que no apreciasse o fato de que Larkin desfrutasse de sua msica, mas ela tinha passado muito tempo baixando a da rede e 
instalando-a no reprodutor, e ele nem sequer sabia como funcionava esse fodido aparelho.
       -Escuta, vaqueiro, no quero que...
       A habitao estava vazia e as portas do terrao firmemente fechadas. E a msica flua no ar. Pareceu-lhe estranho.
       Apoiou a mo na estaca que sempre levava na cintura e se aproximou lentamente para as armas. As luzes estavam acesas; nada podia esconder-se entre as sombras. 
Entretanto, fechou a mo ao redor da manga de uma foice.
       A msica cessou de repente; ouviu-se o som de um interruptor.
       Lora apareceu atravs da parede de espelhos.
       -Ol, chrie.
       -Bonito truque.
       -Um de meus favoritos.
       Lora descreveu um crculo e pareceu estudar a habitao. Levava botas de salto alto, calas negras rodeadas e uma jaqueta com um Top de encaixe debaixo.
       -De modo que aqui  onde treinam e transpiram e vos preparais para morrer.
       -Aqui  onde nos treinamos para lhes chutar o rabo.
       -To dura, to formidvel.
       Lora flutuou ao redor da habitao com os agudos saltos das botas roando apenas o cho.
       "No est aqui -disse Blair. - Em realidade, no est aqui,  s a aparncia enganosa da Lora." Mas para comprov-lo, lanou uma estaca. Viu como esta passava 
atravs da figura da Lora e acabava cravada na parede.
       -Isso foi muito descorts de sua parte. -Lora se voltou, ligeiramente zangada. - No  forma de receber a uma convidada.
       -A ti ningum convidou a esta casa.
       -No, a ltima vez nos interromperam antes que pudesse faz-lo. Mas mesmo assim, trouxe-te um presente. Algo que escolhi especialmente para ti. Tive que viajar 
aos Estados Unidos para busc-lo. At Boston.
       Lora girou sobre si mesmo com os olhos brilhantes como estares acostumados a.
       -Voc no gostaria de v-lo? Ou talvez voc gostaria de adivinh-lo? Sim, sim, sim, deve adivinh-lo! Trs possibilidades.
       Para mostrar sua absoluta falta de interesse, Blair permaneceu impassvel, com os polegares enganchados nos bolsos da cala.
       -Eu no jogo com os mortos vivos, Fif.
       -No  nada divertida, verdade? Mas um dia nos divertiremos; voc e eu. -aproximou-se flutuando no ar e deslizou a lngua pelas presas antes de sorrir. - 
Tenho tantos planos para ti... Os homens lhe decepcionaram, no  assim? Pobre Blair. Negaram-lhe seu amor e voc no fundo o deseja.
       -Quo nico desejo  acabar com esta conversa antes que me ponha doente.
       -O que voc precisa  uma mulher. O que necessita... -Fez um risco com o dedo no ar, a escassos centmetros da bochecha de Blair. - Sim, necessita o poder 
e o prazer que eu poderia te dar.
       -Eu no gosto das loiras baratas com estpido acento francs. E quanto  roupa... est super passada de moda.
        Lora chiou como uma serpente e sua cabea se lanou para frente como se fosse a morder.
       -Farei que te arrependa e te arraste. E logo te farei gritar.
       Blair, deliberadamente, arregalou os olhos.
       -Meu deus! Isso acaso significa que j no quer ficar comigo?
       Lora girou no ar ao tempo que punha-se a rir.
       -Eu gosto, realmente eu gosto. Tem, huh... estilo. Por isso te trouxe esse presente to especial. Irei busc-lo. Aguarda um minuto.
       Lora desapareceu atravs dos espelhos.
       -A merda com isto -murmurou Blair.
       Agarrou uma besta e a armou. Com esta em uma mo e a foice na outra, comeou a mover-se cautelosamente para a porta.
       Aquele era territrio da Glenna, no dela. Hora de chamar  Bruxa.
       Mas Lora voltou a deslizar-se atravs da parede de espelhos, e o que trazia com ela fez que ao Blair lhe gelasse o sangue.
       -No. No, no, no.
       - muito bonito. -Lora deslizou a lngua pela bochecha do Jeremy enquanto ele se debatia para livrar-se dela. - Agora entendo o que sentia.
       -Voc no est aqui. -OH, Deus, o rosto do Jeremy estava sangrando. Tinha o olho direito inchado e quase fechado. - Isto no  real.
       -No estou aqui, mas isto  real. Jeremy, aviso.
       -Blair? Blair? O que est passando? O que faz aqui? O que ocorre?
       -Foi to fcil. -Lora o agarrou pelo pescoo, asfixiando-o enquanto o levantava uns centmetros do cho. E se ps-se a rir quando Blair se equilibrou em sua 
direo, voou atravs deles e se chocou contra a parede. - Liguei-me a isso em um bar. Umas taas, umas insinuaes. "Homens, eternos sedutores": Shakespeare. "por 
que no vamos a sua casa?", foi tudo o que tive que lhe sussurrar ao ouvido. E aqui estamos.
       Lora baixou ao Jeremy at que seus ps tocaram o cho, mas no apartou a mo de seu pescoo.
       -Gostaria de fode-lo primeiro, mas pensei que isso lhe tiraria encanto ao presente.
       -Me ajude. -Jeremy falou com um assobio afogado. - Blair, tem que me ajudar.
       -Me ajude -o imitou Lora, burlando-se dele, e o lanou violentamente ao cho.
       -Por que est perdendo o tempo com ele? -Blair sentiu que lhe revolvia o estmago quando Jeremy comeou a arrastar-se para ela. - Se me quiser, vm me buscar.
       -OH, farei-o. -Lora deu um salto e caiu em cima de Jeremy. Colocou-o de costas contra o cho e se sentou escarranchado em cima dele. - Este humano fraco, 
embora atrativo, rompeu-te o corao, no  assim?
       -Me abandonou. O que pode me importar o que lhe faa? Est perdendo o tempo com ele quando deveria estar tratando comigo.
       -No, no, nunca  uma perda de tempo. E sim te importa, chrie. -Lora tampou a boca ao Jeremy com uma mo quando este comeou a gritar e logo, sem tirar 
os olhos de Blair, abriu-lhe a bochecha com a unha para que brotasse sangue fresco. Lambeu a ponta do dedo. 
       -Hummm. O medo sempre lhe d um sabor especial. Implora por ele. Se implorar, deixarei-lhe viver.
       -No lhe mate. Por favor, no lhe mate. Ele no significa nada para ti. No  importante. Deixa-o livre, deixa-o, j tem minha ateno. Encontrarei-me contigo 
onde queira. S voc e eu. Resolveremos este assunto s ns duas. No necessitamos que os homens interfiram. No o faa. Me pea algo em troca. S tem que pedi-lo.
       - Blair. -Lora lhe dirigiu um sorriso doce e compassivo. - No tenho que pedir nada. Eu tomo o que eu gosto. Mas imploraste muito bem, de modo que eu... OH, 
no seja ridcula. As duas sabemos que vou matar lhe. Observa.
       Lora afundou as presas no pescoo do Jeremy, colocando seu corpo sobre o dele enquanto se movia ritmicamente em uma horrvel parodia do ato sexual. Blair 
se ouviu gritar e gritar. E gritar.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      11
      
       Quando Larkin irrompeu na habitao, quo nico viu foi ao Blair tratando de cravar uma e outra vez uma estaca no cho. Enquanto o fazia, no deixava de chorar 
com soluos violentos e estridentes, e em seu rosto havia uma expresso de desvario.
       Correu para ela, mas quando tentou sujeit-la, Blair lhe lanou um golpe que lhe fez sangrar o lbio.
       -Vete, vete daqui! Ela o est matando!
       -Aqui no h nada.
       Larkin lhe aferrou o pulso, e teria recebido outro golpe se Cian no tivesse segurado a Blair por trs.
       Ela se voltou para atacar e Cian a esbofeteou duas vezes. Com bastante fora como para que os golpes ressonassem na habitao.
       -Basta. As histricas so inteis.
       Larkin, furioso, levantou-se de um salto.
       -Lhe tire as mos de cima. Cr que pode lhe fazer dano?
       Poderia ter golpeado a Cian mas Hoyt lhe aferrou o brao.
       -Esperem um minuto.
       A resposta do Larkin foi lanar a cabea para trs e estelar a contra a mandbula do Hoyt no momento em que Glenna corria para interpor-se entre o Larkin 
e Cian.
       -Calma. -Glenna elevou as mos. - Que todo mundo se acalme.
       Mas s havia gritos, acusaes e os soluos desesperados de Blair.
       -Ciunas! -A voz da Moira atravessou o caos com fria autoridade. - Silencio todos vocs. Larkin, ele tem feito o que terei que fazer, de modo que basta de 
tolices. Cian, solta a Blair. Glenna, v a por um pouco de gua para ela. Devemos averiguar o que  o que aconteceu aqui.
       Quando Cian se separou de Blair, esta simplesmente se derrubou.
       -Ela o matou. No pude fazer nada para det-la. -Levantou os joelhos e apoiou a cabea nelas enquanto se cobria com os braos. - OH, Deus. OH, Meu deus.
       -Agora tem que me olhar. -Moira se agachou junto a ela, colheu-lhe com fora os braos e os baixou. - Blair, tem que me olhar e me contar o que aconteceu 
aqui.
       -Ele nunca acreditou, nem sequer quando o mostrei. Era mais fcil me apartar de sua vida e afastar-se de mim que acreditar o que eu lhe dizia. E agora est 
morto.
       -Quem est morto?
       -Jeremy. Jeremy est morto. Ela o trouxe aqui para que eu pudesse ver como o matava.
       -Aqui no h ningum, Blair. No h ningum aqui e tampouco na casa, exceto ns seis.
       -Havia algum. -Glenna alcanou a gua ao Blair. - Posso senti-lo.
       Olhou ao Hoyt procurando a confirmao de suas palavras.
       -Sim, um aroma no ar -assentiu Hoyt. - Uma espcie de peso que  prpria da magia negra.
       -Chegou atravs da parede e eu pensei, bom, agora lutaremos. Voc e eu, puta francesa. -Embora Blair fazia um esforo para acalmar-se, a voz continuava lhe 
saindo a tropices. - Lancei uma estaca, mas passou atravs dela. Lora no estava realmente aqui. Ela...
       -Igual no metro. Tambm me passou -explicou Glenna. - Em Nova York. Um vampiro apareceu no vago do metro onde eu viajava, mas ningum mais pde lhe ver. 
Falou-me, movia-se, mas no estava realmente ali.
       -Boston. -Com a alma doente, Blair conseguiu ficar de p. - Ela tinha ido a Boston. Em uma poca, eu vivi ali. Foi onde conheci... ao Jeremy. Estavam em seu 
apartamento. Ela me h dito onde estava. Cian, tem contatos ali?
       -Sim.
       Blair lhe deu uma direo.
       -Jeremy Hilton.  necessrio que algum o comprove. Possivelmente Lora s estava jogando comigo. Mas se... Temos que nos assegurar de que Lora no o transformou.
       -Eu me encarregarei disso.
       Blair olhou para onde tinha esfaqueado e parecido a estaca nas pranchas do cho.
       -Sinto o do cho -lhe disse a Cian.
       -Agora isso ser problema da Glenna e Hoyt -respondeu ele, e lhe tocou ligeiramente o ombro antes de abandonar a habitao.
       -Deveramos baixar. E voc deveria te deitar -aconselhou Glenna. - Ou, ao menos, te sentar. Posso te dar algo que te ajudar.
       -No. No quero nada. -enxugou-se as lgrimas com o dorso da mo. - Sabia que voltaria a nos visitar, mas nunca pensei, nunca me ocorreu algo assim. Glenna, 
sua famlia.
       -Eles esto protegidos. Hoyt e eu nos encarregamos de que assim fosse. Blair, lamento to no ter feito algo por voc... Por seu amigo.
       -Nunca pensei nele. Nunca considerei que eles... Eu... Tomarei uns minutos antes que voltemos para trabalho.
       -Todos os que precise -disse Glenna.
       Blair olhou ao Larkin.
       -Sinto muito. Sinto te haver golpeado.
       -No  nada.
       Deixar que partisse, deixar que partisse sozinha foi mais doloroso que qualquer golpe que ela tivesse podido lhe dar.
      
      
       Blair j no chorava. As lgrimas no ajudariam ao Jeremy e, sem dvida, no lhe fariam nenhum bem.
       Ficou em contato com sua tia e lhe deu os detalhes. Ela podia contar com a famlia para proteger  famlia. Em qualquer caso, duvidava de que Lilith ou Lora, 
ou quaisquer deles, fossem a pessoas que estivessem preparadas, que os conhecessem. E que, portanto, pudessem defender-se.
       Os monstros escolhiam a gente indefesa por uma muito boa razo. No supunha uma perda de tempo ou esforo, o risco era muito baixo, e a ao era muito, muito 
eficaz.
       Quando comeou a armar-se, Blair estava j absolutamente tranqila. Deslizou a espada na bainha que levava presa  costas, e a estaca dentro de outra que 
tinha no cinturo. Sua mente,seu objetivo, eram claros como o cristal quando saiu da casa.
       No haveria muitos, pensou. Seria uma estratgia muito ruim esbanjar mais de um punhado nessa etapa. Embora, que fossem poucos era uma autntica lstima, 
lamentou Blair.
       Eles esperariam que estivesse destroada, tremendo e soluando debaixo das mantas. Equivocavam-se.
       Viu os dois que lhe aproximavam, pela direita e a esquerda.
       -Ol, meninos, esto procurando um pouco de diverso?
       A espada saiu de sua bainha com o som brunido de metal contra metal. Blair girou descrevendo um rpido movimento com a espada sujeita com ambas as mos e 
decapitou ao que se aproximava pelas costas.
       -Pois viestes ao lugar adequado.
       Quando atacaram, ela j estava preparada. Cortando, perfurando, bloqueando os golpes com uma espada que cantava como a vingana. Recebeu um corte no antebrao. 
No lhe importava sentir esse aguilho.
       Eram torpes, pensou. Jovens e insuficientemente treinados. Gordos e brandos das vidas que tinham levado antes que os convertessem no que eram agora. No indefesos, 
no como Jeremy, mas muito longe de estar preparados.
       Lanou a estaca e acabou com outro deles.
       O nico rival que ficava deixou cair a espada e ps-se a correr.
       -Huh, huh, que ainda no acabei.
       Saiu correndo atrs dele e o derrubou com um perfeito placaje. Logo, sustentando a estaca a escassos centmetros de seu corao, olhou seus olhos, nos que 
se refletia o terror.
       -Tenho uma mensagem para a Lora. Conhece-a? O pastelzinho francs. Bem -disse quando ele assentiu. - Diga-Lhe que tinha razo com respeito a uma coisa. Ser 
entre ela e eu, e quando tiver acabado com ela... OH, no importa, o direi pessoalmente.
       Cravou a estaca no peito do monstro, logo se levantou e se passou os dedos pelo cabelo mido. Depois de recolher suas armas dispersadas, empreendeu a volta 
 casa.
       A porta se abriu de par em par antes que chegasse e Larkin saiu feito uma fria.
       - que te tornaste louca?
       -No o esperavam. -Arrojou-lhe uma das espadas e entrou com ele na casa. - De todos os modos, s eram trs. Provavelmente afugentei aos que Lilith tinha postado 
perto da casa.
       Blair deixou sobre a bancada da cozinha as espadas que tinha confiscado. 
       -E no eram mais que pesos leves.
       -Saste da casa sozinha? Arriscaste sua vida desta maneira?
       -Sa sozinha a maior parte de minha vida -lhe recordou ela. - E arriscar minha vida forma parte de meu trabalho.
       -No  um trabalho.
       - exatamente um trabalho. -serviu-se uma grande caneca de caf. Advertiu que ainda conservava as mos. Misso cumprida. - Irei assear-me.
       -No tinha direito a correr um risco semelhante.
       -Risco mnimo -replicou ela enquanto saa da cozinha. -Excelentes resultados.
       Quando se teve trocado de roupa, reuniu-se com outros na biblioteca. Pelas expresses de seus rostos pde ver que Larkin tinha informado ao grupo a respeito 
de sua pequena incurso.
       -Estavam postados perto da casa -comeou a dizer. - Provavelmente tratavam de ver ou ouvir algo do que pudessem informar. Agora isso j no ser um problema.
       -Teria sido um problema se tivesse havido mais deles no bosque. -Hoyt falou com voz acalmada, mas isso no dissimulou a dureza que havia detrs de suas palavras. 
- Teria sido um problema se eles lhe tivessem capturado ou matado.
       -Mas isso no passou. Temos que estar dispostos a aproveitar todas as oportunidades que nos pressentem. No s ns seis, mas tambm a gente que enviaremos 
 batalha.
      Tm que estar treinados, tm que saber como matar e quando matar. No s com espadas e estacas, a no ser com suas mos nuas ou com algo que tenham a seu alcance. 
Porque tudo pode ser uma arma. E se no estiverem treinados, se no estiverem preparados, simplesmente ficaro ali parados e morrero.
       -Como Jeremy Hilton.
       -Sim. -Fez-lhe um gesto com a cabea ao Larkin, acrescentando sua ira ao peso de seu corao. - Como Jeremy. Cian, pudeste averiguar algo?
       -Est morto.
       Blair refreou uma parte dela que queria gemer.
       -Poderiam hav-lo convertido em um deles?
       -No. O corpo estava muito golpeado como para isso.
       -Mesmo assim,  possvel que ele...?
       -No. -Cian cuspiu a palavra interrompendo-a. -O fizeram pedaos.  uma das assinaturas da Lora. Est morto.
       Blair se sentou. " melhor sentar-se -decidiu -, que cair ao cho."
       -No havia nada que voc pudesse fazer, Blair -lhe disse Moira brandamente. - Nada que pudesse ter feito para impedi-lo.
       -No, no havia nada. Esse era precisamente seu objetivo: olhe o que sou capaz de fazer, ante seus prprios narizes, e voc no pode mover um dedo. Jeremy 
e eu estivemos prometidos para nos casar faz um par de anos. De modo que tive que lhe contar, ao final tive que lhe mostrar, o que sou, o que fao. Ele ento partiu 
porque no queria acredit-lo, no queria formar parte disso. Agora, isso o matou.
       -Ela o matou -a corrigiu Larkin -, no o que voc . -Esperou a que Blair desviasse o olhar para ele. - Ela quer que voc se culpe de sua morte, dar-lhe 
essa vitria?
       -Ela no obter nenhuma vitria de mim. -As lgrimas ameaaram voltar a aparecer em seus olhos, mas as reprimiu. - O sinto, sinto-o por tudo. Isto me perturba, 
e tenho que medit-lo sozinha at que possa super-lo.
       -Postergaremos a reunio. -Glenna olhou a outros procurando sua aprovao. - Pode tomar seu tempo.
       -Agradeo-lhe isso, mas o trabalho  melhor. Pensar  melhor. -Se subia nesses momentos a sua habitao, se ficava sozinha, Blair sabia que voltaria a derrubar-se. 
- Est bem. Se formos colocar armadilhas no outro lado, devemos determinar quais so os melhores lugares para isso; e tambm quantas necessitaremos nesses casarios 
pequenos.
       -Temos preocupaes mais imediatas -interrompeu Hoyt. - O transporte at o Geall. Se Cian no pode chegar ao Baile dos Deuses, tampouco pode chegar ao portal.
       -Tem que haver uma exceo. -Moira apoiou uma mo sobre o ombro de Blair e o apertou com fora antes de apartar-se dela. - Morrigan nos escolheu , a todos 
ns.
       -Possivelmente j me descartou. -Cian se encolheu de ombros. - Os deuses so criaturas volveis.
       -Voc  um dos seis -insistiu Moira. - Se voc no estiver no Geall, o crculo ficar quebrado.
       -Eu poderia retornar s cavernas. Do ar. -Larkin se passeou por diante das janelas. Como podia ficar sentado nesse momento?. - E explorar. Poderia descobrir 
o lugar por onde passaro ao outro lado.
       -No podemos nos separar. No estando to perto da data limite. Permaneceremos juntos. -Glenna estudou os rostos de seus companheiros, atrasando-se no de 
Blair. - Permaneceremos unidos.
       -H uma coisa que acredito que deveria mencionar. -Moira olhou a Cian. - Quando Larkin e eu fomos ao Baile dos Deuses no Geall, era meio-dia. Tudo pareceu 
acontecer muito depressa, a forma em que fomos transportados de ali. Mas quando aparecemos neste lugar, j era de noite. No acredito que possamos saber quanto tempo 
dura essa passagem, ou se o tempo  o mesmo. O... se partirmos de noite, como o planejamos, se ainda seguir sendo de noite quando chegarmos ao Geall.
       -Ou o ferrado meio-dia. -Cian levantou a vista. - No  perfeito?
       -Tem que haver uma maneira de lhe proteger se chegarmos em pleno dia.
       -Para ti  fcil diz-lo, ruiva. -Cian se levantou para procurar um copo de usque. - Sua delicada pele pode queimar-se um pouco sob a intensa luz do sol, 
mas no te converte em cinzas, verdade?
       -Alguma espcie de bloqueio, Hoyt -comeou a dizer Glenna.
       -No acredito que o fator 40 de protetor solar funcione -objetou Cian.
       -J pensaremos em algo -replicou ela. - Encontraremos uma maneira de faz-lo. No chegamos at aqui para nos render, nem para te deixar atrs.
       Blair deixou que falassem, debatessem, discutissem. As vozes no eram mais que um zumbido ao seu redor. Ela no fez nenhum comentrio, nenhuma contribuio 
ao tema. Quando finalmente Hoyt insistiu para que Cian lhe desse uma amostra de sangue, ela os deixou com sua magia.
      
      
       Larkin no tratou de dormir. Tinha tentado aproximar-se da habitao dela meia dzia de vezes. Para lhe oferecer o que?, perguntou-se. Consolo no queria, 
ira no necessitava.
       Blair tinha sofrido uma perda terrvel e um golpe muito duro. No tinha querido, possivelmente no tinha podido recorrer a ele. Nem sequer, pensou agora, 
como um companheiro guerreiro.
       No podia mitigar umas feridas que ela no queria que ele visse, ou chegar a outras que ela guardava em seu interior.
       Blair tinha amado a esse homem, isso estava claro. E havia uma pequena parte de si mesmo, uma mesquinharia que Larkin desprezava, que se sentia ciumento desse 
homem brutalmente assassinado.
       De modo que permaneceu junto  janela, contemplando a sada do sol em seu ltimo dia na Irlanda.
       Quando algum bateu na porta, sups que se tratava da Moira.
       -Bi istigh.
       No se voltou quando a porta se abriu, no at que Blair falou.
       -Meu galico  bastante mau, de modo que se o que h dito  "vete ao inferno", sinto muito, no o entendi. -Levantou a garrafa de usque que levava em uma 
mo. - Tenho feito uma incurso na adega de Cian. Penso me embebedar um pouco, velar a um velho amigo. Quer me acompanhar?
       Sem esperar uma resposta, Blair entrou na habitao do Larkin e foi sentar se no cho, aos ps da cama, com a cabea apoiada nela. Abriu a garrafa, serviu 
uns generosos dois dedos em cada um dos copos que havia trazido.
       -Brindo por estar s morto. -Levantou seu copo e bebeu todo o contedo de um gole. - Venha, Larkin, me acompanhe. Pode estar furioso comigo e mesmo assim 
tomar um gole.
       Larkin se aproximou e se sentou no cho, frente a ela.
       -Lamento que esteja sofrendo.
       -Superarei-o. -Alcanou-lhe o segundo copo e voltou a servir-se no seu. - Slinte. -Entrechocou os copos, mas esta vez bebeu um pequeno sorvo em lugar de 
todo. - Os laos afetivos, ensinou-me meu pai, so armas que o inimigo poderia usar contra ns.
       -Essa  uma maneira de viver fria e dura.
       -OH, meu pai  muito bom com a frieza e a dureza. Largou-se de casa e me deixou sozinha o dia em que completei os dezoito. Fim. -Jogou a cabea para trs 
e bebeu. - Sabe?, Meu pai me tinha ferido muitas vezes antes, tinha-me quebrado o corao em pedaos s pelo fato de no me amar. Mas nada do que pudesse ter acontecido 
antes, ou no passado, aproximou-se sequer ao que significou para mim que ele partisse. Assim foi como me fiz isto.
       Blair fez girar o pulso e se olhou a cicatriz.
       -Sa quando ainda estava abalada, tratando de demonstrar que no lhe necessitava. Mas lhe necessitava. Pior para mim.
       -Seu pai no te merecia.
       Blair sorriu levemente.
       -Ele estaria completamente de acordo com isso, mas no no sentido em que voc o h dito. Eu no era o que ele queria e, at quando o tivesse sido, no me 
teria amado. Levou-me muito tempo aceitar isso. Talvez pudesse se sentir orgulhoso. Talvez pudesse se sentir satisfeito. Mas jamais me teria amado.
       -E, apesar de tudo, voc o amava.
       -Adorava-o. -Blair fechou os olhos por um momento enquanto deixava que essa parte dela se afastasse. Essa parte estava enclausurada. - No podia simplesmente 
arranc-lo de mim e convert-lo em p. De modo que trabalhei realmente duro at que fui melhor do que ele o tinha sido nunca. Mas ainda seguia tendo essa necessidade 
dentro de mim. A necessidade de amar a algum, obter que me amassem. E ento apareceu Jeremy.
       Blair serve mais usque para os dois.
       -Nessa poca, eu estava trabalhando no pub de meu tio. Minha tia, meus primos e eu nos alternvamos para atender aos clientes. Caando, ou atendendo o balco, 
servindo mesas, passando a noite. Minha tia o chamava ter uma vida. Trabalhar como uma famlia, compartilhar a carga, ter certa normalidade.
       -Parece uma mulher muito razovel.
       --o. E muito boa. De modo que eu estou no talho, atendendo a barra, quando Jeremy entra no pub com um par de amigos. Ele acabava de conseguir uma grande 
conta e foram celebrar. Era corretor da bolsa. -Fez um gesto com a mo para apagar esse comentrio. -  difcil de explicar. Enfim,  um cara bonito. Muito bonito, 
em realidade. De modo que me bateu totalmente...
       -Ele lhe golpeou?
       -No, no. -Ao Blair a pergunta lhe pareceu maravilhosamente divertida e ps-se a rir. -  uma maneira de falar, jargo. Ele flertou comigo. E eu tambm o 
fiz, porque me tinha louca. Sabe a que me refiro? Esse pequeno zzzzzz que sente por dentro?
       -Sim, sei a que te refere. -Larkin lhe acariciou a mo. - Conheo esse zumbido.
       -Ele ficou no pub at que fechamos e acabei lhe dando meu nmero de telefone. Bom, no faz falta que conte todos os detalhes. Comeamos a nos ver... a sair. 
Era divertido, doce. Normal. A classe de cara que te envia flores ao dia seguinte do primeiro encontro. -Seus olhos se nublaram, mas meneou a cabea e bebeu um pouco 
mais de usque. - Eu queria uma vida normal. Queria ter uma possibilidade de consegui-lo. Quando as coisas ficaram srias entre ns, eu pensei, sim, sim, assim  
como se supe que deve ser. Meu trabalho no significa que no possa ter a algum, formar parte de algum. Mas ainda no lhe disse o que fazia durante aquelas noites 
em que no estvamos juntos, ou o que fazia algumas noites depois de que ele dormiu. No o contei.
       -Amava-o?
       -Sim, amava-o. E o disse. Disse-lhe que o amava, mas no lhe disse o que eu era. -Respirou profundamente. - Ainda no sei realmente se foi simples covardia 
ou treinamento enraizado, mas no o disse. Estivemos juntos oito meses e Jeremy nunca soube. Devia haver sinais, devia haver indcios. Huh, Jeremy, no te pergunta 
como me tenho feito estes machucados? Por que minha roupa est rasgada? De onde demnios saiu este sangue? Mas ele jamais perguntava, e eu nunca me permiti me perguntar 
por que.
       -A gente, voc o h dito, leva culos. O amor, acredito, pode aumentar seu tamanho.
       -Pode apostar a que sim. Pediu-me que me casasse com ele. OH, Deus, ps toda a carne no forno. O vinho, as velas, a msica, as palavras certas. Eu simplesmente 
me deixei levar pela enorme e brilhante fantasia. Entretanto, segui sem lhe dizer nada durante vrios dias. At que minha tia falou comigo. -pressionou-se os olhos 
com o polegar e o indicador. - Tem que contar-lhe disse-me. Tem que fazer que ele o entenda. No pode ter uma vida, no pode construir uma vida com ele com mentiras 
ou meias verdades, ou sem confiana. Eu segui sem contar-lhe durante um par de semanas, mas me corroia por dentro. Eu sabia que minha tia tinha razo, e ele me amava, 
de modo que tudo sairia bem. Porque Jeremy me amava, compreenderia que eu no s estava fazendo o que devia fazer mas tambm o correto.
       Blair fechou os olhos enquanto sustentava o copo com ambas as mos. Larkin a escutava em silncio.
       -O expliquei ao Jeremy to cuidadosamente como pude, levando-o atravs da histria de minha famlia. Ao princpio pensou que estava brincando. -Abriu os olhos 
e olhou ao Larkin. - Quando se deu conta de que falava a srio, sua atitude se voltou hostil. Pensou que era minha maneira doente de pr fim a nosso compromisso. 
Estivemos lhe dando voltas ao assunto e eu insisti para que me acompanhasse ao cemitrio. Eu sabia que essa noite um deles se levantaria de sua tumba, e uma imagem 
vale mais que mil palavras, de modo que mostrei ao Jeremy o que eles eram; o que eu era. -Voltou a beber, um gole comprido. - No esperou um minuto para afastar-se 
de mim. Tinha pressa por agarrar suas coisas e largar-se. E me abandonar. Eu era uma louca, e no queria voltar para ver-me nunca mais. 
       -Era dbil.
       -No era mais que um cara. E agora  um cara morto.
       -De modo que  sua culpa, verdade?  sua culpa lhe haver querido tanto como para compartilhar o que  com ele? Para lhe mostrar no s que no mundo existem 
monstros, mas tambm que  o bastante forte, o bastante valente para lutar contra eles?  sua culpa que no fora o bastante homem para ver o prodgio que ?
       -Que prodgio? Fao aquilo para o que fui treinada; continuo a tradio familiar.
       -Isso  uma estupidez, e pior ainda,  te compadecer de ti mesma.
       -Eu no lhe matei... nisso tem razo, mas Jeremy est morto por minha culpa.
       -Ele est morto porque um demnio desalmado e perverso o matou. Est morto porque no acreditou no que tinha diante dos olhos, e no ficou contigo. E nada 
disso  tua culpa.
       -Jeremy me abandonou, igual ao meu pai. Pensei que isso era o pior. Mas isto... no sei o que fazer com a dor.
       Larkin lhe tirou o copo e o deixou a um lado. Logo a agarrou entre seus braos e pressionou sua cabea contra seu ombro.
       -Pode deixar um pouco aqui por agora. Derrama suas lgrimas, a str. Sentir-se melhor depois de haver as dado a ele.
       Abraou-a, lhe acariciando o cabelo e consolou-a, enquanto ela chorava por outro homem.
      
       Despertou aconchegada na cama dele, ainda vestida e agradecida de estar sozinha. A ressaca no era o sino estrondoso de depois de uma noite de absurda farra, 
a no ser o som apagado que se obtm depois de ter usado o usque como travesseiro.
       Larkin tinha deslocado as cortinas para que o sol no despertasse, advertiu, e comprovou a hora em seu relgio. O fato de que j fosse meio-dia lhe fez proferir 
um leve grunhido, ao tempo que apartava os lenis para sentar-se na beira da cama.
       "H muitas coisas que fazer -se disse a si mesma -, para consentir uma ressaca incompleta e um feroz caso de aflio." antes de que conseguisse fazer proviso 
das foras necessrias para levantar-se da cama, Larkin entrou na habitao. Levava um copo que continha algo marrom e de aspecto suspeito.
       -Diria-te bom dia, mas provavelmente no  o que sente.
       -No  muito mau -disse ela. - Os tive piores.
       -Apesar de tudo, no  dia para estar assim. Glenna diz que isto te ajudar.
       Ela olhou o copo com reticncia.
       -Porque beber essa beberagem far que vomite tudo o que tenho dentro?
       -No o h dito. Mas agora te levar como uma garota valente e tomar seu remdio.
       -Suponho que sim. -Agarrou o copo e cheirou o contedo. - No cheira to mal como parece. -Respirou fundo e o bebeu de um gole. Logo se estremeceu da cabea 
aos ps. - Tem sabor ainda pior. No deve ser s olho de salamandra, a no ser toda a ferrada salamandra.
       -Espera um ou dois minutos a que faa efeito.
       Blair assentiu e logo se olhou as mos.
       -Ontem  noite no estava em meu melhor momento, por dizer o de um modo extremamente suave.
       -Ningum espera que esteja sempre em seu melhor momento. Eu no, certamente. 
       -Quero te agradecer pela orelha e o ombro.
       -Pareceu-me que essas eram as partes de mim que mais necessitava. -sentou-se junto a ela. - Estava o bastante lcida para entender o que te disse?
       -Sim. No sou culpada. Em minha cabea sei que no o sou. Mas h outras partes de mim, Larkin, que tm que ficar de acordo com minha cabea neste assunto.
       -Esses homens lhe esbanjaram. Eu no o farei. -levantou-se enquanto ela o olhava fixamente. - Outra coisa que dever assimilar. Baixa quando estiver preparada. 
Temos muito trabalho pela frente.
       Ela seguiu olhando inclusive depois de que Larkin teve abandonado a habitao e fechado a porta.
      
       Ter trabalho que fazer lhe ajudou. Eles levariam -ao velho uso - a maior quantidade possvel de fornecimentos e armas ao crculo. Hoyt e Glenna continuariam 
trabalhando para criar alguma classe de escudo para Cian.
       Larkin transformado em cavalo, foi carregado pelo Blair enquanto Moira fazia o prprio com o cavalo de Cian.
       -Est segura de que pode montar essa coisa? -perguntou-lhe Blair.
       -Posso montar algo. -Moira elevou a vista para a janela da torre. -  a nica maneira de faz-lo. Eles precisam concentrar-se no seu. No podemos nos arriscar 
a tentar transportar tudo isto depois de pr-do-sol.
       -No. -Blair montou de um salto sobre o lombo do Larkin. - Mantenha os olhos abertos.  possvel que tenhamos companhia ao atravessar o bosque.
       Empreenderam o caminho uma detrs de outra.
       -Realmente  capaz de cheir-los? -perguntou Moira.
       - mais como os percebo. Saberei se um deles se aproxima de ns.
       Examinou as rvores, as sombras. No havia mais que pssaros e coelhos.
       A luz do sol, pensou, e o gorjeio dos pssaros. Tomar aquele caminho de noite seria uma histria completamente diferente. Moira e ela, decidiu, montariam 
ao Larkin, e Glenna e Hoyt iriam no cavalo de Cian. Cian, por sua parte, pensou, podia mover-se quase to rpido como um cavalo ao galope se a ocasio o exigia.
       Era um atalho sinuoso e, em alguns lances, logo que pisado. E, por momentos, as sombras que o cobriam eram o bastante densas como para que seus dedos se desviassem 
para a besta.
       Sentiu o movimento dos msculos do Larkin entre suas coxas e assentiu. De modo que ele tambm podia senti-los, pensou. Ou o cavalo que era nesses momentos 
podia faz-lo.
       -Eles esto vigiando. Mantm a distncia, mas nos vigiam.
       -Daro-se conta do que estamos fazendo. -Moira olhou para trs. - Ou informaro a Lilith e ela o far.
       -Sim. Acelera um pouco o passo. Acabemos com isto de uma vez.
       Saram do bosque e cruzaram um pequeno campo sem cultivar. No topo se encontrava o crculo do Baile dos Deuses.
       - grande -murmurou Blair.
       No to grande como Stonehenge9, pensou, mas era impressionante. E, ao igual a Stonehenge, inclusive antes de entrar na sombra das pedras, sentiu-as. Quase 
podia as ouvir.
       - muito poderosa -disse, e desmontou.
       -Neste mundo e no meu.
       Moira se deslizou do semental de Cian e logo apoiou a cabea contra a do Larkin.
       - nosso caminho a casa.
       -Esperemos que sim. -Blair comeou a descarregar as armas dentro do crculo de pedras que conformavam o Baile dos Deuses. - Est segura de que os vampiros 
no podem entrar aqui?
       -Nenhum demnio pode passar entre as pedras e pisar em solo sagrado.  assim no Geall e, segundo tudo o que tenho lido, tambm  assim neste mundo.
       Moira olhou para o bosque, quo mesmo Blair. Mas ela pensava em Cian, e no que seria dele se viam obrigados a deix-lo atrs.
       -J resolveremos de algum jeito.
       Moira a olhou.
       -Voc tambm est preocupada.
       - para est-lo -respondeu Blair. -Primeiro temos que conseguir lev-lo at ali, e logo impedir que ele frite; trata-se pois de duas preocupaes realmente 
importantes. Esta  uma zona segura, e quando retornarmos dentro de umas horas, seguiremos tendo aqui nossas armas, mas Cian est em desvantagem.
       Acariciou o flanco do Larkin sem pens-lo. Quando ele girou a cabea, ela deixou cair a mo.
       -Hoyt e Glenna esto nisso -prosseguiu. - Iremos todos, esse  o trato. De modo que resolveremos.
       Larkin moveu a cauda e lhe deu com ela nas ndegas.
       -Huh!
       - um ser brincalho -comentou Moira. - Quase em qualquer forma que adote.
       -Sim,  um autntico brincalho. Deveria andar-se com cuidado, um destes dias poderia ficar entupido em uma variedade de quatro patas. -aproximou-se de sua 
cabea. - O que passaria ento? -disse-lhe.
       Larkin lhe lambeu a cara do queixo at a ma do rosto.
       -Huh!
       Moira se ps-se a rir enquanto empilhava as ltimas armas.
       -Faz-me rir inclusive nos piores momentos. Ah, muito bem -acrescentou quando viu que Blair fazia uma careta de desgosto e se limpava a baba da bochecha. - 
Sua lngua no parece te incomodar muito quando ele  um homem.
       O som que fez Larkin foi o mais parecido a uma gargalhada que um cavalo podia soltar. Moira se limitou a sorrir e montou novamente no semental.
       - difcil no ver quando duas pessoas esto ansiosas para por as mos em cima uma da outra. Em uma poca, eu tambm estive apaixonada por ele. -Estirou a 
mo e acariciou a crina do Larkin. - Claro que ento eu tinha s cinco anos. Agora j o superei.
       -Ter que tomar cuidado com as caladas -murmurou Blair. Girou a cabea para a Moira enquanto montava ao Larkin. - Vocs que so do tipo tranqilo, das que 
sempre esto colocadas entre livros, aparentemente um pouco tmidas, nunca tivesse imaginado que deduzira to logo que transava com seu primo.
       -Transar? -Moira franziu os lbios enquanto cavalgavam entre pedras. -Essas seria uma maneira de descrever as relaes sexuais? Encaixa, verdade?, Porque... 
-Deixou cair as rdeas sobre o pescoo do Vlad para juntar as mos.10 E esta vez foi Blair quem comeou a rir.
       -Est cheia de surpresas.
       -Sei o que ocorre entre um homem e uma mulher. Teoricamente.
       -Teoricamente. Ou seja que voc nunca... -precaveu-se do olhar da Moira para o Larkin. - OH, sinto muito. Os cavalos grandes tm grandes orelhas.
       -Bom, suponho que so bem pequenas, considerando todo o resto. No, eu nunca. Se quero ser Rainha, deverei me casar; mas ainda h tempo. Quero encontrar a 
algum que me agrade e que me entenda. Eu gostaria de poder am-lo, como se amaram meus pais, mas ao menos queria sentir carinho por ele. E eu gostaria tambm que 
fosse bom transando.
       Esta vez, o som que fez Larkin foi resmungo.
       -Por que deveria ser voc o nico? -Moira deslizou o p fora do estribo para dar-lhe um ligeiro chute com a bota. -  bom nisso nosso Larkin? -perguntou.
       - um animal -respondeu Blair.
       Debaixo dela, Larkin iniciou um rpido trote.
       Sim, pensou Blair, era bom rir, inclusive nos piores momentos.
           
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      12
      
      Cian apalpou o material negro e spero com um gesto de ligeiro desgosto.
       -Uma capa.
       -Mas se trata de uma capa mgica. -Glenna tratou de esboar um sorriso cativante. - Com capuz.
       Capas negras e vampiros, pensou Cian suspirando interiormente. Que clich.
       -E se supe que esta... esta coisa impedir que me converta em uma pira ardente ao receber a luz do sol.
       -Realmente deveria funcionar.
       Ele a olhou com expresso divertida.
       -Sendo deveria a palavra chave.
       -Seu sangue no ferveu quando a expusemos  luz -comeou a dizer Hoyt.
       -Tenho alegres notcias. Ocorre que sou feito de algo mais que sangue.
       -O sangue  a chave -insistiu Hoyt. -  a parte fundamental de tudo isto. Voc mesmo o disse.
       -Isso foi antes de que minha carne e meus ossos estivessem em perigo.
       -Lamentamos que no haja tempo para prov-la. -Glenna fez um gesto no ar. - Levou-nos muito tempo e at que no estivemos razoavelmente seguros no podamos 
te pedir que lhe pusesse isso e sasse  luz do sol.
       -Isso foi muito considerado de sua parte. -Cian elevou a capa. - No poderia hav-la feito um pouco mais elegante?
       -A moda no era nossa principal preocupao. -Hoyt no pronunciou bruscamente as palavras, mas lhe faltou pouco. - Ela era proteger sua lamentvel natureza.
       -Assegurarei-me de lhes agradecer se, ao acabar o dia, no me converti em uma pilha de cinzas.
       -Isso deveria fazer. -Moira o censurou com um olhar sereno. - Glenna e Hoyt trabalharam toda a noite e todo o dia de hoje te tendo s a ti em mente. E, enquanto 
voc dormia, o resto de ns tambm estivemos trabalhando.
       -Eu tive meus prprios afazeres, majestade. -E a ignorou simplesmente lhe dando as costas. - Embora,  pouco provvel encontrar uma sada quando seu crculo 
de pedra rechaa aos de minha espcie.
       -Tem que confiar nos deuses -disse Hoyt.
       -Vejo-me obrigado a lhes recordar uma vez mais que sou um vampiro. Os vampiros e os deuses no so bons companheiros de farras.
       Glenna se aproximou de Cian e apoiou uma mo sobre a sua.
       -Ponha. Por favor.
       -Farei-o por ti, ruiva. -Elevou-lhe o queixo e a beijou ligeiramente nos lbios. Logo retrocedeu e ps a capa. - Sinto-me como um maldito extra de um filme 
de srie B. Ou, pior ainda, como um estpido monge.
       No parecia absolutamente um monge, pensou Moira. O via perigoso.
       Blair e Larkin entraram na habitao.
       -Estamos to seguros como  possvel est-lo -disse Blair, e logo arqueou as sobrancelhas olhando a Cian. - Huh, parece o Zorro.
       -Como diz?
       -J sabe, essa cena em que est na capela com a garota e finge ser o padre. S que, puta merda, da classe de padre que estvamos acostumados a chamar padre 
Que Desperdcio. Enfim, o sol se est ocultando. Se formos nos pr em marcha, ser melhor que o faamos agora.
       Hoyt assentiu e olhou a Cian.
       -Manter-te perto de ns.
       -O bastante perto.
       Blair teria desejado que tivessem tido tempo de praticar a manobra, mas j era muito tarde para os desejos. "Basta de bate-papo -pensou. - Basta de discusses... 
e nada de ensaios de vesturio.  agora ou nunca."
       Depois de um leve assentimento e uma rpida exalao, Larkin e ela foram os primeiros em atravessar a porta. Ele trocou de forma e se converteu novamente 
em um cavalo, enquanto Blair montava de um salto e logo estendia a mo para ajudar a Moira a montar detrs dela.
       Afastaram-se do estbulo a todo galope, com a esperana de adiantar-se aos monstros que esperavam para lhes emboscar. Blair logo que viu Cian sair da casa, 
porque em poucos segundos j estava nas portas do estbulo, liberando o semental.
       Logo desapareceu, e Hoyt e Glenna montaram no Vlad.
       Com apenas o tnue resplendor da lua para gui-los, continuar ao galope ao chegar ao bosque era correr um risco. Blair ps ao Larkin ao trote confiando em 
que ele vigiasse o atalho enquanto ela esquadrinhava as rvores.
       -Nada, ainda nada. Se estiverem aqui, esto esperando.
       -Pode ver Cian? -Moira, com o arco preparado, tratava de olhar a todas partes ao mesmo tempo. - O sente?
       -No, no h absolutamente nada. -Blair se voltou na cadeira para olhar ao Hoyt por cima do ombro da Moira. - Vigia os flancos. Podem nos atacar pela retaguarda.
       Viajavam em absoluto silncio e s se ouvia o som dos cascos no atalho. E esse silncio, pensou Blair, era precisamente o problema. Onde estavam as aves noturnas? 
Onde estavam todos os rangidos e olhares cautelosos dos pequenos animais no bosque em sombras?
       Os caadores de vampiros, ela sabia muito bem, no eram as nicas criaturas que podiam sentir a presena destes.
       -Alerta -disse Blair quase em um sussurro.
       Ento o ouviu, o choque do ao e um grito sbito. No teve necessidade de esporear ao Larkin com palavras ou um golpe com os saltos. Ele j se lanou ao galope.
       Blair os percebeu poucos segundos antes que sassem de detrs das rvores. Soldados de infantaria nesta ocasio, com certa maturidade e armadura ligeira. 
Comeou a fazer girar a espada ao tempo que Moira comeava a lanar suas flechas.
       Os cascos do Larkin se lanaram para frente esmagando tudo o que caa debaixo deles. Mas o inimigo saa de todas partes, bloqueava o crculo e lhes fechava 
o acesso para o Baile dos Deuses. Blair lanou um chute e derrubou a um deles que se prendey a sua perna. "Muitos -pensou. - Muitos para poder resistir seu ataque."
       Mais os valia atacar, romper a linha e chegar s pedras.
       Ento um dos monstros se desprendeu de um ramo em cima de sua cabea e esteve a ponto de desmont-la, lanando-a para trs enquanto ela levantava um cotovelo 
para bloquear o ataque.
       Entretanto, Moira caiu ao cho. Com um grito de fria, Blair lanou um violento murro e estava a ponto de saltar do cavalo quando Cian voou atravs do atalho.
       Levantou a Moira e voltou a coloc-la a lombos no Larkin.
       -Sigam adiante! -gritou. - Agora!
       Blair carregou contra a linha inimiga abrindo uma brecha entre suas filas com sua espada flamejante. Confiava em que Cian estivesse fora da trajetria de 
uma bola de fogo que passou junto a ela. Sentiu que Larkin vibrava sob seu corpo, e sua forma trocou.
       Um segundo depois, estavam voando a lombos do drago, com as enormes garras do animal fazendo estragos entre a linha de vampiros, golpeando com sua cauda 
enquanto Hoyt e Glenna galopavam atravs da brecha aberta por ele.
       Agora Blair podia ver as pedras. Embora as nuvens cobriam a lua, o crculo refulgia como prata polida, brilhando na escurido. Tivesse jurado, inclusive com 
o som do vento e os gritos da batalha, que ouvia como cantavam.
       Enquanto Hoyt e Glenna se lanavam para o interior do crculo, Larkin tambm descendeu entre as pedras.
       Blair saltou de seu lombo, tentando no apoiar-se na perna que o vampiro lhe tinha ferido.
       -Prepare -se -ordenou.
       -Cian...
       Ela apertou o ombro da Moira.
       -Est vindo. Hoyt?
       Este tirou sua chave; Moira o imitou.
       -No pronunciaremos as palavras at que Cian no se reuniu conosco. -Como acontecia com as prprias pedras, o poder parecia projetar-se desde o Hoyt quando 
agarrou a mo da Glenna. - No pronunciaremos as palavras at que no voltemos a ser um crculo.
       Blair assentiu. Contivessem o que contivessem aquelas pedras, e fora o que fosse aquilo com o que Glenna e Hoyt tinham nascido, a fora dos seis provinha 
de sua unio. Esperariam a Cian.
       Voltou-se para o Larkin.
       -Foi uma boa galopada, huh, vaqueiro?  grave?
       Larkin se pressionou com a mo o flanco, no que lhe via sangue.
       -S arranhes. E voc?
       -Igual. Um ligeiro corte. Outros?
       -Estamos bem.
       Glenna estava colocando uma atadura no brao do Hoyt.
       -A vem -murmurou Moira.
       -Onde? -Hoyt a aferrou de um brao. - No vejo nada.
       -Ali. -Moira assinalou para as rvores. - Est chegando.
       Viu-se uma espcie de mancha que surgia de entre as rvores; um redemoinho negro subindo para o terreno elevado onde estava o crculo de pedras.
       -No criem que foi entretido? Agora se esto reagrupando; para o que lhes vai servir -disse Cian ao chegar.
       Tinha sangue na cara e um talho na coxa.
       -Vm. -Hoyt lhe tendeu uma mo. - Chegou o momento.
       -No posso. -Cian elevou uma mo e a apoiou contra o ar, entre as pedras. -  como uma parede para mim. Sou o que sou.
       -No pode ficar aqui -insistiu Hoyt. - Caaro-lhe. Estar sozinho.
       -No sou uma presa to fcil. Agora devem fazer aquilo para o que viestes at aqui. Eu ficarei para me assegurar de que funcione.
       -Se voc ficar, todos ficaremos. -Larkin passou atravs da brecha que havia entre duas pedras. - Se voc brigar, todos brigaremos.
       -Agradeo o sentimento -lhe disse Cian -, mas isto  mais importante que um de ns, e tm que partir a outra parte.
       -O outro portal -comeou a dizer Larkin.
       -Se o encontrar, pode me convidar a um gole quando chegarmos ao Geall. Parte. -Olhou ao Hoyt fixamente aos olhos. - O que tem que ser, ser. Isso  o que 
voc sempre acreditou, e o que eu, a minha maneira, tambm acreditei. Parte. Salvem os mundos.
       -Encontrarei uma maneira. -Hoyt estendeu a mo atravs das pedras e colheu com fora a de Cian. - Encontrarei uma maneira, juro-lhe isso.
       -Boa sorte. -Cian os saudou elevando a espada. - A todos.
       Com um profundo abatimento refletido nos olhos, Hoyt retrocedeu e levantou o cristal. A luz brilhou nele e desde ele.
       -Os mundos esperam. O tempo flui. Os deuses vigiam.
       Com as bochechas banhadas em lgrimas, Glenna agarrou sua mo e repetiu as palavras.
       -No est bem -disse Larkin fracamente. - No est bem deixar aqui a um de ns.
       -Talvez possamos... OH, merda -murmurou Blair enquanto a terra comeava a tremer. O vento formou um redemoinho e a luz comeou a pulsar.
       -Slan, mo cara. -Com um ltimo olhar a Cian, Larkin aferrou sua mo. - Ser uma viagem agitada -lhe disse. - Ser melhor que te agarre para mim. Moira?
       Moira levantou tambm o cristal e pronunciou as palavras. Logo olhou a Cian aos olhos enquanto sentia que o mundo comeava a trocar. Ento estendeu a mo 
e agarrou a de Cian.
       -Somos uma s fora, um s poder. Que assim seja!
       E lhe arrastou para o interior do crculo.
      
      
       Era como ser absorvidos por um tornado, pensou Blair. Um vento impossvel que parecia arranc-los da Terra e faz-los girar em crculos enlouquecidos enquanto 
a luz estalava em seus olhos.
       Haveria munchkins11 do outro lado?
       No podia ver mais que a intensa luz branca e seu vertiginoso redemoinho. No encontrava nenhum ponto de apoio, nenhum terreno firme, de modo que se sujeitou 
com fora  mo do Larkin.
       Logo chegou a escurido e uma quietude absoluta. Esfregou a cara com a mo contendo o flego. Ento distinguiu a luz da lua; raios de prata que caam sobre 
as pedras erguidas.
       -Chegamos?
       -OH, Meu deus! -A voz da Glenna soava tremente. -Que viagem! O que... Uau! E Cian? -Colocando suas mos trmulas a cada lado do rosto deste, beijou-o sonoramente. 
- Como o tem feito? -perguntou a Moira. - Como pudeste coloc-lo dentro?
       -No sei. Eu s... Assim devia ser. Voc devia estar aqui -lhe disse a Cian. - Eu o senti, e... -Moira pareceu dar-se conta de que ainda aferrava a mo do 
vampiro, e a soltou. - E bom, aqui est. -apartou-se uma mecha de cabelo que se escapou de sua trana. - Bem, assim -prosseguiu -Finalmente, filte a Geall, Larkin. 
-E se equilibrou aos braos dele. - Estamos em casa.
       -E de noite, em um momento muito conveniente. -Se Cian estava aturdido, soube dissimul-lo muito bem... Limitando-se a olhar a seu redor enquanto tirava o 
capuz da capa. - E no  que no confie em seus poderes mgicos.
       -Ainda fica a questo de nos transladar aonde devemos ir e levar conosco todo este material.
       Blair fez um amplo gesto com o brao abrangendo os bas, as armas e as caixas.
       -Pela manh podemos enviar a uns homens a procurar o grosso da equipe. Agora deveramos levar conosco s o mais importante -sugeriu Moira.
       -As armas ento. No sabemos o que  o que nos podemos encontrar. Sinto-o -acrescentou Blair olhando a Moira e ao Larkin -, mas faz um ms que partiram. No 
podemos sab-lo.
       -Eu posso levar a trs pelo ar. -Larkin deu um estiro  desordenada trana da Moira. - Assim veria se houver alguma coisa que deva nos preocupar. E voc, 
Cian, pode levar a um no cavalo.
       -Meu cavalo. -Cian se lembrou dele. Continuando, olhou a Moira. - Voc pode montar comigo.
       -Parece um bom plano. Ponhamos-nos em marcha. -Blair se pendurou do ombro sua esteira e logo sorriu a Glenna e Hoyt. - Meninos, esta viagem vai lhes encantar.
       Os trs voaram sobre o Larkin atravs do Geall, com o semental e seus dois cavaleiros galopando debaixo. A lua brilhava com luz mgica, aureolando de prata 
as colinas e os bosques; o rio refulgia em seu curso sinuoso atravs deles. Do alto, Blair pde ver cabanas com finos penachos de fumaa que escapavam de suas chamins, 
e uns pontos diminutos que eram vacas ou ovelhas pastando nos campos. Os caminhos pareciam estreitos, e estavam enlodados, e no se via neles mais viajantes que 
Cian e Moira.
       No havia carros, pensou, e tampouco luz, salvo algum resplendor ocasional que bem poderia ter sido uma vela ou um farol. S terra que se ondulava e estendia 
e se elevava formando as silhuetas das montanhas.
       Uma terra, recordou-se a si mesma, que at fazia poucas semanas ela tinha acreditado que era s um conto de fadas.
       Girou a cabea e viu a costa, com seus altos e escarpados que se precipitavam para graciosas baas. O mar se estendia, como veludo negro, no que destacava 
um trio de pequenas ilhas em seu caminho para o horizonte.
        Ouviu que Glenna lanava uma exclamao a suas costas e voltou a olhar.
        Aquela maravilha se elevava de entre as altas colinas, rodeada por detrs por uma ampla curva do rio. Seus muros brilhavam como diamantes sob a luz da lua, 
elevando-se em forma de torres e torrees, estendendo-se em muralhas almenadas.
       "Um castelo", pensou Blair atnita. E que castelo estaria completo sem uma ponte levadia e chapeuzinhos bicudos nos que ondeassem brancos e sedosos estandartes?
       Um claddaugh em um deles, advertiu, enquanto os via agitar-se com a brisa. Um drago no outro.
       Glenna se inclinou para frente para lhe sussurrar ao ouvido.
       -Isto  muito para um par de garotas do sculo vinte e um. Pensava que j nada poderia me surpreender. -Havia admirao na voz de Blair, ela mesma pde ouvi-la. 
- Mas, uau, um autntico castelo.
       Larkin descreveu um amplo crculo para que no perdessem de vista ao cavalo e os cavaleiros, e logo planejou em suave descida para um grande ptio.
       Blair se encontrou rodeada imediatamente por homens providos de armaduras ligeiras e as espadas preparadas. Elevou ambas as mos para que ficassem bem  vista 
enquanto seus companheiros se baixavam tambm do drago.
       Um dos guardas se adiantou para ela.
       -Seu nome e suas intenes.
       Larkin abandonou a forma do drago.
       -Essa no  uma calorosa bem-vinda, Tynan.
       -Larkin! -O guarda embainhou a espada e logo rodeou ao Larkin com um brao. - Graas aos deuses! Onde demnios estiveste todas estas semanas? J quase tnhamos 
perdido as esperanas de te encontrar. E a princesa, onde...?
       -Abram as portas. A princesa Moira est aguardando para entrar em casa.
       -J ouvistes Lorde Larkin -ordenou Tynan. Era uns centmetros mais baixo que Larkin, mas sua voz ressonou potente ao dar a ordem. - Elevem a porta. Deve-me 
contar isso tudo. Seu pai querer que o despertem.
       -Sim, h muitas coisas que contar. E, j que est nisso, faz que despertem tambm ao cozinheiro. D a bem-vinda a meus amigos. A caadora Blair, Glenna a 
Bruxa, Hoyt o Feiticeiro. Viemos desde muito longe, Tynan. De muito mais longe do que possa imaginar.
       Voltou-se para ajudar a Moira a descer do cavalo.
       Os homens inclinaram a cabea, observou Blair, quando os ps da Moira tocaram o cho.
       -Tynan, seu rosto  uma grata viso. -Beijou-o na bochecha. - Este  Cian e este belo companheiro  seu cavalo Vlad. Pode lhe dizer a um dos homens que o 
leve a estbulo e se encarregue de que seja atendido?
       -A mim ou ao cavalo? -murmurou Cian, mas ela fingiu no lhe haver ouvido.
       -Avisem a meu tio que chegamos e que lhe esperaremos no salo familiar.
       -Agora mesmo, alteza.
       Moira os guiou atravs do ptio em direo a uma grande arcada. As portas j estavam abertas para eles.
       -Uma bonita residncia do vero a que tm aqui -disse Blair -, Lorde Larkin.
       Sorriu-lhe.
       -No  muito, mas  um lar. De fato, a casa de minha famlia no est muito longe daqui. Meu pai exerce como regente at que Moira seja coroada.
       -Se for o que corresponde -disse Moira por cima do ombro.
       -Se for o que corresponde -conveio ele.
       No grande salo estavam acendendo as tochas, de modo que Blair sups que a notcia de sua chegada j se estava estendendo por toda parte. No cho, composto 
por alguma classe de azulejos, viam-se os dois smbolos que apareciam nos estandartes, com o claddaugh flutuando sobre a cabea do drago.
       Ambos os smbolos se repetiam na cpula de cristal do alto teto.
       Enquanto iniciavam a ascenso de uma grande escada curva, Blair viu fugazmente mveis pesados e coloridas tapearias, e lhe chegou a fragrncia das rosas.
       -O castelo leva aqui mais de mil e duzentos anos -lhe disse Larkin. - Foi construdo neste mesmo lugar a mando dos deuses. Esta elevao do terreno  conhecida 
como Rioga. Real. Todos os que reinaram no Geall aps o tm feito daqui.
       Blair olhou a Glenna.
       -Isto faz que a Casa Branca parea um abrigo.
       Blair nunca tivesse chamado salo  estadia em que entraram. Era enorme e de tetos muito altos, com uma lareira de mrmore azul o bastante grande como para 
que dentro dele coubessem cinco homens de p. A lenha j estavam acesa.
       Em cima da chamin pendurava uma tapearia que descrevia o que supuseram que eram cenas da histria do Geall.
       Havia vrios bancos largos e baixos cobertos com tecidos de tons brilhantes. Cadeiras de respaldos altos e ornamentados se alinhavam junto a uma larga mesa 
onde os criados j estavam colocando jarras e copos, recipientes com mas e pras, pratos com queijo e po.
       As paredes estavam cheias de pinturas e tapearias enquanto que nos chos se estendiam delicados tapetes de trabalhados desenhos. As velas ardiam nos braos 
de parede, em altos pedestais, em candelabros de prata.
       Uma das criadas, uma jovem curvilnea com uma cabeleira dourada que lhe caa sobre as costas, fez- uma reverncia a Moira.
       -Minha senhora, damos graas aos deuses por sua volta. E pelo seu, meu senhor.
       Os olhos da jovem brilharam ao olhar ao Larkin e Blair arqueou as sobrancelhas.
       -Isleen, me alegro de verte. -Moira lhe agarrou ambas as mos. - Sua me se encontra bem?
       -Sim, minha senhora. Est derramando lgrimas de alegria.
       -Dir-lhe que a verei muito em breve? Necessitaremos que preparem habitaes para nossos convidados.
       Moira a levou  parte para lhe explicar o que queria.
       Larkin j se dirigia para a mesa e a comida. Partiu uma grosa fatia de po com as mos, cortou uma grande parte de queijo e comeou a lhes dar bocados.
       -Ah, isto tem sabor de lar -disse, com a boca cheia. - Vm, Blair, prova um pouco.
       Antes de que ela pudesse dizer nada, Larkin lhe colocou uma parte de queijo na boca.
       - bom -conseguiu dizer.
       -Bom?  brilhante como a luz das estrelas. E o que  isto? -Levantou uma grande jarra. - Vinho, verdade? Glenna, voc beber um pouco, no?
       -Menino, claro que sim.
       -Muito poucas coisas trocam -disse uma voz da porta. O homem que estava ali, alto, corpulento, de cabelo negro salpicado de fios cinzas, olhava fixamente 
ao Larkin. - Aqui est, rodeado de comida e mulheres formosas.
       -Da12.
       Encontraram-se a meio caminho atravs da habitao e se fundiram em um abrao de urso. Blair pde ver o rosto do homem, a emoo que mostrava. Logo viu o 
Larkin refletido naqueles olhos dourados.
       O homem agarrou o rosto de seu filho entre suas grandes mos e lhe deu um firme beijo na boca.
       -No quis despertar a sua me. Queria me assegurar, antes de alimentar suas esperanas.
       -A irei ver logo que possa. A voc lhes v bem. Talvez um pouco cansado.
       -No foi fcil dormir estas ltimas semanas. Est ferido.
       -Nada que deva lhes preocupar, asseguro-lhes isso.
       -No, no me preocupa. Agora j est em casa.
       O homem se voltou e sorriu... e Blair viu o Larkin nele.
       -Moira.
       -Senhor.
       Ento seu flego pareceu quebrar-se e correu para ele. Seus braos se fecharam ao redor de seu pescoo, ao tempo que ele a elevava do cho.
       -Sinto muito, lamento hav-lo afastado de voc. Lamento lhes haver preocupado tanto.
       -Mas agora retornastes. Ss e salvos. E trouxestes convidados com vocs. -Voltou a depositar a Moira no cho. - So bem-vindos.
       - o pai do Larkin e o irmo de minha me, o prncipe Riddock. Senhor, apresentarei-lhes a meus amigos, quo melhores nunca tive.
       Enquanto Moira os apresentava, Larkin permanecia detrs de seu pai, fazendo gestos a outros para que inclinassem a cabea ou fizessem uma reverncia. Blair 
inclinou a cabea sem poder evitar sentir um tanto ridcula.
       -Temos tantas coisas que lhes contar... -comeou a dizer Moira. - Se pudssemos nos sentar. Larkin, as portas por favor. Isto dever ser privado.
       Riddock a escutou, interrompendo ocasionalmente para lhe pedir a Moira que repetisse algum ponto ou ampliasse as explicaes. De vez em quando formulava uma 
pergunta a seu filho ou a algum de outros.
       Blair quase podia ver o peso das palavras sobre seus ombros e a frrea determinao com que as suportava.
       -Houve outros ataques, ao menos seis, desde que... -Riddock vacilou brevemente -, desde que partiram. Fiz o que pude para cumprir com o que me deixou escrito, 
Moira; para advertir s pessoas que devia ficar em suas casas depois de pr-do-sol, que no abrissem a porta a desconhecidos durante a noite. Mas os hbitos e as 
tradies so obcecados. Como o eram quem as tem respeitado estas ltimas semanas.
       Riddock estudou a Cian atravs da larga mesa.
       -Dizem que devemos confiar nele, embora seja um deles. Um demnio dentro de um homem.
       -Confiar uma palavra importante -disse Cian. - Tolerar poderia s-lo menos e portanto mais fcil de exercer.
       -Cian lutou a nosso lado -interveio Larkin. - Foi ferido conosco.
       -Ele  meu irmo. Se no confiarem nele -espetou Hoyt categoricamente -, tampouco confiam em mim.
       -E em nenhum de ns -concluiu Glenna.
       -Nestas semanas formastes um grupo muito unido,  compreensvel. -Riddock bebeu um pequeno sorvo de vinho enquanto seus olhos permaneciam vigilantes, pousados 
em Cian. - Mas confiar em um vampiro, toler-lo, e acreditar que pode e deseja enfrentar-se aos de sua prpria espcie... custa um pouco de aceitar.
       Cian continuou cortando sua ma, apesar de que Hoyt comeou a levantar-se de sua cadeira.
       -Tio -Moira apoiou uma mo sobre a do Riddock -, eu estaria morta de no ter sido por ele. Mas alm disso, entrou conosco no Baile dos Deuses, viajou at 
aqui por intuito dos deuses. Escolhido por eles. Questionaro sua vontade?
       -Todo homem pensante questiona, mas respeitarei a vontade dos deuses. A outros possivelmente resulte mais difcil.
       -O povo do Geall seguir suas ordens, senhor, e seu guia -concluiu Moira.
       -As minhas? -voltou-se para ela. - A espada te espera, Moira, igual  coroa.
       -Pois tero que esperar um pouco mais. Acabo de retornar a casa e h muito que fazer. Questes mais importantes que as cerimnias.
       -As cerimnias? Em um momento falas da vontade dos deuses e a ignora ao seguinte?
       -No a ignoro. S digo que deve esperar. Voc conta com a confiana e a f do povo. Eu no estou ainda amadurecida. No me sinto preparada, no em meu corao 
nem em minha mente. -Seu olhar era grave enquanto seus olhos estudavam o rosto de seu tio. - Um pouco mais de tempo, por favor. Talvez no seja eu quem deve levantar 
a espada, mas antes de prov-lo, preciso saber que estou preparada para lev-la. Geall necessita e merece um soberano que possua fora e segurana. No lhes darei 
menos que isso.
       -Seguiremos falando disso. Agora est cansada. Todos devem est-lo, e uma me espera para ver seu filho. -Riddock se levantou. - Falaremos pela manh e faremos 
tudo o que seja necessrio nos prximos dias. Larkin.
       Este ficou de p  ordem de seu pai.
       -Desejo-lhes boa noite -disse a outros. - E sonhos aprazveis em sua primeira noite no Geall.
       Olhou fugazmente ao Blair e logo seguiu a seu pai fora do enorme salo.
       -Seu tio  um homem imponente -comentou Blair.
       -E bom. Com sua ajuda formaremos um exrcito que enviar ao Lilith de volta ao inferno. Se estiverem preparados, lhes mostrarei suas habitaes.
      
      
       No era fcil serenar-se e dormir, pensou Blair, quando estava passando a noite em um castelo. E em uma habitao prpria da realeza.
       Antes de que chegassem ao Geall, ela tinha esperado encontrar-se com algo mais Idade Mdia. Uma fortaleza de pedra no topo de uma colina aoitada pelo vento. 
Tochas fumegantes, barro, excrementos de animais.
       Mas em troca, estava no castelo parecido ao de Cinderela.
       No lugar da habitao pequena e estreita que lhe teria parecido normal, algo assim como um barraco com esteiras de junco - ou do que fossem exatamente - 
no cho e uma cama de armar tosca e pesada, dispunha de um espaoso quarto de paredes coloridas, de uma cama grande, branda e provida de um dossel de veludo azul, 
e um amaciado tapete com imagens de perus reais tecidos em suave l.
       Ao olhar atravs da janela, comprovou que dava a um jardim no que havia uma formosa fonte que arrojava jorros de gua. O assento que tinha frente  janela 
estava almofadado com mais veludo.
       O quarto dispunha de uma pequena escrivaninha. Bonita, pensou, embora ela no faria muito uso do tinteiro de cristal ou da pluma.
       O fogo ardia lentamente em uma lareira feito de mrmore branco veteado de azul.
       Tudo era to fino e perfeito que Blair quase passou por cima a ausncia de instalaes sanitrias modernas. O mais prximo a isso que encontrou na habitao 
era o urinol colocado discretamente detrs de uma cortina.
       Despiu-se at ficar s em roupa ntima e utilizou a bacia com gua para lavar os arranhes da perna antes de lubrificar a zona com um pouco do blsamo que 
lhe tinha dado Glenna.
       Perguntou-se o que estariam fazendo outros. Desejou que fosse j de dia para poder dedicar-se ao seu.
       Quando a porta se abriu, agarrou a faca que tinha deixado junto  bacia. Mas voltou a deix-lo ao ver que era Larkin quem entrava na habitao.
       -No te ouvi chamar.
       -No o tenho feito. Pensava que possivelmente estivesse dormindo. -Fechou a porta brandamente atrs dele e examinou a habitao de uma olhada. -  de seu 
agrado?
       -A habitao?  para uma estrela do rock. S me sinto um pouco estranha. Como se me tivesse metido dentro de um livro.
       -Entendo-o, j que eu me senti igual no faz muito. E suas feridas, tem problemas com elas?
       -No so nada. E as tuas?
       -Minha me se encarregou delas. Isso a tem feito feliz, igual a chorar por mim. Est ansiosa por te conhecer, a todos vocs.
       -Suponho que sim. -Embaraoso, pensou Blair. Por que era tudo to embaraoso?. - Eu, huh, nunca tinha registrado que voc pertencesse  realeza.
       -OH, bom, todo isso no tem muito que ver comigo em realidade.  algo mais cerimonial que outra coisa. Honorfico, poderia dizer-se. -Elevou a cabea enquanto 
se aproximava dela. - Pensava que no viria a verte esta noite?
       -No sei o que  o que pensei. Tudo  bastante desconcertante.
       -Desconcertada voc? -Um sorriso apareceu em sua boca. - No me importa. Eu te desconcertarei um pouco mais, vou seduzir te.
       Ele deslizou um dedo com o passar do bordo do suti, roando apenas a pele.
       -Dedica muito tempo s sedues? Ocupando-te, digamos, dessa loira de grandes peitos? Qual  seu nome? Isleen.
       - s paquera, diverso s, nunca seduo. No  apropriado ou justo te aproveitar de algum que est ao seu servio. -inclinou-se para ela e, esfregando 
os lbios sobre seu ombro, baixou-lhe a tira do suti. - E embora pudesse ter flertado no passado, voc no estava aqui. Porque Deus  testemunha de que no Geall 
no h nenhuma mulher que possa comparar-se contigo.
       Aproximou os lbios aos dela, s para mordiscar-lhe ligeiramente.
       -Blair Murphy -sussurrou. - Mulher caadora e formosa.
       Deslizou as mos por suas costas, aprofundando apenas o beijo. Logo s um pouco mais. E quando seus lbios se deslizaram por seu rosto, por seu pescoo, ele 
cantarolou em galico para ela.
       O som de suas palavras, o tato dele, fizeram-na estremecer-se de prazer.
       -Sigo pensando que isto  um engano. Mas  to condenadamente bom.
       -No  um engano. -Larkin lhe deu uma leve dentada no queixo enquanto com as gemas dos polegares descrevia crculos ao redor de seus mamilos. - Absolutamente.
       " parte da viagem", disse-se Blair enquanto quase desfalecia. Ambos tomariam algo bom, algo poderoso para si mesmos com o passar do caminho.
       Agora Larkin uniu seus lbios aos dela, e afundou em sua boca sua lngua clida e dura. Havia uma grande doura na forma em que a acariciava e uma tremente 
excitao quando suas mos tocavam seus lugares secretos.
       Quando Larkin a elevou nos braos, Blair no se sentiu como uma caadora. Sentiu-se conquistada.
       -Desejo-te. -Ela apertou seu rosto contra a curva de sua garganta enquanto ele a depositava em cima da cama, aspirando seu aroma. - Como posso te desejar 
tanto?
       -Est escrito -respondeu Larkin e, elevando lhe a mo,beijou a palma. - Shhh -disse antes que ela pudesse voltar a falar. - S sente. Esta noite s sintamos.
       Ela podia ser to suave, pensou ele, to dcil, to generosa. Ao entregar-se fazia que se sentisse como um rei. Aqueles olhos azuis profundos o observavam 
enquanto ambos se moviam juntos. Nublavam-se de prazer quando ele a tocava, saboreava. Aquelas mos, to firmes empunhando uma espada, tremeram levemente ao lhe 
tirar a camisa.
       Os lbios de Blair pressionaram contra seu peito, contra o corao que j estava perdido por ela.
       Tomaram mutuamente com suavidade, em silncio, enquanto a luz da lenha brilhava sobre seus corpos nus. Houve murmrios e suspiros em lugar de palavras, e 
uma ascenso prolongada e indolente em lugar de uma carreira frentica.
       Quando se deslizou dentro dela, Larkin olhou seu rosto, contemplou-a enquanto a penetrava. Quando tudo em seu interior se disps a dar o salto final, ele 
seguiu olhando-a.
       E, ao final, pensou simplesmente que se afogaria nos seus olhos.
      
      13
      
       Era to carinhoso...! Estava de lado na cama, atrs dela, com um brao lhe enlaando a cintura do mesmo modo em que Blair imaginava que um pirralho podia 
abraar a um ursinho de pelcia.
       No estava acostumada a ter a um homem agarrado a ela de noite, e no podia decidir se gostava ou no. Por um lado, era doce e sexy despertar coberta pelo 
corpo do Larkin. Resultava quente, suave e acolhedor.
       Por outro, se tivesse que mover-se depressa, procurar uma estaca ou uma espada, ele seria um peso morto.
       Talvez deveria praticar liberar-se de seu abrao, rodar fora da cama e chegar at a arma que tivesse mais perto. E talvez deveria relaxar-se. Aquela no ia 
ser uma situao permanente.
       Era s... conveniente.
       E sua atitude estpida e carregada de mentiras, teve que admitir. Se no era capaz de ser honesta dentro de sua prpria mente, de seu prprio corao, ento, 
onde?
       Eles eram algo mais que convenientes um para o outro, mais que compatriotas. Mais, temia, que amantes. Ao menos por sua parte.
       Contudo,  luz do dia tinha que ser realista. Fossem o que fossem um para o outro, era algo que no podia ir a lugar nenhum. No alm do que compartilhavam 
naqueles momentos. Cian havia dito a pura e crua verdade na Irlanda, fora do Baile dos Deuses. O problema ao que se enfrentavam era muito maior e importante que 
uma pessoa ou seus desejos e necessidades pessoais. E, portanto, essas necessidades pessoais deviam ser, por fora, temporrios.
       Depois do Samhain tudo teria acabado. Ela tinha que acreditar que obteriam a vitria, isso era fundamental, mas depois da celebrao da mesma, das palmadas 
de felicitao nas costas e dos brindes com champanha, teria fatos muito duros de confrontar.
       Larkin -Lorde Larkin - era um homem do Geall. Uma vez que tudo aquilo tivesse terminado e ela tivesse completado a misso, Geall seria para ela, em um sentido 
muito real, de novo um conto de fadas. De acordo, possivelmente pudesse ficar uns dias, ir com ele a esse picnic do que Larkin tinha falado. Desfrutar um pouco. 
Mas finalmente teria que partir.
       Ela tinha uma misso de nascimento, uma obrigao, pensou enquanto acariciava a cruz de Morrigan. No era possvel lhe voltar as costas a todo isso.
       O amor, se era isso o que sentia, no era suficiente para triunfar. Quem podia ser to parvo para acredit-lo?
       Larkin era mais do que jamais tinha esperado ter, inclusive para um curto perodo de tempo, de modo que no podia nem queria queixar-se de sua sorte, ou de 
seu destino, ou da fria vontade dos deuses. Ele a tinha aceito, preocupou-se por ela, tinha-a desejado. Era um homem que tinha valor, uma profunda lealdade e senso 
de humor.
       Blair pensou que possivelmente -no era impossvel - ele a amasse.
       Para ela, Larkin era uma espcie de milagre pessoal. Nunca a abandonaria e se esqueceria dela. Nunca a separaria de sua vida simplesmente pelo que era. De 
modo que, quando se separassem, no poderia haver recriminaes.
       Se as coisas fossem diferentes, poderiam ter levado adiante sua relao. Ao menos poderiam hav-lo tentado. Mas as coisas no eram diferentes.
       Ou, mais precisamente, as coisas eram muito diferentes.
       De modo que contavam com umas poucas semanas. Teriam a viagem. E ambos conservariam algo memorvel disso.
       Blair o beijou, um beijo quente e suave nos lbios. Logo lhe sacudiu.
       -Acorda.
       A mo do Larkin se deslizou por suas costas para lhe acariciar sensualmente as ndegas.
       -No desta maneira.
       - a melhor maneira. Sentir o firme que , suave e firme. Sonhei que estava fazendo o amor contigo em uma horta, em pleno vero. Porque sempre cheira a mas 
verdes, e faz que deseje te dar uma boa dentada.
       -Come muitas mas verdes e ter dor de estmago.
       -Eu tenho um estmago de ao. -Seus dedos se deslizaram acima e abaixo pela parte posterior de sua coxa. - No sonho no havia ningum mais que ns dois, e 
as rvores estavam carregadas de frutos sob um cu do azul mais puro.
       Sua voz soava sonolenta e pastosa, pensou ela. Sexy.
       -Como o paraso? Ado e Eva? Uma ma os meteu em problemas muito grandes, se a memria no me falha -disse ela.
       Se limitou a sorrir. Ainda no tinha aberto os olhos.
       -Voc olha o lado escuro das coisas, mas no me importa. No sonho eu te dava tanto prazer que voc chorava de alegria.
       Ela soltou uma gargalhada.
       -Claro, em seus sonhos.
       -E pronunciava meu nome uma e outra vez entre soluos. Rogava-me que tomasse. "Usa este corpo", implorava, "toma-o com suas fortes mos, com sua experimentada 
boca. Penetra-o com seu poderoso..."
       -J vale, lhe est inventando isso.
       Ele abriu um olho, e ela viu tanta diverso nele que seu estmago tremeu ao dar risada.
       -Bom, sim, mas me estou divertindo muito. E voc tambm te est rindo. Isso  o que queria ver quando abrisse os olhos. O sorriso de Blair.
       A ternura a alagou.
       - um autntico palhao -murmurou enquanto lhe acariciava a bochecha.
       -A primeira parte do sonho era verdade. Algum dia deveramos procurar essa horta.
       Larkin voltou a fechar os olhos e a acomodou na cama.
       -Huh, um momento. A cena dos olhos fechados j terminou. Agora temos que nos pr em marcha.
       -Tem pressa? Muito bem.
       Larkin rodou at ficar em cima dela.
       -No me referia...
       Larkin se deslizou em seu interior.
       O prazer foi to profundo, to instantneo, que, embora estivesse rindo, lhe cortou o flego.
       -Teria que ter sabido que seu "poderoso" estaria erguido e disposto.
       -E sempre ao seu servio.
      
      Bem mais tarde que o que tinha planejado, Blair se vestiu.
       -Temos que falar de algumas questes bsicas.
       -Est bem. Romperemos nosso jejum no comilo pequeno.
       -Nunca soube que voc tivesse nenhum jejum que romper. E no estava falando da comida.
       -Ah, no? -Ele pareceu ligeiramente interessado enquanto se colocava o cinturo sobre a tnica. - Do que outra coisa ento?
       -Desde quartos de banho. J sabe, eliminao, higiene. O urinol que tenho aqui  muito prtico para situaes de emergncia, mas no como recurso cotidiano.
       -Ah. -Larkin franziu o cenho e se arranhou a cabea pensando no problema. - H uma espcie de privadas na asa da famlia, e latrinas para os guardas do castelo. 
Mas no so ao que est acostumada.
       -J o arrumarei. Tomar um banho?
       -A ducha -disse Larkin com saudade. - J sinto falta. Posso fazer que lhe subam uma banheira e que esquentem gua. Ou tambm pode te banhar no rio.
       -Muito bem,  um comeo. -No necessitava luxos, pensou Blair. Ela s necessitava, bom..., algo razovel. - Agora temos que falar do treinamento.
       -Falemos disso enquanto tomamos o caf da manh. -Agarrou-a do brao e a arrastou fora da habitao para que ela no seguisse falando enquanto o estmago 
dele grunhia.
      
      
       Havia mas amadurecidas com especiarias s que Larkin parecia particularmente aficionado, e grandes quantidades de batatas, fritas no que Blair deduziu que 
era a gordura das grosas fatias de presunto que as acompanhavam. O ch era negro como o breu e tinha quase o mesmo efeito que o caf.
       -Tambm sinto falta da Coca-cola -disse Larkin.
       -Teremos que passar sem ela.
       Embora o comilo era menor que o salo onde tinham estado a noite anterior, ainda era o bastante grande para alojar a grande mesa de carvalho e um par de 
enormes armrios e arcas onde Blair imaginou que haveria baixela e toalhas.
       -A ponte levadia funciona como uma porta? -perguntou. - Para mant-los fora -explicou quando Larkin a interrogou com o olhar. -Necessitam um convite para 
entrar no recinto do castelo? Ser melhor que nos encarreguemos desse assunto, que nos cubramos as costas. Hoyt e Glenna poderiam trabalhar em algo.
       -Temos poucos dias.
       -Se Lilith se ajustar ao programa. Em qualquer caso, ns temos que fazer nosso trabalho. Organizar-nos, evacuar aos civis da zona de combate. Hoyt e Glenna 
possivelmente queiram tentar esse encantamento de que falaram para criar uma zona livre de vampiros, mas devo dizer que no acredito que funcione. No se trata de 
uma s casa, nem sequer de um pequeno assentamento. -Blair meneou a cabea enquanto falava. - Uma rea muito extensa, muitas variveis. E, muito provavelmente, uma 
perda de seu tempo e energias.
       - possvel. Transladar s pessoas a um lugar seguro  melhor. Meu pai e eu falamos disso ontem  noite, antes de que eu fosse a sua habitao. Os mensageiros 
j partiram para transmitir as notcias.
       -Bem. Agora deveremos nos concentrar no treinamento das tropas. Vocs tm guardas... e cavalheiros, possivelmente?
       -Aye.
       -Eles devem possuir habilidades de combate bsicas, mas isto  algo completamente diferente. E tambm  necessrio que a populao em geral esteja preparada 
para defender-se. Devemos comear a trabalhar na colocao das armadilhas. E quero jogar uma olhada ao campo de batalha. -Sua mente ia repassando a lista ao tempo 
que tomava o caf da manh. - Teremos que estabelecer reas de treinamento mltiplos, tanto militares como civis. Logo est a questo das armas, os fornecimentos 
e o transporte.  provvel que necessitemos um lugar onde Hoyt e Glenna possam trabalhar.
       -Encarregaremo-nos de tudo.
        Algo em seu tom de voz, a calma que transmitia, recordou-lhe que agora estavam em seu terreno. Ele sabia, e sua gente tambm. Ela no.
       -No conheo a ordem hierrquica. A cadeia de mando -disse ela. - Quem est a cargo de tudo isto?
        Larkin serve mais ch para ambos. Por um momento pensou que agradvel era -embora a conversa girasse em torno da guerra - estar sentados ali, s eles dois, 
desfrutando de do caf da manh.
       -At que a espada no seja extrada da pedra, meu pai governa como cabea da primeira famlia do Geall. Ele no  o rei nem o ser, mas acredito que Moira 
entende que os homens... os soldados como vocs os chamam, confiam nele. Eles seguiro ao soberano, a aquele cuja mo levante a espada, mas enquanto...
       -Entendo-o. No levantar ainda a espada significa lhes dar tempo. Permitir que sigam as ordens, e se faam  idia desta guerra, de um homem no que confiam. 
Moira  inteligente ao esperar um pouco mais para tomar o mando.
       -Sim, -o. E tambm tem medo.
       -Desde no ser ela quem consegue extrair a espada da pedra?
        Larkin meneou a cabea.
       -Isso o far. O que teme  ser a Rainha que deva ordenar a seu povo ir  guerra. Derramar seu sangue, provocar suas mortes. Isso a obceca.
       - Lilith a que derrama seu sangue e provoca suas mortes.
       -Mas ser Moira quem lhes diga que devem lutar. Aos granjeiros e os lojistas, aos caldeireiros e os cozinheiros. Geall viveu em paz durante geraes. Ela 
ser a primeira que troca isso. E  um enorme peso sobre seus ombros.
       -Deve s-lo. Nunca deve ser fcil enviar um mundo  guerra. Larkin, e o que passar se no for ela? O que aconteceria se no for Moira a escolhida, pelo destino, 
ou, simplesmente, renuncia a tirar essa espada da pedra?
       -Moira era a nica filha da Rainha. No fica ningum mais de sua linhagem.
       -As linhagens podem trocar. Est voc.
       -Morda a lngua. -Quando Blair no sorriu, ele suspirou. - Sim, estaria eu. E meu irmo, e minha irm e os filhos de minha irm. Meu irmo  pouco mais que 
um moo e o que lhe chama  a terra. Minha irm s deseja atender a seus filhos e seu lar. O maior tem s quatro anos. Nenhum deles poderia jamais fazer isto. No 
posso acreditar que os deuses pusessem algo assim em suas mos.
       -E o que me diz das tuas?
       Ele a olhou fixamente aos olhos.
       -Eu nunca quis governar. J fora em tempos de pasto de guerra.   
       -Mas a gente te seguiria. Eles lhe conhecem e confiam em ti.
       - possvel. E se apresentasse a ocasio, o que outra escolha teria? Mas no desejo a coroa, Blair. -E tampouco era seu destino, disso estava seguro. Estendeu 
a mo e agarrou a dela. - Voc sabe o que eu desejo.
       -Desejos, sonhos. Nem sempre conseguimos o que queremos, de modo que ter que aceitar o que vem.
       -E o que h em seu corao, e no meu? Eu quero...
       -Sinto muito. -Moira apareceu no vo da porta. - Lamentou lhes interromper, mas meu tio falou com os guardas e com o crculo ntimo dos cavalheiros. Devem 
ir ao grande salo.
       -Ento ser melhor que nos ponhamos em movimento. -disse Blair.
      
      
       Com uma cala e um pulver negro, Blair se sentiu mal vestida. Pela primeira vez desde que Blair a tinha visto, Moira levava um vestido. Era um vestido? Chamasse-se 
como se chamasse, era um objeto singelo e elegante, em uma espcie de tom vermelho, que caa reto sobre seu corpo de uma cintura alta e franzida.
       A cruz de prata pendurava entre seus peitos e na cabea usava uma fina coroa de ouro.
       At a Glenna parecia ir bem arrumado, mas  que sua Bruxa favorita tinha um dom especial para converter um conjunto informal de camisa e calas em algo estiloso 
e elegante.
       A cavernosa habitao estava aquecida por lareras a ambos os lados e tinha uma ampla plataforma sobre dois degraus sobre os que se estendeu um tapete vermelho. 
Na plataforma descansava um trono. Um trono autntico, pensou Blair, vermelho e dourado.
       Nele estava sentado Riddock, com Moira ao seu lado.
       Ao seu outro lado se sentava uma mulher. Levava o cabelo loiro recolhido no que Blair acreditava que se chamava uma rede para cabelo. Uma mulher mais jovem, 
obviamente grvida, estava ao seu lado. A suas costas, havia dois homens de p.
       "A famlia real do Geall -decidiu Blair. - A famlia do Larkin."
       Ante um olhar de seu pai, Larkin tocou o brao de Blair e sussurrou:
       -Tudo sair bem.
       Logo subiu  plataforma elevada para sentar-se entre seus pais.
       -Por favor -Riddock fez um gesto -, tomem assento. -Esperou a que todos tivessem feito. - Moira e eu falamos extensamente. A pedido dela, falei com os guardas 
e com muitos dos cavalheiros para lhes avisar da ameaa que se abate sobre ns e da iminente guerra que teremos que liberar.  o desejo da Moira que vocs, e o resto 
dos que chegaram com vocs, recebam a autoridade do mando. Para recrutar, treinar e forjar nosso exrcito. -Fez uma pausa e lhes estudou. - Mas vocs no so geallianos.
       -Senhor -objetou Larkin -, todos eles foram provados em combate.
       -Esta guerra foi gasta a nossa terra e ser paga com nosso sangue. Eu pergunto por que deveriam mandar a nosso povo aqueles que chegaram desde fora.
       -Posso falar? -Hoyt ficou de p e aguardou at que Riddock assentiu. - A prpria Morrigan  quem nos enviou aqui; do mesmo modo que enviou a dois geallianos 
a Irlanda, para que pudssemos nos reunir e formar o primeiro crculo. Nos que viemos ao Geall deixamos atrs nossos mundos e a nossas famlias, e oferecemos nossas 
vidas para combater esta praga que se aproxima do Geall.
       -Esta praga assassinou a nossa Rainha, minha irm, antes que vocs chegassem. -Riddock os assinalou. - Vocs so duas mulheres, um demnio e um homem que 
pratica a magia. E so desconhecidos para mim. Eu conto com homens acostumados que demonstraram sua valia. Homens cujos nomes conheo, a cujas famlias conheo. 
Homens que conhecem Geall e cuja lealdade  indisputvel. Homens que sei que conduziro a nosso povo com entusiasmo ao combate.
       -Onde sero sacrificados como cordeiros. -Embora o olhar do Riddock se voltou de gelo ante a interrupo, Blair se levantou. - O sinto, mas assim  como so 
as coisas. Podemos lhe dar voltas, seguir o protocolo, perder o tempo, mas o fato  que seus acostumados homens no sabem nada a respeito de combater contra vampiros.
       Quando Hoyt apoiou uma mo sobre o ombro de Blair, ela a sacudiu de cima. Com irritao.
       -E eu no vim aqui para que me deixem de lado porque no nasci no Geall, ou porque sou uma mulher. Tampouco vim a lutar pelo Geall. Vim a combater por tudo.
       -Bem dito -murmurou Glenna. - Estou de acordo em todo contigo. Meu marido est acostumado s questes da corte e os prncipes -prosseguiu, dirigindo-se ao 
Riddock -, mas ns no. De modo que tero que nos perdoar por ser simples mulheres. Simples mulheres de poder.
       Elevou uma mo, e ento apareceu nela uma bola de fogo; logo lanou a bola para a laeirar que havia a um dos lados do salo, com irritao.
       -Simples mulheres que lutaram e foram feridas e viram morrer seus amigos. E o demnio de que falam  minha famlia. Ele tambm lutou e derramou seu sangue 
e viu morrer a um amigo.
       - possvel que sejam guerreiros -reconheceu Riddock com o que s podia denominar um assentimento rgio com a cabea -, mas para mandar se necessita algo 
mais que magia e coragem.
       -Necessita-se experincia e uma mente fria. E tambm sangue-frio.
       Riddock voltou a olhar ao Blair ao tempo que arqueava ligeiramente as sobrancelhas.
       -Aye, assim , e a confiana da gente a que algum dirigir. -Eles tm a minha -disse Larkin. - E tambm a da Moira.
      A ganharam cada hora de cada dia destas ltimas semanas. Senhor, no me ganhei eu a sua?
       -Sim, tem-no feito. -Por um momento no disse nada e logo voltou a fazer um gesto assinalando ao Blair, Glenna e Hoyt. - Pedirei-lhes que lhes faam cargo 
da instruo de nossos homens sob as ordens de Lorde Larkin e a princesa Moira.
       -Podemos comear com isso -decidiu Blair. - Vocs tambm lutaro? -perguntou ao Riddock.
       Agora seu olhar tinha um prximo parentesco com a de um lobo.
       -At o ltimo flego -respondeu.
       -Ento tambm necessitaro instruo militar, ou esse ltimo flego chegar antes do que pensam.
       Larkin elevou os olhos ao cu, mas apoiou uma mo no ombro de seu pai e lhe sussurrou ao ouvido.
       -Blair tem esprito guerreiro.
       -E uma lngua indcil. Destinaremos a zona de jogos -decidiu Riddock - para nossas primeiras instrues.
      
      
       -A seu pai no caio bem.
       -Isso no  verdade. -Larkin lhe deu uma suave cotovelada. - Ele somente est procurando a maneira de te entender, e tambm de entender tudo isto.
       -J. -Olhou a Glenna enquanto saam. - Criem que deveramos lhe dizer ao Riddock o que sente nossa gente pelos reis?
       -Acredito que poderamos deixar esse tema no momento. Mas depois do que vimos a dentro, compreendi que no ser nada fcil convencer a um punhado de machos 
do Geall de que umas mulheres vo ensinar lhes a lutar em uma guerra.
       -Tenho algumas idias a respeito, mas de todos os modos, acredito que voc deveria trabalhar com as mulheres -disse Blair.
       -Como?
       -No te zangue, Glenna. Voc tem mais diplomacia e pacincia que eu. -Provavelmente qualquer as tinha, pensou Blair. -E o mais seguro  que as mulheres se 
relacionem melhor contigo. A elas tambm ter que treinar. Para defender-se e que possam defender a suas famlias. Para lutar. Algum tem que faz-lo, Glenna. E 
algum tem que saber quais deveriam ficar em casa e quais deveriam lutar.
       -OH, Deus.
       -Teremos que aplicar o mesmo critrio aos homens -prosseguiu Blair impassvel. - Aqueles que no dem a talha, devem ser destinados a outras funes. Encarregar-se 
dos feridos, proteger aos meninos, aos idosos, subministrar comida, armas.
       -E o que sugere que faamos Cian e eu -perguntou Hoyt -Enquanto vocs duas esto to ocupadas?
       -Est de bico porque replicamos ao Riddock -disse Glenna.
       -Meus lbios esto bem, obrigado de todos os modos. -Hoyt falou com firmeza e dignidade. - Estou de acordo em que era necessrio lhe dizer essas coisas, embora 
poderiam hav-lo feito com muito mais tato. Se o ofendemos, necessitaremos tempo e esforo para reparar o dano.
       -Meu pai  um homem razovel -insistiu Larkin. - E no permitiria que umas poucas separaes de protocolo interfiram com o que devemos fazer. -passou-se uma 
mo pelo cabelo com gesto de frustrao. - Ele nunca se viu na obrigao de governar antes que se produzisse esta situao. Rainha foi coroada muito jovem, e ele 
s ocupava ocasionalmente o posto de conselheiro.
       "Ter que aprender muito depressa ento", pensou Blair.
       Os homens j se achavam reunidos no que Blair deduziu que era o lugar onde celebravam suas justas, jogos e torneios. Havia uma larga corda da que penduravam 
argolas de cores. Um marcador, sups. O camarote real, os assentos mais Bastos e duros para as massas; currais para os cavalos e grandes tendas onde os competidores 
se preparavam para o esporte que estivesse no programa.
       -Viu alguma vez esse filme, Destino de cavaleiro?13 -perguntou Blair.
       -Sim, passaremo-lo muito bem -respondeu Glenna, e fez sorrir ao Blair.
       -No cabe dvida de que te ter aqui ajuda. Chegamos bem a tempo para o espetculo. Escolhe a um ao que acha que pode vencer.
       -O que? Por que? O que?
       -Os dois -disse Blair, acrescentando tambm ao Hoyt. - S por segurana.
       Larkin se adiantou para os homens, formados em fileiras.
       -Meu pai j lhes explicou contra o que devemos nos enfrentar e o que  o que se mora. Temos at o Samhain para nos preparar; esse dia devemos ir ao Vale do 
Silncio para liberar a batalha. E temos que ganhar. Para isso, devem saber como lutar e como matar a essas coisas que no so humanos. No so homens nem mulheres 
e no lhes pode matar como se fossem.
      
       Colocando-se detrs do Larkin enquanto este falava, Blair estudou aos homens. A maioria deles pareciam aptos e em boa forma fsica. Divisou ao Tynan, o guarda 
ao que Larkin e Moira tinham saudado sua chegada ao castelo. Blair decidiu que no s parecia apto e em boa forma. Tambm parecia estar preparado.
       -Eu lutei contra eles -continuou Larkin -, assim como a princesa Moira e as pessoas que vieram conosco desde fora deste mundo. Ns lhes ensinaremos tudo o 
que precisam saber.
       -Sabemos como lutar -gritou um homem que estava junto ao Tynan. - O que pode me ensinar que no te tenha ensinado eu neste mesmo lugar?
       -Isto no vai ser um jogo -respondeu Blair avanando uns passos. O tipo era um valento. Ombros largos e fortes, corpo resistente, atitude hostil.
       "Perfeito", pensou ela.
       -Se ficar sem segundo nesta competio, no receber o prmio de consolao e uma palmada nas costas, estar morto.
       O rosto do soldado no mostrou nenhuma expresso depreciativa, mas sim seu tom de voz.
       -As mulheres no instruem aos homens na arte do combate. Elas se encarregam de atender o fogo e manter a cama quente.
       Seu comentrio foi recebido com algumas risadas de aprovao por parte de seus companheiros e um olhar de comiserao do Larkin.
       -Niall -ele interveio com humor -, com esse comentrio, colocaste a pata at o fundo. Estas mulheres so caadoras.
       -Eu no vejo nenhuma guerreira aqui. -Com as mos apoiadas nos quadris, Niall avanou por volta da primeira linha. - S a duas mulheres vestidas como homens 
e a um Feiticeiro com elas. Ou detrs delas.
       -Eu irei primeiro -sussurrou Blair a Glenna. - Eu enfrentarei contigo -disse dirigindo-se ao Niall. - Aqui e agora. Escolhe armas.
       O homem ps-se a rir.
       -Espera acaso que lute com uma garota?
       -Escolhe sua arma -ordenou Riddock.
       -Senhor, a suas ordens. -E se afastou rindo entre dentes.
       As apostas comearam imediatamente.
       -V! -Larkin deu ao Blair uma rpida palmada nas costas e se aproximou dos homens. - Eu tambm quero apostar.
       Niall retornou com duas grossas varas de competio. Blair estudou a forma em que as sustentava e como se movia, rebolando como um fanfarro.
       -Isto ser rpido -assegurou dirigindo-se ao Blair.
       -Sim, ser muito rpido. Escolheste boas armas -gritou ela por cima das vozes que seguiam trocando apostas. - A madeira pode matar a um vampiro se tiver a 
fora e a pontaria necessrias para lhe atravessar o corao. Voc parece bastante forte. -Olhou ao Niall de cima abaixo. - O que me diz de sua pontaria?
       Ele esboou um amplo sorriso.
       -At agora, nenhuma mulher se queixou.
       -Bem, vejamos pois o que tem, garotinho. -Blair colheu com fora a vara estendida para frente, e assentiu. - Est preparado?          
       -Por cortesia, concederei-te os trs primeiros movimentos.
       -Muito bem.
      Ela o derrubou em dois, lhe golpeando no ventre com o extremo da vara e agachando-se logo para lhe atiar com fora nas pernas. Ignorando as risadas, as exclamaes 
e os gritos de flego, colocou-se em cima dele e pressionou a vara contra seu corao.
       -Se fosse um vampiro, atravessaria-te com isto at que o extremo sasse pelo outro lado. Logo te converteria em p. -Deu um passo atrs. - Acredito que deveriam 
reservar suas apostas, meninos. Este foi s de prtica. -Levantou a cabea e olhou ao homem. - Est preparado?
       Niall se levantou e Blair viu que a surpresa e a vergonha que sentia ao ter sido derrubado por uma mulher tinham aceso um fogo nele. Atacou com fria, a fora 
de sua vara contra a sua, obrigando-a a levantar os braos. Ela saltou quando tentou golpe-la nas pernas e logo lhe atirou um forte golpe no peito.
       Niall lutava bem, decidiu Blair, e com uma fora de mil demnios... Mas carecia de toda criatividade.
       Ela usou a vara como uma vara, cravando-a no cho e elevando-se por cima de seu oponente. Quando aterrissou detrs dele, o deu um chute na zona lombar e, 
colhendo com fora a vara, fez-o tropear e cair ao cho.
       Esta vez apoiou a ponta em sua garganta, enquanto Niall ofegava tratando de levar ar a seus pulmes.
       -Trs de cinco? -sugeriu ela.
       O homem soltou um rugido e apartou a vara de um tapa. Blair deixou que o impulso dele a levasse para trs, e logo levantou ambos os ps para lan-lo por 
cima dela. Niall voltou a cair pesadamente sobre suas costas.
       Ainda estava aturdido quando ela voltou a apoiar a ponta da vara contra sua garganta. A ltima queda o tinha deixado sem ar, e a cor tinha abandonado suas 
bochechas.
       -Posso seguir fazendo isto durante todo o dia e voc acabar cada vez com o rabo no cho. -Blair se levantou, cravou a ponta da vara junto ao Niall e se apoiou 
nela com atitude negligente. -  forte, mas eu tambm o sou. Alm disso,  lento de ps, e no estava pensando neles. S porque seja maior no significa que vs 
ganhar e pode estar ferradamente seguro de que no significa que viver. Eu diria que me supera em uns cinqenta quilogramas, mas te derrubei trs vezes.
       -A primeira no conta. -Niall se sentou no cho e se esfregou a dolorida cabea. - Mas te concedo as outras duas.
       Quando ele sorriu, Blair soube que tinha ganho.
       -Larkin, vem procurar uma vara -gritou Niall. - Lutarei contigo em lugar de com ela, j que no cabe dvida de que  toda uma mulher.
       Blair levantou uma mo.
       -Larkin tambm te derrotar. Eu ajudei a lhe treinar.
       -Ento tambm me ensinar . E eles? -Niall assinalou com o queixo a Glenna e Hoyt. - Eles tambm podem lutar como voc?
       -Eu sou a melhor, mas eles tambm so muito bons.
       Blair se voltou para o grupo de homens e aguardou at que o dinheiro das apostas tivesse trocado de mos. Observou que Tynan era um dos poucos, junto com 
o Larkin, que tinha ganho algo.
       -Algum mais necessita uma demonstrao?
       -No me importaria uma a cargo da ruiva -gritou algum, e as gargalhadas voltaram a troar o ar.
       Glenna fez bater as asas as pestanas e sorriu com um gesto entre tmido e modesto. Ato seguido tirou a adaga de sua bainha e lanou com ele um jorro de fogo.
       Os homens retrocederam atropeladamente.
       -O de meu marido  maior -disse com voz doce.
       -Aye. -Hoyt se adiantou. - Talvez algum de vocs quereria que a demonstrao a fizesse eu em lugar de minha encantadora esposa. Espada? Lana? -Girou as mos 
e o fogo danou sobre as Palmas. - Ou com as mos? Porque eu no me oculto detrs destas mulheres, mas sim me sinto orgulhoso e honrado de estar junto a elas.
       -Tranqilo, moo -murmurou Blair. - O fogo  uma arma til contra eles -explicou aos homens. - Uma arma poderosa, quo mesmo a madeira, se usar corretamente. 
O ao pode feri-los, deter-os, mas no os matar a menos que lhes cortem a cabea. Feridos ou no, eles simplesmente seguiro avanando at lhes cortar a garganta.
       Lanou- a vara ao Niall.
       -No ser to rpido e limpo como este breve assalto -prosseguiu -, a no ser algo terrvel e sangrento, e de uma crueldade indescritvel. Muitos deles, possivelmente 
a maioria, sero mais fortes e rpidos que vocs, mas os detero. Porque, se no o fizerem, eles no somente mataro a vocs, os soldados que se enfrentaro a eles 
em combate, mataro tambm a seus filhos e a suas mes. E a aqueles a quem no mate, convertero-os em quo mesmo so eles, ou em escravos para que lhes sirvam de 
alimento ou de diverso. De modo que os detero, porque no h outra alternativa.
       Blair fez uma pausa, porque para ento o silncio era total, para ento todos os olhos estavam fixos nela.
       -Ensinaremo-lhes como faz-lo.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      14
      
       Blair se debatia entre o rio e a banheira. A gua do rio provavelmente estaria gelada, o que seria muito desagradvel. Mas no podia resignar-se  idia de 
que uma criada lhe subisse baldes e mais baldes de gua quente para jog-la dentro do que, basicamente, seria um balde um pouco maior. E logo, uma vez que ela tivesse 
tomado seu banho, teriam que repetir todo o processo, s que em sentido inverso.
       Era simplesmente muito.
       Contudo, depois de ter estado treinando durante vrias horas com um monto de homens, necessitava gua e sabo.
       Era acaso muito pedir?
       -Tem-no feito muito bem. -Moira se aproximou dela. - Sei que tudo isto deve ser muito frustrante para ti, como voltar a comear. E com homens que, de algum 
jeito, sentem que j sabem tanto como voc, se no mais. Mas o tem feito muito bem. Tiveste um bom comeo.
       -A maioria tem uma forma fsica entre boa e excelente, e isso  uma vantagem. Mas em geral, o grosso deles segue pensando que se trata de um jogo. Simplesmente 
no acreditam nos vampiros. E isso  algo realmente negativo.
       -Porque no o viram com seus prprios olhos. Eles sabem o que ocorreu a minha me, mas muitos ainda querem acreditar, precisam acreditar, que foi uma espcie 
de co selvagem. Se eu no tivesse visto que foi o que passou tambm poderia me negar a acredit-lo.
       - mais fcil neg-lo. Mas a negao  uma das razes de que agora Jeremy esteja morto.    
       -Aye. Por isso acredito que a gente precisa ver, necessita provas. Temos que caar aos que mataram  Rainha, aos que mataram a outras pessoas desde aquela 
noite. Devemos trazer aqui ao menos a um deles.
       -Quer agarrar vivo a um desses monstros?
       -Assim . -Moira recordou como, em uma ocasio, Cian tinha feito entrar em um vampiro na sala de treinamento, e logo se apartou para que o resto deles tivesse 
que lutar contra ele. E entendesse. - Isso o trocaria tudo.
       -No  impossvel negar o que tem diante dos narizes, s um pouco mais difcil. -Blair o pensou durante um momento. - Mas de acordo. Esta noite sairei para 
busc-lo.
       -No ir sozinha. No, no -a cortou Moira com calma quando Blair comeou a discutir. - Est acostumada a caar em solitrio, sei que  capaz de faz-lo, 
mas este no  seu terreno, enquanto que a estas alturas, eles j devem conhec-lo. Irei contigo.
       - um ponto a seu favor, e muito forte, mas voc no  a pessoa indicada para esta caada. No estou dizendo que no seja capaz, entretanto, no  a melhor 
quando se trata de luta corpo a corpo. Ter que ser Larkin, e tambm necessitarei a Cian.
       Com gesto de chateio, Moira arrancou uma flor de um arbusto.
       -Agora  voc a que tem um slido argumento. Tenho a sensao de que, desde que retornamos ao Geall, s me ocupei de assuntos de Estado.
       -Conta com todas minhas simpatias, mas essa classe de coisas tambm deve ser importante. Os homens de Estado criam exrcitos. E voc j tomou as medidas oportunas 
para evacuar as pessoas do que ser zona de guerra. Isso significa salvar vidas, Moira.
       -Sei. De verdade. Mas...
       -Quem se encarregar de incitar  populao em geral, de lhes animar para que ponham suas vidas em perigo? Ns os treinaremos, Moira. Mas voc deve conseguir 
que nos sigam.
       -Tem razo, sei.
       -Conseguirei-te um vampiro, dois se puder. Voc me consiga gente a que possa ensinar a matar um. Mas neste momento tenho que me lavar. Um vampiro poderia 
me cheirar de um quilmetro de distncia.
       -Fiz que lhe preparassem o banho em suas habitaes.
       -Estava pensando em que podia usar o rio.
       -Tornaste-te louca? -Finalmente, o rosto da Moira se relaxou com um sorriso. - O rio est gelado nesta poca do ano.
      
      
       A Moira nunca resultava cmodo falar com Cian. E no s pelo que era, circunstncia a que j se acostumou. Quando pensava em Cian, pensava nisso como em um 
estado; uma espcie de enfermidade.
       Em seu primeiro encontro, lhe tinha salvado a vida e, aps tinha demonstrado sua fidelidade em mais de uma ocasio.
       Sua espcie tinha matado a sua me e, entretanto, ele tinha lutado junto a ela, tinha arriscado sua vida -ou, mais exatamente, sua existncia - ao faz-lo.
       No, Moira no podia faz-lo responsvel pelo que era.
       E mesmo assim, havia algo dentro dela, algo que no podia ver com claridade, ou estudar, ou compreender. Fora o que fosse, a fazia sentir intranqila, inclusive 
nervosa, quando Cian estava perto.
       Ele sabia, ou o notava, Moira estava segura disso, porque Cian se mostrava muito mais frio com ela que com outros. Era muito estranho que lhe sorrisse, ou 
que lhe dissesse uma palavra amvel.
       Depois do ataque, quando se dirigiam ao Baile dos Deuses, ele a tinha levantado literalmente do cho quando caiu do cavalo, e seus braos eram os braos de 
um homem. Carne e osso, forte e real.
       -Segure-se -havia isso dito ele. E isso foi tudo.
       Logo, ela tinha cavalgado com ele sobre o Vlad at o castelo, e seu corpo era o de um homem. Magro e duro. E o corao da Moira se acelerou por tantas razes, 
que at tinha tido medo de lhe tocar.
       O que lhe havia dito ele ento, com aquela voz impaciente e cortante?
       Ah, sim: "te agarre a mim antes que volte a dar com seu rabo no cho. Ainda no te mordi, verdade?".
       Tinha conseguido que se sentisse envergonhada e confusa, e agradecida de que ele no visse o rubor que tingia suas bochechas.
       Provavelmente, Cian tivesse tido algum comentrio mordaz que fazer a respeito de seu rubor virginal.
       E agora tinha que ir a ele para lhe pedir ajuda. No era algo que fosse delegar no Blair, ou Larkin, nem  obvio, em um dos criados. Era sua obrigao enfrentar-se 
com ele, pronunciar as palavras, pedir sua aprovao.
       Ia pedir lhe que abandonasse o castelo, a comodidade e a segurana de seus muros, e entrasse em uma terra estranha para caar a um dos seus.
       E Cian o faria, ela sabia que o faria. No por ela... A petio de uma princesa, o favor a uma amiga. Faria-o por outros. Por tudo o que significava.
       Foi sozinha. As mulheres que a atendiam no o passariam,  obvio, e considerariam indecorosa, inclusive escandalosa, a idia de que sua senhora visitasse 
sem companhia as habitaes de um homem.
       Mas essas questes j tinham deixado de constituir um problema para a Moira. O que pensariam suas damas de companhia se soubessem que, uma vez, ela o alimentou 
com sangue quando estava ferido?
       Imaginava que comeariam a chiar e ocultariam os rostos entre as mos... Isso as que no desmaiassem. Mas elas teriam que enfrentar-se a essa classe de coisas 
muito em breve. Ou com algo muito pior.
       Seus ombros ficaram rgidos quando se aproximou da porta da habitao de Cian. Mas chamou com deciso e logo esperou.
       Quando ele abriu a porta, as luzes do corredor banharam seu rosto e sumiram o resto do corpo em sombras. Moira percebeu um leve brilho de surpresa em seus 
olhos enquanto a estudava.
       -V, te olhe. Se quase no te reconheci, alteza.
       O comentrio lhe recordou que levava um vestido, e a diadema de ouro de sua fila. E, ao record-lo, sentiu-se ridiculamente exposta.
       -Tinha que atender algumas questes de Estado. Espera-se que me vista de um modo apropriado.
       -E encantador tambm. -apoiou-se no vo da porta com atitude indolente. - Requer minha presena?
       -Sim. No. -por que fazia que sempre se sentisse torpe?. - Posso entrar? Eu gostaria de falar contigo.
       - obvio.
       Ela teve que roar seu corpo para entrar na habitao. No interior, parecia meia-noite, pensou. No havia uma s vela, no havia fogo na lareira, e as pesadas 
cortinas cobriam completamente as janelas.
       -O sol j se ps.
       -Sim, sei.
       -Importaria-te se deixamos entrar um pouco de luz? -Agarrou o isqueiro e comeou a acion-lo. - No posso ver to bem como voc na escurido. -A rpida apario 
da chama conseguiu acalmar seu estmago inquieto. - Aqui faz muito frio -continuou Moira prendendo umas velas. - Quer que acenda o fogo por ti?
       -Como quer.
       Cian no disse nada quando ela se ajoelhou diante da lareira e acendeu a turfa, mas Moira sabia que a estava observando, e esse olhar fez que sentisse as 
mos frias e rgidas.
       -Est cmodo aqui? -perguntou. - A habitao no  to grande ou luxuosa como outras s que est acostumado.
       -Mas est o bastante afastada da gente para que todos possam sentir-se cmodos.
       Ela se voltou assombrada, inclinada ainda enquanto a turfa se acendia a suas costas. No se ruborizou. Pelo contrrio, suas bochechas empalideceram intensamente.
       -OH, no, nunca foi minha inteno...
       -No tem importncia. -Cian agarrou um copo que, obviamente acabava de servir-se antes que ela chegasse, e bebeu o sangue com os olhos deliberadamente fixos 
nos seus. - Imagino que sua gente se sentiria desconcertada por alguns de meus hbitos cotidianos.
       A voz dela se tingiu de angstia.
       -Isso nunca me teria ocorrido. A habitao tem vista ao norte. Eu pensei... Bom, pensei que receberia menos luz direta do sol e que se sentiria mais cmodo. 
Jamais insultaria a um convidado... E um amigo. Nunca insultaria a algum que me recebeu em sua casa quando vem  minha. -levantou-se rapidamente. - Posso fazer 
que transladem suas coisas agora mesmo. Eu...
       Cian elevou uma mo.
       -No h necessidade disso. E te peo desculpas por ter feito uma hiptese errnea. -Para ele resultava muito estranho experimentar o desconforto da culpa, 
mas era o que sentia nesses momentos. - Foi muito considerao de sua parte. No deveria ter esperado menos de ti.
       -Por que estamos...? No entendo por que parece que estejamos sempre inimizados.
       -No o entende? -perguntou ele. - Bom, no tem maior importncia. E, a que devo a honra de sua presena?
       -Burla-te de mim -disse ela com voz serena. -  to duro quando fala comigo...
       Moira pensou que ele tinha suspirado, s um pouco.
       -Estou de mau humor. No descanso bem fora de casa.
       -Sinto muito. E agora vim eu a te causar outro desconforto. Pedi ao Blair que saia a caar vampiros aqui, no Geall, e que traga para o menos a um deles. Vivo.
       -Isso  uma contradio nos termos -disse Cian.
       -No sei do que outra forma express-lo -replicou ela. - Minha gente lutar porque lhes pedi que o faam, mas no posso lhes pedir que creiam, no posso obrig-los 
a que creiam, no que lhes parece impossvel. De modo que  necessrio que o demonstre.
       Seria uma boa Rainha, pensou ele, que no esperaria que seu povo a seguisse cegamente. E terei que v-la como se mostrava. To tranqila, to serena, quando 
ele sabia que em seu interior se estava liberando uma guerra.
       -Quer que v com o Blair?
       -Sim... ela o quer. Eu o quero. Deus, sempre gaguejo quando falo contigo. Ela pediu que Larkin e voc a acompanhem. Blair no quer que eu v. Cr, e eu tambm, 
que serei muito mais til reunindo s foras, ajudando a pr as armadilhas que ela prepare.
       -Governando.
       -Ainda no governo.
       -Assim o escolheste.     
       -Aye. Por agora. Estaria muito agradecida se fosse com ela e com o Larkin, e encontrasse a maneira de trazer um prisioneiro.
       -Prefiro fazer isso a estar aqui sem fazer nada. Mas a questo  onde procurar.
       -Tenho um mapa. J falei com meu tio e sabe onde se produziram os ataques... Ao menos aqueles dos que temos notcia. Larkin conhece o territrio do Geall. 
No pode ter um guia melhor que ele. Nem melhor companhia nas horas de cio ou na batalha.
       -No tenho nenhum problema com o moo, nem com uma caada.
       -Ento, logo que esteja preparado, venha ao ptio exterior.
      Posso enviar a algum para que te ensine como chegar.
       -Lembro como chegar.
       -Bem. Irei encarregar-me de que preparem os cavalos e as provises. -Foi para a porta, mas Cian chegou antes que ela... Sem que desse a impresso de haver-se 
movido. Moira elevou a vista e o olhou aos olhos. - Obrigado -disse, e abandonou rapidamente a habitao.
       "Esses olhos -pensou ele enquanto fechava a porta detrs da Moira. - Esses grandes olhos cinzas poderiam matar a um homem."
       Era uma sorte que ele j estivesse morto.
       Mas no podia fazer nada com respeito ao aroma que tinha deixado atrs dela; o aroma de claros sombrios dos bosques e a gua fresca e cristalina da primavera. 
No podia fazer nenhuma s maldita coisa a respeito.
      
      
       -Estaremos vigiando -disse Glenna, apoiando uma mo sobre a perna de Blair quando esta montou em seu cavalo. - Se tiverem problemas, saberemos, e faremos 
todo o possvel para lhes ajudar.
       -No se preocupe. Levo treze anos com isto pendurado do cinturo.
       "No no Geall", pensou Glenna, mas no o disse.
       -Boa caa.
       Atravessaram as portas do castelo e se dirigiram para o sul.
       Era uma boa noite para caar, pensou Blair. Limpa e fresca. Seria mais fcil lhes seguir a pista ento, quando estavam ativos, que durante o dia, quando teriam 
ido refugiar se a alguma parte. Em qualquer caso, se caavam de dia, no poderiam contar com Cian, a quem considerava uma vantagem.
       Cavalgava entre os dois homens, levando seu cavalo a um trote ligeiro.
       -No quis perguntar a Moira -disse -, mas tenho entendido que o que sofreu sua me foi o primeiro ataque.
       -Aye, a Rainha foi a primeira vtima da que tivemos notcia.
       -E aquela noite no se produziram mais ataques? No se levaram a ningum?
       -No. -Larkin meneou a cabea. - Ao menos que ns saibamos.
       -Foi um ataque a um alvo especfico ento -refletiu Blair. -  de supor que vieram pela me da Moira... Sabemos como conseguiram entrar?
       -Pensei nisso -disse Larkin. - Antes da morte da Rainha no havia nenhuma razo para impedir a entrada a ningum. Pde ser uma carreta com provises, ou qualquer 
outra atividade comercial. Puderam entrar sem problemas.
       -Sim,  possvel que o fizessem desse modo -assentiu Blair depois de um momento. - Deveram entrar pouco antes que ficasse o sol e permaneceram escondidos 
em algum buraco at que todo mundo se deitou. Fizeram sair  Rainha com algum engano e a mataram. -Olhou ao Larkin. - No temos detalhes mais especficos?
       -Moira no fala nunca disso. No estou seguro de que recorde com exatido o que ocorreu.
       -Talvez no tenha importncia para nossos propsitos. Assim, mataram  Rainha e ficaram aqui. Talvez no puderam voltar a sair salvo em momentos muito concretos. 
Certamente no armaram animao -prosseguiu Blair. - S um punhado de mortes em todas estas semanas. Isso  um perfil muito baixo para a espcie.
       -Certamente houve mais vtimas -comentou Cian. - Viajantes, prostitutas, pessoas s que no se sente falta imediatamente. Mas est claro que foram muito cuidadosos, 
e que evitaram o que agora estamos fazendo ns: caar. No acredito que se estejam ocultando s de ns.
       -De quem ento? -Larkin elevou a vista e viu que Blair estava estudando a Cian com expresso pensativa.
       -Refere-se ao Lilith -disse ela. - Cr que esto tratando de permanecer fora do alcance de seu radar? Por qu?
       -Porque poderia ser que voc tivesse acertado s pela metade na teoria. Um alvo especfico, sim -conveio Cian -, mas duvido que esse alvo fosse a Rainha. 
 Moira a que foi escolhida como um dos elos do primeiro crculo.
       -Moira. -Havia uma nota de alarme na voz do Larkin enquanto se dava a volta em sua cadeira para jogar uma olhada para trs, em direo ao castelo, que cada 
vez se via menor com a distncia. - Eles j tentaram mat-la uma vez...
       -De fato, trataram matar a todos  ns mais de uma vez -assinalou Cian. - Sem xito. No castelo, Moira est o mais a salvo possvel.
       Blair resumiu a situao.
       -Est pensando que Lilith tentou agarrar um atalho. Apanhar a um de ns antes que essa pessoa fosse realmente um de ns.
       - uma possibilidade muito elevada. Por que no perder um pouco de tempo e o que deveu ser um pouco de esforo, e enviar aqui a um par de assassinos? Se for 
te colocar no negcio do destino -continuou dizendo Cian - a ameaa era Moira, e no a me da Moira.
       -Ento erraram -disse Blair. - Equivocaram-se de alvo. Assim, pode que no se trate de que no sejam capazes de retornar, mas sim de que no queiram faz-lo.
       -Lilith no se mostra especialmente tolerante com os enganos. Se pudesse escolher entre ser torturado e assassinado por ela, ou permanecer oculto e te alimentar 
com os habitantes deste lugar, voc o que faria?
       -A porta nmero dois -disse Blair. - Mas se Lilith queria meter-se no negcio do destino, como voc diz, o primeiro engano foi dela, ao te converter a ti 
em um vampiro faz a tira de anos. Como vampiro  um inimigo muito mais formidvel do que o tivesse sido como homem. Sem nimo de ofender.
       -No h problema.
       -Ento faz zangar ao Hoyt e comea todo este assunto da Cruz de Morrigan.
       Blair acariciou com expresso pensativa as duas cruzes que penduravam de seu pescoo.
       -Por um lado, tem a Glenna unida ao Hoyt, possivelmente, com um enfoque romntico, destinados a encontrar-se e amar-se. E, ao faz-lo, incrementando exponencialmente 
seu poder mtuo. Est a conexo do Larkin com a Moira e, devido a ela, o fato de que a acompanhasse atravs do Baile dos Deuses e a Irlanda.
       -Isso forma um agradvel e ordenado crculo -concluiu Cian. - Complicado, mas assim so os deuses para vocs.
       -Assim, a Rainha estava destinada a morrer. -Larkin respirou profundamente para tranqilizar-se. - Destinada a morrer em lugar da Moira. Se minha prima se 
inteira disto sua dor seria inconsolvel.
       -Com essa mente inteligente e investigadora que tem, surpreenderia-me que no estivesse pensando j na questo. Logo ter que enfrentar ela -acrescentou Cian. 
- O que outra opo tem?
       Larkin deixou que a idia penetrasse em seu corao e em sua cabea enquanto atravessavam um campo.
       -O seguinte ataque se produziu aqui. Contaram-me que o homem que cultiva estas terras pensou que os lobos estavam atacando a suas ovelhas. Foi seu filho quem 
o encontrou  manh seguinte. Meu pai veio ver o corpo e estava igual ao da Rainha.
       Blair trocou de postura na cadeira de montar.
       -Uns trs quilmetros ao sul do castelo. Aqui no h nenhum lugar onde esconder-se. S campos abertos. Mas um par de vampiros experientes poderiam cobrir 
trs quilmetros bastante depressa. Podem entrar e sair dos terrenos do castelo como nada, mas...
       -No  um bom lugar para aninhar -acabou Cian a frase por ela. - Presas fceis, sem dvida, mas muita exposio. Devem refugiar-se em cavernas ou no corao 
de um bosque.
       -Por que no em uma casa ou uma cabana? -sugeriu Larkin. - Escolhendo com um pouco de ateno, poderiam ter encontrado um lugar afastado do caminho, onde 
no  provvel que algum lhes incomode.
       - possvel -conveio Cian. - Mas o problema com uma cabana ou com uma casa,  que lhe ataquem  luz do dia. Seu inimigo tem uma arma mais contra ti... S 
tem que retirar a cortina de uma janela para ganhar.
       -Muito bem ento. -Larkin assinalou atravs do campo. - Os dois ataques seguintes se produziram justo ao leste daqui. H bosques, mas neles a caa  boa, 
com o que h muita gente que persegue veados e coelhos. Isso poderia perturbar o descanso dirio de um vampiro.
       -Voc sabe -disse Blair -, mas eles talvez no. So estrangeiros aqui. Parece-me um bom lugar para comear.
       Continuaram cavalgando em silencio durante um tempo. Blair podia ver vacas e ovelhas nos campos, presas fceis se um vampiro no podia caar a um humano. 
Havia alguns brilhos de luz que deduziu que eram velas ou faris que iluminavam as cabanas. Podia cheirar a fumaa, o rico aroma da turfa e a lenha.
       Cheirava tambm a pasto e excrementos de animais; um aroma mais profundo e margoso procedente dos campos semeados que esperavam a iminente colheita.
       Deste modo podia cheirar os cavalos, e ao Larkin, e sabia como separar o aroma de Cian dos outros vampiros.
       Mas quando chegaram a confine do bosque, j no estava to segura.
       -Por aqui passaram cavalos, e no faz muito -disse Larkin. Blair o olhou com as sobrancelhas arqueadas.
       -Bem, adiante.
       -H rastros -prosseguiu ele desmontando para estudar o terreno. - No esto ferrados. Provavelmente ciganos, embora no vejo nenhum sinal de carretas, e viajam 
nessa direo. Em qualquer caso, esto-se afastando do bosque.
       -Quantos so?
       -Poderiam ser dois. Dois cavalos saram do bosque por aqui e atravessaram o campo.
       -Pode segui-los? -perguntou Blair. - Ver de onde vinham?
       -Posso faz-lo -respondeu Larkin, e montou de novo. - Se forem a cavalo poderiam cobrir uma distncia considervel. Necessitaramos a sorte dos deuses para 
poder lhes seguir o rastro em uma s noite.
       -Tambm vimos que os cavaleiros voltaram a entrar no bosque por aqui. E os outros ataques se produziram para o leste, verdade? Reto atravs destes bosques, 
justo ao outro lado.
       -Aye. Outros cinco quilmetros como mximo.
       -Este seria um bom lugar. -Olhou a Cian enquanto falava. - Se tiverem algum esconderijo decente  este.  um bom lugar para permanecer ocultos durante o dia 
e sair em busca de comida ao cair da noite.
       -As folhas ainda so grossas nesta poca do ano -conveio - E tambm h animais pequenos para caar se o necessitam.
       Larkin encabeou a marcha, seguindo o rastro at que as rvores foram to densas que ocultavam a luz. Voltou a desmontar e seguiu a p. Blair se deu conta 
de que ela no podia ver o rastro.
       At ento, tinha levado a cabo a maior parte de suas incurses de caa em bosques urbanos e caminhos suburbanos. Larkin em troca se movia naquele terreno 
com a segurana e a confiana de um homem que sabia perfeitamente o que estava fazendo, detendo-se s para agachar-se de vez em quando, estudando os rastros com 
maior ateno.
       -Espera -disse ela abruptamente. - Um momento. Notas isso? -perguntou-lhe a Cian.
       -Sangue. No  fresco. E morte. Mais antiga ainda.
       -Ser melhor que volte a montar, Larkin -lhe disse Blair. - Acredito que, depois de tudo, tivemos um pouco da sorte dos deuses. Podemos seguir o rastro daqui.
       -Eu no cheiro nada,  exceo dos bosques.
       -Cheirar-o -murmurou Blair, e extraiu a espada da bainha que levava s costas enquanto avanavam com os cavalos ao passo atravs do caminho.
       A carreta tinha sido empurrada entre as rvores, fora do caminho, ficando oculta por eles. Era uma espcie de pequena caravana com a parte traseira grafite 
de cor vermelha, desbotada e descascada.
       E o aroma da morte parecia impregn-la.
       -Funileiros -lhes disse Larkin. E Blair tinha razo, agora ele tambm podia cheirar a morte. - Ciganos que percorrem os caminhos vendendo todo tipo de objetos. 
Da carreta atiram dois cavalos.
       -Um bom ninho -decidiu Blair. - Mvel se for necessrio. E com ela se pode viajar de noite sem que ningum empreste nenhuma ateno.
       -Poderia lev-la inclusive dentro da cidade -disse Larkin com gesto sombrio. - Ou at alguma cabana e solicitar hospitalidade. Em situaes normais, ningum 
a negaria.
       Pensou nos meninos que podiam sair correndo da cabana para ver se havia brinquedos  venda, de modo que pudessem rogar a seus pais que lhes comprassem alguns, 
ou os trocassem por outros produtos. E esse pensamento o adoeceu ainda mais que o fedor que impregnava o lugar.
       Desmontou junto com seus companheiros e se dirigiram  parte posterior da carreta, cujas portas estavam fechadas e com o ferrolho por fora. Tiraram suas armas. 
Blair abriu o ferrolho e empurrou a porta.
       Quando a porta cedeu, fez um gesto de assentimento a Cian e Larkin, contou mentalmente at trs e a abriu violentamente.
       O ar ftido foi o primeiro que surgiu do interior, penetrando em suas gargantas e olhos. Blair ouviu o zumbido voraz das moscas e lutou contra o desejo de 
vomitar.
      O monstro saltou diretamente sobre ela. Tinha o rosto de uma jovem bonita, com os olhos vermelhos e de olhar enlouquecido. O fedor procedia dela, seu emaranhado 
cabelo negro e seu vestido rstico estavam impregnados dele.
       Blair se fez velozmente a um lado, de modo que a criatura caiu entre os matagais, sobre mos e joelhos, grunhindo como o animal em que se converteu.
       Foi Larkin quem fez girar sua espada e acabou com ela.
       -OH, Deus, doce Jesus. No devia ter mais de quatorze anos. -Queria sentar-se, ficar ali, sentado no cho, enquanto o estmago lhe assentava. - Eles a transformaram. 
A quantos mais...?
       - pouco provvel que sejam muitos -lhe interrompeu Cian -, porque ento teriam que competir pela comida e preocupar-se de mant-los controlados.
       -Ela no veio com eles -insistiu Larkin. - Ela no era uma deles. Esta garota era do Geall.
       -Era uma garota jovem e bonita. A comida no  a nica necessidade de um vampiro.
       Blair advertiu quando as palavras de Cian fizeram impacto no Larkin. E o viu no s por sua comoo, mas tambm pela expresso de fria desatada em seu rosto.
       -Bastardos. Malditos e ferrados bastardos. Era pouco mais que uma menina.
       -E por que te surpreende?
       Larkin se voltou para Cian, e Blair estava segura de que teria liberado com ele parte de seu horror e sua fria. Talvez Cian estava crescendo como alvo para 
isso. Mas no havia tempo para indulgncias.
       Blair se limitou a interpor-se entre ambos e empurrou ao Larkin para trs um par de passos.
       -Deixa-o estar -lhe ordenou. - E te tranqilize.
       -Como posso faz-lo? Como pode voc?
       -Porque no pode fazer que volte, nem aos que esto a. -Assinalou a carreta com o queixo. - Assim agora devemos pensar como usar isto para capturar a quem 
o fez.
       Contendo sua prpria repulso entrou na carreta. Era um pesadelo.
       Os que deviam ser os pais da garota tinham sido empurrados debaixo de uma espcie de banco que havia a um flanco do carro. O homem provavelmente tinha morrido 
rapidamente, quo mesmo o menino menor, cujo corpo jazia no outro extremo, debaixo de outro banco.
       Mas  mulher tinham dedicado mais tempo. No tem sentido lhe arrancar a roupa se no se tiver inteno de jogar com ela. Ainda tinha as mos atadas e o que 
ficava dela estava cheio de dentadas.
       Sim, no cabia dvida de que com essa mulher se tomaram seu tempo.
       Blair no pde ver nenhuma arma, mas um dos bancos estava manchado com um sangue mais fresco que a que cobria o outro, o cho e as paredes. Ali era onde tinha 
morrido a garota, deduziu. E onde havia tornado a despertar.
       -A mulher leva morta s um par de dias -disse Cian a suas costas. - O homem e o menino um ou dois dias mais.
       -Sim. Jesus.
       Blair tinha que sair dali, tinha que respirar. Saltou a terra da parte posterior da carreta para aspirar uma baforada de ar que esperava que limpasse o que 
sentia na garganta, nos pulmes.
       -Eles voltaro a procur-la. -Blair se inclinou para frente, abraando-os coxas e baixando a cabea para que lhe dissipasse a terrvel sensao de nusea 
e enjo. - Traro-lhe algo para que possa comer. Ela era nova. Provavelmente se despertou esta noite por primeira vez.
       -Devemos lhes enterrar -disse Larkin. - Aos outros. Merecem ser enterrados.
       -Isso ter que esperar. Olhe, pode te zangar comigo se quiser, mas...
       -No, no estou zangado contigo. Sinto-me doente, mas no estou zangado contigo. Nem contigo -disse dirigindo-se a Cian. - No sei por que estou assim. Vi 
o que havia no interior das cavernas na Irlanda. Sei como matam estes monstros, como se alimentam. Mas o fato de saber que converteram em um monstro a essa garota 
s para poder us-la, parte-me o corao.
       Ela no tinha palavras, nenhuma que servisse, para lhe responder. Agarrou-lhe o brao e o apertou ligeiramente.
       -Faamos que paguem pelo que tm feito. Estaro de retorno antes que saia o sol. Muito antes se podem encontrar depressa o que saram a procurar e traz-lo 
aqui. Eles sabem que ela ia se despertar esta noite e precisam aliment-la. Por isso...
       -Por isso deixaram os corpos dentro da carreta -disse Larkin quando ela se interrompeu. - Para que ela tivesse algo que levar-se a boca at que pudessem lhe 
trazer sangue fresco. No sou estpido, Blair. Deixaram aos membros de sua prpria famlia para que se alimentasse.
       Blair assentiu e voltou a vista para a carreta.
       -De modo que voltaremos a fechar a carreta e esperaremos. Sero capazes de nos cheirar? Aos humanos?
       - difcil de dizer -respondeu Cian. - No sei que idade tm, nem com que experincia contam. Imagino que suficiente para que Lilith pensasse que podiam levar 
a cabo esta misso que eles converteram em uma autntica porcaria. Mas  possvel que possam captar o aroma do sangue vivo, inclusive atravs de todo este fedor. 
E alm disso, tem os cavalos.
       -De acordo, isso o deixa previsto. O mais provvel ser que retornem aqui pelo mesmo caminho pelo que partiram. Levaremos os cavalos para o interior do bosque, 
onde o vento no traga seu aroma. Ataremos-lhes as patas. Exceto ao meu. Se o levar das rdeas quando eles me vejam, esses monstros pensaro que o cavalo est coxo. 
E estaro to felizes de haver-se topado com uma mulher s que no o pensaro duas vezes.
       -Ou seja que cr que vais ser o anzol -disse Larkin com uma expresso que advertiu ao Blair que estavam a ponto de encetar-se em outra briga.
       -Eu me levarei os cavalos enquanto vocs dois discutem este assunto.
       Cian agarrou as rdeas e se perdeu entre as rvores.
       "Tranqila -se ordenou Blair. - Seja razovel." Devia recordar que era muito agradvel ter a algum que realmente se preocupava com ela.
       -Se virem um homem,  mais provvel que ataquem. Mas se trata de uma mulher, eles me querero viva... Temporariamente. Desse modo cada um teria uma companheira 
de jogos. Larkin,  a maneira mais lgica de fazer isto. -E a se acabou sua atitude tranqila e razovel. - E se seu ego tiver algum problema pelo fato de que at 
estando sozinha poderia me encarregar perfeitamente desses dois monstros, ter que solucion-lo.
       -Meu ego no tem nada que ver com este assunto.  igualmente lgico que ns trs nos ocultemos para esper-los e logo lhes ataquemos como um s homem.
       -No, porque se eles perceberem seu aroma ou o meu perderemos o elemento surpresa. Moira os quer vivos... Ao menos a um deles. Essa  a razo de que estejamos 
aqui em lugar de estar desfrutando de uma taa de vinho diante do fogo. Se lanarmos um ataque a grande escala,  provvel que tenhamos que mat-los aos dois. A 
surpresa nos proporciona uma melhor possibilidade de captur-los.
       -H outras maneiras.
       -Provavelmente uma dzia delas. Mas embora possivelmente no retornem at dentro de cinco horas, tambm poderiam faz-lo dentro de cinco minutos. Isto funcionar, 
Larkin, porque  simples e bsico. Porque nunca esperaro que uma mulher s signifique uma ameaa para eles. Eu quero me carregar a esses dois monstros tanto como 
voc. Nos asseguremos de faz-lo.
       Cian reapareceu entre as rvores.
       -J chegastes a um acordo ou seguiremos discutindo este assunto durante muito mais tempo?
       -Parece estar solucionado. -Larkin passou uma mo pelo cabelo de Blair. - S estive desperdiando meu flego. -Logo lhe agarrou o queixo. - Mas tem que falar 
com eles para manter o engano at que ns possamos intervir, daro-se conta de que no  do Geall.
       -Certamente pensa que no sou capaz de fingir um pequeno de acento. -Blair falou com uma acusada pronncia regional irlandesa, e olhou ao Larkin com expresso 
de garota desamparada. - Nem de dar a impresso de ser uma mulher s e indefesa.
       -Isso no est mau. -Larkin aproximou seus lbios aos dela. - Mas no que me diz respeito, jamais acreditaria na parte de garota indefesa.
            
      
      
      15
      
       "Passou uma hora, logo outra. E uma terceira. Ela tinha pouco mais que fazer que comer um pouco de po e queijo que Moira lhes tinha dado e trag-los com 
ajuda de gua da garrafa que levava na mochila.
       Ao menos Cian e Larkin tinham um ao outro para fazer-se companhia, enquanto que ela s tinha a si mesma. Franziu o cenho quando esse pensamento lhe ocorreu. 
Estava acostumada a caar sozinha, a esperar sozinha em lugares escuros e silenciosos.
       Era estranho, mas s tinha demorado umas semanas em romper esse hbito de toda a vida.
       Em qualquer caso, a espera se estava prolongando mais do que tinha previsto e no tinha includo o aborrecimento como fator. A situao lhe recordava sua 
primeira noite na Irlanda e a sorte -o destino - de que lhe tivesse furado um pneu em uma estrada escura e solitria.
       Naquela ocasio, os vampiros eram trs, e o elemento surpresa tinha contribudo a aumentar sua vantagem sobre esses monstros. Em geral, os vampiros no esperam 
ser atacados com um gato de carro, especialmente por uma mulher muitssimo mais forte do que eles tinham calculado.
       E sem dvida no tinham esperado que tirasse uma estaca e os convertesse em p.
       Esses dois -se  que alguma vez retornavam  carreta - tampouco o esperariam. S que devia recordar que sua misso no consistia em lhes converter em um monto 
de p. Algo duro de tragar para algum que levava o sangue de um caador de vampiros.
       Seu pai jamais teria aprovado essa pequena aventura, pensou. 
      Em seu manual, acabava-se com eles, ponto. Rpida, eficazmente. Nada de adornos, nada de conversa.
       Ele,  obvio, j teria feito todo o possvel para liquidar a Cian. Que se danassem s conexes familiares e  vontade dos deuses. Seu pai jamais tivesse trabalhado 
com Cian, lutado junto a ele ou treinado com ele.
       E um deles, possivelmente os dois, j estaria morto.
       Talvez por essa razo a tinham levado a ela e no a seu pai a aquele lugar. E por isso mesmo -agora, enquanto esperava nesse atalho em metade do bosque podia 
admiti-lo - no lhe tinha contado nada a respeito de Cian. No era precisamente que seu pai se incomodasse em ler seus e-mails, mas mesmo assim, Blair no tinha 
mencionado sua aliana com os mortos vivos nas mensagens que lhe tinha enviado at o momento.
       Na caa dos demnios simplesmente no havia alianas, isso era algo inconcebvel para seu pai. Foram seu inimigo e voc. Branco e preto, viver e morrer.
       Esse era outro dos motivos, compreendeu ento, pelos que ela jamais tinha obtido sua aprovao. No s porque no fora seu filho, mas sim porque Blair tinha 
percebido o cinza, e tinha questionado o branco e preto.
       Porque, igual ao Larkin, ela tinha experimentado, em mais de uma ocasio, piedade e lstima por essas criaturas s que matava. Sabia o que diria seu pai. 
Que um instante de piedade ou de pena podiam significar um instante de vacilao. E um instante de vacilao podia te matar.
       Ele tinha razo, pensou. Mas no de tudo; no, no a tinha absolutamente, j que tambm existiam matizes de cinza. Blair podia sentir essa piedade e mesmo 
assim seguir fazendo seu trabalho.  o que tinha feito.
       Acaso no estava agora ali, viva? E estava condenadamente decidida a seguir estando-o.
       S se perguntava, pela primeira vez desde o Jeremy, se lhe seria possvel ter vida amorosa. Blair se tinha proibido desejar ou querer ou questionar-se se 
podia ter a algum que a amasse. Mas agora havia Larkin, e ela acreditava que ele a amava. Ou algo o bastante parecido ao amor que queria proteg-la e a desejasse.
       Com o tempo, possivelmente podia chegar a ser amor. Do tipo que ela jamais tinha tido antes, a classe de amor que transbordava todos os limites, que aceitava 
o que algum era.
       Era brutal, pensou, absolutamente brutal que no houvesse tempo suficiente. E que no fosse possvel abranger mundos inteiros.
       Mas quando ela voltasse para seu prprio mundo, saberia que algum a tinha olhado, tinha visto quem era e o que era e, mesmo assim, tinha-a querido.
       Se conseguia retornar, se obtinham a vitria e os mundos seguiam girando no espao, diria ao Larkin o que era o que lhe tinha dado. Diria-lhe at que ponto 
tinha sido capaz de trocar algo em seu interior, para melhor.
       Mas no lhe diria que lhe amava. Essa classe de palavras s serviriam para lhes fazer dano. No lhe diria o que finalmente era capaz de reconhecer ante si 
mesmo.
       Que sempre lhe amaria.
       Blair sentiu o movimento e se voltou para ele, pronta para o ataque. Mas era Cian, sua forma e seu aroma, saindo do atalho para as sombras.
       -Ateno -murmurou ele. - Dois cavaleiros acabam de entrar no bosque. Arrastam a um homem com eles. Ainda com vida.
       Ela assentiu e pensou: "Levantem o pano de fundo".
       Comeou a caminhar lentamente diante do cavalo em direo  carreta, de modo que os dois monstros chegassem depois dela. Para que parecesse que tinha entrado 
no bosque antes que seu cavalo ficasse coxo de uma pata.
       Primeiro os pressentiu; era algo que estava mais  frente do aroma. Era mais um conhecimento que enchia todos seus sentidos. Mas esperou at ouvir o rudo 
dos cascos.
       Tirou-se o casaco. No acreditava que as mulheres do Geall se passeassem vestidas de couro negro. Para proteger do frio levava uma das tnicas do Larkin, 
o bastante rodeada ao corpo como para que se visse que tinha peitos. As cruzes estavam fora da vista, ocultas debaixo do tecido.
       Parecia uma mulher necessitada esperando que algum a ajudasse.
       Inclusive deu umas vozes quando o som dos cavalos se ouviu mais perto, assegurando-se de fingir o acento e um pouco de temor.
       -Huh, os cavaleiros! Tenho problemas... Aqui, um pouco mais adiante, no caminho.
       O som dos cascos cessou de repente. "OH, sim -pensou Blair -, falem durante um minuto, deduzam o que  o que acontece." Voltou a gritar, aumentando o tremor 
de sua voz.
       -Esto a? Temo-me que meu cavalo tropeou com uma pedra. Vou de caminho ao Cillard.
       Os cavaleiros reataram a marcha lentamente, e Blair adotou uma expresso em que se combinavam o alvio e a preocupao.
       -Bom, graas aos deuses -disse, quando os cavalos estiveram  vista. - J pensava que acabaria tendo que andar o resto do caminho at a casa de minha irm, 
e alm s na escurido. O que me estaria bem empregado, por ter sado muito mais tarde que o devido.
       Um deles desceu do cavalo. Parecia forte, julgou Blair, de constituio slida. Quando se tirou o capuz da capa, ela pde ver um arbusto de cabelo loiro quase 
branco, e uma profunda cicatriz em forma de V sobre a sobrancelha esquerda.
       No se via que arrastassem a ningum detrs dos cavalos, por isso deduziu que, no momento, tinham deixado a sua presa em alguma parte.
       -Viajam sozinha?
       "Eslavo -pensou Blair. - Um acento apenas perceptvel. Russo, ucraniano possivelmente."
       -Sim. No vou muito longe e tinha previsto sair mais cedo. Mas uma coisa traz a outra, e agora isto... -Assinalou o cavalo. - Sou Beal, da famlia Dubhuir. 
Por acaso no lhes dirigiro para o Cillard?
       O segundo cavaleiro desmontou para sustentar as rdeas de ambos os cavalos.
       - perigoso viajar pelo bosque s e de noite.
       -Conheo muito bem o bosque. Mas voc, vocs no parecem desta parte do Geall. -Retrocedeu um passo, como o faria uma mulher assustada. -  forasteiro possivelmente?
       -Poderia-se dizer que sim.
       E, quando sorriu, suas presas brilharam na escurido.
       Blair proferiu um leve chiado; nesses casos no terei que atuar. O monstro ps-se a rir ao tempo que se equilibrava sobre ela. Blair levantou violentamente 
o joelho cravando-lhe entre as pernas e logo rematou a ao com um forte gancho  cabea. Quando caiu de joelhos, chutou-lhe a cara e logo se afirmou para fazer 
frente ao segundo ataque.
       O segundo vampiro no era to forte como o primeiro, mas sim mais rpido. E j tinha tirado sua espada. Blair se lanou para trs, aterrissando sobre as mos 
para chutar o brao que sustentava o ao. Isso lhe deu tempo e um pouco de distncia. Quando o primeiro ficou de p, Larkin saiu de entre as rvores.
       -Agora veremos como te comporta quando luta contra um homem.
       Blair tomou carreirinha para que seu chute levasse o mximo impulso possvel. Alcanou ao primeiro vampiro em metade do corpo enquanto Larkin cruzava seu 
ao com o outro. Tirou a espada da bainha sujeita  sela e os trs cavalos relincharam sobressaltados. O instinto fez que girasse sobre si mesmo, com a folha elevada 
com ambas as mos para bloquear o golpe descendente da espada de seu inimigo.
       Comprovou que tinha estado no certo quanto  fora deste, j que a potncia do golpe se deslocou por seu corpo at lhe chegar aos dedos dos ps, como as ondas 
que se formam na gua ao atirar uma pedra. Blair se aproximou mais ao vampiro.
       A vantagem sobre seu rival era que ela no queria mat-lo... mas ele no sabia. Pisou-lhe com fora o p e levou para cima o punho da espada lhe atirando 
um golpe terrvel no queixo.
       Isso o lanou para trs, contra o cavalo de Blair. Os trs animais voltaram a relinchar ao tempo que se dispersavam.
       Seu inimigo continuou atacando, lanando golpes a mo direita e esquerda at que as gotas de suor lhe caam dentro dos olhos.
       Ouviu gritar, mas no podia arriscar-se a desviar o olhar. Em troca, fez uma finta, insinuando com a espada para a esquerda e logo lanou o p para o estmago 
de seu vampiro. O golpe o manteve em terra o tempo suficiente como para que ela saltasse sobre ele e apoiasse a folha da espada em sua garganta.
       -Um s movimento e te converte em p. Larkin?
       -Aye.
       -Se j terminaste que jogar com o teu, poderia me dar uma mo aqui.
       Larkin passou por cima de seu competidor e logo chutou vrias vezes a cabea e a cara do vampiro de Blair.
       -Sim, isso deveria bastar -disse ela, e se sentou quase sem flego, a seguir olhou ao Larkin. Tinha a camisa e o rosto manchados de sangue. -  teu muito 
desse sangue?
       -No, no muito. Deve ser dele em sua maior parte.
       Retrocedeu e fez um gesto para que ela pudesse ver o vampiro ao que tinha imobilizado contra o cho com uma espada.
       -Ouch. -Blair ficou de p. - Temos que reunir aos cavalos, encadear a estes dois e...
       Interrompeu-se quando Cian apareceu caminhando para eles, com os cavalos sujeitos pelas rdeas e um homem inconsciente colocado sobre a sela de um deles.
       Jogou uma olhada aos dois vampiros que sangravam, estendidos em terra.
       -Pouco delicado -decidiu -, mas eficaz. Este no est em muito boa forma -e fez um gesto para o homem coberto de sangue que levava sobre o lombo do cavalo 
-, embora esteja vivo.
       -Bom trabalho. -Blair se perguntou, e no pela primeira vez, quo duro devia ser para Cian resistir o aroma do sangue humano fresco. Mas no parecia o momento 
mais oportuno para perguntar. - Ser melhor que imobilizemos a estes dois quanto antes. Se esse se acorda, teremos problemas. -massageou-se o ombro dolorido. -  
forte como um maldito touro.
       Enquanto eles dois encadeavam aos vampiros, Blair examinou ao homem. Estava muito golpeado e ensangentado, mas no o tinham mordido. Tinham intenes de 
lev-lo a carreta, pensou, e organizar uma pequena festa com ele e a garota.
       -Temos que enterrar aos mortos -disse Larkin.
       -No podemos dedicar tempo a isso agora.
       -No vamos deixar os assim.
       -Me escute, s escuta. -Agarrou-o das mos antes que ele pudesse afastar-se. - Este homem est ferido, gravemente ferido. Se no receber ajuda urgente, possivelmente 
no sobreviva. Ento teremos que cavar outra tumba. Alm disso, por Cian,  necessrio que retornemos antes que saia o sol. E o tempo apressa.
       -Eu ficarei atrs e me encarregarei de faz-lo.
       -Larkin, temos que ir. Se no nos dermos pressa, Cian ter que adiantar-se, ou meter-se clandestinamente, e isso me deixar sozinha com dois vampiros e um 
homem ferido. Poderia-me arrumar isso se no tivesse mais remdio, mas no o farei. Enviaremos a algum para que os enterre. Eu retornarei contigo e o faremos juntos 
se isso for o que quer. Mas por agora devemos deix-los. Temos que nos partir j.
       Larkin no disse nada, s assentiu e montou em seu cavalo.
       -Tomou-se muito a peito a morte dessa garota -disse Cian.
       -Alguns so mais duros que outros. Tem essa capa que lhe fizeram Glenna e Hoyt, verdade? S por segurana.
       -Tenho-a, mas para te ser sincero, preferiria no arriscar minha pele com essa coisa.
       -No te culpo. Se tiver que te adiantar, ou quando dever faz-lo, no espere por ns. -Olhou para onde estavam os dois vampiros, encadeados, amordaados e 
atados sobre um de seus cavalos. - Podemos nos encarregar deles.
       -Voc poderia te encarregar deles sem ajuda de ningum, ambos sabemos.
       -Mas Larkin no deveria encarregar-se s do que h nessa carreta. -Montou em seu cavalo. - Acabemos com isto.
       Cavalgaram em silencio atravs da escurido do bosque e dos campos salpicados pela plida luz da lua. Em uma ocasio, justo diante deles, uma coruja voou 
por cima de uma leve elevao do terreno batendo apenas as asas. Por um instante, Blair distinguiu o brilho de seus olhos, verdes como esmeraldas. Logo s houve 
o murmrio do vento atravs das ervas altas e o silncio que precede ao amanhecer.
       Viu que o vampiro contra o que tinha lutado elevava a cabea. Quando seus olhos se encontraram com os dela, advertiu em seu olhar a fria e as nsias de sangue. 
Mas por cima de tudo, viu o medo. Lutou contra suas cadeias, com o olhar fixo no leste. Seu companheiro jazia junto a ele, e ao Blair pareceu que os sons que se 
ouviam detrs de sua mordaa eram soluos.
       -Sentem que se aproxima o amanhecer -disse Cian a seu lado. - A fogueira do amanhecer.
       -V. Larkin e eu nos podemos arrumar isso -Apressemo-nos.
       -OH, ainda fica tempo, um pouco de tempo.
       -Devemos estar a um par de quilmetros.
       -Um pouco menos -disse Larkin. - O homem ferido est voltando em si. Quem me dera no o fizesse.
       Galopar certamente no lhe faria nenhum bem, pensou Blair, mas no podiam permitir-se continuar a esse passo. As estrelas j tinham desaparecido.
       -Nos apressemos.
       Esporeou seu cavalo lanando-o ao galope e esperou que o homem que tinha desabado sobre a garupa do animal, resistisse um quilmetro mais.
       Primeiro viu as luzes; o dbil resplendor que projetavam velas e tochas atravs da nvoa que comeava a dissipar-se. E um pouco mais  frente a silhueta do 
castelo elevando-se sobre a colina com seus estandartes ondeando contra um cu que j no era negro, mas sim de um azul profundo e intenso.
       -Vamos!
       Os vampiros ricocheteavam violentamente sobre o lombo do cavalo, proferindo sons desumanos  medida que as primeiras nervuras vermelhas comeavam a insinuar-se 
sobre o horizonte, atrs do castelo.
       Entretanto Cian cavalgava erguido na cadeira, com a juba ao vento.
       -Raramente vejo este espetculo ao ar livre.
       Havia dor, esmigalhado e ardente, mas tambm encanto em seu rosto. E logo uma leve decepo quando atravessou ao galope as portas do castelo e entrou nas 
sombras que lhe brindavam os muros.
       Moira estava ali, com o rosto tenso e plido.
       -Entra, por favor. Algum se encarregar de seu cavalo. Por favor -repetiu, a angstia abrindo caminho com travs das palavras enquanto Cian desmontava. - 
Date pressa.
       Fez um gesto aos homens que a acompanhavam para que se fizessem cargo dos prisioneiros.
       -Tm alguma masmorra  mo? -perguntou Blair.
       -No, no temos masmorras.
       Riddock observou como os homens se levavam a rastros aos prisioneiros encadeados.
       -Feito os acertos necessrios segundo indicaes da Moira. Manter-se aos prisioneiros vigiados nas adegas.
       -No lhes tirem as cadeias -recomendou Larkin.
       -Hoyt e Glenna esto esperando dentro -lhe disse Moira. - Acrescentaremos um pouco de magia a essas cadeias. No deve preocupar-se por nada, Larkin. Precisa 
comer e descansar, todos vocs.
       -Este  humano. E est ferido. -Blair se aproximou e apoiou os dedos no pescoo do homem. - Ainda est vivo, mas necessita ateno.
       -Agora mesmo. Senhor?
       -Enviaremos a procurar o mdico. -Riddock fez um sinal a um grupo de homens. - Encarregue-se dele -ordenou antes de voltar-se para seu filho. - Est ferido?
       -No. Devo retornar ali. Tivemos que deixar alguns corpos no bosque que conduz ao Cillard. -Larkin estava plido e sua expresso era obstinada. - Ter que 
enterr-los.
       -Enviaremos uma partida.
       -Preciso faz-lo eu.
       -Ento o far. Mas primeiro venha dentro. Precisa te lavar e comer algo. -Rodeou com o brao os ombros de seu filho. - Foi uma larga noite para todos ns.
       No interior do castelo, Cian estava falando com o Hoyt e Glenna. Interrompeu-se quando entraram outros, e arqueou uma sobrancelha olhando a Moira.
       -J tem a seus prisioneiros. O que tenta fazer com eles?
       -Agora falaremos disso, todos ns. Ordenei que levem comida ao salo familiar. Se pudssemos reunimos ali, temos muito que discutir.
       Moira partiu com duas de suas damas de companhia apressando-se atrs dela.
       Blair foi a sua habitao, onde a esperava o fogo aceso e uma bacia com gua limpa. Lavou-se o sangue e se trocou a tnica suja por uma de suas camisas.
       Logo apoiou as mos sobre a cmoda e estudou o aspecto de seu rosto no espelho.
       Tinha tido dias melhores, pensou. Precisava dormir, mas no podia ser. Ainda no. Teria dado algo por uma hora na cama, mas isso estava to fora de programa 
como umas frias em um balnerio de luxo.
       Em troca, teria que dedicar a metade do dia a retornar ao bosque a cavalo e enterrar a trs desconhecidos. No havia tempo para isso, no quando deveria estar 
trabalhando com as tropas, desenhando estratgias, comprovando a produo de armas. Uma dzia de tarefas prticas e imprescindveis.
       Mas se ela no ia, Larkin o faria sozinho. E Blair no podia permitir que tal coisa acontecesse.
       Ele j estava no salo quando ela entrou. Sozinho junto  janela, observando como o sol da manh dissipava a nvoa.
       -Cr que estou esbanjando um tempo valioso -disse sem voltar-se. - Com algo desnecessrio e intil.
       De modo que ele tinha sabido interpret-la, pensou. E lembrava bem.
       -No tem importncia. Precisa faz-lo, de modo que o faremos.
       -As famlias deveriam estar seguras nos caminhos do Geall. As garotas jovens no deveriam ser violadas nem torturadas nem assassinadas. No deveriam ser convertidas 
em algo que deve ser destrudo.
       -No, no deveriam.
       -Voc viveu com isso mais tempo que eu. E possivelmente possa confront-lo mais...
       -Insensivelmente.
       -No. -voltou-se para ela. Sob a luz direta, e com a violncia da noite ainda nele, parecia maior, pensou Blair. - Essa no era a palavra e nunca seria uma 
palavra que eu usaria contigo. Serenamente, possivelmente, de maneira mais prtica sem dvida. De modo que faz o que deva fazer. Eu no te impedirei que v comigo.
       Porque ele no o impediria, ela sabia que no podia fazer outra coisa que ir.
       -Hei dito que o faria e o farei.
       -Sim, far-o; obrigado por isso. Pode entender que sou mais forte ao saber que vais fazer isto comigo, que entende minha necessidade o suficiente para dedicar 
seu tempo a me acompanhar?
       -Acredito que s um homem forte pode fazer aquilo que  humano e compassivo. Com isso me basta.
       -H tantas coisas que tenho que te dizer, tantas coisas que quero te dizer. Mas hoje no  o dia. Eu me sinto... -Baixou a vista  mo com a que dirigia a 
espada. - Manchado. Sabe a que me refiro?
       -Sim. Sei.
       -Bom. Venha, beberemos ch forte e imaginaremos que  Coca-cola. -Sorriu levemente enquanto se aproximava dela. Logo apoiou as mos sobre seus ombros e a 
beijou na testa. -  to formosa.
       -Deve ter a vista realmente cansada.
       Larkin se relaxou.
       -Vejo-te -disse - exatamente como .
       Retirou uma cadeira para que ela se sentasse, um gesto que no recordava que tivesse feito antes. Quando ele mesmo estava tomando assento, Hoyt e Cian entraram 
no salo. Cian olhou para as janelas e logo se separou delas para sentar-se  mesa que Moira tinha preparado, longe da luz.
       -Glenna vir logo -disse Hoyt. - Queria examinar ao homem que trouxestes com vocs. Os prisioneiros esto em boa cobrana. -Olhou a seu irmo. - E nada contentes.
       -No comeram. -Cian se serve ch. - O castelo pode orgulhar-se de ter excelentes vinhos, algo que no mencionou -disse ao Larkin. - E um rinco da adega  
um lugar apropriadamente mido e escuro para manter ali a esses dois. Mas a menos que a inteno de sua prima seja simplesmente mata-los de fome, precisaro comer 
algo se forem estar encadeados outro dia.
       -No tenho inteno de mat-los de fome. -Moira entrou no salo. Agora levava roupa de montar, um traje de amazona cor verde escura. - E tampouco lhes alimentar. 
J beberam suficiente sangue no Geall, animal e humano. Meu tio e eu partiremos breve para reunir s pessoas e difundir a notcia. Todos os que possam, viro aqui 
quando ficar o sol. E, quando tiver escurecido, mostraremos o que h na adega. Logo acabaremos com eles.
       Moira olhou diretamente a Cian.
       -Encontra-o duro, frio, sem um pingo de comiserao ou sentimento humano?
       -No. Encontro-o prtico e eficaz. Em nenhum momento me passou pela cabea que nos enviasse a ca-los para lhes trazer aqui com fins de terapia e reabilitao.
       -Mostraremos s pessoas o que so e como os deve matar. Blair, enviamos tropas para que coloquem as armadilhas que quer. Larkin, hei dito ao Phelan que se 
faa cargo dessa tarefa.
       -O marido de minha irm -explicou Larkin. - Aye, Phelan ser capaz de cumprir com essa misso. Escolheste bem.
       -O homem que trouxeram despertou; o mdico quer que tome alguns remdios. Glenna est de acordo. Explicou-nos que saiu de sua casa para ouvir o que acreditou 
que era uma raposa no galinheiro. Eles o atacaram. Tem esposa e trs filhos, e lhes gritou que no sassem da casa. Isso foi tudo o que pde fazer, e podemos agradecer 
aos deuses que o obedecessem. Enviamos algum para busc-los.
       -At que Larkin e Blair retornem do bosque, Glenna e eu podemos seguir com o treinamento -disse Hoyt. - E talvez Cian, se houver algum lugar apropriado dentro 
do castelo.
       -Obrigado. Esperava que pudessem faz-lo -respondeu Moira. - Temos ao ferreiro do povo e a outros dois forjando armas. Haver outras mais, porque alguns dos 
homens traro as suas.
       -Tambm tm rvores -assinalou Blair. - Querero comear a fabricar estacas com alguns deles? Alm de mais lana, flechas, lanas.
       -Sim,  obvio. Agora devo partir, meu tio e nossos soldados me esperam. Quero lhes agradecer por seu trabalho desta noite. Estaremos de retorno antes que 
o sol se ponha.
       -Comea a parecer uma Rainha -disse Blair quando Moira se partiu.
       -Uma pessoa esgotada  o que parece.
       Blair assentiu olhando ao Larkin.
       -Ser Rainha  um trabalho muito difcil. Se a isso acrescenta uma guerra, a tarefa passa a ser brutal. Cian, parece-te bem lhes explicar ao Hoyt e Glenna 
nosso trabalho desta noite?
       -J lhes contei o mais importante. Logo lhes darei os detalhes.
       -Ento por que voc e eu no nos pomos em marcha? -disse ao Larkin.
       Foi s cavalarias com ele e reuniram as ferramentas que necessitavam.
       -Poderamos ir voando; seria mais rpido que faz-lo a cavalo -props Larkin. - Te parece bem?
       -Sim,  muito boa idia.
       Larkin se dirigiu para o jardim que ela via desde sua janela.
       -A bolsa  pesada. Pendura-a ao redor de meu pescoo uma vez que me tenha transformado.
       Entregou a bolsa ao Blair antes de converter-se em um drago. Continuando, agachou a cabea para que ela pudesse lhe passar a correia ao redor do pescoo. 
Logo Blair o olhou aos olhos e lhe acariciou a bochecha.
       -Est muito bonito -murmurou.
       O inclinou o corpo para que ela pudesse montar em seu lombo. Um momento depois, estavam ascendendo por cima das torres almenadas e das torres, por cima dos 
estandartes que ondeavam ao vento.
       A manh era como um mosaico de azul, verde e ocre estendendo-se a seu redor. Blair jogou a cabea para trs e deixou que o vento a envolvesse, que apagasse 
a fadiga da noite.
       Agora abaixo, no caminho, viu cavalos e carruagens, carretas e gente caminhando. O pequeno povo que ainda devia explorar era uma extenso de belas construes, 
cores brilhantes, estbulos buliosos. As pessoas que olhavam para cima saudavam com as mos ou as boinas e logo voltavam a concentrar-se em suas tarefas.
       A vida, pensou Blair, no s continuava, mas tambm insistia em florescer.
       Voltou o rosto para as montanhas, com suas nvoas e seus segredos. E seu vale, chamado do silncio, que em questo de semanas se converteria em um lugar de 
sangue e morte.
       Eles lutariam, pensou, e alguns morreriam. Mas combateriam para que a vida continuasse florescendo.
       Chegaram ao bosque e descreveram um crculo antes que Larkin planasse brandamente entre as rvores at tocar terra.
       Ela se deslizou de seu lombo e agarrou a bolsa que continha as ferramentas.
       Quando ele se converteu novamente em um homem a agarrou da mo.
       - formoso -lhe disse Blair. - Antes que faamos isto, quero te dizer que Geall  formoso.
       Caminharam juntos entre as rvores, logo se detiveram para cavar trs tumbas na terra branda e musgosa. O trabalho era fsico e mecnico, e o levaram a cabo 
em silncio. Retornar  carreta para retirar os corpos, foi um verdadeiro horror. Nenhum dos dois pronunciou uma s palavra, simplesmente fizeram o que tinham que 
fazer.
       Enquanto jogavam terra sobre os cadveres, Blair sentiu que a fadiga voltava a apoderar-se dela, e que a nusea revolvia as profundidades de seu estmago.
       Larkin levou pedras para cada uma das tumbas, logo conduziu uma quarta para a garota a que no tinham podido dar sepultura.
       Uma vez que tiveram terminado, Blair se apoiou na p.
       -Quer, no sei, dizer algo?
       Larkin falou em galico, agarrando a da mo, enquanto pronunciava umas palavras, as repetindo logo em ingls para que ela pudesse as entender.
       -Eram desconhecidos para ns, mas eram famlia uns dos outros. Tiveram uma morte terrvel e agora lhes devolvemos  terra e aos deuses, onde tero paz. No 
lhes esqueceremos.
       Retrocedeu uns passos levando ao Blair com ele.
       -Arrastarei a carroa para o campo, longe das rvores. Ali o queimaremos.
       Aquilo era tudo o que essa famlia tinha tido, pensou Blair enquanto lhe prendia fogo. A totalidade dos pertences daquelas pessoas que no tinham nome para 
ela. A s idia era to triste... A carroa ardia e a fumaa se elevava para o cu. Quando Blair voltou a montar a lombos do drago, apoiou a cabea em seu pescoo, 
fechou os olhos e permaneceu assim enquanto voavam afastando-se das cinzas.
      
             
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      16
      
       Ouviu um trovo ao longe e pensou, sonolenta, que teriam que atravessar uma tormenta. Erguendo-se, assombrada de haver-se dormido sobre o lombo de um drago, 
abriu os olhos. Sacudiu a cabea para limpar-se.
       No tinha sido um trovo, descobriu boquiaberta ante a imponente queda de gua que se precipitava entre duas rochas gmeas para um enorme lago azul.
       Havia rvores, ainda verdes e frondosas, e o surpreendente toque tropical de umas palmeiras. No lago se viam nenfares flutuando, rosa e brancos, como se 
tivessem sido pintados sobre a gua. Debaixo da superfcie azul se podia distinguir o movimento dos peixes, brilhantes e elegantes como jias.
       O ar cheirava a flores e gua cristalina.
       Blair estava to assombrada, que no moveu um msculo quando Larkin pousou no cho. O drago inclinou a cabea, de modo que a correia da bolsa se deslizou 
por seu pescoo. Ela seguia sentada, imvel sobre as costas do Larkin.
       - Equivocamo-nos de caminho?
       O girou a cabea e sorriu ante seus olhos abertos como pratos.
       -Disse-te que te traria para este lugar. Faerie Falls, assim se chama. Esta vez no haver picnic, mas pensei... Queria passar uma hora contigo a ss, em 
um lugar onde s h beleza.
       -Valoroso -disse ela.
       Levantou-se de cima dele e olhou a seu redor.
       Na grama havia pequenas flores de cores brilhantes e um matagal de trepadeiras, cobertas de prpura, que ascendiam sinuosamente pelas rochas, quase como emoldurando 
aquele salto de gua. O prprio lago era claro como um espelho, azul como um pensamento, enquanto o clice dos nenfares flutuava nele e a cascata se precipitava 
de uma altura de vinte metros.
       - incrvel, Larkin, uma pequena parte de paraso. E no me importa se a gua est gelada, vou me dar um mergulho de cabea.
       Tirou-se as botas e comeou a desaboto-la camisa.
       -Voc no?
       - obvio. -Larkin no deixava de sorrir. - Sigo-te em seguida.
       Blair se despiu, arrojando a roupa descuidadamente sobre a terra branda. De p na borda, inspirou profundamente preparando-se para a impresso da gua fria. 
A seguir se mergulhou.
       Quando reapareceu na superfcie lanou um grito de alegria.
       -OH, Meu deus,  quente.  quente e limpa e maravilhosa. -Voltou a inundar-se para aparecer a cabea aos poucos segundos. - Se fosse um peixe, viveria aqui.
       -Alguns dizem que as fadas esquentam a gua todas as manhs com seu flego. -Larkin se sentou e se tirou as botas. -Outros, menos fantasiosos, falam de mananciais 
quentes subterrneos.
       -Fadas, cincia, no me importa.  uma sensao fabulosa.
       Larkin saltou  gua e, como sempre fazem os homens, procurou impactar com fora contra a superfcie para salpicar ao Blair o mximo possvel. Ela se ps 
a rir e o salpicou a sua vez.
       Inundaram-se juntos, arrastando-se mutuamente para baixo ou beliscando-se, jogando como focas. Blair nadou por debaixo da gua, avanando com vigorosas braadas 
at sentir a vibrao da gua caindo sobre a gua. Impulsionou-se do fundo e saiu justo debaixo da cascata. A gua golpeou com fora contra seus ombros, a parte 
posterior do pescoo, a base da coluna vertebral. Gritou com uma mescla de alvio e felicidade, enquanto a gua fazia desaparecer os dores e a fadiga. Quando Larkin 
se reuniu com ela, rodeou-a com seus braos e ambos puseram-se a rir enquanto a gua caa sobre eles. A fora da cascata os levou de novo para o centro do lago, 
onde simplesmente se deixaram flutuar.
       -Antes estava pensando quanto eu gostaria de passar uns dias em um bom balnerio -disse Blair. -Isto  melhor. -Suspirou e apoiou a cabea no ombro do Larkin. 
- Uma hora aqui  melhor que algo.
       -Queria que visse algo natural, no poludo. Acredito que precisava me recordar a mim mesmo que existem estes lugares. -No s tumba que cavar, pensou. No 
s batalha que liberar. - No h nenhuma outra mulher que eu conhea, salvo Moira, que tivesse feito o que voc tem feito hoje comigo. Por mim.
       -No conheo muitos homens que tivessem feito o que voc tem feito hoje. De modo que estamos ao mesmo tempo.
       Beijou-lhe a tmpora, a bochecha, at encontrar sua boca. O beijo foi suave e quente como a gua. A mo que a acariciava, ligeira como o ar.
       Era como se nada existisse fora daquele lugar, fora daquele tempo precioso. Ali, no momento, simplesmente podiam limitar-se a ser. Enquanto se moviam na gua 
 deriva, Blair viu que uma pomba branca voava em crculos no alto. Distinguiu o brilho de seus olhos verdes.
       "De modo que os deuses vigiam -pensou, recordando  coruja. - Nos bons tempos e tambm nos maus."
       Logo voltou os lbios para os do Larkin. O que podiam lhe importar nesse momento os deuses? Aquele era o tempo deles dois, aquele era seu lugar. Afundou-se 
nas profundidades do beijo, deixando-se levar por seus braos e pela gua.
       -Preciso-te -sussurrou ele com os olhos fixos nos seus enquanto voltava a cobrir sua boca. - Sabe acaso,  capaz de saber quanto te necessito? Deixe-me entrar 
dentro de ti -lhe rogou Larkin aferrando seus quadris e deslizando-se em seu interior.
       Ambos se olharam enquanto seus corpos se uniam, os dedos acariciando os rostos, os lbios esfregando-se contra os lbios.
       Era algo mais que agradar o que sentia, mais inclusive que alegria de viver. Se aquilo era verdade, pensou Blair, aquela necessidade, aquela forma de compartilhar, 
ento poderia viver disso o resto de sua vida.
       Enlaou com as pernas o corpo do Larkin e se entregou a essa verdade.
       E soube que seu nome era amor.
      
      
       Provavelmente fosse possvel sentir-se mais cansada, mais frustrada, mas Glenna esperava no ter que comprov-lo nunca. Fazia o que Moira lhe tinha pedido, 
tinha levado a um grupo de mulheres at um extremo dos campos de jogos para lhes repartir a primeira lio bsica de defesa pessoal.
       As mulheres se mostraram mais interessadas em rir entre dentes e intercambiar fofocas, ou tratar de paquerar com os homens com os que Hoyt estava trabalhando 
no outro extremo do campo, que em mover o rabo.
       Glenna tinha escolhido a umas vinte mulheres das mais jovens, caso que estariam em melhor forma fsica e mostrariam mais entusiasmo pela tarefa. E esse, decidiu, 
pde ter sido seu primeiro engano.
       Era hora, decidiu, de ficar dura.
       -Silncio! -O tom peremptrio de sua voz silenciou ao grupo reduzindo-o a um nico ofego agitado. - Sabe? Eu gosto tanto paquerar com um cara bom como a qualquer 
garota, mas no estamos aqui para que possam conseguir um encontro para o prximo baile da colheita. Estamos aqui para que possa lhes ensinar a conservar a vida. 
Voc. -Assinalou ao azar a uma das jovens, uma bonita morena que parecia forte e decidida. - Aproxime-se.
       Ouviram-se algumas risadinhas, e a garota sorriu afetadamente enquanto caminhava para a Glenna.
       -Como te chama?
       -Dervil, senhora.
       Quando o punho da Glenna saiu disparado para cima detendo-se escassos centmetros de sua cara, lanou um chiado e se cambaleou para trs.
       - isso o que pensa fazer quando algum trate de te fazer dano, Dervil? Vais chiar como uma menina e boquejar como um peixe?
       Agarrou o brao da moa e o elevou de modo que lhe protegesse o rosto quando lhe lanou outro murro. Os antebraos de ambas chocaram violentamente.
       -Isso di! -Dervil abriu a boca com expresso assombrada. - No tem direito a me fazer dano.
       -Fazer mal a algum no tem nada que ver com os direitos, a no ser com a inteno. E um bloqueio com o antebrao  menos doloroso que um murro em pleno rosto. 
Gostar-lhes de seu aspecto, Dervil, assim bloqueia! No, no deve levantar o brao como se fosse de trapo. Firme, com fora. Outra vez! -Fez retroceder ao Dervil 
com cada golpe. - Tem bastante carne, e litros de sangue percorrendo suas veias. Lanar chiados e te menear no te ajudar em nada. O que far quando vierem a por 
ti?
       -Correr! -gritou uma das mulheres, e embora houve algumas risadas, Glenna se deteve e assentiu.
       -Pr-se a correr poderia ser uma possibilidade. Poderia chegar o momento em que fosse a nica possibilidade, mas nesse caso, recomendo-lhes que corram a toda 
velocidade, porque um vampiro pode mover-se  velocidade do raio.
       -Ns no acreditamos em demnios.
       Dervil elevou o queixo e se esfregou o antebrao dolorido. Pelo gesto rebelde da boca e o brilho dos olhos, Glenna soube que tinha feito seu primeiro inimigo 
no Geall.
       M sorte.
       -Pois podem apostar a que eles sim acreditam em vocs. Assim agora, corram. At o extremo do campo de jogos e volta. Corram como se lhes estivessem perseguindo 
todos os demnios do inferno. Mas que droga, hei dito corram.
       Para conseguir que se movessem, lanou uma pequena labareda para seus ps.
       Ouviram-se alguns gritos, mas todas puseram-se a correr. Como meninas, pensou Glenna completamente desesperada. Agitando os braos, quase nas pontas dos ps 
e com as saias ao vento. E ao menos trs delas tropearam e caram, algo que ela considerava uma situao embaraosa para qualquer mulher em qualquer parte.
       Como calculou que perderia na metade se as obrigava a retornar ao ponto de partida, foi Glenna quem correu atrs delas.
       -Muito bem, at aqui. Um par de vocs tm realmente um pouco de velocidade, mas, em geral, todas so lentas e torpes. De modo que correremos todos os dias 
um comprido do campo. Tero que levar, como se chamam? Sobrecalzas, perneiras. Calas -disse, aplaudindo-os sua. - Vestimenta de homem para o treinamento. As saias 
no faro mais que lhes estorvar e fazer que tropecem.
       -Uma dama... -comeou a dizer uma delas, s para emudecer quando Glenna a fulminou com o olhar.
       -Vocs no so damas quando eu lhes estou treinando. So soldados. -Um plano de ao diferente, pensou. - Quem de vocs tm filhos?
       Vrias das mulheres levantaram as mos, ela escolheu a uma que pensou que ao menos a estava olhando com certo interesse.
       -Voc. Seu nome?
       -Ceara.
       -O que faria voc, Ceara, se algum viesse a levar-se a seu filho?
       -Lutaria,  obvio, isso faria. Morreria lutando para proteger a meu filho.
       -Mostre-me como o faria. Vou por seu filho. O que  o que faz? -Quando Ceara a olhou indecisa, Glenna tratou de controlar sua impacincia. - Matei a seu marido. 
Ele jaz morto a seus ps, agora voc  o nico que se interpe entre seu filho e eu. Deve me deter.
       Ceara elevou as mos com os dedos curvados como garras e se lanou sobre a Glenna sem muito empenho. Ficou sem flego quando Glenna a fez acontecer por cima 
de seu ombro e cair pesadamente de costas ao cho.
       -Como me detm isso? -perguntou Glenna. - Seu filho te est chamando aos gritos. Faz algo!
       Ceara se escondeu e saltou para frente. Glenna permitiu que a atacasse e logo simplesmente lhe jogou de novo por cima dela e apoiou um cotovelo contra sua 
garganta.
       -Isso esteve melhor, foi algo positivo, mas muito lento. E seus olhos, todo seu corpo, anunciaram-me o que pensava fazer.
       Quando Glenna se levantou, Ceara se sentou e esfregou a parte posterior da cabea.
       -Mostre-me como se faz -disse a Glenna.
       Para o final da sesso, Glenna dividiu a suas primeiras alunas em dois grupos. No da Ceara estavam aquelas mulheres que tinham mostrado certo interesse e 
aptido. E logo estava o do Dervil, integrado por mulheres que no s no mostravam nenhum interesse ou aptido, a no ser uma forte resistncia a perder o tempo 
fazendo algo que no era tradicionalmente obrigao de uma mulher.
       Quando todas partiram, Glenna ficou sentada no cho. Um momento mais tarde, Hoyt se reuniu com ela, e pde desfrutar do prazer de apoiar a cabea sobre seu 
ombro.
       -Acredito que sou um professor horrvel -disse ele.
       -Pois j somos dois. Como vamos fazer isto, Hoyt? Como faremos para converter a esta gente em um exrcito?
       -No temos mais alternativa que procur-lo. Mas a verdade, Glenna,  que j estou esgotado, e logo que acabamos de comear.
       -Era diferente quando estvamos na Irlanda. Ns seis sabamos, entendamos contra o que nos enfrentvamos. Ao menos voc est tratando com homens, e alguns 
deles j sabem dirigir a espada, ou o arco. Mas o que eu tenho aqui  um grupo de garotas, e a maioria delas no poderia enfrentar-se a um mido cego e coxo, muito 
menos a um vampiro.
       -A gente se rebela quando no fica mais remdio. Ns o fizemos. -Voltou a cabea para lhe beijar o cabelo. - Temos que acreditar que somos capazes de faz-lo, 
e ento o faremos.
       -Acreditar  importante -conveio ela. - Muitos deles no acreditam o que lhes estamos dizendo.
       Hoyt observou que dois dos guardas transportavam uns postes de ferro e os cravavam no cho.
       -Logo o faro. -ficou de p e lhe tendeu a mo. - Devemos ir ver se outros j retornaram.
       Ao Blair nunca haviam dito que se requeria sua presena... a menos que inclura baixo esse conceito as ocasionais vezes em que lhe tinha ordenado que comparecesse 
no despacho do diretor quando estava no instituto. Duvidava de que Moira tivesse intenes de det-la, mas resultava estranho que a escoltassem uns guardas para 
ir ver a princesa.
       A prpria Moira abriu a porta, e seu sorriso era srio e discreto.
       -Obrigado por vir. Isso  tudo, Dervil, obrigado. Agora deve ir procurar um lugar nos degraus.
       -Minha senhora...
       -Quero que esteja ali. Quero que todos estejam ali. Blair, por favor, passa. -Retrocedeu para permitir que Blair entrasse na habitao e logo fechou a porta 
nos narizes do Dervil.
       -No cabe dvida de que j comeaste a atuar como uma Rainha.
       -Sei que isso  o que parece. -Moira acariciou brevemente acima e abaixo o brao de Blair antes de dirigir-se para o centro da habitao . - Mas sou a mesma.
       Moira levava o que Blair conhecia como sua roupa de treinamento -tnica singela, calas e umas botas duras e resistentes -, mas nela havia algo diferente.
       Possivelmente a habitao contribua a isso. Era, sups Blair, uma espcie de sala de estar; muito luxuosa. Almofadas de tecidos ricamente tecidos, cortinas 
de veludo, a encantadora lareira de mrmore com seu fogo de turfa... Tudo revelava sua elevada posio.
       -Tenho-te feito vir para te explicar como se levar a cabo a demonstrao.
       -Para me explicar... -repetiu Blair.
       -Imagino que o que pensei voc no gostar de nada, mas a deciso est tomada. Para mim no h outra forma de faz-lo.
       -Por que no me diz o que  o que decidiste e logo eu te direi se eu gosto ou no.
       Ao Blair no gostou. E discutiu, ameaou e amaldioou. Mas Moira permaneceu firme e irredutvel.
       -E o que ho dito outros a respeito? -perguntou finalmente Blair.
       -No o hei dito. S lhe contei isso a ti. -Pensando que lhes viria bem a ambas, Moira serve um par de taas de vinho. - Por favor, ponha em meu lugar. Estes 
so os monstros que mataram a minha me. Eles assassinaram  Rainha do Geall.
       -Mas a idia era, , lhe mostrar s pessoas que existem. O que so, como se deve lutar contra eles e destrui-los.
       -Aye, esse  um ponto fundamental. -Moira se sentou um momento e bebeu um pouco de vinho para serenar-se. Entre a preocupao da noite anterior e as obrigaes 
do dia, tinha estado fazendo proviso de valor para o que devia confrontar. - Dentro de uns dias irei  pedra. Ante o povo do Geall, que estar reunido ali, tentarei 
tirar a espada. Se o consigo, serei Rainha. E, como tal, conduzirei a meu povo  guerra; a primeira guerra que se livrar no Geall. Posso envi-los  batalha, posso 
envi-los  morte quando eu no superei nenhuma prova?
       -Moira, a mim no tem que me demonstrar nada.
       -A ti no, ao meu povo. E a mim mesma, entende-o? No tirarei a espada da pedra e me coroarei Rainha at que no sinta que o mereo.
       -Em minha opinio, merece-lhe isso. No lhe diria isso se no acreditasse assim.
       -No, estou segura de que no o faria. Por isso te chamei e no a um dos outros. Voc me fala claramente, e eu fao o mesmo contigo. Para mim  muito importante 
que voc creia que estou preparada para a espada e a coroa. Muito importante. Mas, alm disso, tenho que senti-lo eu, no o entende?
       -Sim. Merda. - Precisamente porque o entendia, passou-se os dedos pelo cabelo, desesperada. - Sim.
       -Blair, tenho medo do que me pediu que faa. Pelo que preciso fazer, pelo que vai vir. Estou-te pedindo que esta noite me ajude a fazer o que devo fazer, 
como amiga, como companheira caadora, e como uma mulher que sabe quo frio pode ser o caminho do destino.
       -E se me nego o far de todos os modos.
       - obvio -Agora houve um vislumbre de sorriso em seus lbios. - Mas me sentiria mais forte e segura se conto com sua compreenso.
       -Compreendo-o. No tem por que me gostar, mas posso entend-lo.
       Moira deixou sua taa de vinho, levantou-se e agarrou a mo de Blair.
       -Para mim  suficiente.
      
      
       Tinham-no organizado como se tratasse de uma espcie de festejo, pensou Blair. As tochas estavam acesas e se alinhavam a ambos os lados do campo de jogos. 
As chamas se elevavam para o cu, onde uma lua quase cheia brilhava como um refletor.
       A gente se apinhava nas escadarias, empurrava-se para colocar-se nos melhores lugares detrs das barreiras de madeira. Viu que haviam trazido seus filhos 
com eles, inclusive aos bebs... e o ambiente era festivo.
       Ia armada -espada, estaca, besta - e pde ouvir os murmrios enquanto se dirigia para o camarote real.
       Deslizou-se junto  Glenna.
       -Qual cr que seria a aplice do seguro para uma reunio destas caractersticas? Fogo, madeira, todos esses tecidos inflamveis.
       Glenna meneou a cabea enquanto estudava  multido.
       -Eles no entendem do que vai isto, Blair. So como os fs de um artista esperando a que comece o concerto. Pelo amor de Deus, se at h vendedores de bolos 
de carne.
       -Nunca subestime o poder da livre empresa.
       -Tentei falar com a Moira antes de vir aqui. Nem sequer conhecemos o plano.
       -Eu sim. E no vai gostar dele. -antes que pudesse continuar, ouviu-se o som estridente das trompetistas. A famlia real chegou ao camarote. - No me culpe 
-acrescentou Blair por cima das amostras de jbilo da multido.
       Riddock se adiantou e elevou as mos para sossegar ao pblico.
       -Povo do Geall, estamos aqui para dar as boas-vindas a casa a sua alteza, a princesa Moira. Para agradecer por sua volta, s e salva, e pelo Larkin, Lorde 
de MacDara.
       Produziram-se mais expresses de jbilo quando Moira e Larkin se colocaram a ambos os lados do Riddock. Larkin olhou ao Blair e lhe dirigiu um sorriso rpido 
e satisfeito.
       "Ele no sabe", pensou Blair, e sentiu que lhe revolvia o estmago.
       -Estamos tambm aqui para receber aos valentes homens e mulheres que os acompanharam em sua volta ao Geall. O Feiticeiro Hoyt, da famlia MAC Cionaoith. Sua 
dama, Glenna, cailleach dearg14. A dama Blair,gaiscioch dorcha15. Cian, da famlia MAC Cionaoith e irmo do Feiticeiro. Todos eles so bem-vindos a nossa terra, 
a nosso lar e a nossos coraes.
       Os gritos de alegria troaram o ar. "d-lhes uns quantos centenas de anos -pensou Blair --, e haver bonequinhos de bruxas e feiticeiros por toda parte. Se 
 que o mundo consegue sobreviver tanto tempo."
       -Povo do Geall!, conhecemos tempos escuros, tempos de medo e dor. Nossa amada Rainha foi cruelmente arrebatada. Assassinada s mos de quem no  homem a 
no ser besta. Esta noite, neste lugar, todos podero ver quem o fez. Foram trazidos aqui por ordem de sua alteza real, e graas ao valor de Lorde Larkin, a dama 
Blair e Cian dos MAC Cionaoith.
       Riddock retrocedeu e, pela forma em que esticou o queixo, Blair pensou que ele sim estava  corrente do que ia passar... e no se sentia muito feliz com isso.
       Moira se adiantou e esperou a que a multido se acalmasse.
       -Povo do Geall, voltei para casa, mas no para lhes trazer felicidade. Vim a lhes trazer a guerra. A prpria deusa Morrigan me encarregou de lutar contra 
o que quer destruir nosso mundo, o mundo de meus amigos, todos os mundos da humanidade. Encarregou-me que, junto com estas cinco pessoas a quem confiaria minha vida, 
minha terra, a coroa que um dia possivelmente leve se os deuses assim o dispem, guie-lhes nesta batalha.
       Moira fez uma pausa e Blair pde ver que estava calibrando a reao da multido, os murmrios, tomando-se seu tempo.
       -No se trata de uma batalha por terras ou riquezas, tampouco por glria ou vingana, mas sim pela vida. Eu no fui sua soberana, nenhuma guerreira, a no 
ser uma estudante, uma filha obediente, uma orgulhosa cidad do Geall. Entretanto, pedirei-lhes que me sigam, a mim e aos meus, que ofeream suas vidas por mim e 
por tudo o que vir depois de mim. Porque na noite do Samhain enfrentaremos a um exrcito de monstros como estes.
       Os vampiros foram arrastados para o campo de jogos. Blair sabia o que a gente estava vendo. Viam dois homens encadeados, assassinos, sim, mas no demnios.
       Houve gritos e expresses de assombro, peties de justia, houve inclusive lgrimas. Mas no havia autntico medo.
       Os guardas fixaram as cadeias aos postes de ferro e, a um sinal da Moira, abandonaram o campo.
       -Estes que mataram a minha me, que assassinaram a sua Rainha, chamam-se de uma forma. A palavra  vampiro. Em seu mundo, a dama Blair lhes d caa e os destri. 
Ela  uma caadora destes demnios, e ela lhes ensinar o que so.
       Blair deixou escapar o ar e se voltou brevemente para o Larkin.
       -Sinto muito.
       Antes que ele pudesse dizer nada, ela saltou do camarote real e cruzou o campo de jogos em direo aos postes de ferro.
       -O que significa isto? -perguntou Larkin.
       -Voc no interferir -lhe disse Moira lhe sujeitando o brao com fora. - Este  meu desejo. Mais ainda,  minha ordem. Voc no interferir. Nenhum de vocs.
       Quando Blair comeou a falar, Moira abandonou o camarote.
       -Os vampiros tm um nico propsito. Matar. -Blair se passeou ao redor deles, permitindo que absorvessem seu aroma, o aroma que estimularia seu terrvel apetite. 
- Alimentam-se de sangue humano, e lhes caaro e bebero seu sangue. Seu nico propsito  alimentar-se, morrero rpido. Em meio de terrveis dores, de um horror 
espantoso, mas rpido. Se eles quiserem mais, eles torturaro, como torturaram  famlia que Larkin, Cian e eu encontramos morta no bosque a noite em que conseguimos 
capturar a estes dois.
       O maior dos dois tratou de equilibrar-se sobre ela. Agora seus olhos estavam completamente vermelhos, e os que estavam mais perto puderam ver as presas expostas.
       -Os vampiros no nascem. No so concebidos, no crescem dentro do ventre materno, mas sim so criados. Criados a partir de humanos. A mordida de um vampiro, 
embora no  mortal, infecta. Alguns dos que resultam infectados se convertem em meio vampiros, em seus escravos. A outros em troca lhes chupam o sangue at quase 
mat-los. Logo so alimentados com o sangue de seu criador e morrem s para voltar a despertar. J no como seres humanos, mas sim como vampiros.
       Blair continuou caminhando em crculos fora do alcance de ambos os monstros.
       -Seu filho, sua me, seu apaixonado pode se convertido nisto. E logo j no sero mais seu filho, sua me, seu apaixonado, sero demnios como estes, com 
a sede de sangue que os leva a alimentar-se de seres vivos, a matar, a destruir.
       Voltou-se e, detrs dela, os vampiros esticaram as cadeias, uivando de frustrao e fome enquanto Blair permanecia fora de seu alcance.
       -Isto  o que vem para vocs. Centenas, talvez milhares deles. Isto  contra o que tero que lutar. O ao no os mata, s os fere.
       Voltou-se de novo e, com a ponta da espada, fez um corte no peito do maior dos vampiros.
       -Eles sangram, mas cicatrizam rapidamente, e uma ferida como esta logo que servir para fre-los. Estas so as armas que destroem a um vampiro. Madeira.
       Tirou uma das estacas que levava na cintura e, quando insinuou um ataque ao menor dos dois vampiros, este retrocedeu, se encolhendo para proteger o peito.
       -Cravada no corao. Fogo.
       Blair agarrou uma das tochas e, quando a agitou no ar, os dois monstros lanaram um chiado.
       -Alimentam-se de noite, porque a luz direta do sol os destri. Mas podem mover-se furtivamente nas sombras e caminhar sob a chuva. Podem matar quando as nuvens 
ocultam o sol. O smbolo da cruz os queima e, se tiverem sorte, manter-os a distncia. A gua benta tambm os queima. Se usar uma espada, o golpe deve dirigir-se 
ao pescoo para lhes cortar a cabea.
       Ela tambm podia julgar o estado de nimo da multido, pensou Blair. Excitao, confuso, as primeiras rajadas de medo. E uma quantidade ainda maior de incredulidade. 
Eles seguiam vendo s a um par de homens encadeados.
       -Estas so suas armas, com isto  com o que conta como parte de seu engenho e seu valor contra umas criaturas que so mais fortes e mais difceis de matar 
que vocs. Se no lutarmos, se no ganharmos, dentro de pouco mais de um ms a partir deste momento, eles lhes devoraro.
       Blair fez uma pausa enquanto Moira atravessava o campo para ela.
       -Est segura? -sussurrou Blair.
       -Estou-o.
       Apertou brevemente a mo de Blair e logo se voltou para a multido, cujas exclamaes se elevavam com uma mescla de preocupao e desconcerto.
       Moira levantou a voz por cima delas.
       -Morrigan  chamada a Rainha dos guerreiros e, entretanto, diz-se que jamais participou de uma batalha. Mesmo assim, me submeto a sua vontade.  uma questo 
de f. Eu no posso lhes pedir, nem o farei, que tenham em mim a mesma f que teriam em um deus. Sou uma mulher, to mortal como vocs, mas quando lhes peo que 
me sigam  batalha, estaro seguindo a uma caadora. Provada em combate. Leve ou no a coroa do Geall, empunharei uma espada. Lutarei junto a vocs.
       Tirou sua espada e a elevou no ar.
       -Esta noite, neste lugar, destruirei aquilo que matou a sua Rainha e minha me. O que fao aqui, fao-o por ela, por seu sangue. Fao-o por vocs, pelo Geall 
e toda a humanidade.
       Voltou-se para o Blair.
       -Faz-o. Se sentir um pouco de amor por mim -disse ao ver que Blair duvidava. - De caadora a caadora, de mulher a mulher.
       - seu espetculo.
       Escolheu ao menor dos dois vampiros, embora calculou que superava a Moira em uns quinze quilogramas.
       -De joelhos -lhe ordenou, sustentando a espada junto a sua garganta.
       -Resulta-te fcil me matar estando encadeado.
       Lanou um horrvel vaio, mas se ajoelhou.
       -Sim, resultaria-me muito fcil. E j me estou arrependendo de no poder te partir em pedaos.
       Manteve a espada apoiada em seu pescoo enquanto se movia detrs dele. Logo agarrou a chave que Moira lhe tinha dado e o liberou-lhe suas cadeias.
       Com orgulho e temor, cravou a espada na terra, junto ao vampiro, e se afastou.
       -O que tem feito? -perguntou Larkin quando Blair ocupou seu lugar no camarote real.
       -O que ela me pediu que fizesse. O que eu quereria que ela fizesse por mim se a situao fosse  inversa. -Elevou a vista e o olhou fixamente. - Se voc no 
for capaz de confiar nela, por que foram fazer o eles? -Agarrou-lhe a mo. - Se ns no confiarmos nela, como pode ela confiar em si mesma?
       Logo lhe soltou a mo e, olhando para o campo de jogos, rogou ter feito o correto.
       -Recolhe a espada -lhe ordenou Moira ao vampiro.
       -Com uma dzia de flechas me apontando? -perguntou este.
       -Nenhuma delas voar para ti a menos que tente fugir. Tem medo de te enfrentar a um humano em igualdade de condies? Teria posto-se a correr aquela noite 
se minha me tivesse tido uma espada?
       -Ela era dbil, mas seu sangue era muito bom. -Seus olhos se desviaram para a esquerda, para seu companheiro ainda encadeado ao poste de ferro, muito longe 
dele para ajud-lo. - Tinha que ter sido voc.
       Essa faca j estava cravada no corao da Moira. As palavras do monstro s serviram para remov-lo.
       -Aye, e a mataram por nada. Mas agora me tem aqui. Aceitar-te Lilith de novo se esta noite provar meu sangue? Deseja-o. -fez-se um corte superficial na palma 
da mo. - Passou muito tempo da ltima vez que comeu.
       Ela viu que tirava a lngua e se umedecia os lbios com ela quando elevou a mo para que o sangue se deslizasse por seu brao e gotejasse na terra.
       -Venha. Derrube-me e te alimente com meu sangue.
       O vampiro agarrou a espada e, levantando-a, atacou.
       Moira no bloqueou o primeiro golpe, mas sim girou para um lado e lanou um chute que alcanou totalmente a seu inimigo fazendo-o rodar pelo cho.
       "Um bom recurso -pensou Blair. - Acrescentar um pouco de humilhao ao medo e a fome." Ele se levantou e se equilibrou sobre a Moira a essa velocidade espantosa, 
inexplicvel, que possuam alguns deles. Mas ela estava preparada para ele. Talvez, pensou Blair, tinha-o estado toda a vida.
       Os aos das espadas se chocaram no ar e Blair pde ver que, embora o vampiro fosse mais veloz e mais forte, Moira estava em melhor forma. Esta golpeou a espada 
de seu adversrio, desviando o golpe, logo afundou a sua em seu peito. Retrocedeu uns passos e recuperou sua posio. 
       Blair sabia que Moira lhe estava mostrando  multido que, embora uma ferida dessa natureza podia ser mortal para um ser humano, logo que conseguia alterar 
o avano de um vampiro.
       Ignorou os gritos, as exclamaes e inclusive os gritos de pnico e o som dos ps que corriam afastando-se dali, e se concentrou no combate que sua amiga 
liberava ante seus olhos.
       O vampiro tocou a ferida do peito com uma mo e levou os dedos ensangentados  boca. Blair ouviu detrs dela o rudo de um corpo que se chocava contra o 
cho quando algum desmaiou.
       O demnio voltou para a carga, mas esta vez antecipou o movimento da Moira. Sua espada a alcanou no brao enquanto a golpeava no rosto com o dorso da mo. 
Moira retrocedeu cambaleando-se; conseguiu bloquear o seguinte golpe, mas foi impulsionada indiretamente para o outro vampiro.
       Blair elevou sua besta, disposta a romper sua promessa.
       Moira, entretanto, lanou-se ao cho e rodou para um flanco. A seguir se levantou lanando um duplo chute que fez que o corao de Blair cantasse de alegria.
       -Venha, Moira! Acaba com ele de uma vez. Deixa j de jogar.
       Mas ela tinha superado esse ponto; j no se tratava s de lhe mostrar s pessoas o que um vampiro era capaz de suportar em uma batalha. Moira baixou a espada 
com fora e lhe abriu uma profunda ferida no ombro, entretanto, logo, em lugar de lhe atirar o golpe definitivo, retrocedeu um passo.
       -Quanto tempo seguiu viva? -perguntou Moira. - Quanto tempo sofreu?
       Continuou bloqueando os golpes de seu inimigo, atacando inclusive quando a mo com que empunhava a espada estava empapada com seu prprio sangue.
       -Muito mais do que viver voc ou o covarde que te engendrou.
       E a atacou aproveitando seu desconcerto. Ela logo que pde ver o movimento, e nunca saberia como pde defender-se contra ele. Sentiu uma dor lacerante, a 
ponta da espada quando esta a alcanou no flanco. Ouviu seu prprio grito quando fez girar a espada no ar e cortou limpamente a cabea de seu inimigo.
       Moira caiu de joelhos, mais pela pena que a rasgava que por quo feridas tinha sofrido. Sacudiu-se essa sensao e ouviu o rugido da multido como um oceano 
longnquo.
       Levantou-se e se voltou para o Blair.
       -Libera ao outro vampiro.
       -No.  suficiente, Moira.  suficiente.
       -Isso devo decidi-lo eu. -aproximou-se de Blair e lhe arrancou a chave do cinturo. - Devo faz-lo eu.
       Todos os sons cessaram de repente quando comeou a cruzar novamente o campo. Moira viu a sbita luz, uma espcie de jbilo nos olhos do vampiro quando se 
aproximou aonde este estava encadeado. Viu sua fome e o prazer antecipado.
       Ento Moira ouviu assobiar uma flecha que passou voando junto a ela e se cravou no corao do vampiro.
       Voltou-se sentindo que a invadia a fria da traio. Mas no era Blair quem sustentava o arco, a no ser Cian.
      
      
      
      
      
      
      
      
      17
      
       Moira no pensou, no esperou. No voltou a ocupar seu lugar no camarote real para dirigir-se a seu povo. Enquanto se afastava correndo pde ouvir a voz do 
Larkin que se elevava sobre as demais, forte e clara. Ele estava lhe falando s pessoas em seu lugar, com isso bastava.
       Ainda levava nas mos a espada manchada de sangue quando correu detrs Cian.
       -Como te atreve? Como te atreve a interferir?
       Cian chegou ao ptio do castelo e o cruzou.
       -No recebo ordens de ti. No sou um de seus sditos, um de seu povo.
       -No tinha nenhum direito.
       Moira correu at colocar-se o diante, lhe bloqueando o passo e lhe impedindo de entrar no castelo. E, ao ver seu rosto, pde perceber nele uma fria geada.
       -No me preocupam os direitos.
       -Acaso no podia resisti-lo? Ver como lutava contra um deles, como o torturava e o destrua? No pudeste suportar ficar ali e ver como matava ao segundo desses 
vampiros.
       -Se voc o disser.
       Cian no a fez a um lado para poder passar mas sim trocou de direo para continuar atravs do ptio e tomar por um corredor abovedado.
       -No te afastar de mim. -Esta vez, quando ela o alcanou, apoiou-lhe a espada plaina contra o peito. Sua fria no era geada, como a dele a no ser quente, 
e bulia em seu interior como a clera dos deuses. - Voc est aqui porque eu o desejo, porque eu assim o permito. Aqui no  o amo.
       -No te levou muito tempo te cobrir com o manto real, verdade? Mas entende isto, princesa, eu estou aqui porque eu quero, e sua permisso  menos que nada 
para os de minha espcie. E agora usa essa espada ou aparta-a.
       Moira a lanou a um lado e o metal ressonou contra as lajes do ptio.
       -Era eu quem devia faz-lo.
       -Para morrer diante de uma multido vociferante?  um pouco pequena para ser gladiador.
       -Eu...
       -Teria-lhe proporcionado a um vampiro sua ltima comida -a interrompeu Cian. - No poderia ter derrotado ao segundo deles. Talvez, s talvez, poderia ter 
tido uma pequena possibilidade de no ter estado ferida. Mas Blair escolheu ao menor deles para comear porque era a melhor escolha para que demonstrasse o que queria. 
Agora j o tem feito, te conforme com isso.
       -Cr que sabe o que posso fazer?
       Ele se limitou a apertar com uma mo o talho que tinha no flanco; retirou-a quando ela empalideceu e teve que apoiar-se contra a parede.
       -Sim. E ele tambm sabia. Tivesse sabido exatamente como te atacar. -Cian elevou o bordo da tnica da Moira e se limpou a sangue da mo. - No teria demorado 
nem dois minutos em estar to morta como a me a que tenta vingar.
       Os olhos da Moira passaram da neblina  fumaa.
       -No fale dela.
       -Ento deixa j de utiliz-la.
       Seus lbios tremeram uma vez antes que pudesse control-los.
       -Eu lhe teria vencido porque tinha que faz-lo.
       -Isso  uma tolice. Estava acabada, mas  muito arrogante, muito estpida para admiti-lo.
       -Mas isso agora no poderemos sab-lo, verdade? Porque voc acabou com ele.
       -Cr que poderia ter impedido que ele afundasse suas presas aqui? -Cian roou ligeiramente com o dedo a borda de seu pescoo, arqueando apenas uma sobrancelha 
quando lhe apartou a mo bruscamente. - Detenha-me ento. Mas necessitar algo mais que um tapa para consegui-lo.
       Cian retrocedeu e recolheu a espada que Moira tinha arrojado ao cho um momento antes. Sorriu com gesto sombrio ao ver que ela se encolhia de dor ao agarr-la 
quando ele a lanou.
       -Agora tem uma espada, eu no. Faz algo para me deter.
       -No tenho nenhuma inteno de...
       -Detenha-me.
       Cian a apartou com escasso esforo e logo, simplesmente, tirou-lhe a espada.
       Moira o esbofeteou, cruzou-lhe a cara com fora antes que ele a agarrasse dos ombros e apoiasse com firmeza suas costas contra a parede. Ela sentiu algo que 
poderia ter sido medo, que poderia hav-lo sido, enquanto os olhos de Cian a olhavam fixamente.
       -Pelo amor de Deus, faz algo para me deter.
       Quando sua boca se esmagou contra a dela, Moira o sentiu tudo. Muito. A luz e a escurido, dureza e uma ternura insuportvel. Tudo o que havia em seu interior 
correu para ele, de forma temerria e enlouquecida.
       De repente, Cian estava a um metro dela e Moira sentiu que todo o ar tinha abandonado seu corpo.
       -Essa no  a forma em que esse vampiro te tivesse saboreado.
       Cian se foi, deixando-a tremente contra a parede; foi antes de agravar um engano que j era enorme.
       Cheirou a Glenna antes de v-la.
       -Necessita que a atendam -disse, e continuou seu caminho.
      
      
       Dentro do castelo, Blair estava sentada diante do fogo no salo familiar, tratando de recuperar a calma.
       -No me curve -advertiu ao Larkin. - Moira conseguiu me arrancar a promessa de que no interviria, e o fato  que entendi perfeitamente por que precisava 
faz-lo.
       -Por que no me disse nada?
       -Porque voc no estava ali. Ela deixou esse assunto para o ltimo momento. Tendeu-me uma emboscada. E foi uma estratgia condenadamente boa, se quiser minha 
opinio. Discuti com ela, e talvez poderia hav-lo feito com mais dureza, mas Moira tinha razo. Em geral tinha razo. E, Deus, demonstrou o que queria, verdade? 
Com todas as leis.
       Larkin lhe alcanou uma taa de vinho e se agachou junto a ela frente ao fogo.
       -Voc acredita que estou zangado contigo. Pois no o estou. Com a Moira um pouco. Porque no confiou em mim neste assunto. Porque a mulher a que essas bestas 
mataram no s era sua me, mas tambm era minha tia. E eu a queria. O povo ao que ela procurava avivar esta noite com sua demonstrao no  s dela, tambm  meu 
povo. E te asseguro que Moira e eu falaremos disto.
       -De acordo. De acordo. -Bebeu um gole de vinho e olhou ao Hoyt. - Tem seu gro de areia que contribuir a esta questo?
       -Se referir a se tiver alguma opinio a respeito, tenho-a. Moira no deveria ter assumido isto sozinha. Ela  muito valiosa para ficar em perigo, e se supe 
que formamos um crculo. Nenhum deveria tomar uma deciso to importante sem contar com o resto.
       -Bom, postos a ser lgicos -Blair suspirou -, no est equivocado, e, se tivesse havido tempo, eu teria insistido em que ela lhes fizesse partcipes a todos 
de seu projeto. No tivssemos conseguido det-la, mas todos teramos estado informados. Ela se comportou como uma Rainha comigo. -Blair voltou a suspirar e se esfregou 
a base do pescoo para dissipar a tenso. - Moira recebeu alguns golpes.
       -Glenna se encarregar dela -respondeu Hoyt. - E teria recebido uns quantos mais se Cian no tivesse intervindo.
       -Eu no tivesse permitido que acontecesse -disse Blair. - No vou discutir com ele por haver-se equilibrado sobre mim para me arrebatar o arco, mas eu no 
teria permitido que Moira se enfrentasse ao nmero dois. -Voltou a beber. - Entretanto, no lamento que lhe esteja tirando a pele a tiras a Cian em lugar da mim.
       -A pele de Cian  bastante grosa. -Hoyt atiou ociosamente o fogo. - Agora teremos nosso exrcito.
       -Teremo-lo -conveio Larkin. - Ningum pode duvidar agora da que deveremos nos enfrentar. No somos um povo guerreiro, mas tampouco somos covardes. No Samhain 
teremos um exrcito.
       -Lilith chegar a qualquer momento -assinalou Blair. - Ainda nos espera um duro trabalho. Ser melhor que descansemos um pouco e amanh comecemos a trabalhar 
cedo.
       Mas quando se levantou de seu assento, Dervil apareceu na porta.
       -Sinto lhes interromper, mas me enviam a procurar  dama Blair. Minha senhora deseja falar com ela.
       -Outro comparecimento por ordem da Rainha -murmurou ela.
       -Esperarei-te em sua habitao -disse Larkin ao tempo que apoiava a mo sobre seu brao. - Quando retornar me contar como se encontra.
       -Lhe farei saber isso. -Blair saiu do salo e olhou ao Dervil ao passar. - J conheo o caminho.
       -Pediram-me que lhe acompanhe.
       Dervil bateu na porta quando chegaram aos aposentos da Moira. Foi Glenna quem abriu, respirando aliviada ao ver o Blair.
       -Obrigado por vir.
       -Minha senhora. -Quando Glenna arqueou uma sobrancelha, Dervil pigarreou antes de falar. - Queria lhes pedir desculpas por meu pobre comportamento de hoje 
e lhes perguntar a que hora querero que as mulheres estejam preparadas para a instruo.
       -Uma hora depois de que tenha amanhecido.
       -Podem me ensinar a lutar? -perguntou ao Blair.
       -Eu te ensinarei -a corrigiu Glenna.
       O sorriso do Dervil foi duro e tenso.
       -Estaremos preparadas.
       -Perdi-me algo? -perguntou- Blair a Glenna quando Dervil abandonou a habitao.
       -S parte de um dia muito comprido. E te perdeste algo mais. -Disse-lhe muito baixo. - Encontrei a Moira discutindo com Cian no ptio.
       -No me surpreende.
       -No, mas ele ps ponto final  discusso com os lbios.
       -Repete isso.
       -Cian a beijou. Um beijo intenso, fogoso, apaixonado.
       -Caralho!
       -Moira est abalada. -Glenna olhou por cima do ombro. - E, em minha opinio, no devido ao insulto e o ultraje.
       -Repito: Caralho!
       -Contei-lhe isso porque no quero ser a nica preocupada com isso.
       -Obrigado por compartilh-lo comigo.
       -Para que esto os amigos? -Glenna retrocedeu uns passos. - Moira, te acabe essa poo -disse, agora elevando a voz. - Falo a srio.
       -Estou-o fazendo. J me chateaste o bastante.
       Moira se sentou junto ao fogo. Agora levava posta uma bata e o cabelo lhe caa solto pelas costas. A contuso no rosto destacava contra a palidez de suas 
bochechas.
       -Blair, obrigado por ter vindo. Sei que deve estar muito cansada, mas no queria que te deitasse sem poder te agradecer o que tem feito esta noite.
       -Como te encontra?
       -Glenna me arreganhou, cuidou-me e me deu uns remdios. -Elevou a taa e bebeu todo o contedo. - Sinto-me bastante bem.
       -Foi uma boa briga. Levaste a cabo uns quantos bons movimentos a fora.
       -Joguei com esse vampiro muito tempo. -Moira se encolheu de ombros, logo deu um coice quando a ferida que tinha no flanco no aprovou esse movimento. - Foi 
estpido e arrogante. E ainda mais estpido e arrogante foi-te dizer que soltasse ao segundo vampiro. Tinha razo ao te negar.
       -Sim, tinha razo. -Blair se aproximou para sentar-se na almofada que havia aos ps da Moira. - No te direi que saiba o que significa ser uma Rainha, mas 
sim sei que ser um lder no implica que deva faz-lo tudo voc sozinha. Nem ser um guerreiro e lutar quando no  necessrio.
       -Deixei que minhas necessidades nublassem meu entendimento.
       -Bom, bem est o que bem acaba.
       Deu uma palmada no joelho da Moira.
       -So os melhores amigos que tive nunca, excetuando ao Larkin. E vocs as mulheres mais prximas a mim, alm de minha me. Quando estavam na porta pude ver 
pela expresso de seu rosto que Glenna te contou o que passou entre Cian e eu.
       Blair, insegura de como responder a isso, esfregou-se as mos nas coxas.
       -Assim .
       -Acredito que deveramos beber um pouco de vinho.
       Quando Moira foi levantar se, Glenna apoiou uma mo sobre seu ombro para que no o fizesse.
       -Eu irei busc-lo. No o contei ao Blair para falar com suas costas ou para fofocar.
       -Tambm sei. Foi uma amostra de preocupao, como amiga, como mulher. Mas no h necessidade de preocupar-se. Eu estava zangada. No, estava furiosa -corrigiu 
Moira enquanto Glenna voltava com o vinho. - Porque Cian tivesse decidido interromper o que eu queria fazer.
       -Cian me adiantou s um par de segundos -disse Blair.
       -Entendo. Fui atrs dele quando minha obrigao era permanecer no camarote real e lhe falar com meu povo. Mas decidi ir atrs dele e lhe recriminar sua ao. 
Cian o tem feito para evitar que eu cometesse um engano estpido e possivelmente fatal. Assim me h isso dito, mas eu no estava disposta a escutar, a entend-lo. 
E me demonstrou que tampouco estava disposto a faz-lo e ao final todo encaixa. S me demonstrou como podia ter acabado tudo. Que eu no sou o bastante forte para 
deter qualquer classe de ataque. No foi nada mais. 
       -De acordo... -Blair procurou as palavras adequadas. - Se estiver satisfeita com isso.
       -Para uma mulher,  difcil estar satisfeita quando a beija dessa maneira e logo a rechaa friamente. -A pesar da dor no flanco, Moira se encolheu de ombros. 
- Mas foi algo que ambos temos feito porque estvamos furiosos. No me desculparei com ele e tampouco espero que Cian o faa comigo. Simplesmente, seguiremos adiante, 
e teremos presente que h coisas muito mais importantes que o orgulho e a clera.
       -Moira. -Glenna lhe passou brandamente a mo pelo cabelo. - Sente algo por ele?
       Moira fechou os olhos como se estivesse procurando algo em seu interior.
       -H momentos que me parece que  quo nico sinto. Mas sei quais so minhas obrigaes. Acessei a ir  pedra e tentar extrair a espada. No amanh. Amanh 
h muitas coisas que fazer. Mas sim ao final desta semana. Demonstrei a meu povo que tm em mim a uma guerreira. Logo, se for a vontade dos deuses, mostrarei-lhes 
que tm tambm uma Rainha.
       Quando Glenna e Blair partiram, Moira permaneceu na poltrona, contemplando o fogo que ardia na lareira.
      
       -Dei-lhe algo que far que durma em poucos minutos; isso espero ao menos. -Glenna deixou escapar o ar e afundou as mos nos bolsos.
       -Isto poderia complicar-se.
       -E que no? Teria que ter visto que algo assim podia ocorrer.
       -Cr que chegou o momento de trocar sua bola de cristal por um modelo mais novo?
       -OH, vamos! -Ambas se dirigiram juntas a suas respectivas habitaes. - Cr que deveramos falar disto com Cian?
       - obvio. Voc primeiro -respondeu Blair.
       Glenna meneou a cabea com um meio sorriso.
       -De acordo, deixaremo-lo estar e nos manteremos  margem disto... Ao menos por agora. Eu sou uma firme defensora de que no haja segredos nas relaes, mas 
no direi uma palavra ao Hoyt sobre tudo isto.
       -Se acredita que eu vou dizer algo ao Larkin, est muito equivocada. Todos temos j muitas coisas na cabea.
      
       A manh era fria e mida, mas no campo de jogos se reuniu um numeroso grupo de mulheres. A maioria delas levavam calas -o que no Geall chamavam braes - e 
tnicas.
       - mais do dobro da concorrncia que tive ontem -disse Glenna ao Blair. - E isso  obra da Moira.
       -No cabe dvida de que ontem  noite conseguiu fazer-se entender. Escuta, ficarei contigo uma hora, at que as ponhamos em movimento. Logo pedirei a meu 
drago mascote que me leve novamente pelo ar.
       J fosse pela penumbra do amanhecer ou pelos vestgios da tenso acumulada a noite anterior, Blair estava ansiosa.
       -Quero comprovar pessoalmente o campo de batalha, me assegurar de que esses casarios prximos foram evacuados. E quero sobrevoar a zona para me assegurar 
de que as armadilhas esto colocadas e funcionando.
       -Outro dia no paraso. Bom, suponho que deveramos ir dentro. -Com as mos apoiadas nos quadris, Glenna olhou a seu redor. - Ver se houver algum lugar onde 
possamos treinar.
       -Por que?
       -Em caso de que no te tenha dado conta, est chovendo.
       -Sim, isso me parecia, com toda essa gua me jorrando do cabelo. A questo  que no sabemos quais sero as condies para o Samhain. Por isso mesmo no sabemos 
em que circunstncias tero que enfrentar-se estas mulheres a um vampiro. Talvez deveriam acostumar-se a brigar sujo, como quem diz.
       -Merda.
       -Te anime, soldado.
       Blair deu um golpe amistoso no brao.
       Uma hora mais tarde, Blair estava suja, ligeiramente machucada e com o nimo exultante. Um pouco de treinamento intenso no barro tinha conseguido acalmar 
sua inquietao.
       Ps-se a andar atravs do ptio com a inteno de ir em busca do Larkin. Deteve-se em seco quando viu que sua me e sua irm vinham para ela.
       Perfeito, pensou. Estava coberta de barro e suor e a ponto de cruzar-se com a me do cara com quem se estava deitando. Era seu dia de sorte.
       Posto que no havia nenhum lugar onde esconder-se, decidiu agarrar o touro pelos chifres.
       -Bom dia.
       -E para voc tambm. Sou Deirdre e esta  minha filha, Sinann.
       Blair esteve a ponto de tender a mo antes de recordar sua posio. Posto que, em suas circunstncias, no se via capaz de uma reverncia, limitou-se a mover 
a cabea a modo de saudao.
       - muito agradvel lhes conhecer. Eu... Isto, estive treinando a algumas das mulheres.
       -Estivemos observando. -Sinann cruzou as mos sobre o abdmen, como revestem fazer as mulheres grvidas. - Tm muita habilidade... e energia.
       Sinann sorriu quando o disse, de modo que Blair se ordenou a si mesma que devia relaxar-se.
       -Esto fazendo muitos progressos.
       -Meu filho fala muito bem de voc.
       -OH. -Blair olhou ao Deirdre e pigarreou. "relaxe-se, merda. " - OH,  bom sab-lo. Obrigado. Precisamente o estava procurando. Temos que levar a cabo uma 
pequena explorao.
       -Larkin est nas cavalarias. -Deirdre dedicou ao Blair um olhar largo e sereno. - Cr que no sei que ele compartilha seu leito?
       Antes de que Blair pudesse falar, pudesse pensar sequer em dizer nada, Sinann fez um som que bem poderia ter sido uma risada afogada.
       -Depois de tudo, sou sua me -continuou Deirdre com o mesmo tom sereno. - Sei que Larkin compartilhou o leito com outras mulheres antes de lhes conhecer. 
Mas jamais me falou delas como me fala de voc. De modo que isso o troca tudo. Vos rogo que me perdoem. Por isso ele me h dito, pensava que preferiria falar com 
franqueza.
       -Se. Assim . OH, sinto muito.  s que nunca tinha tido uma conversa como esta, e nunca com algum como voc.
       -Uma me?
       -Isso para comear. No quero que pensem que compartilho meu leito com qualquer que... -Acaso podia ser mais embaraoso?, Perguntou-se Blair enquanto Deirdre 
simplesmente continuava estudando-a com o que parecia ser um divertido interesse. - Larkin  um bom homem. Ele , bom,  um homem assombroso. Fizeram um excelente 
trabalho.
       -No h um elogio mais prezado para o corao de uma me e estou completamente de acordo com voc. -Agora a expresso divertida se esfumou de seu rosto. - 
Esta guerra nos joga em cima e ele combater nela. Nunca tive que enfrentar a algo assim, de modo que devo acreditar, no mais profundo de meu corao, que Larkin 
faz o que deve, e sobreviver.
       -Eu tambm acredito, se isso ajudar em algo.
       -Sim, ajuda. Alm do Sinann tenho outro filho. -Deirdre apoiou a mo no brao de sua filha. - Mais o marido do Sinann, que  como um filho para mim. Terei 
a mesma f neles. Mas minha filha no pode combater como as mulheres s que esto treinando.
       -O menino nascer antes de Natal -explicou Sinann ao Blair. -  meu terceiro filho. Os outros so muito pequenos para lutar e este ainda no nasceu. Como 
farei para lhes proteger?
       Blair pensou nas cruzes que Hoyt e Glenna tinham criado. Ela acreditava que outros acessariam a que a irm grvida do Larkin tambm tivesse uma.
       -H muitas coisas que podem fazer -lhe assegurou Blair. - Eu lhes ajudarei. -A seguir se voltou para o Deirdre. - No deveriam lhes preocupar com sua filha 
e seus netos. Seus filhos, seu marido, meus amigos e eu jamais permitiremos que esses monstros cheguem to longe.
       -Suas palavras tranqilizam meu esprito e estou agradecida por isso. No podemos lutar, mas no permaneceremos ociosas. H muitas coisas que podem fazer 
aquelas mulheres que j no so jovens e as que levam uma vida em seus ventres. E as faremos. Agora, vocs tm trabalho e no lhes entreteremos mais. Que tenham 
um bom dia e que os deuses lhes protejam.
       -Obrigado.
       Blair ficou um momento ali quieta, observando s duas mulheres que se afastavam. Mulheres com tmpera, pensou. Lilith se encontraria com uma grande surpresa.
       Satisfeita, foi procurar ao Larkin aos estbulos, onde o encontrou com o torso nu, empapado em suor e ajudando a forjar as armas para a batalha.
       Seu nimo melhorou ainda mais. O que podia ser mais edificante que contemplar a um homem formoso, meio nu, convertendo uma parte de ferro candente em uma 
espada?
       A julgar pelo nmero de armas que tinha amontoadas a um lado, pde comprovar que levavam muito bem o trabalho. A bigorna ressonava sob o peso do martelo e 
a fumaa se elevava no ar quando a folha incandescente era inundada em uma banheira de gua.
       Era um milagre, perguntou-se, que sua mente reagisse assim ante o sexo?
       -Poderia ter eu uma dessas espadas com a folha gravada? -perguntou Blair. - Algo assim como: " mulher que atravessou meu corao"? Brega, mas adulador.
       Larkin elevou a vista e sorriu.
       -Parece como se tivesse estado nadando no barro.
       -Assim foi. Agora ia lavar-me.
       Larkin lhe entregou seu martelo a outro dos homens e logo agarrou um trapo para secar o suor da cara enquanto se aproximava dela.
       -Quando chegar Samhain, todos os homens e mulheres do Geall estaro armados. O comentrio que fez Cian faz um tempo a respeito de converter as grades de arado 
em espadas no est to longe de converter-se em realidade. A mensagem j comeou a estender-se.
       -Bem.  necessrio que assim seja. Pode sair um momento?
       Tirou-lhe um pouco de barro da bochecha com o dedo.
       -No que est pensando?
       -Um par de vos de inspeo. O tempo est horrvel, sei, mas no podemos esperar a que saia o sol e o arco ris. Preciso ver o campo de batalha, Larkin. Preciso 
v-lo em direto.
       -Muito bem.
       Agarrou a tnica que se tirou antes e gritou umas quantas palavras em galico aos homens que continuavam trabalhando detrs deles.
       -Eles o faro muito bem sem mim.
       -Viu a Moira esta manh?
       -Aye. Tivemos uma discusso bastante acalorada. Logo nos tranqilizamos e reconciliamos. Foi ao povo a falar com a gente, com os comerciantes. A negociar 
para conseguir mais cavalos, carros, fornecimentos, o que seja que esteja na lista de coisas que necessitaremos nas prximas semanas.
       -Boa idia. E foi muito inteligente ao assegurar-se de que a vejam depois do que aconteceu ontem  noite no campo de jogos. Tudo o que no estivesse ali, 
neste momento j deve estar informado. Quando mais presente esteja, melhor para ela.
       Nas prximas semanas, pensou Blair enquanto entrava no castelo e subia a suas habitaes para lavar-se, as compras, a confeco de listas, o recolhimento 
de fornecimentos, eram todas coisas das que podiam encarreg-las mulheres como Deirdre e Sinann. A questo era as manter ocupadas, refletiu. E manter  famlia real 
visvel para seus sditos.
       Lavou-se o barro, ficou uma camisa razoavelmente limpa e logo se sujeitou o arns com suas armas.
       Quando voltou a reunir-se com o Larkin no ptio, recolheu umas bainhas para a espada e as estacas.
       -Tenho uma coisa para ti -lhe disse. E agarrou o arns que tinha deixado no cho, deslizando as bainhas nas correspondentes presilhas. - Preparei isto para 
que possa levar suas armas quando estiver voando por l encima.
       -Bom, que surpresa! -Sorriu como um menino a quem o mostram um flamejante carro vermelho de brinquedo. - Que detalhe, Blair.
       Inclinou-se para lhe dar um beijo.
       -Faz seu truque e o provaremos.
       -Devo-te um presente -respondeu Larkin, e voltou a beij-la.
       Uma vez que se converteu em drago, Blair lhe sujeitou o arns ao corpo e o ajustou.
       -No est mau, se me permite diz-lo. -subiu de um salto a seu lombo. - Separemos, vaqueiro.
       Nunca se acostumaria a isso. Inclusive sob a chuva, era excitante sentir a maravilha do que havia debaixo dela e ascender cada vez mais alto. Agora, em meio 
da nvoa, empapada pela umidade que cobria a terra, era como voar dentro de uma nuvem, pensou, onde o som estava amortecido e no existia nada mais que o vo.
       Blair soube que j nunca voltaria a sentir-se satisfeita com algo to corrente como um avio.
       A chuva comeou a cair com menos intensidade e, enquanto o sol lutava por atravessar as nuvens com seus raios, o arco ris apareceu no cu. Um risco de delicadas 
cores que pareciam gotejar atravs da chuva. Com um preguioso bater de asas, Larkin girou de modo que o arco brilhou como um portal diante deles. As cores se voltaram 
mais intensos, refulgindo como seda mida. E enquanto os tnues raios de sol atravessavam as nuvens, a chuva e esse arco de delicadas cores, transformaram o cu 
em uma maravilha.
       Ouviu-se uma chamada estridente, uma espcie de jubiloso estrondo, e o cu se encheu de drages.
       Blair ficou sem flego, sentiu literalmente que o ar escapava de seus pulmes enquanto umas belas criaturas aladas voavam a seu lado, e diante e detrs dela. 
Desde mais tinja ainda que o arco ris, descobriu, com seus tons esmeralda, rubi e safira. Sentiu que o corpo do Larkin se agitava ao responder a essa chamada e 
sorriu como uma parva quando ele voltou a cabea e fixou nela um de seus olhos dourados.
       Blair estava voando junto com um bando de drages. Manada? Rebanho? Que importncia tinha? O vento de suas asas lhe dava na cara e fazia ondear seu cabelo 
e seu casaco enquanto atravessavam o cu iluminado pelo arco ris. Os outros drages descreviam crculos e saca-rolhas, realizavam saltos mortais danando brincalhes. 
Blair se colheu com fora do arns e, antecipando-se, gritou ao Larkin:
       -Faz-o! Faz-o!
       E lanou gritos de excitao quando ele se lanou em picado e girou no ar. Pendurada cabea abaixo enquanto ele voava em posio invertida, pde ver como 
se abria o manto de nvoa para revelar o verde brilhante e o intenso marrom das terras do Geall.
       Larkin passou roando as taas das rvores, planou sobre a rpida corrente de um rio, e logo ascendeu, ascendeu e subiu no ar, que agora resplandecia sob 
o intenso sol.
       Larkin e ela continuaram voando, junto com o arco ris e as asas como gemas dos outros drages, at que de novo estiveram s eles e o cu. Afligida, Blair 
se inclinou para frente e apoiou a bochecha em seu pescoo. Recordou que lhe havia dito que lhe devia um presente. Acabava de lhe fazer um que no tinha preo.
       Agora voavam sob a luz do sol e ocasionais e inesperados tors. Abaixo alcanava a ver pequenos povoados ou aldeias, os acidentados caminhos que os uniam, 
o matagal de arroios ou rios estreitos e breves pinceladas de bosques.
       Mas diante deles se elevavam as montanhas, escuras e rodeadas de nuvens; de algum jeito, inquietantes.
       Podia ver o limite do vale que se estendia a seus ps, uma terra irregular composta sobre tudo de rochas. Um primeiro tremor lhe percorreu a coluna vertebral 
quando seus olhos descobriram o que tantas vezes tinha visto em seus sonhos.
       Ali o sol no brilhava. Era como se a luz fosse absorvida, chupada para o escuro ventre de ravinas e precipcios, rechaada pela grama opaca que competia 
com as pontas e dentes das rochas erodidas pelo tempo.
       A terra subia e baixava formando dobras, e as montanhas projetavam enormes sombras sobre ela; sombras que criavam a iluso de que a Terra se movia e trocava.
       Agora era algo mais que um estremecimento o que percorria o corpo de Blair. Era um medo cerval e atvico. O medo a que aquela terra dura e inspita se convertesse 
em sua tumba.
       Quando Larkin trocou a direo do vo, Blair fechou os olhos e deixou que o medo se apoderasse dela durante um momento. Porque este no podia ser golpeado, 
pensou, no podia ser derrotado com punhos nem armas. O medo tinha que ser reconhecido e aceito.
       Uma vez feito isso, poderia control-lo. E se era o bastante forte, poderia utilizar esse medo para lutar e sobreviver.
       Quando Larkin tocou terra, ela se deslizou de seu lombo. Com as pernas um tanto trmulas, teve que reconhecer. Mas a sustentaram em p, e isso era o que contava. 
Podia ter os dedos rgidos, mas responderam, e com eles Blair soltou o arns das armas.
       Logo Larkin apareceu junto a ela.
       - um lugar sinistro -lhe disse Blair.
       Para ela foi quase um alvio quando ele respondeu:
       -Sim, OH sim, -o.  como se pudesse sentir o mal surgindo do fundo da Terra. Estive a antes, e sempre tive a sensao de que era um lugar que estava fora 
do Geall. Que no formava parte dele. Mas esse sentimento nunca foi to forte como hoje; como se a prpria Terra queria abrir-se e engolimos por completo.
       -OH, Larkin, eu tambm o hei sentido, tenho que reconhec-lo. Gelou-me o sangue nas veias. -Passou as mos pelo rosto e logo olhou a seu redor. - Onde estamos?
       -A pouca distncia do campo de batalha. No queria baixar a terra diretamente ali. Daqui h um curto passeio, e primeiro queria desfrutar de uns momentos 
contigo.
       -Aceito.
       Acariciou-lhe a bochecha.
       -Aqui estamos muito longe do arco ris.
       -Ao outro lado, diria eu. E quero dizer algo mais, antes que empreendamos o caminho para chegar a esse lugar. Esse vo, o arco iris, os outros drages, todo 
isso, foi a experincia mais incrvel de minha vida.
       -Srio? -Larkin elevou a cabea. - Pensava que a experincia mais incrvel de sua vida teria sido fazer o amor comigo.
       -OH, sim, correto. Mas, imediatamente depois disso.
       -Muito bem ento. -Agarrou-lhe o queixo com os dedos para beij-la - Alegra-me que o tenha desfrutado.
       -Foi mais que isso. Foi absolutamente assombroso. O melhor presente que jamais me tem feito ningum.
       -Esse arco ris me veio muito bem. Os drages so incapazes de resistir a ele.
       -De verdade? So to encantadores... Acreditava que os olhos me sairiam das rbitas.
       -Recordo-te que j viu antes um drago -replicou ele.
       -E voc  o mais bonito e encantado de todos eles, bla, bla, bla, mas a srio, Larkin, so incrveis. Todas essas cores, e o poder... Espera um momento, a 
gente acostuma a viajar neles como eu o tenho feito contigo?
       -Ningum subida como voc, a str. E eles no o fazem, no. Ao fim e ao cabo, no so cavalos.
       -Mas poderia faz-lo? Voc falou com eles.
       -Bom, no foi o que voc chamaria uma conversa. , certamente, alguma classe de comunicao. Uma sorte de expresso do pensamento, do sentimento. E algo que 
somente posso fazer quando estou no drago, por diz-lo de algum jeito.
       -A guerra area nos daria uma enorme vantagem. Quero pensar neste assunto.
       -Os drages so criaturas amveis, Blair.
       -Tambm o so, em geral, as mulheres que Glenna e eu estamos treinando para lutar. Quando os mundos esto em perigo, tem que usar tudo o que tem a sua disposio, 
amigo. -Pde ver claramente a resistncia no rosto do Larkin. - Deixa que jogue um pouco com a idia em minha cabea.  por aqui, verdade?
       -Sim.
       Ambos puseram-se a andar pelo estreito caminho, flanqueado de sebes e folhas de lrios alaranjados. Larkin se inclinou, arrancou um e o deu ao Blair.
       Ela contemplou a flor, suas delicadas ptalas de intensas e vibrantes cores. Algo silvestre e encantador.
       Ela falava de guerra, pensou. E ele lhe dava de presente uma flor.
       Talvez fosse uma tolice -talvez ambos estivessem sendo bregas - mas ela deslizou o caule em uma das casas de seu casaco e aspirou o doce perfume da flor enquanto 
se dirigiam para o campo de batalha.
      
      
      
      18
      
      Levavam caminhando apenas uns minutos quando Blair ouviu o som de cascos de cavalos e o estalo continuado do que sups que seria um carroo. Quando dobraram 
uma curva do caminho, comprovou que estava no certo. Havia dois carroes, ambos carregados com gente e pertences. Tambm havia cavaleiros, alguns deles pouco mais 
que meninos.
       Na parte posterior de cada carroo tinham presas umas mulas, e os animais trotavam com uma expresso que s poderia descrever-se como de extrema irritao.
       O primeiro carroo se deteve, e o homem que o conduzia levantou sua boina olhando ao Blair, logo se dirigiu ao Larkin.
       -Esto viajando na direo equivocada -disse. - Por ordem da famlia real, todos os que vivem nesta provncia devem partir para o Dunglas, ou mais longe, 
inclusive  prpria cidade do Geall se podem chegar ali. Dizem que se aproximam uns demnios e que trazem a guerra com eles.
       Junto a ele, sua mulher apertou contra seu peito ao menino que levava em braos.
       -Este lugar no ser seguro -disse ela. - Todos esto deixando seus lares. A princesa Moira decretou que todo cidado do Geall deve permanecer dentro de sua 
casa assim que se ponha o sol. So bem-vindos a ocupar um lugar em nosso carroo e a viajar conosco at a casa de meu primo, no Dunglas.
       - muito amvel de sua parte, senhora, e lhes agradeo o oferecimento de hospitalidade, mas estamos aqui cumprindo uma misso para a famlia real e para o 
Geall. Seguiremos nosso caminho.
       -Tivemos que deixar nossas ovelhas, nossas colheitas. -O homem olhou para trs por cima do ombro. - Mas os cavaleiros que chegaram do castelo disseram que 
no havia mais remdio.
       - E tinham razo.
       O homem se voltou para estudar ao Blair.
       -E se diz, tambm, que chegaram guerreiros e bruxos de alm de Geall para liberar esta guerra e expulsar aos demnios fora de nosso mundo.
       - verdade. -Mas Larkin viu que nos olhos do homem havia medo e dvida. - Eu sa que este mundo e retornei com eles. Sou Larkin, Lorde de MacDar.
       -Meu senhor. -Agora o homem se tirou a boina em sinal de respeito. -  uma honra falar com voc.
       -Ela  Blair, uma grande caadora de alm do Geall.
       O menino que viajava a cavalo junto ao carroo quase caiu da cadeira.
       -Ento, matastes demnios? Lutastes contra eles e os matastes, senhora?
       -Seamas. -A mulher, obviamente sua me, falou com tom severo. - Ningum te deu permisso para falar, e muito menos para que importune com suas perguntas.
       -No h problema. -Blair acariciou o cavalo. O menino tinha um rosto franco e agradvel, pensou, cheio de sardas. No devia ter mais de oito anos. - Lutei 
contra eles e os matei. E tambm Lorde Larkin.
       -E eu tambm o farei!
       Blair confiava em que no. Tinha a esperana de que estivesse a salvo em sua cama ao cair essa noite, e todas as noites seguintes.
       -Um menino forte como voc tem outro trabalho que fazer. Permanecer dentro da casa todas as noites at que a guerra tenha acabado, protegendo a sua me e 
a seus irmos e irms. Mant-los a salvo requerer coragem.
       -Nenhum demnio os tocar!
       -Agora ser melhor que continuem seu caminho e viajem seguros -disse Larkin.
       -E vocs tambm meu senhor, minha senhora.
       O homem estalou a lngua para pr em marcha os cavalos e sacudiu as rdeas. Blair os observou at que ambos os carroes se afastaram.
       -Isso  ter muita f na famlia real; recolher todos seus pertences, deixar seu lar. Essa f  outra arma muito poderosa.
       -Falaste-lhe bem a esse menino, tem-lhe feito ver que ficar na casa com sua me era um trabalho. O menino de Lilith tinha aproximadamente essa idade... um 
pouco menor, de fato. -Larkin procurou debaixo de seu cabelo e apalpou com os dedos a cicatriz que tinha na parte posterior do pescoo. - Tambm de expresso doce. 
Esse pirralho era o filho de alguma me antes que Lilith o convertesse em um monstro.
       -Ela pagar por isso e por muito mais. Essa mordida te est dando problemas? -perguntou Blair quando reataram a marcha.
       -No. Entretanto, no  algo que v esquecer facilmente. Como estou seguro de que sabe por experincia prpria. -Elevou a mo de Blair, deu-lhe a volta e 
lhe beijou a cicatriz. - Ainda me enche o saco, como voc diz, que esse pequeno monstro tenha provado meu sangue.  pouco mais que um beb e esteve a ponto de acabar 
comigo.
       -Os pequenos vampiros no so menos letais que a variedade adulta. E, de fato, em minha opinio, so muito mais inquietantes.
       As sebes vivas que formavam os arbustos desapareceram e o Vale do Silncio se estendeu ante eles.
       -E falando de inquietante -murmurou ela. - No  menos arrepiante visto daqui. No sou nenhuma covarde, mas no me sentiria insultada se me agarrasse a mo.
       -Eu no me consideraria insultado se voc agarrasse a minha.
       De modo que os dois ficaram ali, de mos dadas, no que para Blair parecia que era o fim do mundo.
       A terra descendia em uma ngreme, dentada e perigosa inclinao. Logo se elevava formando lgubres montes ou onduladas mesetas de rocha. Hectares dessa paisagem, 
pensou ela. Hectares de desolao e sombras com o nico som do gemido entrecortado do vento gelado atravs da grama silvestre.
       -H muitos lugares onde esconder-se -comentou ela. -Podemos utiliz-los to bem como eles. A maior parte dos combates tero que ocorrer a p. S os melhores 
cavaleiros poderiam dominar um cavalo neste terreno. -Blair entreabriu os olhos. - Ser melhor que baixemos a jogar uma olhada ao que teremos que nos enfrentar.
       -O que te pareceria montar em uma cabra?
       -No me entusiasma. -Entretanto, apertou-lhe a mo. - Alm disso, se no pudermos fazer isso dar certo agora, a plena luz do dia e sem presso, no nos resultar 
fcil faz-lo de noite, no calor da batalha.
       Havia muitos pontos de apoio para a descida, descobriu Blair quando comearam a baixar. E o terreno era muito teimoso e obcecado para esmiuar-se sob suas 
botas. Sem dvida tivesse preferido um campo plano para a me de todas as batalhas, mas havia possibilidades de usar o que tinham em proveito prprio.
       -Algumas destas gretas e cavernas pouco profundas poderiam resultar muito teis para ocultar homens e armas.
       -Sero-o. -Larkin se agachou e olhou dentro de uma pequena abertura. - A eles tambm lhes ocorrer, como disse quando estvamos na Irlanda.
       -Sim, mas ns chegamos primeiro, e bloquearemos alguns pontos estratgicos. Com magia, possivelmente... podemos falar com a Glenna e Hoyt a respeito disso. 
Ou nos valendo das cruzes.
       Larkin assentiu e se ergueu.
       -Poderamos ocupar o terreno elevado ali e talvez ali. -Larkin assinalava enquanto estudava a configurao do lugar. - Da nos lanaramos sobre eles, isso 
 o que faramos. Cair sobre esses malditos bodes mantendo aos arqueiros no terreno elevado.
       Blair subiu em uma rocha elevada.
       -Necessitaremos luz, isso  fundamental.
       -No podemos contar com a lua.
       -A noite em que tivemos aquela pequena escaramua na casa de Cian, Glenna conseguiu criar uma espcie de luz. Se lutarmos na escurido, aniquilaro-nos como 
a moscas. Este  seu terreno. No podemos colocar armadilhas aqui -acrescentou, franzindo o cenho com um gesto pensativo. - No podemos nos arriscar a que nossos 
homens tropecem ou caiam dentro de uma delas.
       Larkin lhe tendeu a mo quando ela se preparou para saltar a terra.
       -Ela tambm vir aqui, de noite, para estudar o terreno e preparar sua estratgia -disse ele. -  possvel que j tenha vindo; antes que ns nascssemos. 
Antes que tivessem nascido quem nos trouxe ao mundo. Tecendo seu tecido e sonhando com a chegada dessa noite.
       -Sim, ela poderia ter estado aqui. Mas...
       -O que?
       -Eu tambm. Vi este lugar em minha cabea desde que sou capaz de recordar. Dali de cima, daqui de baixo. A plena luz do sol e em silncio, na escurido e 
rodeada dos gritos da batalha. Conheo este lugar -sussurrou Blair. - Tive medo dele durante toda minha vida.
       -E, entretanto, vieste. Est aqui.
       - como se me tivessem ido empurrando, cada vez mais perto, todos os dias. No quero morrer aqui, Larkin.
       -Blair...
       -No, no tenho medo de morrer. Tampouco estou obcecada com essa idia. Mas OH, Deus, no quero acabar meus dias aqui, neste lugar inspito e solitrio. Afogada 
em meu prprio sangue.
       -Basta. -Agarrou-a pelos ombros. - Basta j.
       Agora os olhos de Blair se viam enormes e intensamente azuis.
       -No sei se o vi ou s o imaginei a causa do medo. No sei se vi a mm mesma morrer neste lugar. Malditos deuses, em qualquer caso, por suas mensagens contraditrias 
e suas demandas absurdas.
       Blair apoiou as mos no peito do Larkin para lhe apartar e conseguir um pouco de espao.
       -Est bem, estou bem. S foi um pequeno ataque de pnico.
       - este lugar, este lugar sinistro. Mete-se debaixo da pele e te gela o sangue nas veias.
       -Bem, aproveitemos isso. Mas sabe uma coisa? Sabe o que  o que inclina a balana a nosso favor? Toda essa gente que vir aqui, que ocupar este terreno e 
lutar neste lugar, tem algo em seu interior. Seja o que for, j lhe tem feito um corte de mangas ao mal.
       -Que manga?
       Ela no o teria acreditado possvel, no em meio daquele horrvel silncio, naquela paisagem de pesadelo, mas se ps-se a rir a gargalhadas at que lhe doeram 
as costelas.
      
       Explicou ao Larkin o significado dessa expresso enquanto atravessavam o acidentado terreno. E lhe pareceu mais simples ento caminhar por ele, estud-lo, 
pensar com claridade. Quando voltaram a escalar a descida ngreme j se sentia mais tranqila, mais segura.
       Limpou as mos nas calas e foi dizer algo, mas em vez disso ficou paralisada.
       A deusa estava frente a eles, envolta em um halo de luz. Este parecia surgir de sua tnica branca que, mesmo assim, parecia mate comparada com sua luminosa 
beleza.
       "Estou acordada -pensou Blair --, de modo que isto  novo. Completamente acordada, e aqui est ela."
       -Larkin, voc tambm v...?
        Mas ele j estava com um joelho em terra e inclinando a cabea.
       -Minha senhora.
       -Meu filho, ajoelha-te diante daquilo no que em realidade no acreditaste alguma vez?
       -Comecei a acreditar em muitas coisas.
       -Ento acredita no que vou dizer-te -prosseguiu Morrigan. - Vocs so muito apreciados para mim. Cada um de vocs. Todos vocs. Estive observando sua viagem 
para aqui, atravs da luz e a escurido. E voc, filha de minhas filhas, no te ajoelhar?
       -Precisa disso?
       -No. -E Morrigan sorriu. - S perguntava. Levante-te, Larkin. Tem minha gratido e me orgulho de ti.
       -Alguma dessas duas coisas vem acompanhada de um exrcito de deuses? -perguntou Blair, ganhando um alarmado vaia do Larkin para que se calasse.
       -Vocs so meu exrcito, vocs e o que levam em seu interior para o futuro. Crem que lhes pediria isto se no fosse possvel realiz-lo?
       -No sei -respondeu Blair. - No sei se os deuses s pedem o que pode fazer-se.
       -E, entretanto, vem, prepara o combate, lutas. Conta com minha gratido, meu orgulho e minha admirao. Neste segundo ms, o tempo da aprendizagem quase h 
chegado ao seu fim. Agora chegar o tempo do conhecimento. Para obter a vitria nesta guerra devem saber.
       -O que  o que devemos saber, minha senhora?
       -Sabero quando chegar o momento de saber.
       -J vejo. -Blair estendeu as mos. - Crtico. Por que tudo tem que ser sempre crtico?
       -Isso te frustra, sei. -Os olhos de Morrigan pareciam sorrir quando se aproximou deles. Mas no cabia nenhuma dvida sobre o afeto que transmitiam seus dedos, 
quentes e reais, sobre a bochecha de Blair. - Os mortais podem ver o caminho que riscaram os deuses, mas deles depende escolher uma direo e segui-la. Eu lhes digo 
que os seis que formam o crculo so minha esperana. A minha e a da humanidade. So minha alegria e o futuro.
       Agora Morrigan acariciou a bochecha do Larkin.
       -E esto bentos.
       Morrigan retrocedeu e o sorriso desapareceu de seus olhos. Em seu lugar agora havia tristeza, e uma espcie de poderosa fora.
       -O que se aproxima deve acontecer. Haver dor e sangue e perda. No h vida sem custo. As sombras cairo, a escurido sobre a escurido, e os demnios se 
levantaro dela. Uma espada arde atravs desta e brilha uma coroa. A magia pulsa como um corao e o que se perdeu pode recuperar-se se esse corao o deseja. Transmitam 
estas palavras ao crculo e as recordem. Porque no  a vontade dos deuses a que obtm a vitria, a no ser a vontade da humanidade.
       Morrigan se desvaneceu junto com a luz, e Blair permaneceu ali com o Larkin, no bordo do terreno maldito.
       -Voc o recorda? -Blair levantou as mos e as deixou cair. - Como se supe que nos lembraremos de tudo o que h dito? Voc o far?
       -Recordarei-o.  minha primeira conversa com uma deusa, asseguro-te que no esquecerei nem um s detalhe.
      
       Voltaram a levantar o vo, afastando do vale em direo ao primeiro dos trs pontos onde Blair tinha decidido que se colocassem as armadilhas. Uns minutos 
mais tarde tocaram terra em uma formosa clareira do bosque atravessado por um bonito rio de leito sinuoso.
       Blair tirou o mapa em que tinham estado trabalhando os seis.
       -Muito bem,  obvio que nosso portal se encontra aproximadamente no mesmo lugar aqui e na Irlanda e logo realizamos o mesmo ato de f quanto  via de entrada 
de Lilith, quer dizer, que os escarpados esto aqui e ali mais ou menos no mesmo lugar, ento os temos a uns trinta quilmetros para o oeste.
       -Assim , como pode ver aqui. -Larkin deslocou o dedo sobre o mapa ao longo da costa. - E tambm as cavernas, que Lilith poderia usar como sua base.
       -Poderia faz-lo -conveio Blair. - E tambm poderia ocultar ali a parte de suas tropas. Mas tem mais sentido estabelecer a base em um lugar mais prximo ao 
campo de batalha. Mesmo que no o faa, em algum momento se ver obrigada a mover-se do oeste a leste, e se decide tomar a rota mais direta, teria que cruzar por 
aqui. E por este rio. -Fez um gesto para a gua. -  mais inteligente cruz-lo perto deste ponto, onde  mais estreito. Moira disse que se encarregou do encantamento.
       -Sim, fez que trouxessem para o homem santo, como voc queria. A gua foi benta.
       -No  que duvide de seu homem santo, mas me sentiria melhor se o comprovasse pessoalmente.
       Colocou a mo no bolso e tirou um frasco com sangue.
       -Cortesia do vampiro ao que cravou no cho a outra noite. Tentemos um pouco de qumica.
       Larkin foi at o rio a encher o cantil. Enquanto estava ali, agarrou um pouco de gua com as mos e a bebeu.
       -Limpa e fresca em qualquer caso.  uma pena que no seja o bastante profundo para poder nadar um momento, ou te convenceria para que voltasse a te tirar 
a roupa.
       -Temos o tempo contado, menino bonito. -Blair se agachou na borda, junto a ele, e abriu o frasco. - S um par de gotas. Isto funcionar ou no funcionar.
       Verteu umas gotas de gua, e o sangue comeou a borbulhar e ferver ao mesclar-se com ela.
       -Muito bem! Tm a um autntico homem santo. Olhe como ferve o sangue. -ficou de p e, contente, deu uns passos de baile. - Imagina esta cena. Com o passar 
do caminho parte o malvado exrcito dos vampiros. Tem que cruzar o rio, se no neste ponto, em algum outro. "Merda, teremos que molhar os ps, mas somos o malvado 
exrcito dos vampiros e no tememos a um pouco de gua pestilenta." Ento comeam a cruzar o rio. Se at posso lhes ouvir. "Splash, splash, merda, merda!" para frente, 
para trs, s piorando as coisas. Ps molhados, diabos. Ps chamuscados, ardentes... e pior ainda se a alguns entra o pnico e chocam entre eles e caem  gua. OH, 
sorte, OH, encantamento!
       Larkin permaneceu agachado e sorrindo ante a alegria que sentia Blair.
       -Foi condenadamente preparado de sua parte.
       -Foi ferradamente brilhante! Bate aqui! -Agarrou a mo do Larkin e golpeou sua palma contra a dele. -  um fato.
       Larkin se levantou, aproximou-a para ele e a beijou larga e profundamente.
       - um fato que eu gosto muitssimo.
       -Quem quer discuti-lo? No seria maravilhoso, OH, no seria incrvel, se Lilith encabeasse a marcha e iniciasse seu pavoneio atravs do rio. O passo fundamental. 
Isso eu adoraria. -Blair respirou profundamente. - Muito bem, basta de diverso e frivolidade. Vamos comprovar o resto das armadilhas.
       Um dia bom, pensou Blair enquanto se dirigiam  convocao da segunda armadilha. Arco ris, drages, deusas. Fazia frente a um de seus pesadelos pessoais 
caminhando pelo vale, e a tinha deixado atrs. Agora estava vendo como cobravam forma suas tticas de guerra.
       O exrcito de Lilith ia receber uns quantos chutes no rabo muito antes da data do Samhain. Posto que os vampiros no se distinguiam precisamente por atender 
a seus feridos nem por desenvolver fortes vnculos entre si, Lilith provavelmente perderia a uma parte importante de seu exrcito durante sua marcha para o lugar 
do destino.
       Quando Larkin iniciou sua descida, Blair se preparou para receber outra felicitao. Mas logo ele trocou de direo. Desconcertada, olhou para baixo e viu 
uma carreta derrubada no caminho.
       Havia um homem deitado junto a ela, uma mulher com um beb nos braos e uma menina agarrada a suas saias.
       O beb lanou um chiado que o mesmo poderia ter sido de prazer como de terror ao ver que um drago dourado estava a ponto de posar-se em terra com uma mulher 
montada em seu lombo.
       A jovem me ficou como um lenol e retrocedeu ao ver que o drago se convertia em um homem.
       -OH, me bendita!
       -No temam. -Larkin lhe falou brandamente, acrescentando o que Blair qualificava como seu sorriso de mil volts. -  s um pouco de magia. Sou Larkin, filho 
do Riddock.
       -Meu senhor.
       As bochechas da mulher seguiam intensamente plidas, mas conseguiu fazer uma reverncia.
       -Vejo que tm um problema. Seu homem est ferido?
       - minha perna. -O homem fez um esforo por sentar-se, mas s conseguiu proferir um gemido de dor. - Temo-me que est quebrada.
       -Deixem que lhe jogue uma olhada.
       Blair se ajoelhou a seu lado. O homem tinha o rosto cinzento, advertiu ela, e uma contuso no queixo.
       -Quebrou o eixo. Graas aos deuses que minha famlia no sofreu nenhum dano, mas eu ca de mal jeito. E logo o maldito cavalo se escapou.
       -Poderiam ter uma pequena fratura aqui. -Blair lhe sorriu para lhe animar. - No  to ruim como a que sofreu o eixo, mas no poder caminhar durante algum 
tempo. Necessitar ajuda, Larkin.
       Este examinou a roda.
       -No h maneira de arrum-lo sem ter madeira  mo. Para onde lhes dirigiam? -perguntou-lhe  mulher.
       -Meu senhor, pensvamos fazer um alto na estalagem que h de caminho  cidade do Geall, e logo continuar viagem pela manh. Meu marido tem conhecidos ali. 
Seu irmo, Niall, forma parte do guarda do castelo.
       -Conheo muito bem ao Niall. Recolham o que crem que no podem deixar aqui e lhes acompanharemos at a estalagem.
       A menina de uns quatro anos, deu uns puxes  tnica do Larkin.
       -O que passou com suas asas?
       -De momento as guardei, mas logo voltarei a lhe mostrar isso Agora deve ajudar a sua me.
       Fez- um gesto ao Blair e lhe perguntou, referindo se ao homem:
       -Pode cavalgar?
       -Voc teria que ir trotando. Podemos por uma tala temporariamente na perna, mas no acredito que deva mover-se muito. A dor  muito intensa.
       -Muito bem, ento ter que ser pelo ar.  estalagem s h um par de quilmetros.
       -Leva a eles. Dois adultos, um deles ferido, e dois meninos. Isso  aproximadamente tudo o que pode carregar.
       -Eu no gosto de te deixar aqui sozinha.
       -Estamos em pleno dia -lhe recordou ela - e estou armada. Posso me adiantar e comprovar a seguinte armadilha. A que distncia se encontra, meio quilmetro 
nessa direo, verdade?
       -Sim, mas tambm poderia me esperar aqui. No demorarei mais de meia hora em ir e voltar.
       -E ficar perdendo o tempo junto a uma carreta imprestvel? Posso ir comprovar essa armadilha e estar novamente aqui para quando tiver completado sua viagem. 
Logo podemos ir examinar juntos a ltima das armadilhas e possivelmente estudar toda a zona, ver se houver algum atrasado que necessite ajuda. Retornaremos ao castelo 
antes que o sol se ponha e tomaremos um pouco de tempo livre.
       -Muito bem ento. De todos os modos iria assim que eu me tivesse partido.
       -Eu adoro que me compreenda to bem.
       Levou um pouco de tempo, no s ajudar a subir  famlia ao lombo do drago, mas tambm convencer primeiro  mulher de que podia fazer-se. De que tinha que 
fazer-se.
       -No tm nada de que lhes preocupar, Breda -argumentava Larkin exibindo todo seu poderoso encanto. - Voarei to perto do cho como me  possvel. Levarei 
a voc e a sua famlia  estalagem em um abrir e fechar de olhos e, uma vez ali, enviarei a procurar ajuda para seu marido. Amanh me encarregarei de que algum 
deva arrumar a carreta e logo lhes entregue isso ali onde estejam. No se pode pedir mais.
       -No, meu senhor, no. So muito amveis. -Contudo, a mulher permaneceu onde estava, esfregando-as mos. -  obvio, ouvi falar de seu dom. Todo Geall o conhece, 
mas outra coisa  v-lo... E a idia de viajar sobre um drago...
       -No cr que sua filha ter uma boa histria que contar? Vamos, seu marido necessita ajuda.
       -Aye. Bom, sim,  obvio,  obvio.
       Larkin trocou de forma antes que ela pudesse negar-se e deixou que Blair se fizesse cargo do resto. Esta ajudou ao homem ferido a levantar-se, sustentando-o 
enquanto Larkin apoiava o ventre no cho. Logo lhe sujeitou com uma corda que havia na carreta.
       -Estou-lhes muito agradecido -disse ao Blair. - No sei como nos tivssemos podido arrumar isso sem sua ajuda.
       -Se lhes parecerem em algo a seu irmo, estou seguro de que algo lhes teria ocorrido. Niall  um bom homem. Fique atrs dele -lhe indicou Blair  mulher -, 
e mantenham aos meninos entre ambos. Agora lhes sujeitarei  costas de seu marido. Estaro seguros, prometo-lhes isso.
       -Eu gosto de suas asas. -A menina subiu engatinhando sobre o lombo do Larkin antes que sua me pudesse a impedir. - Brilham.
       Quando toda a famlia esteve acomodada e assegurada sobre seu lombo, Larkin girou a cabea para o Blair para esfregar o nariz contra seu brao. Logo se elevou 
no ar.
       Blair ouviu os gritos de alegria da menina quando o drago passou roando o caminho e se afastou.
       -Sei como se sente -murmurou Blair voltando a rir.
       Cruzou o caminho com o mapa na mo e comeou a atravessar o primeiro campo.
       Gostava de caminhar e ter um pouco de tempo para ela. No era que no estivesse louca por aquele homem, pensou enquanto acariciava a flor que levava na casa 
do casaco, mas estava muito acostumada a estar sozinha. E todo aquele assunto tinha eliminado seu tempo de solido.
       Desde que comeou toda a histria, ela tinha formado parte de uma equipe... um crculo, corrigiu-se. Pessoas s que respeitava e nas que acreditava, no havia 
dvida disso, mas tambm pessoas com as que tinha que consultar.
       Em geral, como integrante de uma equipe, tinha resultado muito melhor do que ela esperava. Talvez, decidiu, tudo fosse questo de quem compusera o grupo.
       E, de algum jeito, atravs disso, ela tinha acabado sendo a metade de um casal. No teria acreditado em nenhum momento que isso fosse acontecer, no outra 
vez. E menos ainda com um homem que sabia tudo o que tinha que saber sobre ela e no s o compreendia mas tambm o valorava.
       Sabia que quando ambos continuassem por caminhos separados, ficaria destroada. No havia nenhuma outra alternativa vivel, de modo que no tinha muito sentido 
lamentar-se por isso, e muito menos esbanjar o tempo que ainda tinham para estar juntos compadecendo-se de si mesmo.
       Em qualquer caso, ambos tinham ainda tempo para compartilhar antes de ficar sozinhos e tristes.
       Era melhor, muito melhor, desfrutar e apreciar esse tempo. Quando se tivesse acabado, ela poderia voltar a vista atrs e saber que tinha amado e tinha sido 
amada.
       Elevou a vista ao cu, perguntando-se como iria ao granjeiro e sua famlia em seu primeiro -e se ela tinha julgado bem  me da prole, sua ltima - viagem 
em drago.
       Larkin cuidaria deles. Era uma das coisas nas que era realmente bom. Em cuidar de outros. Se a isso se acrescentava o aspecto de um prncipe de conto de fadas, 
uma atitude agressiva no combate, um sorriso fcil e uma excelente resistncia na cama, tinha-se a algum quase perfeito.
       Blair voltou a consultar o mapa e saltou uma pequena cerca de pedra para entrar no seguinte campo.
       Mais  frente, detrs de umas poucas rvores, discorria a rota mais direta que unia a costa com o vale.
       "Eles avanaro por aqui -pensou Blair -, duas, possivelmente trs horas antes de chegar ao rio da gua benta." E, ao cair a noite, atravessariam depressa 
aquela zona aberta em direo ao refgio que oferecia o bosque, uns quantos quilmetros terra adentro.
       Esta rota era o caminho lgico e mais eficaz. Alm disso, graas s granjas existentes na zona, e as cabanas que salpicavam a paisagem, tinham a possibilidade 
de conseguir comida fresca.
       "OH, sim -decidiu Blair -, por aqui chegar Lilith com seu exrcito. Tem que faz-lo por esta rota. Em etapa, possivelmente, deixando a parte de seus monstros 
nas cavernas e em vrios pontos seguros com o passar do caminho, para caar, para tender emboscadas e levar a cabo incurses relmpago."
       -Isso  o que eu faria -murmurou Blair e, com um ltimo olhar ao mapa, desviou-se para o sudeste, em direo a um pequeno e escasso grupo de rvores.
       Ela o viu quase imediatamente, e seu primeiro pensamento foi que algum menino ou algum caminhante tinha tropeado com a armadilha e cado dentro dela.
       O corao lhe subiu  garganta, e ps-se a correr para o grande buraco escavado na terra, aterrada ante a possibilidade de encontrar-se ali com corpos empalados 
nas afiadas estacas que havia no fundo.
       Entretanto, o que viu foi um monto de armas dispersadas e um cavalo bem morto.
       -Adiantaram-se ao calendrio previsto -disse quase em um sussurro, e, a pesar do brilhante sol, levou-se a mo  costas em busca de sua espada.
       Deviam ter acelerado o processo, quando chegaram os relatrios que eles seis tinham ido ao Baile dos Deuses com armas e provises. E dali se esfumaram.
       Lilith devia saber para onde tinham ido, pensou Blair. De modo que seu exrcito estava no Geall, e se tinha posto em marcha. E j tinha passado por aquele 
lugar. A armadilha tinha funcionado. Pela quantidade de armas que havia no buraco, parecia que ali tivessem morrido uma dzia de vampiros... e o desafortunado cavalo.
       Agachou-se, desejando poder dispor de um pouco de corda. Deviam recuperar aquelas armas -no desperdiar nada - e tirar dali a aquele pobre cavalo.
       Estava pensando de que forma Larkin e ela podiam faz-lo quando se deu conta de que a luz tinha trocado. Ao levantar a vista, comprovou que o cu se havia 
talher de nuvens escuras.
       -OH, merda.
       Enquanto a penumbra caa sobre o campo, ela se levantou e comeou a retroceder, afastando do buraco. Ento pensou que no eram s uma dzia de vampiros os 
que tinham cansado em uma armadilha. Ela mesma o tinha feito.
       E eles apareceram, surgindo da terra.
      
      
      19
      
       Acabou com dois deles rapidamente, com um cutilada amplo e instintivo da espada antes que estivessem completamente desenterrados. Mas no fundo de sua cabea 
tinham comeado a soar uns alarmes que lhe diziam que se encontrava em um grave problema.
       Oito, contou, alm dos dois aos que tinha convertido em punhados de p. Os vampiros a tinham rodeado, lhe impedindo qualquer possibilidade de retirada. Colocou-se 
diretamente na boca do lobo quase assobiando uma melodia. Se conseguia sair dessa com vida -e tinha todas as probabilidades contra - j se amaldioaria mais tarde. 
Nesse momento, posto que voar no era uma opo, lutar era o nico que ficava.
       Blair se obrigou a recordar que, dentro dela, tinha uma enorme capacidade de lutar. Tirou a estaca de seu cinturo, bloqueou a primeira faca com sua espada 
ao tempo que lanava um chute para trs. Voltou-se de uma vez que fazia girar a espada no ar, cortando carne, ganhando tempo. Ao divisar uma brecha, atacou com a 
estaca.
       Um vampiro a menos.
       Mas aqueles no eram uns recrutas bisonhos que fossem cometer muitos enganos estpidos e fatais. Blair se enfrentava a uns soldados veteranos e treinados, 
e ainda eram sete contra uma.
       Imaginou o fogo e o enviou atravs da espada que Glenna tinha encantado.
       -Sim, venham. Venham!
       Atacou com a espada flamejante e fez morder o p a um de seus inimigos, que caiu a terra com um brao envolto em chamas.
       Logo, quando foi lanar o seguinte chute, um deles lhe agarrou o p e a enviou voando pelo ar. Chocou violentamente contra o tronco de uma rvore e viu um 
monto de estrelas flutuando em um campo cinza bordeado por um vermelho nauseabundo. Mas o vampiro que a tinha atacado se topou com fogo e ao, e caiu dentro da 
armadilha lanando um alarido.
       Blair rodou sobre o cho e, com uma horrvel dor lhe atravessando o corpo, seguiu atacando com a espada flamejante. Tinha o brao esquerdo intumescido do 
ombro at a mo e tinha perdido a estaca. Atacou, golpeou, cortou, recebeu um duro golpe no rosto que quase a fez cair dentro da armadilha. Conseguiu salvar de um 
salto e lutou por manter-se de p e, atirando golpes violentos e terrveis, conseguiu repelir o seguinte ataque.
       Um dos vampiros procurou sua garganta e Blair estrelou o punho da espada contra a ponte de seu nariz. Quando ele caiu para trs, ela sentiu que lhe rompia 
o cordo que sustentava as cruzes que tinha penduradas ao pescoo.
       Agora no tinha a estaca e tampouco as cruzes. E ainda ficavam cinco deles. No o conseguiria, j no confiava em poder cont-los at que chegasse Larkin 
para equilibrar as foras.
       Ou seja que no morreria no vale a no ser ali e ento. Mas Deus sabia que antes se levaria com ela a todos os que pudesse, de modo que, quando Larkin voltasse 
a procur-la, pudesse acabar com o resto.
       Seu brao esquerdo estava quase inutilizado, mas ainda tinha os ps, e ao tempo que utilizava a espada flamejante, lanou chutes a torto e a direito. Eles 
tinham conseguido debilit-la rompendo sua forma, seu ritmo. Conseguiu bloquear o golpe de uma espada, mas a ponta da mesma lhe abriu um comprido corte na coxa quando 
baixava. Ao tropear ligeiramente, abriu o guarda, de modo que, quando outro dos vampiros atacou, o golpe lhe deu totalmente no estmago e a deixou sem ar enquanto 
seu corpo voava para trs.
       Caiu pesadamente a terra e sentiu que algo se rasgava em seu interior. Com as foras que ficavam, agitou a espada s cegas e teve a sinistra satisfao de 
ver um de seus inimigos envolto em chamas.
       Logo lhe arrancaram a espada da mo e j no ficou nada com que lutar.
       "Quantos ficavam ainda? -perguntou-se. - Trs? Possivelmente trs. Larkin poderia com eles. No teria problemas." Com a cabea lhe dando voltas, fez um enorme 
esforo para voltar a ficar de p. No queria morrer tendida no cho. Fechou os punhos e se esforou em no perder o equilbrio.
       Talvez, s talvez, pudesse acabar com um mais, s um mais, com as mos antes de que a matassem.
       Mas os vampiros retrocederam. Trs? Quatro? Via dobrado. Finalmente conseguiu enfocar e viu a Lora que planejava sobre o cho.
       "Eles no tinham inteno de me matar -pensou Blair com a mente nublada. - S me estavam desgastando, acabando com minha resistncia. Reservando-me para ela." 
Algo pior que a morte, compreendeu enquanto o sangue lhe gelava nas veias. Perguntou-se se poderia encontrar uma arma, alguma maneira de acabar com sua vida antes 
de que Lora a convertesse em um monstro.
       Se pudesse consegui-lo, se conseguisse lanar-se dentro da armadilha. Melhor empalada que convertida em um deles.
       -Estou realmente impressionada. -Lora sorriu levemente ao tempo que aplaudia. - Derrotaste a sete de nossos guerreiros mais veteranos. Perdi uma aposta com 
Lilith. Disse-lhe que no seria capaz de vencer a mais de quatro.
       -Alegra-me ter ajudado a que perdesse.
       -Bom, tinha uma pequena vantagem. Tinham ordens de no te matar. Esse prazer ser s meu.
       -Isso acredita?
       -Sei. E esse casaco? Desejei esse casaco de couro do momento em que te vi na borda daquela estrada da Irlanda. Ficar maravilhoso em mim.
       -Ou seja, que foi voc? Sinto muito, mas todos vocs cheiram igual para mim.
       -Eu posso dizer o mesmo de vocs os mortais. -Lora sorriu luminosamente. - Falando de mortais, tenho que dizer que seu Jeremy era absolutamente delicioso.
       Sem deixar de sorrir, levou-se as pontas dos dedos aos lbios e as agitou como se estivesse revivendo o momento.
       "No deve pensar no Jeremy -se ordenou Blair. - No deve lhe dar essa satisfao." De modo que no disse nada, enfrentando a risada da Lora com um silncio 
impassvel.
       -Mas onde esto minhas maneiras? Conhecemo-nos,  obvio, mas no fomos apresentadas formalmente. Sou Lora, e serei sua ama.
       -Blair Murphy, e serei a que te converta em um monto de p. E o casaco fica muito melhor em mim do que ficaria em ti.
       -Ser uma deliciosa companheira! Mal posso esperar. Porque sinto admirao e respeito por ti, te darei a possibilidade de lutar. S voc e eu. -Lora assinalou 
ao trio de soldados com o dedo e o agitou no ar. - Atrs, atrs, atrs, agora. Isto  entre ns.
       -Quer brigar? -"Pensa, pensa, pensa. Pensa por cima da dor, ordenou-se Blair. - Espadas, facas, com as mos?
       -Eu adoro com as mos. -Lora levantou as suas e moveu os dedos. -  to ntimo.
       -Por mim no h problema. -Blair se abriu o casaco para lhe mostrar que no levava nenhuma arma. - Posso te fazer uma pergunta?
       -Bem sr.
       -Esse acento  real ou s o finge?
       Tirou o cantil com gua que tinha enganchada ao cinturo.
       -Nasci em Paris, no ano de mil quinhentos e oitenta e cinco.
       Blair lanou uma gargalhada.
       -Venha j.
       -Est bem -disse Lora, rendo a sua vez -: mil quinhentos e oitenta e trs. Mas que mulher no mente um pouquinho sobre sua idade?
       -Foi mais jovem que eu quando morreu.
       -Era mais jovem quando me concederam a verdadeira vida.
       -Tudo  questo de perspectiva. -Blair elevou o cantil de gua e a abriu. - Importa-se? Seus meninos me deram muito trabalho. Sinto-me um tanto desidratada.
       -Por favor.
       Blair se levou o cantil aos lbios e bebeu um gole. A gua foi como um blsamo para sua garganta seca.
       -Se acabar contigo, seus meninos se encarregaro de acabar comigo?
       -No poder acabar comigo.
       Blair inclinou a cabea ligeiramente e elevou uma rpida prece.
       -Quer apostar?
       A seguir lhe lanou o cantil, de modo que a gua benta caiu sobre o rosto e o pescoo da Lora.
       Os gritos foram como navalhas oxidadas atravessando o crebro de Blair. Havia fumaa e um nauseabundo fedor de carne queimada. Afastou-se cambaleando-se, 
enquanto Lora fugia sem deixar de proferir uns horrveis alaridos.
       "Uma arma", pensou Blair, lutando por manter a vista enfocada, por sustentar-se em p. Tudo, algo era uma arma.
       Agarrou um ramo baixo de uma rvore tanto para apoiar-se para realizar um ltimo e desesperado tento. Recorrendo s foras que ainda ficavam, atirou do ramo 
e sentiu que esta se quebrava. Com algo entre um soluo e um grito, agitou o ramo ante os trs vampiros que se equilibraram sobre ela.
       O drago se lanou em picado do cu, movendo a cauda como se fosse um ltego. Blair viu como um dos vampiros saa despedido de cabea para a armadilha enquanto 
o drago se convertia em homem e tirava a espada do arns que tinha ficado a seus ps.
       Quo ltimo alcanou a ver antes de cair ao cho inconsciente foi a chama brilhante que despedia a espada e atravessava a escurido.
       Larkin lutou como um demente, sem pensar em sua prpria segurana. Se os vampiros conseguiam lhe atirar algum golpe, ele no o sentia. Sua fria e seu medo 
estavam mais  frente da dor. Os vampiros eram trs, mas se tivessem sido trinta ele se teria aberto passo entre eles como um deus vingador.
       Seu drago tinha empalado a um deles nas estacas da armadilha e ele agora atirou um golpe terrvel com a espada no ombro de outro. O brao amputado caiu ao 
cho e se converteu em p, e a monstruosa criatura fugiu proferindo alaridos atravs do campo. O terceiro bateu em retirada. Larkin agarrou uma estaca e a lanou 
pelo ar. Com ela o enviou ao inferno.
       Sem soltar a espada, preparado para lutar com quantos vampiros pudessem surgir da escurido, agachou-se junto a Blair. As palavras saram a fervuras de sua 
boca e todas a nomeavam. Estava plida, mas o sangue que manchava sua cara e os machucados comeavam a tornar-se negros.
       Quando abriu os olhos, ele viu que os tinha frgeis por causa da dor.
       -Meu heri. -Sua voz era apenas um sussurro rouco. - Temos que nos mover, temos que ir daqui; poderia haver mais. OH, Deus, OH, Deus, estou ferida. Tem que 
me ajudar a me levantar.
       -Fica aquieta um momento. Preciso ver quo grave  a ferida.
       - grave. ...  o sol que volta, ou estou avanando pelo estpido tnel para essa luz branca da que fala todo mundo?
       -O sol tornou a aparecer. Agora tudo est bem.
       -Dez, havia dez deles, e onze com essa puta francesa. Minha cabea... merda. Tenho uma comoo. Ainda vejo dobrado. Mas... -No pde reprimir o grito quando 
Larkin lhe moveu o ombro.
       -Sinto muito. A str, a str, sinto muito.
       -Deslocado. No acredito que esteja quebrado, s fora da articulao. Larkin, tem que voltar a coloc-lo em seu lugar. Eu no posso... no posso. Ter que 
faz-lo voc, de acordo? Logo... OH, Jesus, Jesus, v a por um carro. No posso montar.
       -Agora deixa que eu me ocupe de ti, querida. Confiar mais em mim?
       -Farei-o. Confiarei em ti. Mas antes necessito que voc...
       Ele o fez rapidamente, apoiando-a com fora contra a rvore e pressionando seu corpo contra o dela enquanto voltava a lhe colocar o ombro em seu lugar.
       Esta vez Blair no gritou, mas Larkin estava observando seu rosto e viu como seus olhos se fechavam antes de desabar-se contra ele.
       Arrancou-se a manga da tnica, e a utilizou para lhe enfaixar a ferida da coxa antes de examinar seu torso em busca de alguma costela quebrada. Uma vez que 
teve feito todo o possvel por ela, Larkin a deitou brandamente no cho antes de ficar em p para recolher as armas. Depois de colocar no arns, a colocou em cima 
e confiou em que se sustentasse.
       Logo trocou de homem a drago, recolheu ao Blair e a levou entre suas garras como se fosse feita de cristal.
      
      
       -Algo passa. -Glenna colheu com fora o brao da Moira enquanto ambas estavam no campo de prticas trabalhando com um punhado das alunas mais prometedoras. 
- Algo mau e grave. Acorda ao Cian. Desperta-o agora.
       Ambas olharam o cu, negro para o sudeste, e a ondulada cortina de escurido que caa dele.
       -Larkin. Blair.
       -V procurar ao Cian -repetiu Glenna, e ps-se a correr. No teve necessidade de gritar chamando o Hoyt; ele j corria para ela.
       -Lilith -foi quo nico Glenna disse.
       -Midir, seu mago -acrescentou Hoyt. E a agarrou de um brao, levando-a para o castelo. -Isto deve ser obra dela.
       -Ela j est aqui e Larkin e Blair esto a fora, em alguma parte, em meio da escurido.  necessrio que faamos algo, depressa. Rebater o encantamento. 
Tem que haver uma maneira de faz-lo.
       -Riddock deveria enviar cavaleiros.
       -Eles nunca conseguiro chegar a tempo. Est a quilmetros de distncia, Hoyt.
       -Tm que faz-lo de todos os modos.
       Quando entraram correndo no castelo, Cian descia de sua habitao com a Moira lhe pisando os calcanhares.
       -J vinha para c -disse esta.
       -Notei-o. Uma noite falsa. Posso chegar ali mais de pressa que vocs, que qualquer mortal.
       -E do que servir isso se o sol voltar a brilhar? -perguntou Moira.
       - hora de que prove essa maldita capa.
       -No devemos nos separar. No podemos nos arriscar. E esse assunto de enviar cavaleiros, Hoyt. -Glenna meneou a cabea. - Eles no sero de nenhuma ajuda 
agora. Necessitamos um crculo e um contrafeitio. -O que necessitavam  na verdade era um milagre, pensou. - E o necessitamos j.
       -Tem que ser fora, ao ar livre. -Hoyt olhou a seu irmo aos olhos. - Arriscar? Podemos tent-lo sem ti -acrescentou antes de que Cian pudesse falar. - Ns 
trs.
       -Mas as possibilidades so melhores comigo. Faamo-lo.
       Reuniram todas as coisas que necessitavam. Hoyt e Glenna j estavam fora do castelo, levando a cabo uns precipitados preparativos, quando Cian voltou a baixar, 
esta vez com a capa.
       Moira se aproximou dele quando chegou ao p da escada.
       -Acredito que se tiver f em seu irmo fortalecer o encantamento de amparo.
       -Isso acredita?
       -Acredito -respondeu Moira no mesmo tom moderado - que sua disposio a arriscar tanto por seus amigos j te proporcionou o amparo que necessita.
       -Logo o averiguaremos. -colocou-se a capa e se cobriu a cabea com o capuz. - Quem no arrisca, no ganha -acrescentou. E, pela primeira vez em quase mil 
anos, saiu  luz do sol.
       Notou calor. Sentiu-o sobre ele como chumbo derretido. Oprimia-lhe o peito, deixava sem flego, mas mesmo assim atravessou o ptio.
       -Ainda no me converti em uma tocha humana -disse - mas no poria nenhuma objeo se isto no se prolongasse muito.
       -Faremo-lo to depressa como podemos -disse Glenna. -Luminosas benes para ti, Cian.
       -Mantenhamos a luz fora disto, se no te importar.
       -Cornalina para a velocidade. -Glenna comeou a colocar cristais sobre um pentagrama desenhado no cho. - Cristal de lava para a luz. gatas ramificadas para 
o amparo, vilano para a unio. -Logo agarrou um punhado de ervas e as deixou cair em uma terrina. - Alho para o amparo. Desculpe -lhe disse a Cian.
       -Isso  um mito.
       -Bem, de acordo. Acebo para a recuperao do equilbrio. Rosa e salgueiro. Poder e amor. Unam as mos. Voc no deve tirar as da capa, Cian, ns lhe agarraremos 
isso dentro da manga.
       -Concentrem-se -ordenou Hoyt com os olhos postos no cu negro, a noite que se estendia pelo sul e o este. - Tirem o que tm. Todos tm poder dentro de vocs. 
Tirem e forjem o crculo.
       -Guardies das Atalaias -chamou Glenna -, convocamo-lhes.
       -Do leste, do sul, do oeste, do norte, convocamos seu fogo para formar aqui este crculo.
       s palavras do Hoyt, as velas amarelas que Glenna tinha escolhido para que representassem o sol se acenderam subitamente.
       -Morrigan a poderosa, una-se a ns agora -continuou dizendo Hoyt. - Somos seus servos, somos seus soldados.
       Elevando os olhos ao cu, Glenna tirou tudo o que tinha em seu interior e o projetou.
       -Bendita sejam vocs e benditos ns que tentamos combater esta infmia. Magia contra magia, brancura e pureza contra a escurido, que aqui brote nossa fora 
contra este ataque. Que o poder e a justia faam retroceder a noite. Com a unio de nosso esprito elevemos nosso grito, rompamos este ttrico encantamento no cu 
do oriente. Atendam a nosso amor e nossa lealdade. Que o obtenhamos, que assim seja.
       A mo da Glenna tremeu na do Hoyt quando o poder percorreu o crculo. Com os olhos ainda elevados para o cu, ela viu o fragor do choque. Luzes que refulgiam 
e impactavam contra a escurido como se fossem espadas, desencadeando um trovo que fez estremecer a Terra.
       -Rebatamos a magia negra! -gritou Hoyt. - Obriguemo-la a retroceder, expulsemo-la. Chamamos o sol para que brilhe atravs da falsa noite.
       A guerra entre a escurido e a luz troava por cima de suas cabeas.
      
      Blair se debatia confusamente entre a conscincia e a dor.
      Sentia que o vento soprava junto a ela e lhe pareceu ver a terra imprecisa debaixo.
      Voando? Estava voando? Era isso o que acontecia que morria? Mas se estava morta, por que demnios lhe doa tanto?
       Tratou de mover-se, mas estava atada, apanhada. Ou possivelmente seu corpo simplesmente se negava a seguir funcionando. Ento as engenhou para girar a cabea 
e se encontrou com um pescoo dourado ante os olhos.
      "Larkin", pensou. E logo se afastou flutuando uma vez mais.
       Ele sentiu seu estremecimento e aumentou brandamente a presso para tranqiliz-la e fazer que se sentisse mais segura. Girou um pouco a cabea para olh-la, 
mas os olhos de Blair haviam tornado a fechar-se.
       Estava to plida... A via to frgil...
       Ele a tinha deixado sozinha.
       Toda sua vida recordaria a imagem dela sangrando, com apenas o ramo de uma rvore para defender-se enquanto os monstros a rodeavam como abutres.
       Se ele tivesse chegado s uns segundos mais tarde, ela agora estaria morta. Porque ele no tinha estado a seu lado. Porque se tinha encarregado de pr a salvo 
a outras pessoas e se atrasou um pouco para deixar que uma menina pudesse acariciar suas asas.
       Quando chegou a escurido, ele no tinha estado junto a Blair.
       O medo lhe comia por dentro ao pensar que no importava quo veloz tivesse ido para chegar at ela, no importava se tinha conseguido eliminar aos trs demnios 
que a tinham rodeado para faz-la servir de alimento, mesmo assim tinha chegado muito tarde para lhe salvar a vida.
       Inclusive quando viu o castelo na distncia, o medo seguia lhe roendo as vsceras. Viu que Moira saa correndo, e tambm Hoyt, Glenna, seu pai e outras pessoas. 
Mas mesmo assim quo nico sentia era esse medo.
       Assim que tocou terra trocou de forma sustentando ao Blair entre seus braos.
       -Est ferida. Est ferida.
       -Leva-a dentro, depressa. -Correndo junto a ele, Glenna apoiou os dedos no pescoo de Blair para comprovar o pulso. - A sua habitao. Irei procurar o que 
necessito. Moira, v com o Larkin, faz o que possa por ela. Irei em seguida.
       - muito grave?
       Cian subiu rapidamente a escada detrs da Glenna.
       -No sei. O pulso  dbil, irregular. Seu rosto... golpearam-na.
       -Mordidas?
       -No vi nenhuma.
       Procurou seu kit de emergncia e saiu disparada da habitao.
       Larkin tinha deitado ao Blair sobre a cama e permanecia imvel enquanto Moira apoiava as mos no rosto de Blair, em seus ombros, sobre o corao.
       -Quanto tempo esteve inconsciente? -perguntou Glenna ao entrar na habitao.
       -Eu... no sei. Desmaiou -conseguiu dizer Larkin. - Eu tive que... Tinha o ombro deslocado. Tive que... Ela desmaiou ao voltar a colocar o ombro em no lugar. 
Acredito que tornou a si uma vez no caminho de volta, mas no posso estar seguro. A escurido chegou de repente. Eu no estava com o Blair e eles a atacaram, estava 
sozinha.
       -Voc a trouxe at aqui. Moira, me ajude a lhe tirar o casaco, a roupa. Tenho que ver onde est ferida.
       Cian se aproximou para lhe tirar as botas.
       -Os homens deveriam partir -disse Moira.
       -Ela no  a primeira mulher a que vi nua e no acredito que isso preocupasse muito a Blair. Quantos eram? -perguntou-lhe Cian ao Larkin.
       -Blair h dito que eram dez. Dez e a francesa. Quando eu cheguei s ficavam trs.
       -Ela o tem feito pagar caro.
       Cian lhe tirou as calas com muito cuidado.
       Glenna reprimiu uma expresso de angstia ao ver as contuses e os cortes no corpo.
       -Costelas. -Agora sua voz era enrgica. - Provavelmente o rim. Machucados. O ombro tambm est golpeado. O corte da coxa  bastante superficial. Mas Deus, 
o joelho. Ao menos no est quebrado. No tem nada quebrado.
       -Ela... -Larkin se inclinou e agarrou uma mo flcida de Blair entre as suas. - Ela h dito que via dobrado. Comoo, chamou-o.
       Agora Glenna falou com um tom mais suave.
       -Por que no saem da habitao? Deixem que Moira e eu nos encarreguemos dela.
       -No, no voltarei a deix-la. Sente dor. Muita dor. Tem que lhe dar algo que o acalme.
       -Farei-o, Larkin, prometo-lhe isso. Por que no acende o fogo? Quero que a habitao esteja quente.
       Blair podia ouvir suas vozes. No era capaz de distinguir umas das outras, ou de entender as palavras, mas ouvia suficientes sons para saber que estava viva.
       A dor tambm o confirmava, isso e que lhe haviam dado uma soberana surra.
       Agora percebia alguns aromas. Fumaa de turfa, Glenna, e algo intenso e floral. Mas quando tratou de abrir os olhos, suas plpebras se negaram a cooperar. 
Isso fez que o pnico se escorresse em seu peito como pequenas e horrveis gotas de cido.
       Coma? Ela no queria estar em coma. A gente caa nesse estado e, s vezes, jamais saam dele. Preferia estar morta a ficar apanhada na escurido, ouvindo, 
sentindo, mas sem ser capaz de ver ou de falar.
       Ento notou que algo se deslizava por cima dela, como se fosse seda. Apenas um roce sobre a pele, logo debaixo desta, e a seguir mais profundamente, at onde 
a dor estava fechada como um punho.
       Depois a seda se esquentou, e finalmente lhe queimou. OH, Deus. Essa queimao obrigou ao punho a abrir-se at que a dor se estendeu e se quebrou em mil pedaos 
dentados.
       Seus olhos se abriram  luz ofuscante.
       -Puta que pariu!
       Em sua mente, ela gritou esse insulto, mas o som que saiu de seus lbios foi como um grasnido rouco.
       Agarrou ar para voltar a insultar, mas o pior da dor foi diminuindo at converter-se em uma palpitao lenta e regular.
       -Di, sei, curar-se di. Pode ver-me? Blair? No, fique aqui agora e me olhe.
       Blair se obrigou a abrir novamente os olhos. Glenna apareceu em seu campo visual, seu rosto muito prximo ao dela. Sua mo sustentou a nuca de Blair e lhe 
levantou brandamente a cabea.
       -Bebe um pouco disto. S um pouco. No posso te dar muito devido ao golpe que recebeste na cabea. Mas isto te ajudar.
       Blair tragou a beberagem e deu um coice.
       -Tem sabor de casca de rvore lquida.
       -No anda muito desencaminhada. Sabe onde est?
       -Voltei.
       -Como te chama?
       -Blair Murphy. Quer saber tambm meu grau e nmero de srie?
       Os lbios da Glenna se curvaram em um sorriso.
       -Quantos dedos?
       -Dois e meio. Tenho a viso um tanto imprecisa. -Mas se esforou em enfocar, em ver. A habitao estava cheia de gente... toda a equipe. - Huh. Dorothy, Espantalho, 
o Homem de Lata. -deu-se conta de que sua mo aferrava a do Larkin, provavelmente com fora suficiente para lhe romper os ossos. Relaxou os dedos e conseguiu esboar 
um sorriso. - Obrigado por me salvar a vida.
       -No foi nenhum esforo. Voc j te tinha encarregado da maioria deles.
       -Estava acabada. -Voltou a fechar os olhos. - Derrotada.
       -No devia ter te deixado sozinha.
       -Corta essa. -Blair teria acompanhado suas palavras de um ligeiro golpe se tivesse tido foras suficientes para faz-lo. -  um engano e  intil.
       -Por que o fizeram? -perguntou-lhe Cian ao Larkin. - Por que se separaram?
       Enquanto Larkin lhe falava do homem ferido na carreta, Blair fechou os olhos. Podia ouvir que Glenna e Moira murmuravam entre si. Meio ida, pensou que Glenna 
tinha uma voz sedosa... em certo modo sensual e elegante. A da Moira era mais parecida com o veludo, suave e clida.
       Esse era um pensamento um tanto estranho, decidiu. Mas ao menos estava tendo pensamentos.
       Enquanto trabalhavam nela, a dor ressurgiu, logo retrocedeu, voltou a aparecer e ento se acalmou. Comeou a antecipar o ritmo do ciclo de dor, mas ento 
fez um descobrimento.
       -Estou nua? -teria se incorporado apoiando-se sobre os cotovelos se Glenna no o tivesse impedido. - Estou nua. OH, Deus.
       -Est bastante coberta com um lenol. Tnhamos que ver suas feridas -lhe disse Glenna. - Est bastante cheia de cortes e machucados, de modo que eu no me 
preocuparia muito pelo recato neste momento.
       -E o rosto? -Blair elevou uma mo para comprov-lo por si mesmo. - A tenho muito mal?
       -Recato e vaidade -disse Glenna. - Bons sintomas. Neste momento, no chegaria a final no concurso de Miss Caadora de Vampiros, mas me parece que est muito 
bem.
       -Est muito formosa. -Larkin lhe agarrou a mo e a beijou. - No poderia estar mais formosa.
       -To mal como isso, huh? Bom, minhas feridas se curam rapidamente. No to rpido como vocs, caras -lhe disse a Cian - mas bastante rpido.
       -Pode nos contar o que aconteceu quando Larkin e voc se separaram? -Hoyt lhe tocou o tornozelo. - Nos h dito que eram dez.
       -Sim, dez, e com a Lora, onze. A armadilha funcionou. Dentro havia um cavalo morto, e tambm arma. Deveramos recuperar essas armas. Estavam clandestinamente.
       -As armas? -perguntou Hoyt.
       -No, os vampiros. Escondidos clandestinamente. Uma armadilha em uma armadilha. De repente chegou a escurido... bum. Como um eclipse solar, mas mais rpido. 
E eles saram da terra. Consegui eliminar a dois antes que se desenterrassem de tudo. Logo me dei conta de que no estavam tratando de me matar, o que, para ser 
honesta,  a razo de que agora no esteja morta. Eles s me estavam debilitando para ela. Vadia covarde.
       -Mas voc a matou.
       Blair meneou a cabea olhando ao Larkin e se arrependeu imediatamente desse movimento.
       -No. No acredito. No poderia hav-la derrotado em um combate. Logo que podia me ter em p, e ela sabia. Aproximou-se pavoneando-se e dizendo tolices sobre 
que ia converter me em sua amante vampira. Mas agora ela tambm est ferida, OH,  claro que sim que sim. E seu aspecto tampouco deve ser muito bom. O cantil de 
gua.
       -A gua benta! -murmurou Larkin. -  realmente inteligente.
       -Algo  uma arma. Arrojei-lhe toda a gua que pude no rosto. E bem no alvo. A cara, o pescoo. Ouvi-a gritar enquanto fugia. Mas isso era tudo, era tudo o 
que ficava. Foi estupendo que chegasse, Larkin.
       -Tinha um ramo.
       -Um ramo do que?
       -Um ramo de rvore -disse ele, e voltou a lhe beijar os dedos. - Esgrimia um ramo de rvore.
       -Sim? Bem por mim. Tenho algumas lacunas aqui e l.
       - suficiente por agora. -Glenna voltou a aproximar a taa aos lbios de Blair. - Bebe um pouco mais disto.
       -Preferiria uma marguerita gelada.
       -E quem no? -Glenna acariciou o rosto de Blair. - Agora deve dormir.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      20
      
       Tinha a sensao de que se deslizava entre o sonho e a viglia, e a dor estava ali, esperando-a, cada vez que recuperava a conscincia. Ento a debilidade 
voltava a arrast-la para baixo, mas no antes que ouvisse sussurros e murmrios. No antes que se ouvisse a si mesma respondendo a perguntas que pareciam cair sobre 
ela cada vez que voltava para mundo.
       Por que simplesmente no a deixavam dormir?
       Logo algum vertia um pouco mais de casca de rvore lquida em sua garganta e Blair se afastava flutuando de novo.
       Em ocasies, quando se ia, retornava a aquele campo e revivia cada golpe, cada bloqueio, cada movimento dos que tinha acreditado que eram os ltimos momentos 
de sua vida.
       Outras vezes, simplesmente, afastava-se flutuando para um nada.
       Larkin estava sentado a seu lado, observando como Glenna e Moira se alternavam para cuid-la. Observando como alguma delas entrava na habitao para acender 
as velas ou acrescentar um pouco de turfa ao fogo que ardia na lareira. Ou simplesmente apoiar uma mo sobre a testa de Blair e comprovar se tinha febre.
       Cada duas horas exatamente, uma delas despertava e fazia algumas perguntas. Faziam-no devido  comoo, explicou-lhe Glenna. Era uma medida de precauo, 
porque Blair tinha recebido golpes muito fortes na cabea.
       Ento ele pensava no que poderia ter ocorrido se algum desses golpes a tivesse deixado inconsciente, no que aqueles monstros lhe teriam feito enquanto estava 
ali sozinha.
       Cada vez que pensava nisso, que imaginava, agarrava-lhe a mo para comprovar o pulso por baixo da cicatriz que tinha no pulso.
       Passava as horas lhe contando tolices e, algum momento, tocando a flauta, que Moira havia lhe trazido. O pensava -esperava - que Blair pudesse descansar mais 
placidamente acompanhada pela msica.
       -Deveria ir, descansar um par de horas. -Moira lhe acariciou a cabea enquanto falava. - Eu ficarei lhe fazendo companhia.
       -No posso.
       -No. Eu tampouco poderia faz-lo se estivesse em seu lugar. Mas ela  forte, Larkin, e Glenna muito qualificada. Eu gostaria que no se preocupasse tanto.
       -No sabia que isso estava dentro de mim. Que pudesse sentir algo to profundo por uma pessoa. Que pudesse saber, sem vacilao, sem dvida nenhuma, que uma 
mulher seria... bom, seria-o tudo para mim.
       -Eu sim sabia. No que seria Blair, mas que haveria algum. E que quando a encontrasse, ela o trocaria tudo. -Moira se inclinou para lhe beijar a cabea. 
- Estou um pouco ciumenta. Voc se incomoda?
       -No. -Larkin voltou a cabea e apertou o rosto contra o flanco da Moira. - Quererei-te toda minha vida. Acredito que poderia estar a milhares de quilmetros 
de distncia e mesmo assim, poderia estirar a mo e tocar a tua.
       As lgrimas empanaram os olhos da Moira.
       -Eu no poderia ter escolhido a ningum melhor para ti que Blair. Contudo,  a mais afortunada das mulheres.
       -Est despertando.
       -Bem, agora fala com ela. Manteremo-la conosco uns momentos e logo lhe darei um pouco mais da medicina da Glenna.
       -Aqui est. -Larkin falou brandamente, ficando em p para lhe agarrar a mo. - Mo chroi16. Abre os olhos.
       -O que? -Blair levantou as plpebras. - O que passa?
       -Me diga como te chama.
       -Scarlett O'Hara.  que no pode record-lo nem cinco minutos? -disse ela com evidente irritao. - Blair Murphy. No tenho danos cerebrais. S estou cansada 
e ferida.
       -Est bastante lcida -decidiu Moira e verteu um pouco mais da beberagem da Glenna em uma taa.
       -No quero mais dessa mistura. -Ao escutar o tom petulante de sua prpria voz, Blair fechou um momento os olhos. - Escutem, no quero ser desagradvel. Ou, 
bom, talvez sim, e o que? Mas essa beberagem faz que me sinta enjoada e fora de meu corpo. O que no seria to mau se algum no me estivesse despertando a cada 
dez ferrados minutos para me perguntar como me chamo.
        Moira, sem alterar-se absolutamente pelo protesto de Blair, deixou a taa a um lado.
       -Glenna me h dito que devia despert-la se Blair se negava a tomar o remdio.
       -OH, merda, no vs procurar  enfermeira Rachett.
       -Voltarei em um momento.
        Larkin se sentou na beira da cama enquanto Moira abandonava a habitao.
       -A cor voltou para suas bochechas.  um alvio para mim.
       -Arrumado a que neste momento sou de todas as cores. Azul, negro, arroxeado, esse amarelo doentio. Menos mal que aqui est escuro. Oua, no  necessrio 
que fique.
       -No penso ir a nenhuma parte.
       -Gosto do gesto. Mas... escuta, podemos falar de outra coisa que no seja eu e meu rabo severamente chutado? Me conte algo. Me conte... Quando foi a primeira 
vez que soube que podia trocar de forma?
       -OH, devia ter uns trs anos e queria ter um cachorro. Meu pai tinha sabujos, mas eram uns ces muito majestosos para jogar com meninos como eu, correr a 
procurar uma bola ou um pau.
       -Um cachorrinho. -Ela se relaxou com o som de sua voz. - Que classe de cachorrinho?
       -OH, qualquer classe tivesse servido, mas minha me disse que no queria ter outro co na casa; que j tinha suficiente ocupando-se de mim e do beb. O beb 
era meu irmo, quem devia ter ento pouco mais de um ano. E, naquela poca, eu ignorava que minha me j levava em seu ventre tambm a minha irm.
       -No  de se estranhar que no estivesse disposta a educar tambm a um co.
       -Minha me veio a verte esta noite duas vezes. E minha irm e meu pai tambm.
       -OH. -Blair se aplaudiu a cara imaginando seu aspecto. - Genial.
       -Bem, para continuar com a histria, eu lhes rogava que me deixassem ter um cachorrinho, mas era intil. Minha me se mostrava firme em sua deciso, eu estava 
muito zangado em meu quarto e imaginava que me escapava com os ciganos, com quem poderia ter todos os cachorrinhos que quisesse, e coisas assim. No deixava de pensar 
nisso, e ento, de repente, produziu-se... um movimento dentro de mim. E vi uma luz que girava. Eu estava muito assustado e chamei a minha me. Mas o que fiz foi 
latir.
       -Converteu-te em um cachorrinho.
       Seus olhos estavam mais claros agora; ele podia v-lo, podia ver a diverso neles enquanto lhe explicava a histria.
       -OH, que horror... e que excitao. No podia ter um cachorrinho, de modo que me converti em um; foi algo assombroso.
       -Faria um comentrio sutil sobre o brincar consigo mesmo, mas seria uma piada fcil. Continua.
       -Muito bem, sa correndo de minha habitao e baixei a escada. Minha me me viu e, pensando que eu tinha metido um cachorrinho na casa apesar de sua negativa, 
lanou-se a por mim. Pensei que, quando se desse conta do que tinha feito, daria-me uma boa surra, e tratei de sair de casa. Mas ela me encurralou. Sempre foi muito 
rpida. Elevou-me me agarrando pelo cangote e eu comecei a choramingar. Devia ter um aspecto lastimoso, j que minha me suspirou profundamente e me arranhou detrs 
das orelhas.
       -Que doce.
       -Aye, minha me tem um corao bom e carinhoso. Ainda posso ouvi-la, to claro como se fosse esse dia. "Ai esse menino, disse, o que vou fazer com esse menino. 
E contigo, disse-me , sem saber que eu era esse menino." Logo se sentou, comigo em seu colo. Quando comeou a me acariciar, eu recuperei minha forma.
       -E o que passou quando ela recuperou o conhecimento?
       -OH, minha me  feita de uma madeira mais dura que isso. Lembro que arregalou os olhos, mas meus deviam estar igual de grandes. Rodeei-lhe o pescoo com 
os braos, feliz de ser um menino outra vez. Ela no deixava de rir. Sua av, ao parecer, tinha o mesmo dom.
       -Excelente. De modo que se trata de uma caracterstica familiar.
       -E parece que se apresenta de um modo irregular. Por volta de fins daquela semana, sua av, uma mulher que juro que era mais velha que a lua, veio a ficar 
conosco e me ensinar o que eu precisava saber. E trouxe com ela um pequeno cachorrinho pintalgado ao que eu chamei Conn, pelo guerreiro das mil batalhas.
       - uma histria muito bonita. -Suas plpebras comearam a fechar-se. - O que aconteceu com Conn?
       -Viveu doze anos muito bons, logo cruzou a Ponte dos Arco-ris, e pde voltar a ser um cachorrinho outra vez e jogar todo o dia sob o sol. Agora deve dormir, 
a ghr. Estarei aqui quando despertar.
       Larkin elevou a vista quando Glenna entrou silenciosamente na habitao, e at esboou um sorriso.
       -Tornou-se a dormir. Um sonho natural. Isso  bom, verdade?
       -Sim. J no tem febre -disse Glenna depois de ter apoiado a mo na testa de Blair. - Se tiver rechaado a medicina  porque a dor remeteu. E tem boa cor. 
Moira diz que no quer deix-la sozinha.
       -Como poderia faz-lo?
       -Se tratasse do Hoyt, eu diria o mesmo. Mas por que no deita a seu lado e descansa um pouco?
       -Poderia incomod-la enquanto durmo. No quero lhe fazer dano.
       -No o far. -Glenna foi at as janelas e correu as cortinas. - No quero que o sol desperte a nenhum dos dois. Se me necessitar, venha me buscar ou envia 
a algum, mas acredito que agora descansar sem problemas durante umas horas.
       Apoiou uma mo sobre o ombro do Larkin e logo se inclinou para lhe dar um beijo na bochecha.
       -Te estenda junto a ela um momento e faz o mesmo.
       Quando Larkin o fez, Blair se agitou um pouco, s o suficiente para aproximar-se. Agarrou uma mo to brandamente como pde.
       -Ela pagar pelo que te tem feito. Juro-lhe isso; pagar-o -disse ao Blair.
       Logo fechou os olhos enquanto escutava a respirao regular dela. E, finalmente, dormiu.
      
       Em outro lugar, o fogo ardia na lareira e as cortinas estavam corridas contra o amanhecer.
       Os alaridos selvagens da Lora ressonavam em toda a estadia, e a vampira se agitava violentamente enquanto Lilith, uma vez mais, estendia um blsamo cor verde 
clara sobre as queimaduras e as grandes bolhas que cobriam o rosto, o pescoo e inclusive os peitos de sua amiga.
       -Quieta, quieta. No, querida minha, meu doce, doce menina. No lute comigo. Isto te ajudar.
       -Queima-me! Queima-me!
       -Sei. -As lgrimas se concentravam na garganta de Lilith, em seus olhos, enquanto cobria com o blsamo as terrveis queimaduras que Lora tinha no pescoo. 
- OH, minha pobre menina, sei. Um pouco mais aqui, e outro pouco l. Bebe um pouco disto.
       -No o quero!
       Lora apartou a cabea e fechou com fora os olhos e a boca.
       -Mas deve faz-lo. -Embora lhe destroava o corao lhe provocar a Lora ainda mais dor, Lilith a colheu com fora da nuca para obrig-la a beber um pouco 
de lquido. - S um pouco mais, querida, s um pouco. Bem, isso esteve muito bem, carinho.
       -Ela me fez mal. Lilith, ela me fez mal.
       -Agora no deve falar. J o solucionaremos.
       -Ela me feriu gravemente. -As lgrimas se deslizaram sobre o blsamo quando Lora voltou a apartar o rosto. - Estou horrvel e queimada. Como poder voltar 
a me olhar depois do que ela tem feito com minha cara?
       -Para mim  mais bela agora. Mais preciosa. -Apoiou os lbios muito brandamente sobre os da Lora. Lilith no tinha permitido que ningum mais a cuidasse. 
Ningum, prometeu-se, tocaria essa pele queimada exceto ela. -  minha menina mais doce. A mais valente.
       -Tive que me esconder na terra!
       -Shhh. Isso agora no importa. O que conta  que pudeste retornar para mim. -Lilith agarrou a mo da Lora e lhe deu a volta para lhe beijar a palma. - Que 
te tenho novamente comigo.
       A porta se abriu e Davey entrou na habitao. Levava uma taa de cristal em uma bandeja de prata e tinha os lbios apertados em um gesto de concentrao.
       -No derramei nada. Nenhuma s gota.
       - um grande menino.
       Lilith agarrou a taa e acariciou com a outra mo o cabelo do menino. Uma vez mais, Lora voltou o rosto.
       -Davey no deveria ver-me assim.
       -No. Ele tem que saber o que so capazes de fazer esses mortais. Venha, Davey, venha te sentar com nossa Lora. Com suavidade, sem solavancos.
       Davey subiu  cama com muito cuidado.
       -Di-te muito?
       Lora assentiu.
       -Muito.
       -Eu gostaria que no te doesse. Posso te trazer um brinquedo.
       A pesar da intensa dor, Lora sorriu.
       -Possivelmente mais tarde.
       -Trouxe-te sangue. Ainda est quente. No bebi nada -acrescentou, lhe acariciando a mo como tinha visto fazer ao Lilith. - Mame disse que a necessita toda 
para te pr bem e voltar a estar forte.
       -Isso. Agora bebe. -Lilith aproximou a taa com sangue aos lbios da Lora. - Bebe, mas muito devagar.
       O sangue a fortaleceu e a droga que Lilith lhe tinha administrado antes a ajudou a acalmar um pouco a dor.
       -Isso ajuda. -Permaneceu tendida, com os olhos fechados. - Mas me sinto to dbil. OH, Lilith, ao princpio acreditei que me tinha ficado cega. Os olhos me 
queimavam. Ela me enganou. Como pude ser to estpida?
       -No deve te culpar. No, no deve.
       -Teria que estar furiosa comigo.
       -Como poderia est-lo em um momento assim? Levamos centenas de anos juntas, meu amor, para o bom e para o mau. Posso dizer que cometeu uma tolice?  obvio, 
mas eu teria feito o mesmo. Que atrativo tem a caada sem um pouco de adorno? -baixou-se a parte superior da tnica para revelar a cicatriz em forma de pentgono 
que tinha entre os peitos. - Acaso no levo eu esta cicatriz por ter jogado muito com um mortal em uma ocasio?
       -Hoyt. -Lora cuspiu o nome. - Voc enfrentou a um Feiticeiro, entretanto no havia nada de magia nessa puta que me queimou.
       -Quando mame mate a esse Feiticeiro, lamberei seu sangue, como faz um cachorrinho com o leite.
       Lilith se ps-se a rir e revolveu o cabelo do Davey.
       -Este  meu menino. E voc, Lora, no esteja to segura de que essa caadora de vampiros no seja capaz de fazer magia. -Elevou ao Davey e o sentou sobre 
seu colo. - No acredito que tivesse podido te ferir desta maneira sem recorrer  magia.
       -Ao menos ela tambm ficou ferida. Talvez mortalmente.
       -V-o? Sempre h um lado brilhante. -Lilith beijou ao Davey. -  Midir quem deve faz-lo melhor. Acaso a noite no lhe escorreu de entre os dedos? Acaso a 
magia branca no derrotou  sua?
       Lilith teve que esperar um momento para acalmar-se ante a ira que lhe provocava a incompetncia de seu mago.
       -Liberaria-me dele se tivssemos a outro mago to poderoso como ele. Mas te prometo, juro-te, que o pagaro. Quando chegar Samhain, banhar-te no sangue dessa 
mortal, querida minha. Todos beberemos dela, larga e profundamente. E, quando eu governe, voc estar a meu lado.
       Lora, reconfortada, estendeu a mo.
       -Ficar comigo um pouco mais? Ficar enquanto durmo?
       - obvio. Depois de tudo, somos uma famlia.
      
       Blair despertou por etapas. Primeiro sua mente se agitou, dando voltas e analisando lentamente onde se encontrava, o que havia acontecido, at que a cabea 
comeou a lhe doer com uma palpitao surda e regular. Logo seus olhos pulsaram com ela, e tomou conscincia de outras dores: ombro, costelas, estmago, pernas. 
Enquanto permanecia imvel, na cama, avaliando a situao, deu-se conta de que no havia uma s parte do corpo que no lhe doesse.
       Mas era mais suportvel que a dor que a tinha deixado sem respirao. O gosto da poo que lhe tinha dado Glenna impregnava sua garganta. No era horrivelmente 
desagradvel, decidiu. S um pouco espesso e defumado, mas mesmo assim desejou beber vrios litros de gua para tirar-lhe 
       Abriu os olhos com cautela. Luz de velas, luz de lenha ardendo. De modo que ainda no tinha amanhecido. Bem. Sentia-se razoavelmente bem.
       De fato, sentia-se o bastante bem para ter fome, algo que sem dvida devia ser um bom sinal. Fez um esforo para incorporar-se justo no momento em que viu 
que Larkin retornava  cama da janela mais afastada.
       -Huh, v descansar um momento.
       Ele se deteve e a olhou um momento.
       -Est acordada.
       -Sim, e antes que me pergunte isso, meu nome  Blair Murphy, estou no Geall e um punhado de vampiros me chutaram o rabo. Cr que posso conseguir algo de comer?
       -Tem fome!
       Ele quase cantou as palavras enquanto corria para a cama.
       -Sim. Talvez s um pequeno lanche de meia-noite... ou a hora que seja.
       -Como te encontra?
       -Com a av de todas as enxaquecas -admitiu -, e algumas outras dores. Sobre tudo me sinto enjoada e entorpecida. Alm disso -acrescentou com uma leve careta 
- tenho uma terrvel necessidade de urinar. De modo que, j sabe, parte um momento.
       Mas Larkin, em troca, elevou-a em braos e a levou at o urinol que havia detrs de um biombo pintado.
       -No posso faz-lo se voc estiver aqui. Simplesmente no posso. Quero que saia da habitao e conte at trinta. -encolheram-se quando a bexiga lhe deu uma 
pontada. - Que sejam quarenta. Venha, permite que uma garota tenha um momento de privacidade.
       Larkin revirou os olhos, mas fez o que lhe pedia. Exatamente quarenta segundos depois estava de novo na habitao, por onde ela dava uns passos vacilantes. 
Em um instante, foi at seu lado e a segurou pelo brao.
       -Glenna h dito que poderia te sentir um pouco enjoada.
       -Um pouco. Estou um pouco enjoada, um pouco cambaleante e com dores em todo o corpo. Mas poderia ser muito pior, considerando que, neste momento, poderia 
estar morta ou desejando uma boa quantidade de sangue. Quero me jogar uma olhada.
       Ajudada pelo Larkin, aproximou-se coxeando at o espelho. A bochecha esquerda estava arranhada do nariz at a tmpora e luzia os dois olhos com em um funeral. 
Glenna lhe tinha posto uma espcie de vendagem para lhe fechar o corte que tinha na testa. Voltou-se e observou que, embora seu ombro fosse uma massa de machucados, 
j comeavam a adquirir esse repugnante tom amarelo-esverdeado que indicava que comeavam a curar-se.
       -Sim, poderia ter sido pior. -passou-se as mos pelas costelas. - Muito sensveis ainda, mas nada quebrado. Isso  positivo.
       -Nunca tinha passado tanto medo em toda minha vida.
       -Eu tampouco. -Ela o olhou aos olhos atravs do espelho. - No sei se lhe agradeci isso ou o sonhei em uma de minhas viagens  Dimenso Desconhecida, sei 
que te devo a vida. Nunca esquecerei quando te vi golpear aqueles trs vampiros como se no fossem nada.
       -Se tivesse chegado antes...
       -Todo este assunto no gira ao redor do destino? Se tivesse tido que estar ali antes, teria-o feito. Chegou a tempo e isso  quo nico importa.
       -Blair.
       Larkin apoiou a cabea sobre seu ombro so, e lhe falou em um suave sussurro e em galico.
       -O que foi todo isso? -perguntou ela.
       -Fica para depois. -ergueu-se. - Agora irei te buscar um pouco de comida.
       -Poderia fazer um bom uso dela. Sinto-me como se no tivesse comido em vrios dias. No voltarei a me colocar na cama. Sentarei-me.
       Ele a ajudou a faz-lo em uma poltrona junta ao fogo e logo procurou uma manta para lhe cobrir as pernas.
       -Quer que corra as cortinas?
       -Sim, por favor. Escuta, depois de que tenha encontrado a algum que me consiga um pouco de comida, deveria ir e tratar de dormir o que fica de noite... OH! 
-Blair piscou e se levou uma mo aos olhos para proteger do resplendor do sol atravs do cristal.
       -Dormi algo -disse ele com um rpido sorriso.
       -Sim, bom, aparentemente o tem feito. Que horas so?
       -Eu diria que passado o meio-dia.
       -Meio... -Deixou escapar o ar. - Suponho que meus poderes de cura avanados tiveram tempo para um treinamento intensivo.
       -Irei ver se lhe consigo um pouco de comida se me promete ficar onde est.
       Blair se esfregou com muito cuidado o joelho ferido.
       -No penso ir a nenhuma parte.
       Obviamente, ele no se confiou em sua palavra, pois Glenna entrou na habitao um momento depois.
       -Tem melhor aspecto.
       -Ento, antes devia parecer a clera de Deus.
       -Efetivamente.
       Glenna apoiou sua caixa sobre uma mesa e a abriu. E Blair franziu o cenho com um gesto mais que expressivo.
       -Realmente no preciso beber mais dessa beberagem de casca mgica.
       -Trocaremo-lo por outra coisa. Viso dupla?
       -Reduziu-se a nveis normais, a cabea me di horrivelmente.
       -Posso te ajudar com isso. -Glenna se aproximou e apoiou os dedos nas tmporas de Blair. - Como est seu ombro?
       -Incomoda-me, mais que as costelas, mas no est muito mal. Devo ter tambm um golpe feio no joelho. Est um pouco inflamado.
       -Considerando que tinha aproximadamente o dobro de seu tamanho normal quando Larkin te trouxe, eu diria que "um pouco de inflamao"  um bom sinal. Sabe? 
Esta  a primeira vez que sai da habitao desde que te trouxe de volta.
       -Mas me h dito que tinha dormido algo.
       -Eu lhe convenci para que se deitasse um momento a seu lado.
       -Culpa-se a si mesmo.  uma estupidez.
       - uma estupidez, estou de acordo. Mas isso  s uma parte. Larkin te esteve cuidando toda a noite porque est desesperadamente apaixonado por ti. Como est 
a cabea agora?
       -Ao que? OH... Melhor -disse - muito melhor. Obrigado. OH, Deus, o que vou fazer?
       -J te ocorrer alguma coisa. Traro-lhe um pouco de ch... Uma de minhas infuses. Acrescentaremos-lhe um pouco disto e daquilo e beber isso tudo. Vejamos 
o que posso fazer com esse ombro.
       -Se ficasse aqui, no Geall, estaria voltando as costas a todo aquilo para o que nasci. Ao que me levou at ele em primeiro lugar. Glenna, no posso. No importa 
o que sinta, no importa o que queira, no posso deixar de ser o que sou.
       -Obrigao e amor. Ambos podem liberar suas prprias e desagradveis guerras, verdade? Agora te relaxe. Tenta um pouco de respirao ioga.  uma mulher muito 
forte, Blair. Mente, corpo, corao. Muita gente no compreende quo difcil  ser uma mulher forte. Se tivssemos que apostar, eu diria que Larkin  um homem que 
o entende.
      
       Mais tarde, quando j havia comido e se sentia mais serena, Blair convenceu ao Larkin de que precisava sair da habitao e caminhar um pouco. Deu-se conta 
de que ele estava ao tanto para sujeit-la ao menor sinal de debilidade. E em realidade se sentia dbil; porm do corao mais que do corpo. Ela tinha que lhe dizer, 
ele merecia que o dissesse, que no podia comprometer-se a nada. Que quando tivessem terminado com o que lhes tinham encomendado, ela teria que lhe abandonar.
       Ela sabia muito bem o que significava ser rejeitada, e desejava com toda a alma que as coisas pudessem ser diferentes. Que ela pudesse ser diferente.
       Caminharam at o ptio da fonte, que se via desde sua janela. Ali a luz do sol era intensa, e o ar tinha o frescor do primeiro sopro do outono.
       -S fica um ms -disse Larkin, e se sentou com ela em um banco de mrmore azul.
       -Estaremos a ponto.
       -Aye, estaremo-lo. Dentro de poucos dias, Moira extrair sua espada da pedra.
       -E o que passa se no for ela? E se for voc?
       -No sou eu. -encolheu-se de ombros. - Procurei dentro de mim e sei que, se fosse eu o eleito, saberia. Sempre o teria sabido, como Moira sabe em alguma parte 
de seu interior. E graas aos deuses.
       -Mas sua famlia. Este lugar. Est unido a ele, por nascimento. Por sangue.
       - certo. -Agarrou-lhe a mo, jogando ociosamente com seus dedos. -  o lugar onde nasci e sempre o sentirei falta.
       -Voc... o que? Sentir falta? Por que? Vamos ganhar. S porque me tenham dado um queda no significa que vo derrotar-nos.
       -No, no significa isso. No nos derrotaro. -Levantou a vista dos dedos dela e a olhou aos olhos. Os seus eram como ao dourado. - Porque lutaremos at 
o ltimo homem. At a ltima gota de sangue.
       -Ento, por que...?
       -Deixa que te faa uma pergunta -a interrompeu ele -, uma que nenhum dos dois tem feito ainda. Todos os vampiros de seu mundo vo vir para aqui seguindo ao 
Lilith?
       -No,  obvio que no.
       -Ento, quando esta batalha ganhe, a luta continuar, e voc ter que seguir caando, como sempre o tem feito. Aqui, se alguns sobreviverem, sempre haver 
um exrcito para lutar contra eles. O povo do Geall sabe o que so, mas o povo de seu mundo no sabe.
       -Sim. -De modo que ele o entendia. - Eu gostaria... Sinto muito. No retornar, no  algo que eu possa me expor. Se houvesse... Mas no o h.
       -No, voc no lhe pode expor isso. Mas eu sim posso escolher. De modo que retornarei contigo para lutar a seu lado.
       -Como?
       -A str, pensava acaso que permitiria que te afastasse de mim?
       -No pode partir do Geall.
       -Por que no?  Moira quem reinar no Geall, e meu pai a aconselhar em tudo o que necessite. E esto meu irmo e o marido de minha irm para trabalhar a 
terra e atender aos cavalos.
       Blair pensou na me, na irm e no irmo do Larkin. Pensou em seu pai e na expresso de seu rosto quando abraou a seu filho a sua volta ao Geall.
       -No pode deixar a sua famlia.
       -Sei que  duro deixar aos seres queridos. Deve ser muito duro, acredito; e s deveria fazer-se quando no fica mais remdio. No deve, nunca deveria ser, 
algo como o que fez seu pai, Blair.
       -O resultado  o mesmo.
       -No, no o . No quando a partida  com amor, amor por ambas as partes. Um homem freqentemente se afasta de seus pais.  a ordem natural das coisas.
       -Mas se vai a uma cidade prxima, ou a algum outro lugar dentro do mesmo pas. No a outro mundo.
       -Tratar de me dissuadir  uma perda de tempo. Tomei essa deciso j faz tempo. Moira sabe, embora no falamos disso abertamente. E minha me tambm. -Olhou-a 
diretamente aos olhos. - Cr que eu lutaria, arriscaria-o absolutamente tudo, e logo me separaria da pessoa que mais me importa neste mundo, em qualquer dos mundos? 
Daria minha vida por isso se fosse necessrio. Mas se vivo, voc me pertencer. E isso  tudo.
       -Isso  tudo?
       -Estava pensando que, como voc no tem famlia prxima em seu mundo, poderamos nos casar aqui. E logo poderamos repetir a cerimnia em sua Chicago se quiser.
       -Nos casar? Eu no te hei dito em nenhum momento que me casaria contigo. Com ningum.
       - obvio que te casar comigo, no seja tola. -Deu-lhe uma palmada amistosa no joelho so. - Voc me ama. E eu te amo -disse ele antes que Blair pudesse falar. 
- Estive a ponto de lhe dizer isso a primeira noite que estivemos juntos, mas acredito que um homem no deve pronunciar essas palavras quando est dentro de uma 
mulher. Como poderia ela ento estar segura de que ele est falando com seu corao e no com seu, bom, no com seu...?
       -OH, Deus.
       -Pensei em lhe dizer isso tambm em outros momentos, mas me hei dito que devia esperar. E ontem me dava conta de que tinha esperado muito. Perguntaste-me 
o que te hei dito antes, quando te despertaste. Direi-lhe isso agora, de modo que me olhe quando o fao.
       Com cuidado, Larkin agarrou o rosto de Blair com as mos.
       -Hei-te dito que  meu flego, e meu pulso, meu corao e minha voz. Hei-te dito que te amarei inclusive quando todos eles se detiveram. Amarei-te, e s a 
ti, at que todos os mundos tenham desaparecido. De modo que te casar comigo, Blair. E eu irei aonde voc v e lutarei a seu lado. Viveremos juntos, e amaremos 
juntos, e formaremos uma famlia.
       -Tenho... Tenho que me levantar um minuto.
       Blair ficou de p, tremendo, e caminhou at a fonte. S para respirar, pensou, para deixar que a gua fresca lhe salpicasse a cara.
       -Ningum me amou jamais desta maneira. No sei, no sei com certeza se algum me amou at que voc apareceu em minha vida. Ningum me ofereceu jamais o que 
voc me est oferecendo neste momento. -voltou-se para ele. - Seria uma estpida se o rejeitasse. E no sou uma estpida. Uma vez pensei que amava a algum, mas 
foi to pouca coisa comparada com o que sinto por ti. Estive pensando que teria que ser muito forte para poder te deixar. No me tinha ocorrido que voc seria o 
bastante forte para vir comigo a meu mundo. Devi hav-lo sabido. -aproximou-se do Larkin e lhe ofereceu a mo quando ele se levantou. - Casaria-me contigo em qualquer 
parte. Sentiria-me orgulhosa de me casar contigo.
       Ele lhe beijou as mos e logo a estreitou brandamente entre seus braos para beij-la nos lbios.
       -Me aperte com fora, sim? -sussurrou ela. - Sou uma caadora de demnios. No sou uma mulher frgil.
       Ele se ps-se a rir e a levantou do cho.
       -Tome cuidado, Larkin!  que te tornaste louco?
       Quando Moira correu para eles, seu primo sorriu e fez girar ao Blair outra vez no ar.
       -Um pouco. Comprometemo-nos.
       -OH. -Moira se freou em seco e se levou as mos ao corao. - OH, bom, isso  maravilhoso. Felicidades aos dois. Estou to contente por vocs...
       Moira se aproximou deles e beijou ao Blair na bochecha, e logo fez o mesmo com o Larkin.
       -Isto temos que celebrar. Vou contar se o a outros. Cian teve uma idia... Mas isso pode esperar.
       -Que idia? -perguntou Blair.
       -Uma maneira de... Como h dito? De tocar os narizes ao Lilith. Mas...
       -Apoio essa idia. -Blair aplaudiu o brao do Larkin. - Porqu no entra? Em seguida me reunirei contigo. S quero falar um momento com a Moira.
       -De acordo. Mas no fique de p muito tempo -disse ele ao ir-se.
       -Ter que ver, depois de que te tem feito dar voltas no ar. Desejo-te toda a felicidade, Blair.
       -Quero que saiba que tentarei fazer feliz ao Larkin todos os dias de minha vida. Quero que saiba.
       -Voc j lhe faz feliz. -Moira inclinou a cabea. - Voc e eu somos amigas, verdade?
       -Voc, Glenna, Hoyt, Cian. Os melhores amigos que tive em minha vida -respondeu Blair.
       -Eu sinto o mesmo, de modo que serei totalmente sincera contigo. Quando ele partir, ser doloroso. Me partir o corao. E quando j no puder lhe ver, chorarei 
at que j no fiquem lgrimas. Mas me sentirei leve e feliz. Porque saberei que Larkin ter o que necessita, o que quer, o que merece.
       -Se existir alguma maneira de que possamos retornar e passar algum tempo aqui para visitar a ti e a sua famlia, encontraremo-la.
       - um belo pensamento ao que aferrar-se. E isso farei. Agora devemos entrar. Larkin tem razo, no deveria estar tanto tempo de p.
       -Acredito que jamais me hei sentido melhor em toda minha vida.
       -Isso  pelo amor, mas mesmo assim necessitar de todas suas foras para o que Cian tem em mente.
      
       Era tocar os narizes ao Lilith, pensou Blair. E uma boa bofetada. Era perfeito.
       -Est segura de que est preparada para isto? -perguntou-lhe Glenna.
       -Estou completamente preparada para isto.  to em-sua-prpria-cara, Cian. Bem pensado. -E Blair lhe dedicou um sorriso.
       Cian elevou a vista ao cu e observou a apario das primeiras estrelas.
       -Uma noite clara para faz-lo. No  o que se chamaria estratgia de combate, mas...
       - claro que sim que  uma ferrada estratgia de combate. Desmoralizar ao inimigo  sempre uma boa estratgia. -Blair fez girar as espadas que levava. - Esto 
preparadas? -perguntou a Glenna.
       -Esto prontas -confirmou ela.
       -Muito bem, bonito. Vejamos esse drago -disse ento dirigindo-se ao Larkin.
       -Em um momento -respondeu este. - Primeiro, tenho algo para ti, e lhe quero dar isso aqui, diante de nosso crculo. Um dos gestos de identidade do Geall  
o drago. E tambm um de nossos smbolos, teu e meu. De modo que quero te dar isto, por nosso compromisso. -E tirou um anel de ouro brilhante em forma de drago. 
- Glenna fez um desenho quando lhe disse o que eu gostaria. E o ourives utilizou o desenho para fazer o anel.
       - perfeito -murmurou Blair quando Larkin lhe deslizou o anel no dedo.
       -E para sel-lo... -Agarrou seu rosto entre as mos e a beijou calidamente. Logo lhe sorriu ao apartar os lbios. - Agora vo lhes tocar os narizes a essa 
cadela.
       Um instante depois, estava convertido em drago. Blair saltou sobre seu lombo e elevou ambas as espadas no ar.
       
       -E se elevaram no ar -disse o ancio. - Para a lua e as estrelas e a escurido que h detrs delas. E, sobre o mundo do Geall, aquelas espadas despediam labaredas 
para que todos as vissem.
       "Luminosas bnes para o Geall e toda a humanidade. ", escreveu Blair com fogo, "Ns somos o futuro."
       O ancio levantou a taa de vinho que tinha na mo.
       -Conta-se que a rainha dos vampiros as viu do cho, amaldioando e sacudindo os punhos enquanto essas palavras brilhavam como o sol.
       Bebeu um gole de vinho, elevou uma mo quando os meninos que estavam ao seu redor protestaram dizendo que esse no podia ser o final da histria.
       -OH, h muito mais que contar. Muito mais sem dvida. Mas no esta noite. Agora parte, porque me ho dito que haveria bolachas de gengibre na cozinha para 
vocs, antes de ir  cama. Eu adoro as bolachas de gengibre.
       Uma vez esteve sozinho de novo, e a habitao ficou em silncio, bebeu um sorvo de vinho. Cabeceou ligeiramente diante do fogo que esquentava seus ossos e, 
com a mente, vagou para o final da histria.
       Para o momento do conhecimento.
      
      
      
      
      
      
      
      
      Glossrio de termos, personagens e lugares irlandeses
      
      
      a chroi (ah-REE), trmino carinhoso galico que significa "meu corao", "amado de meu corao", "querido meu".
      a ghr (ah-GHRA), trmino carinhoso galico que significa, "meu amor", "querido".
      a str (ah-STOR), trmino carinhoso galico que significa "querido meu".
      Aideen (Ae-DEEN), jovem prima da Moira.
      Alice McKenna, descendente de Cian e Hoyt MAC Cionaoith
      An Recuar (Ahn-CLAR), o atual condado do Clare.
      Baile dos Deuses, o Baile, lugar de onde o crculo os seis passam do mundo real ao mundo fantstico do Geall.
      Ballycloon (b-lu-klun)
      Beal (Bala), nome que Blair utiliza quando atua como chamariz.
      bi istigh (vee-ISHtee), trmino galico que significa "adiante" ou "entra".
      Blair Nola Bridgit Murphy, um dos membros do crculo dos seis, a "jaqueta"; uma caadora de vampiros, descendente da Nola MAC Cionaoith (a irm pequena de 
Cian e Hoyt).
      braes (BRO-sh), calas ou cales usados pela gente do Geall.
      Breda (Bree-d), me da famlia a que lhes derruba a carreta.
      Burren, uma regio rochosa de pedra calcria no condado do Clare, com cavernas e correntes de gua subterrneas.
      cailleach dearg (CAH-lic JAR-eg), Bruxa de cabelo vermelho, maneira de chamar a Glenna.
      cara (karu), trmino galico para "amigo, parente".
      Ceara, uma das mulheres da aldeia.        
      Cian (KEI-an) MAC Cionaoith/McKenna, irmo gmeo do Hoyt, um vampiro, Senhor do Oiche, um dos membros do crculo dos seis, "que se perdeu".
      Cillard, um lugar no condado do Clare.
      Crio, o amante humano de Lilith.
      dunas (CYOON-s), trmino galico para "silncio"; a batalha se livra no Vale do Ciunas, o Vale do Silncio.
      claddaugh, o smbolo celta de amor, a amizade e a lealdade.
      Conn, cachorrinho do Larkin quando este era pequeno.
      Desse (Der-a), no atual condado do Kildare.
      Davey, o filho de Lilith, rainha dos vampiro, um menino vampiro.
      Deirdre (DAIR-dhra) Riddock, me do Larkin.
      Dervil (DAR-vel), uma das mulheres da aldeia.
      Dunglas, um lugar do Geall.
      Eire (AIR-reh), trmino galico para "a Irlanda".
      Eogan (Ou-em), marido da Ceara.
      Eoin (OAN), cunhado do Hoyt.
      Eternity, nome do clube noturno de Cian na cidade de Nova York.
      Faerie Falls, lugar imaginrio no Geall.
      filte ao Geall (FALL-che ah GY-ao), expresso galica que significa "Bem-vindo ao Geall".
      Fearghus (FARE-gus), cunhado do Hoyt.
      Gaillimh (GALL-yuv), a atual cidade do Galway, capital da Irlanda ocidental.
      Geall (GY-ao), em galico significa "promessa"; a terra de onde procedem Moira e Larkin; a cidade em que um dia reinar Moira.
      Glenna Ward, um dos membros do crculo dos seis, a "Bruxa"; vive na atual cidade de Nova York.
      Hoyt MAC Cionaoith/McKenna (MAC KHEE-nee), um dos membros do crculo dos seis, o "Feiticeiro".
      Isleen (Is-leen), uma donzela do castelo do Geall.
      Jarl (Yarl), o amo de Lilith, o vampiro que a converteu a ela em vampira.
      Jeremy Hilton, ex-noivo de Blair Murphy.
      King, nome do melhor amigo de Cian, a quem este protegeu quando era um menino; o gerente do Eternity.
      Knockarague (KNOCKA-rig), povo do Geall; lar da me do Larkin.
      Larkin Riddock, um dos membros do crculo dos seis, "Shifter"; primo da Moira, rainha do Geall.
      Lilith, rainha dos vampiros, alis a rainha dos demnios; lder da guerra contra a humanidade; ama de Cian, a vampira que converteu a este em vampiro.
      Lora, uma vampira; a amante de Lilith.
      Lucius, o vampiro masculino amante da Lora.
      MAC Dar, sobrenome; parte de um dos ttulos do Larkin.
      Malvin, aldeo, soldado no exrcito do Geall.
      Mam, trmino para me.
      Manhattan, distrito da cidade de Nova York, onde vivem Cian McKenna e Glenna Ward.
       mathair (maahir), trmino galico para "me".
      Michael Thomas McKenna, descendente de Cian e Hoyt MacCionaoith.
      Mick Murphy, irmo pequeno de Blair Murphy.
      Midir (mije-deer), mago vampiro de Lilith, rainha dos vampiros.
      miurnin (tambm miurneach [mornukh]), palavra carinhosa galica para "amor/querido/querida".
      Moira (MWA-ra), um dos membros do crculo dos seis, a "erudita"; princesa e futura rainha do Geall.
      Morrigan (Mo-ree-ghan), deusa da Batalha.
      Niall (Nile), um membro do guarda do Geall.
      Nola MAC Cionaoith, irm pequena de Cian e Hoyt.
      Ou Dubhuir (ou DOVE-er), apodo que usa Blair quando atua como chamariz.
      ogham (-gem) (tambm ogam), alfabeto irlands dos sculos v/vi.
      oiche (EE-heh), trmino galico para "noite".
      Oram (Ou-ren), filho menor do Riddock, irmo pequeno do Larkin.
      Phelan (ASSOCIAO DE FUTEBOL-len), cunhado do Larkin.
      Poo do Bridget, cemitrio do condado do Clare, chamado assim pela Santa Bridget.
      prncipe Riddock, pai do Larkin, regente do Geall, tio materno da Moira.
      Regio do Chiarrai (kee-Ou-ree), o atual condado do Kerry, situado no extremo sudoccidental da Irlanda, chamado s vezes "o Reino".
      Penhascos do Mohr (tambm Moher), nome dado s runas dos fortes do sul da Irlanda; sobre um penhasco prximo ao Hag's Head "Moher Ou'Ruan".
      Samhain (SAM-em), final do vero (festival celta); a batalha tem lugar durante a festividade do Samhain, a celebrao do final do vero.
      Sejam (Shawn) Murphy, pai de Blair Murphy, um caador de vampiros.
      Shop Street, centro cultural do Galway.
      Sinann (shih-NAWN), irm do Larkin.
      slinte (slawn-che), trmino galico que significa "sade!".
      sln agat (shlahn ou-gut), trmino galico que significa "adeus" e que lhe diz  pessoa que fica.
      sln leat (shlahn ly-aht), trmino galico que significa "adeus" e que se diz  pessoa que se vai.
      Tuatha do Danaan (TOO-aha dai DOM-nan), deuses ganisse.
      Tynan (Ti-nin), guardio do castelo do Geall.
      Vlad, cavalo de Cian.
      
      
      
      
         
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
       D uma espiadinha em
      
      
      O VALE DO SILNCIO
          
      O terceiro livro da Trilogia do Crculo
             
      Prximo nesta coleo
      
      
      No dormiu. Como poderia dormir algum no que era, pensava Moira, a ltima noite de sua vida? Se  manh seguinte seu destino era que conseguisse liberar a 
espada de sua bainha de pedra, converteria-se na nova Rainha do Geall. E como Rainha governaria e reinaria, tarefas para as quais tinha sido preparada desde o nascimento. 
Mas como Rainha, nesse j quase iminente amanhecer e os que lhe seguissem, conduziria a seu povo  guerra. E se no era seu destino que extrara a espada, Moira 
seguiria a outro  batalha de boa vontade.
       Podiam acaso semanas de intenso treinamento preparar a algum para semelhante ao, para tamanha responsabilidade? Assim, essa noite era a ltima em que podia 
ser a mulher que ela tinha acreditado que seria, inclusive a rainha que tinha esperado chegar a ser algum dia.
       Fora o que fosse o que lhe trouxesse o amanhecer, Moira sabia que nada voltaria a ser igual.
       Antes da morte de sua me, ela acreditava que esse amanhecer que agora estava a ponto de despontar se encontrava a anos de distncia. Tinha suposto que desfrutaria 
durante muitos anos da companhia, o consolo e o conselho de sua me; anos de paz e estudo, de modo que, quando chegasse seu momento, no s estivesse preparada para 
levar a coroa mas tambm fosse digna dela.
       Uma parte da Moira tinha suposto que sua me reinaria ainda durante vrias dcadas, e que enquanto, ela se casaria. E no nebuloso e distante futuro, um de 
seus filhos levaria a coroa em seu lugar.
       Mas tudo isso tinha mudado a noite em que sua me morreu. No, Moira se corrigiu, tinha mudado antes, muitos anos antes, quando seu pai tinha sido assassinado.
       Possivelmente nada tinha mudado absolutamente, mas sim se tratava simplesmente de passar as pginas  medida que o livro do destino se escrevia.
       Agora s podia desejar ter a sabedoria de sua me e procurar em seu prprio interior o valor para ater-se tanto a coroa como a espada.
       Nesses momentos se encontrava nas almenas mais elevadas do castelo, a dbil luz do quarto crescente. Quando a lua voltasse a estar cheia, ela estaria longe 
dali, na fria terra de um campo de batalha.
       Moira tinha subido s almenas porque dali podia ver as tochas que ardiam no campo de jogos. Observar o treinamento noturno e ouvir os sons produzidos por 
este. Cian dedicava horas de sua noite a ensinar a homens e mulheres como lutar contra algo que era mais forte e rpido que eles. Ele os pressionaria, ela sabia, 
at que estivessem dispostos a matar. Como a tinha pressionado a ela, e a outros do crculo, noite aps noite, durante as semanas que tinham permanecido na Irlanda.
       No todos confiavam nele, isso Moira tambm sabia. Alguns o temiam abertamente, mas isso talvez fosse positivo. Ela entendia que Cian no estava ali para 
fazer amigos, a no ser guerreiros.
       Em realidade, ele tinha jogado um papel muito importante no processo de convert-la a em combatente.
       Acreditava entender por que Cian, um vampiro, lutava junto a eles. Ou, ao menos, tinha um vislumbre da razo pela que ele arriscava tanto pela humanidade. 
Nisso parte era por orgulho, do que ela sabia que tinha de sobra. Cian no se inclinaria ante Lilith. E em parte, admitisse-o ele ou no, era por lealdade para seu 
irmo. O resto, bom, o resto tinha que ver com a coragem e suas prprias emoes em conflito.
       Porque ela sabia que Cian tinha emoes. Era incapaz de imaginar como lutavam e se moviam em seu interior depois de mil anos de existncia. As dela estavam 
to confusas e alteradas depois de s dois meses de morte e sangue, que logo que era capaz de reconhecer-se.
       Como seria para ele, depois de tudo o que tinha visto e feito, de tudo o que tinha ganhado e perdido? Cian sabia do mundo muito mais que qualquer deles; de 
seus prazeres, suas dores e suas possibilidades. No, Moira era incapaz de imaginar o que seria saber tudo o que ele sabia e mesmo assim arriscar sua prpria sobrevivncia.
       Que estivesse fazendo-o, e nesses momentos estivesse, alm disso, dedicando seu tempo e sua habilidade a treinar s tropas, merecia todo seu respeito. Quo 
mesmo o mistrio que o rodeava, os como e os porqus dele continuavam fascinando-a.
       Moira no podia estar segura do que pensava Cian dela. Inclusive embora ele a tivesse beijado -aquele nico e ardente e desesperado momento -, ela no podia 
estar segura. E sempre lhe tinha resultado irresistvel meter-se na medula das coisas.
       Ouviu passos que se aproximavam e, ao voltar-se, viu que era Larkin.
       -Deveria estar na cama -disse ele.
       -Ali s estaria olhando o teto. A vista  melhor daqui. -Procurou sua mo, seu primo, seu amigo, e se sentiu imediatamente confortada. - E por que no est 
voc na tua?
       -Vi-te. Blair e eu fomos a lhe dar uma mo a Cian. -Igual a tinha feito ela, o olhar do Larkin se passeou pelo campo que se estendia debaixo. - E te vi aqui, 
sozinha.
       -Esta noite no sou uma boa companhia, nem sequer para mim mesma. S queria que isto j tivesse acabado, e viesse o seguinte. Assim, subi aqui para refletir 
sobre estas coisas. -Apoiou a cabea no ombro do Larkin. - Ajuda a passar o tempo.
       -Poderamos baixar ao comilo familiar. Deixarei-te ganhar no xadrez.
       -Me deixar? OH, ter que ver. -Moira lhe olhou. Os olhos do Larkin eram de um marrom ambarino, de pestanas largas, como as suas. O sorriso que danava neles 
no alcanava a mascarar sua preocupao. - E suponho que me deixaste ganhar as centenas de partidas que disputamos durante todos estes anos.
       -Pensei que era bom para a confiana em ti mesma.
       Ela se ps-se a rir ao tempo que lhe dava um pequeno empurro.
       -Estou segura de que posso ganhar no xadrez nove de cada dez vezes que joguemos.
       -Ento vamos comprovar o.
       -No, no o faremos. -Ela o beijou na bochecha e lhe separou da cara uma mecha de cabelo dourado. - Voc ir a sua cama, com sua dama, e no dedicar estas 
horas a me distrair de meu estado de nimo desanimado. Vamos, entremos. Depois de tudo, talvez a limitada vista do teto de minha habitao me aborrecer ao ponto 
de fazer que durma.
       -Se quiser companhia, s tem que chamar a minha porta.
       -Sei.
       Quo mesmo sabia que ela guardaria silncio at a primeira luz do dia.
       Mas Moira no dormiu.
       Como mandava a tradio, na ltima hora prvia ao amanhecer, comeou a ser vestida e atendida por suas damas. Apesar de que foi insistida a lev-lo, rechaou 
o vestido vermelho. Moira sabia muito bem que esse no era uma cor que a favorecesse, no importava quo rgio pudesse ser. Escolheu, em troca, as cores do bosque, 
um verde escuro sobre uma saia verde plida.
       Acessou a levar jias, depois de tudo tinham sido as jias de sua me. De modo que permitiu que as pesadas pedras de mbar fossem colocadas ao redor de seu 
pescoo. Mas sob nenhuma circunstncia se tiraria a cruz de prata.
       Levaria o cabelo solto e descoberto, e permaneceu sentada deixando que o bate-papo das mulheres gorjeasse a seu redor enquanto Dervil o escovava uma e outra 
vez.
       -No tm fome, alteza?
       Ceara, outra de suas damas, voltava-lhe a insistir para que comesse, lhe aproximando um prato de bolos de mel.
       -Depois -lhe disse Moira. - Depois me sentirei o estmago mais situado.
       Moira se levantou e sentiu um profundo alvio ao ver que Glenna entrava na habitao.
       -Que maravilhoso aspecto tem, Glenna!
       Moira estendeu ambas as mos. Ela tinha escolhido pessoalmente os trajes que levariam Blair e Glenna, e agora comprovava que sua escolha tinha sido acertada. 
Por outra parte, pensou, Glenna era uma mulher to impressionante que no havia nada que no a favorecesse.
       Mesmo assim, o veludo azul escuro contribua a realar sua pele cremosa e o fogo de seu cabelo.
       -Sinto-me como se fosse uma princesa -disse Glenna. - Muito obrigado. E voc, Moira, parece uma Rainha.
       -De verdade? -voltou-se para seu espelho, mas s viu a si mesma. Sorriu quando Blair entrou na habitao. Para ela tinha escolhido um vestido cor borgonha, 
com kirtle17 dourado plido. - Nunca te tinha visto com um vestido.
       -E que vestido! -Blair estudou a suas amigas e logo se olhou. - Parece-me que tudo isto  como um conto de fadas.
       Acomodou-se com os dedos o cabelo curto e escuro.
       -Ento, no te importa? A tradio exige o traje mais formal.
       -Eu gosto de ser uma garota. No me incomoda me vestir como uma, inclusive como uma que no pertence a meu tempo. -Blair descobriu os bolos de mel e agarrou 
um. - Nervosa?
       -Muito. Eu gostaria de estar a ss um momento com o Blair e Glenna -disse Moira a suas damas. Quando estas se partiram da habitao, Moira se deixou cair 
na poltrona que havia diante da lareira acesa. - Esto dando voltas a meu redor h uma hora.  cansativo.
       -Parece cansada. -Blair se sentou no brao da poltrona. - No dormiste nada.
       -Minha mente estava inquieta.
       -No bebeu a poo que te dei. -Glenna suspirou. - Tem que estar descansada para isto, Moira.
       -Precisava pensar. No  a maneira habitual de faz-lo, mas quero que vocs duas, junto com o Hoyt e Larkin, caminhem comigo at a pedra onde est a espada.
       -No era esse acaso o plano? -perguntou Blair com a boca cheia.
       -Que vocs formariam parte da procisso, sim. Mas segundo a forma tradicional, eu devo caminhar sozinha diante de todos. Sempre se tem feito assim. E detrs 
de mim, s devem estar os membros de minha famlia. Meu tio, minha tia, Larkin e meus outros primos. A seguir deles, segundo seu grau e posio, iro outros. Mas 
quero que vocs caminhem com minha famlia, porque so minha famlia. Fao isto por mim, mas tambm pelo povo do Geall, quero que eles vejam o que so. Cian no 
poder participar da cerimnia, como eu gostaria.
       -No pode fazer-se de noite, Moira. -Blair apoiou a mo sobre seu ombro. -  um risco muito grande.
       -Sei. Mas embora o crculo no se ache ao completo no lugar onde est a pedra, Cian estar em meus pensamentos. -Agora se levantou e foi at uma das janelas. 
- J est amanhecendo -murmurou. - E lhe seguir o dia. -voltou-se enquanto se apagavam as ltimas estrelas. - Estou preparada para o que venha.
      
       Sua famlia e suas damas j estavam reunidas abaixo. Moira aceitou a capa que lhe oferecia Dervil e ela mesma se ajustou o broche com forma de drago.
       Quando elevou a vista, viu Cian. Sups que devia haver-se detido um momento de caminho a sua habitao, at que comprovou que levava posta a capa que Glenna 
e Hoyt tinham encantado para proteger dos, para ele, mortais raios do sol.
       Moira se apartou do lado de seu tio Riddock e se aproximou de Cian.
       -Pensa assistir a isto? -perguntou ela.
       -Raramente tenho oportunidade de dar um passeio pelas manhs.
       Apesar do desenvolto de suas palavras, Moira pde compreender o que se escondia debaixo delas.
       -Agradeo-te que tenha eleito esta manh para dar seu passeio.
       -J amanheceu -lhe disse Riddock. - A gente espera.
       Ela se limitou a assentir brevemente, logo ps o capuz, como mandavam os cnones, antes de sair  brumosa luz do dia.
       O ar era frio e nebuloso e logo que corria uma brisa que agitava os farrapos de bruma. Atravs dessa cortina, Moira cruzou sozinha o ptio at chegar s portas 
do castelo, enquanto seu squito caminhava atrs dela. No amortecido silncio, ouviu o canto dos pssaros e o leve sussurro do vento mido.
       Pensou em sua me, que uma vez tinha percorrido esse mesmo caminho em uma manh fria e brumosa. E em todos aqueles que o tinham feito antes que ela. Atravessou 
as portas do castelo e caminhou sobre a terra marrom e a erva verde, to carregada esta de rocio que era como estar vadeando um rio. Sabia que havia muitos detrs 
dela, comerciantes e artesos, harpistas e bardos. Mes e filhas, soldados e filhos.
       O cu se tingia de rosa no leste e a nvoa que cobria a terra lanava brilhos chapeados.
       Moira podia cheirar o rio e a terra enquanto subia a suave colina, com o rocio umedecendo o bordo de seu vestido.
       O lugar da pedra se encontrava em uma colina, a resguardo de um pequeno bosquezinho. O musgo e o lquen cresciam, amarelo plido e verde, sobre as rochas 
que havia perto do poo sagrado.
       Quando chegasse a primavera, apareceria o vivaz laranja dos lrios, as cabeas danantes das columbinas e, mais tarde, as formosas taas das dedaleras, todas 
elas crescendo onde lhes correspondia.
       Mas agora as flores estavam dormidas e as folhas das rvores tinham adquirido essa primeira pincelada de cor que pressagiava sua morte.
       A rocha onde estava colocada a espada era grande e branca, como se fosse um altar sobre um antigo dlmen de pedra plaina e cinza.
       Os raios do sol atravessavam as folhas e a nvoa, iluminando essa pedra branca e arrancando brilhos de prata do punho da espada enterrada nela.
       As mos da Moira estavam frias, muito frias.
       Ela conhecia a histria desde que era pequena. Como os deuses tinham forjado a espada com um raio, com o mar, a terra e o vento. Como Morrigan tinha levado 
a espada e o altar de pedra at aquele lugar, e ali tinha enterrado a arma at o punho e gravado as palavras na pedra com seu dedo ardente.
      
      Fincada por mo dos deuses
      Liberada pela mo de um mortal
      Com esta espada
      Essa mo governar Geall.
      
       Moira se deteve na base da pedra para ler novamente as palavras. Se os deuses assim o dispunham, essa mo seria a sua.
       Com a capa ondeando sobre a erva coberta de rocio, caminhou atravs do sol e a nvoa, at o topo da pedra mgica. E ocupou seu lugar detrs da espada.
       Pela primeira vez olhou e viu. Centenas de pessoas, seu povo. Percorreu com a vista os campos e contemplou a cinta marrom do caminho. Se a espada ficava em 
suas mos, cada uma daquelas pessoas seria responsabilidade dela. Estava a ponto de tornar-se a tremer.
       Conseguiu tranqilizar-se enquanto examinava os rostos e esperava a que os trs homens Santos ocupassem seu lugar detrs dela.
       Alguns dos habitantes ainda continuavam subindo a costa da colina, se apressando para no perder o momento. Moira queria soar relaxada quando falasse, de 
modo que esperou um pouco mais e deixou que seu olhar se posasse nos olhos daqueles a quem mais amava.
       -Minha senhora -disse um dos homens Santos.
       -Sim. Um momento.
       Moira abriu lentamente o broche do drago e passou a capa detrs dela. O amplo vo das mangas de seu vestido ondeou para trs quando levantou os braos, mas 
no sentiu o ar frio na pele. Sentia calor.
       -Sou uma serva do Geall -recitou. - Sou uma criatura dos deuses. Vim aqui para me submeter a sua vontade. Por meu sangue, por meu corao, por meu esprito.
       Deu o ltimo passo que a separava da espada.
       O silncio era total. Era como se o prprio ar estivesse contendo o flego. Moira estendeu a mo e curvou os dedos ao redor do punho de prata.
       "OH -pensou enquanto sentia seu calor e escutava em algum lugar de sua mente o suave murmrio de sua msica. -  obvio, sim,  obvio.  minha e sempre o foi."
       E com um sussurro de ao contra pedra, liberou a espada e a elevou apontando para o cu.
       Moira sabia que seu povo a aclamava e que alguns choravam. Sabia que, como um s homem, todos tinham fincado o joelho em terra. Mas os olhos dela estavam 
fixos na ponta da espada e no raio de luz que chegava do cu para incidir nela.
       Moira sentiu essa luz em seu interior, uma quebra de onda de calor, cor e fora. Sentiu uma sbita queimadura no brao e, como se os prprios deuses o tivessem 
gravado, o smbolo do claddaugh apareceu nele para marc-la como rainha do Geall. Comovida por isso, emocionada e humilde, olhou a seu povo. E seus olhos encontraram 
os de Cian.
       Nesse momento, todo o resto pareceu desaparecer, por um instante. Era como se s estivesse ele, o rosto escurecido pelo capuz, e seus olhos brilhantes e azuis.
       Como podia ser, perguntou-se, que ela estivesse sustentando o futuro de todos na mo e s o visse ele? Como era possvel que, ao olhar seus olhos, fosse como 
estar olhando cada vez mais profundamente em seu prprio destino?
       -Sou uma serva do Geall -repetiu, incapaz de apartar os olhos de Cian. - Sou uma criatura dos deuses. Esta espada e tudo o que protege me pertencem. Sou Moira, 
Rainha caadora do Geall. Levante-lhes e saibam que vos amo.
       Permaneceu quieta no alto da colina, a espada ainda apontada para o cu enquanto as mos de um dos homens Santos colocavam a coroa em sua cabea.
       A magia no era algo que lhe resultasse estranho, j fosse branca ou negra, mas Cian pensou que jamais em sua vida tinha visto nada mais poderoso. O rosto 
da Moira, que se via to plido quando se tirou a capa, tinha florescido quando sua mo arrancou a espada da pedra. Seus olhos, to opacos, to sombrios, estavam 
agora to brilhantes como a lmina da espada.
       E o tinham atravessado de lado a lado, afiados como uma adaga, quando se tinham encontrado com os seus.
       Ali estava, pensou ele, pequena e esbelta, mas to magnfica como uma amazona. Subitamente rgia, subitamente ardente, subitamente formosa.
       O que sentia em seu interior no tinha capacidade ali.
       Retrocedeu uns passos e se deu a volta para partir, mas Hoyt o agarrou de um brao.
       -Deve esperar por ela, pela Rainha.
       Cian arqueou uma sobrancelha.
       -Esquece que eu no tenho nenhuma Rainha. E j estive suficiente tempo debaixo desta ferrada capa.
       Moveu-se depressa. Queria afastar-se da luz, do aroma de humanidade. Fora do alcance daqueles olhos cinzas. Necessitava o frio e a escurido, e o silncio.
       Estava apenas a uma lgua de distncia, quando Larkin se aproximou para ele sobre um cavalo.
       -Moira me h dito que te perguntasse se quiser que te acompanhe at o castelo a cavalo.
       -Estou bem, mas obrigado de todos os modos.
       -Foi algo assombroso, no cr? E Moira... bom, brilhava como o sol. Sempre soube que ela seria a escolhida, mas v-lo quando acontece  algo completamente 
diferente. Moira se converteu em rainha no momento de tocar a espada. Voc tambm pudeste v-lo.
       -Se Moira quer seguir sendo Rainha, ser melhor que use essa espada.
       -E o far. Vamos, Cian, este no  um dia para a tristeza e a fatalidade. Ganhamo-nos umas quantas horas de alegria e celebrao. E comida. -Com outro sorriso, 
Larkin lhe deu a Cian uma leve cotovelada no flanco. - Ela poder ser Rainha, mas posso te assegurar que o resto de ns hoje comeremos como reis.
       -Bom, os exrcitos se sustentam sobre o estmago.
       -Sim?
       -Ao menos isso disse... algum. Podem desfrutar de sua celebrao e seu banquete. Ser melhor que amanh rainha, reis e camponeses se preparem por igual para 
a guerra.
       - como se no tivssemos estado fazendo outra coisa. No me queixo -continuou dizendo Larkin antes de que Cian o interrompesse. - Suponho que a questo  
que j estou cansado de me preparar para a guerra, e quero que esta chegue quanto antes.
       - que no tiveste suficiente atividade ultimamente?
       -Tenho que lhes fazer pagar pelo que fizeram ao Blair. Ainda tem as costelas doloridas e se cansa mais do que est disposta a admitir. -Sua expresso era 
dura e sombria enquanto recordava. - Suas feridas curam rapidamente, mas no esquecerei o dano que lhe fizeram.
       - muito perigoso entrar em batalha com uma lista de ofensas pessoais.
       -Ah, tolices. Todos ns temos alguma conta que ajustar, ou que sentido tem se no? E no me dir que uma parte de ti no ir combater levando na mente e no 
corao o que essa cadela fez ao King.
       Cian no podia neg-lo, de modo que trocou de tema.
       -Est... Escoltando-me de retorno ao castelo, Larkin?
       -De fato, algum mencionou que devia me lanar sobre ti para te proteger da luz do sol em caso de que a magia de sua capa se esgotasse.
       -Isso estaria bem. Ento ambos arderamos como tochas.
       Cian falou quase com indiferena, mas teve que reconhecer que se sentiu aliviado quando chegou  sombra projetada pelo castelo do Geall.
       -Tambm me pediram que, se no te encontrar muito cansado, v ao salo familiar. Teremos ali um caf da manh privado. Moira se sentiria agradecida se pudesse 
lhe dedicar uns minutos ao menos.
       A Moira tivesse gostado de desfrutar de uns minutos para ela, a ss. Mas estava rodeada. O caminho de volta ao castelo era uma mancha de movimento e vozes 
envoltas na nvoa. Sentia o peso da espada na mo e da coroa na cabea apesar de que era levada quase em ondas por sua famlia e seus amigos.
      Os gritos de alegria ressonavam sobre as colinas e os campos, festejando  nova Rainha do Geall.
       -Ter que se exibir -lhe disse Riddock. - Do balco real.  o que se espera que faa.
       -Sim. Mas no sairei sozinha. Sei que  a forma em que sempre se fez -continuou dizendo antes de que seu tio pudesse protestar -, mas estes so tempos diferentes. 
Meu crculo estar comigo. -Agora olhou a Glenna, logo ao Hoyt e Blair. - A gente no s ver sua Rainha, mas tambm a aqueles que foram escolhidos para dirigir 
esta guerra.
       - voc quem deve decidi-lo e faz-lo -disse Riddock com uma ligeira reverncia. - Mas em um dia assim, Geall deveria estar livre da sombra da guerra.
       -At que Samhain tenha passado, Geall estar a cada momento sob a sombra da guerra. Cada gealliano deve saber que, at esse dia, eu governarei com a espada. 
E que formo parte de um crculo de seis escolhidos pelos deuses.
       Quando atravessaram as portas, apoiou uma mo sobre a de seu tio.
       -Agora o celebraremos, e comeremos e beberemos. Valoro seu conselho, como sempre tenho feito, e me mostrarei ante meu povo e falarei para todos eles. Mas 
neste dia, os deuses escolheram em mim  Rainha e  guerreira. E isso  o que serei. Isso  o que entregarei ao Geall, at meu ltimo flego. No te envergonharei.
       Riddock agarrou a mo que ela tinha apoiado em seu brao e a levou aos lbios.
       -Minha doce menina. Voc s me trouxeste orgulho e  o que sempre far. E, desde este dia e at meu ltimo flego, sou um homem da Rainha.
       Os criados estavam todos reunidos e se ajoelharam quando o cortejo real entrou no castelo. Moira conhecia seus rostos, seus nomes. Muitos deles tinham servido 
a sua me antes que ela nascesse.
       Mas j nada era igual. Agora ela no era a filha da casa, a no ser sua proprietria. E a senhora de todos eles.
       -Levantem -disse Moira - e saibam que me sinto profundamente agradecida por sua lealdade e seus servios. E quero que saibam tambm, que vocs e todo Geall 
contam com minha lealdade e entrega enquanto seja sua Rainha.
       Mais tarde, disse-se a si mesmo enquanto subia a escada, falaria com cada um deles individualmente. Era importante que o fizesse. Mas agora tinha outras obrigaes 
que cumprir.
       No salo familiar o fogo esquentava na lareira. Dos floreiros e terrinas se derramavam as flores frescas cortadas nos jardins e no estufa. A mesa estava posta 
com a melhor prataria e cristaleria, e o vinho esperava a que o crculo ntimo de Moira brindasse pela nova Rainha.
       Inspirou uma vez, profundamente, logo uma segunda, tratando de encontrar as palavras que diria, suas primeiras palavras como rainha, a aqueles a quem mais 
amava.
       Ento Glenna simplesmente a rodeou com os braos.
       -Estiveste magnfica. -E beijou a Moira em ambas as bochechas. - Luminosa.
       A tenso que lhe tinha atendido os ombros se afrouxou.
       -Eu me sinto igual, mas distinta, sabe?
       -S posso imagin-lo.
       -Bom trabalho. -Blair se aproximou da Moira e a abraou brevemente. - Posso v-la?
       De caadora a caadora, pensou Moira, e emprestou a espada ao Blair.
       -Excelente -disse Blair admirativa. - Bom peso para ti. Esperava que estivesse engastada em jias ou o que fosse.  bom que no seja assim.  bom e adequado 
que seja uma espada de guerra, no somente um smbolo.
       -Sinto como se o punho tivesse sido desenhado para minha mo. Logo que a toquei, senti que era... Minha.
       --o. -Blair a devolveu. -  tua.
       Moira deixou a espada sobre a mesa durante um momento para receber o abrao do Hoyt.
       -O poder que tem  quente e estvel -lhe sussurrou ao ouvido. - Geall  afortunada ao te ter como sua Rainha.
       -Obrigado.
       Logo se ps-se a rir quando Larkin a levantou do cho e a fez girar trs vezes no ar.
       -Te olhe, majestade.
       -Ests zombando de minha dignidade.
       -Sempre. Mas nunca de ti, a str.
       Quando Larkin voltou a deposit-la no cho, Moira se voltou para Cian.
       -Obrigado por ter vindo. Significa muito para mim.
       Cian no a abraou e tampouco a tocou, mas sim se limitou a inclinar a cabea.
       - um momento que no me tivesse perdido por nada do mundo.
       -Um momento mais importante para mim porque voc estive presente. Porque todos estiveram -continuou dizendo, e se deu a volta quando sua pequena prima lhe 
estirou da saia. - Aideen. -Elevou  pequena e aceitou seu beijo mido. - Est muito bonita hoje.
       -Bonita -repetiu Aideen, elevando a mo para tocar a cravejada coroa da Moira. Logo voltou a cabea para Cian com um sorriso tmido. - Bonito -disse outra 
vez.
       -Uma mulher ardilosa -observou Cian, e viu que a pequena fixava a vista no pendente que levava a pescoo e, com um gesto, elevou-o para que ela pudesse toc-lo.
       Quando Aideen estirou a mo para ele, sua me virtualmente voou atravs do salo lhe ordenando:
       -Aideen, no o faa!
       Sinann apartou  menina da Moira e a apertou com fora contra seu ventre, volumoso pelo terceiro filho que estava esperando.
       No incmodo silncio que seguiu  cena, Moira no pde mais que sussurrar o nome de sua prima.
       -Nunca eu gostei dos meninos -disse Cian com voz geada. - Se me desculparem.
       -Cian. -depois de lanar um olhar recriminatrio para a Sinann, Moira correu detrs Cian. - Por favor, aguarda um momento.
       -J tive suficientes momentos por esta manh. Quero ir  cama.
       -Queria me desculpar. -Agarrou-lhe o brao e o sujeitou com fora at que Cian se deteve e se voltou para ela. Seus olhos eram duas pedras azuis. - Minha 
prima Sinann  uma mulher simples. Falarei com ela.
       -No te incomode por mim.
       -Senhor. -Com o rosto plido como a cera, Sinann se aproximou deles. - Vos rogo que me perdoem, sinceramente. Insultei-lhes, e a minha Rainha, e a seus nobres 
convidados. Peo-lhes que desculpem a estupidez de uma me.
       Ela lamentava o insulto, pensou Cian, mas no o ato. A menina se encontrava agora no extremo mais afastado do salo, em braos de seu pai.
       -Aceito suas desculpas. -despediu-se dela com apenas um olhar. - Agora, se tiverem a bem me soltar o brao, majestade.
       -Um favor -comeou a dizer Moira.
       -Est-os acumulando -disse ele.
       -Sei que estou em dvida contigo -disse ela brandamente. - Tenho que sair fora, ao balco. A gente precisa ver sua Rainha, e acredito que tambm a todos aqueles 
que formam seu crculo. Agradeceria-te que me concedesse uns minutos mais de seu tempo.
       -Sob o implacvel sol.
       Ela conseguiu esboar um sorriso e se relaxou ao dar-se conta de que a frustrao de sua voz significava que faria o que lhe tinha pedido.
       -To somente um momento. Logo pode ir procurar um pouco de solido com a satisfao de saber que te estarei invejando por isso.
       -Ento faz-o rpido. Eu gostaria de desfrutar de um pouco dessa solido e dessa satisfao.
      
       Moira disps de maneira deliberada que Larkin -uma figura respeitada e amada em todo Geall - estivesse a um lado dela e Cian ao outro. O estrangeiro ao que 
muitos deles temiam. Esperava que o fato de que ambos a flanqueassem servisse para lhe mostrar a seu povo que ela os considerava iguais, e que ambos contavam com 
sua confiana.
       A multido comeou a lanar vivas e a fazer coro seu nome; com os gritos de jbilo convertidos em um rugido ensurdecedor quando Moira elevou a espada. Tambm 
foi um gesto deliberado de sua parte passar a espada ao Blair para que a sustentasse enquanto ela pronunciava seu discurso. A gente tinha que ver que a mulher com 
a que Larkin se comprometeu para casar-se, merecia sustentar a espada.
       -Povo do Geall!
       Moira gritou com toda suas foras, mas os gritos de jbilo no se apagaram. Chegavam em sucessivas quebras de onda, que no diminuram at que ela no se 
aproximou da balaustrada de pedra e levantou as mos.
       -Povo do Geall, apresento-me ante vocs como Rainha, como cidad, como protetora. Como antes o fez minha me, como o fez seu progenitor, e como o fizeram 
todos meus antepassados at os primeiros dias. E me apresento ante vocs formando parte de um crculo que foi eleito pelos deuses. No s um crculo de governantes 
do Geall, mas tambm um crculo de guerreiros.
       Agora abriu os braos para abranger aos cinco que a acompanhavam.
       -O crculo est formado por estas pessoas que se encontram a meu lado. So as pessoas mais queridas por mim, e em quem mais confio. Como cidad lhes peo 
para eles sua lealdade, sua confiana e seu respeito, igual aos tm para mim. Como sua Rainha, ordeno-lhes isso.
       Moira teve que interromper-se vrias vezes, at que os gritos e as expresses de jbilo cessavam.
       -Hoje o sol brilha sobre o Geall. Mas no sempre ser assim. O que se aproxima de ns procura a escurido, e enfrentaremos a isso. E o derrotaremos. Hoje 
festejaremos, comeremos e daremos graas. Amanh continuaremos com nossos preparativos para a guerra. Todo aquele gealliano capaz de dirigir uma arma, far-o. E 
partiremos todos ao Ciunas. Partiremos todos para o Vale do Silncio. Alagaremos esse lugar com nossa fora e nossa vontade, e acabaremos com aqueles que querem 
nos destruir.
       Estendeu a mo em busca da espada e voltou a elev-la no ar.
       -Esta espada, no permanecer fria e imvel durante meu reinado, como sim o esteve desde os primeiros tempos. Esta espada arder e cantar em minhas mos 
enquanto luto por vocs, pelo Geall e por toda a humanidade.
       Os rugidos de aprovao ascenderam como uma corrente.
       Ento se ouviram gritos quando uma flecha atravessou o ar.
       Antes de que Moira pudesse reagir, Cian a lanou ao cho. Entre a gritaria e o caos, Moira pde ouvir suas maldies em voz baixa. E sentiu seu sangue clido 
na mo.
       -OH, Deus, OH Deus, est ferido.
       -No me alcanaram no corao.
       Cian falou com os dentes apertados. Ela podia ver a dor refletida em seu rosto enquanto se apartava para sentar-se.
       Quando agarrou a flecha com inteno de arrancar a de seu flanco, Glenna se agachou a seu lado e lhe apartou a mo.
       -Deixa que lhe jogue uma olhada.
       -No me alcanaram no corao -repetiu Cian, e voltou a agarrar a flecha entre os dedos. Atirou dela at extrair a de sua carne. - Malditos filhos de puta!
       -Dentro. -Glenna se moveu depressa. - Vamos, lhe levem dentro.
       -Esperem. -Embora sua mo tremia ligeiramente, Moira agarrou a Cian de um ombro. - Pode te levantar?
       - obvio que posso me levantar. Por quem me toma?
       -Por favor, deixa que eles lhe vejam. -Sua outra mo roou sua bochecha apenas durante um instante, como o roce de umas asas. - Deixa que nos vejam, por favor.
       Quando entrelaou seus dedos com os dele, Moira acreditou ver que algo se agitava nos olhos de Cian e sentiu que algo se agitava em seu prprio corao.
       Logo, a sensao desapareceu, e a voz de Cian irrompeu brusca pela impacincia.
       -Ento me deixe um pouco de espao.
       Moira voltou a ficar de p. Abaixo reinava o caos. O homem que sups que era o frustrado assassino era golpeado e chutado por cada mo e p que podia chegar 
at ele.
       -Parem! -gritou com todas suas foras. - Ordeno-lhes isso! Detenha-lhes! Guardas, levem a esse homem ao grande salo. Povo do Geall!, viram que inclusive 
em um dia como hoje, inclusive quando o sol brilha no cu, a escurido trata de nos destruir. E fracassa. -Agarrou a mo de Cian e a levantou junto com a sua. - 
Fracassa porque neste mundo h paladines que arriscariam suas vidas por outros.
       Apoiou a mo no flanco ferido de Cian e sentiu que este se encolhia de dor. Logo elevou a mo coberta de sangue.
       -Ele sangra por ns. E por este sangue que est derramando por mim, por todos vocs, eu o nomeio Sir Cian, Lorde do Oiche.
       -OH, pelo amor de Deus -murmurou Cian.
       -Silncio -disse Moira brandamente, com firmeza, e com o olhar posto na multido.
      
      
      
      
      
1 Expresso usada para indicar uma pessoa capaz de mudar de forma, assumindo a forma de um ou mais animais.
2 Smbolo celta tradicional que pode ser dado em sinal de amizade ou como um anel de casamento.  (N.RF)
3  um bordo da srie americana Lost in Space. O rob a dizia sempre que o jovem Will Robinson estava muito prximo de cometer um erro.
4 Expresso em Galico Irlands que significa sim.
5 Os dlmens so monumentos megalticos tumulares colectivos (datados desde o fim do V milnio a.C. at ao fim do III milnio a.C., na Europa, e at ao I milnio, 
no Extremo Oriente). O nome deriva do Breto dol = mesa e men = pedra. Tambm so conhecidos por antas, orcas, arcas, e, menos vulgarmente, por palas. Popularmente, 
so tambm por vezes designados por casas de mouros, fornos de mouros ou pias.
6 Expresso em Galico Irlands que significa "meu corao".
7 A besta ou balestra  uma arma com a aparncia de uma espingarda, com um arco de flechas, acoplado na ponta de sua coronha, acionada por gatilho, que projeta setas, 
dardos similares a flechas. Ela foi bastante usada no sculo XVI e chegou a coexistir com e depois foi substituda pelos mosquetes, primeiras armas de fogo. Hoje, 
continua a ser fabricada, pois  usada, em algumas partes do mundo, por caadores. A palavra besta teria sido sincopada do italiano balestra, que por sua vez deriva 
do latim tardio ballistra.
8 Expresso em Galico Irlands que significa minha querida.
9 Stonehenge (do ingls arcaico "stan" = pedra, e "hencg" = eixo)  um monumento megaltico da Idade do Bronze, localiza-se na plancie de Salisbury, prximo a Amesbury, 
no condado de Wiltshire, no Sul da Inglaterra. Constitu-se no mais visitado e bem conhecido dos crculo de pedras britnicos, e acredita-se que foi projectado para 
permitir a observao de fenmenos astronmicos, nomeadamente os solstcios do Vero e do Inverno, eclipses, e outros.
         10 To Bang, entre outras acepes, tambm  "follar", e deste modo significa "chocar, golpear". (N. do T)
11 Munchkin  um jogo de rol muito popular desenhado pelo Steve Jackson ilustrado pelo John Kovalic. Seu lema, "Mata aos monstros. Rouba o tesouro. apunhala a seus 
amigos",  sem dvida a frase que melhor reflete o objetivo do jogo.
12 Palavra galico-irlandesa que significa pai.
13 Apoiada livremente nos contos do Canterbury, do Chaucer, o filme conta a histria de um humilde pajem que participa de uma justa medieval e chega a converter-se 
no cavalheiro mais famoso de sua poca. (N. delt.)
14 Expresso em Galico Irlands que significa A Bruxa Ruiva.
15 Expresso em Galico Irlands que significa A Guerreira Escura.
16 Expresso em Galico Irlands que significa meu corao.
17 Kirtle  uma tnica usada por homens e mulheres na idade mdia. Era tipicamente vestido sobre uma camisa ou avental.
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